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1. Opções Metodológicas

1.4. Paradigmas de investigação: abordagem quantitativa vs qualitativa

1.4.3. Metodologia mista: quantitativa vs qualitativa

Atualmente, em algumas investigações, coloca-se a questão sobre alguns fenómenos humanos e a utilização da associação do método quantitativo e qualitativo no mesmo estudo. Neste momento, não há um único critério para demarcar a investigação de metodologia mista, mas existem vários critérios puros e amplos que justificam a sua utilização (Coutinho, 2014; Johnson, Onwuegbuzie, & Turner, 2007). Segundo Guba e Lincoln (1989), as metodologias quantitativa e qualitativa podem ser utilizadas em simultâneo e podem coexistir em qualquer paradigma de investigação, pois, para estes autores são as crenças e as bases de cada investigador que dirigem o estudo. No

perspetiva se baseia a crença de que os investigadores utilizam por vezes o raciocínio indutivo e outras vezes o método dedutivo, podendo saltar de uma abordagem para a outra, elaborando hipóteses e estabelecendo comparações.

A mistura das metodologias quantitativa e quantitativa e o seu uso nas ciências sociais e comportamentais têm sido largamente debatidas, uns defendendo a sua correta adequação, outros alertando que estas metodologias não podem ser misturadas devido à incompatibilidade de paradigmas. Esta incompatibilidade foi chamada de “guerra de paradigmas” (Gage, 1988 citado por Alise & Teddlie, 2010). Nestas últimas duas décadas, o uso de diferentes paradigmas têm sido propostos como uma base filosófica para a utilização de métodos mistos na investigação. Tanto o pragmatismo, como a tese de compatibilidade de métodos, ajudaram a criar um novo e separado domínio das metodologias sociais: os métodos mistos, sendo sugerido que este método de investigação transcendesse às guerras iniciais (Feilzer, 2010; Teddlie & Tashakkori, 2009 citado por Harrits, 2011).

Ao recorrer-se a uma metodologia mista é possível, de acordo com (Coutinho, 2014; Tashakkori & Teddlie, 1998, 2010), aplicar inicialmente metodologias quantitativas de forma a selecionar indivíduos que posteriormente participam na investigação qualitativa. Estes autores referem que as entrevistas adicionam informação a processos identificados pela metodologia quantitativa, ao mesmo tempo que asseguram que a abordagem qualitativa pode gerar hipóteses para estudos quantitativos e que ambas as metodologias podem recolher informação de forma simultânea. Segundo Johnson, Onwuegbuzie e Turner (2007), ao longo do tempo foram vários os investigadores que tentaram definir “metodologia mista” (Quadro 29) e o seu uso.

Quadro 29 - Algumas definições de metodologia mista

Autor Definição Proposta

Pat Bazeley

A metodologia mista utiliza diferentes abordagens ou métodos que são utilizados em paralelo ou sequencialmente, mas são não integrados até as inferências estarem avaliadas. Envolve o uso de mais do que uma abordagem ou método de projeto, colheita de dados ou análise de dados dentro de um único programa de estudo, com a integração das diferentes abordagens ou métodos que ocorrem durante o programa de estudos e não apenas no seu ponto final.

John Creswell

É um projeto de investigação (ou metodologia) na qual o investigador reúne, analisa e mistura (integra ou conecta) dados quantitativos e qualitativos num único estudo ou um programa multifásico de inquérito.

Al Hunter

Métodos mistos é um termo geralmente usado para designar a combinação de pesquisas qualitativas e quantitativas num mesmo projeto de investigação. Este investigador prefere a utilização do termo multimétodo para indicar diferentes estilos de investigação que podem ser combinados no mesmo projeto. Estes não precisam ser restritos aos quantitativos e qualitativos, mas podem incluir, por exemplo, a observação participante qualitativa com entrevistas em profundidade. Alternativamente podem incluir investigação de levantamento quantitativo com pesquisa quantitativa experimental.

Michael Q. Patton

Considera que os métodos mistos permitem investigar a partir de uma pergunta utilizando diferentes fontes de dados e elementos de design com o objetivo de obter diferentes perspetivas e apoiar na triangulação.

A natureza das especificidades dos métodos mistos de investigação (Quadro 30) não é consensual, mesmo assim é possível efetuar uma breve descrição das suas características (Tashakkori & Teddlie, 2010).

Quadro 30 – Características da metodologia mista

Características da metodologia mista

“Ecletismo metodológico”, refere-se a uma primeira seleção e posterior escolha das técnicas mais

adequadas a partir de ajuste entre as abordagens quantitativas, qualitativas e métodos mistos, selecionando as melhores técnicas disponíveis para responder às questões de investigação.

“Paradigma pluralism”, isto é, a crença que uma variedade de paradigmas pode servir como filosofia

subjacente ao uso de métodos mistos.

Ênfase na diversidade a todos os níveis da investigação para além do ecletismo metodológico e do “paradigma pluralism”, na medida em que pode simultaneamente abordar uma gama diversificada de confirmações e perguntas exploratórias, oferece a oportunidade de recolher uma variedade de conclusões

e inferências divergentes devido à complexidade das fontes de dados, analisando os envolvidos na pesquisa.

Ênfase à continuação, em vez de um conjunto de dicotomias por exemplo, é aplicado a uma variedade de questões de investigação, incluindo a declaração de perguntas de pesquisa, projetos, análise de dados e

qualidade da validade ou inferência.

Reflete a possibilidade de utilização de uma abordagem interativa, de uma pesquisa cíclica, que inclui tanto o estudo dedutivo como a lógica indutiva no mesmo estudo.

Foco da pergunta ou problema da investigação e na determinação dos métodos a utilizar em qualquer estudo.

Baseia-se na utilização de um conjunto de “assinaturas” de bases de projetos de investigação e processos analíticos que são comumente acordados embora com nomes e esquemas de ilustrações diferentes. Os fios quantitativos e qualitativos são planeados e implementados a fim de responder a

aspetos relacionados com as mesmas perguntas

Implícita a tendência para o equilíbrio e o compromisso tácito no third methodological community. Efetivamente, há um equilíbrio entre os excessos exibidos pelos investigadores em cada extremidade do

espectro metodológico, devendo ocorrer diálogo e uma tentativa de consenso entre os diferentes paradigmas.

Refere-se à dependência das representações visuais, como as figuras, diagramas, entre outras, e numa notação de sistemas em comum. A sua utilização em métodos mistos de investigação pode simplificar as

complexas inter-relações entre os elementos inerentes a esse projeto.

Em termos históricos, importa referir que as primeiras utilizações dos métodos mistos foram nas ciências sociais/comportamentais, tais como: a educação e a enfermagem (Teddlie & Johnson, 2009 citado por Alise & Teddlie, 2010). A investigação em enfermagem é complexa, sendo que nenhum método ou a combinação destes dois, consegue capturar a real complexidade do problema. A combinação entre diferentes

métodos pode proporcionar um conhecimento geral mais vasto e aprofundado na investigação de macro e micro níveis nas áreas de intervenção do indivíduo com a sociedade e também na busca de significados e intenções dos indivíduos (Foss & Ellefsen, 2002).

Tendo em atenção o referencial teórico, os objetivos propostos, as questões de investigação que emergiram e o contexto da implementação do estudo, optou-se neste estudo pela implementação de uma metodologia mista, ou seja, intercalam-se momentos de investigação quantitativa e qualitativa. O estudo procura compreender a complexidade das práticas dos cuidadores informais na assistência aos idosos, analisando o conteúdo das intervenções. Estas intervenções são sobretudo uma atividade de mediação no trabalho que o profissional de saúde realiza com pessoas em transição (Abreu, 2008), as modalidades de ação, a adaptação à situação de ajuda, a forma como se articulam com o sistema formal e geram as suas próprias respostas humanas, por exemplo, como lidam com as suas emoções. Os enfermeiros assumem neste contexto um papel de supervisores, pois são profissionais de saúde com ação de dupla intervenção: junto dos utentes dependentes e das pessoas que se responsabilizam pelo seu acompanhamento. Em relação a estes últimos, é ainda necessário desenvolver práticas de supervisão das interações com os utentes e acompanhamento da sua própria integridade física e psicológica (Abreu, 2003).

O ato de cuidar de idosos dependentes pode provocar debilidades emocionais no prestador de cuidados e nos familiares. A emoção pode também ser concebida como uma motivação para a cognição e para o comportamento (Izard, 1977, 1991; Izard & Malatesta, 1987). Estes autores consideram que a emoção é o principal sistema motivacional do ser humano, assim sendo, facilmente se percebe que o desempenho do papel de prestador de CI possa interferir com a alteração da gestão das emoções, a qual poderá ser responsável pelo seu desempenho nas tarefas de cuidador. À luz dessas considerações, o presente estudo pretende avaliar de que forma a prestação de cuidados interfere na gestão de emoções do CI. Perante este foco de atenção, este estudo desenvolveu-se tendo em conta um cariz interpretativo a partir de uma perspetiva exploratória dos acontecimentos decorrentes da prestação dos cuidados.