2. Cuidar de Idosos Dependentes
2.1. O cuidar e o cuidador
Em todas as sociedades coloca-se o problema do aumento do número de idosos e do consequente agravamento da procura de cuidados de saúde, e da assistência que é prestada a este grupo de indivíduos. Neste contexto, verificam-se que os sistemas de assistência existentes não são em quantidade os mais adequados. Entende-se por sistemas de assistência “um conjunto de organizações e práticas sociais, com base em crenças, símbolos ou filosofias culturalmente validadas” (Abreu, 2003, p. 77). Segundo Kleinman (2003, citado por Abreu, 2003) permanecem três sistemas básicos de assistência à saúde (Quadro 13), de forma demarcada, mas relacionáveis entre eles, que são nomeadamente: o oficial, o popular e o informal.
Quadro 13 - Sistemas básicos de assistência em saúde
Sistemas Constituição
Oficial
Constituído pelo Sistema Nacional de Saúde e as instituições de rede. É um sistema validado pelos mecanismos sociais nomeadamente pela referência cultural.
Popular
Afirma-se pela existência de indivíduos que são reconhecidos pelo poder da cura.
Informal
Manifesta-se por um conjunto de práticas culturais, recorrendo ao auxílio de leigos em caso de doença, que podem ser amigos, familiares, vizinhos que prestam cuidados a pessoas com um grau de autonomia reduzido.
A palavra “cuidados” possui vários significados. Etimologicamente “cuidado” difere consoante a língua dos vários países. Em Portugal, a palavra está relacionada ao verbo “cuidar”, deriva do latim cura que tem uma interpretação peculiar para a língua
concretização de um processo no qual está incluída a atenção, a preocupação e o zelo, em todas as ações do cuidado por uma pessoa querida ou algum objeto de estimação. Efetivamente, não se resume a um ato isolado, e sim a uma atitude de ocupação, preocupação e responsabilidade, tendo em conta as individualidades de cada ser humano (Zoboli, 2007).
A palavra “cuidar” foi valorizada numa primeira abordagem como um tema fulcral da disciplina de enfermagem por Madeleine Leininger (1981, 1995). A sua natureza transcultural, os valores dos indivíduos, as crenças, os padrões do comportamento, a forma de criar intervenções individualizadas, declarando que o cuidar é do conhecimento e da prática da enfermagem, assim como as características culturais, as dimensões psicológicas, biológicas, entre outras, definem esta teoria (Leininger,1981, 1995).
Numa outra vertente surgem as ideias de Jean Watson (1985) que invoca uma abordagem existencialista e espiritual do cuidar. De acordo com Collière (1989, p. 29), o cuidar é “manter a vida garantindo a satisfação de um conjunto de necessidades indispensáveis à vida, mas que estão diversificadas na sua manifestação”. Esta autora defende que os cuidados de enfermagem estão agregados a todos os cuidados necessários à sobrevivência, que é
“um ato de VIDA… um ato individual que prestamos a nós próprios, desde que adquirimos autonomia mas é, igualmente, um ato de reciprocidade que somos levados a prestar a toda a pessoa que temporariamente ou definitivamente, tem necessidade de ajuda para assumir as suas necessidades vitais” (Collière, 1989, p. 235).
O termo “cuidar” menciona os cuidados que “diziam respeito a qualquer pessoa que ajudava qualquer outra a garantir o que lhe era necessário para continuar a sua vida, em relação com a vida de grupo” (Collière, 1989, p. 28), ou seja, os cuidados asseguram a continuidade das necessidades de vida diárias ou auxiliam na sua melhoria, de forma a tornar as pessoas mais autónomas possíveis.
Leonardo Boff (1999) reflete sobre a necessidade do ser humano de desenvolver a capacidade de cuidar de si próprio, do meio ambiente e das pessoas que nele sobrevivem. Deste modo, o ser humano procura a busca da dignidade, do respeito mútuo e da solidariedade para com o outro, doutrinando a parte imaterial do indivíduo, realçando os
Cuidar de alguém não é uma atividade restrita da profissão de um enfermeiro, o cuidar está intrínseco ao ser humano, apesar de esta ser nomeada como a essência da Enfermagem (Moniz, 2003). A grande variabilidade entre os cuidados sugere o cuidar como um processo idiossincrático, o que implica várias conclusões importantes, entre elas, que o cuidado é sempre um ato necessariamente único, tendo em conta as características individuais entre os indivíduos e o cuidador que estabelecem a relação de cuidar (Montgomery & Kosloski, 2009). Os estudos sobre o cuidado e os cuidadores poucas vezes se debruçam sobre a forma como o cuidar transforma e afeta a vida do cuidador, e sobre quais as estratégias de adotar no seu autocuidado. Neste sentido surge uma questão fundamental: Afinal em que consistem os cuidados?
Collière (1989) refere que os cuidados existem porque é urgente que a vida permaneça. Os cuidados são necessários desde o nascimento e estes deverão permanecer toda a vida. O cuidado constitui a essência da Enfermagem desde o final do século XIX, sendo que é através de Florence Nightingale que o cuidado passa a ter um carácter organizado, dando origem à Enfermagem moderna (Collière, 1989). Esta autora defende que os cuidados prestados por outrem ajudam a assumir as necessidades vitais. As opções ligadas à manutenção, desenvolvimento da vida e as que se aglutinam aos cuidados de reparação, não se excluem mutuamente e deveriam constituir objeto de análise em todas as situações de prestação de cuidados. De acordo com Collière (1989), existem dois tipos de cuidados de enfermagem (Quadro 14): os cuidados quotidianos ou habituais e os cuidados de reparação ou manutenção de vida.
Quadro 14 - Tipos de cuidados de enfermagem
Cuidados Quotidianos ou Habituais Cuidados de Reparação ou Manutenção da Vida
Funções de manutenção, formas de continuação da vida (hábitos de vida: costumes e crenças);
Hábitos diários: larvar, comer, beber, mexer, deslocar, levantar, evacuar, ter relações, entre outros.
Funções de contornar os obstáculos;
Estas funções são desprovidas dos cuidados habituais;
Exemplo de obstáculos: fome, insuficiência de recursos, doença, falta de energia, acidentes, guerra, entre outros.
como “um tipo de ação interdependente com as características específicas: ações de providenciar cuidados, apoiando todas as idades e tipos de necessidades básicas, frequentemente associada à criação, estimulação e sustento”. Para que esta assistência seja possível para os indivíduos possuidores de alguma dependência física ou mental é imprescindível que se encontrem pessoas que auxiliem nos cuidados e que o façam de acordo com as necessidades de cada indivíduo. O Papel de Prestadores de Cuidados pode ser percecionado como:
“um tipo de interação de papéis com as características específicas: interagir de acordo com as responsabilidades de cuidar de alguém, interiorizando as expetativas das instituições de saúde, profissionais de saúde, membros da família e sociedade quanto aos comportamentos de papel adequados ou inadequados de um prestador de cuidados; expressão destas expetativas como comportamentos e valores; fundamental em relação aos cuidados aos membros dependentes da família (ICN, 2002).
De acordo com Hesbeen (1998), os prestadores de cuidados são indivíduos que destinam algum do seu tempo na vigilância de outras pessoas com a intenção de as auxiliar nas próprias vidas. Neste sentido, os prestadores de cuidados adaptam-se a todas as circunstâncias acrescidas desta atividade, que envolve cuidados físicos e emocionais, tendo sempre em mente as crenças, valores, cultura, dinâmicas familiares e o meio físico envolvente. Esta personagem a quem se dá o nome de cuidador tem como função considerar o estado funcional do doente, isto é, número e duração das tarefas que necessitam de supervisão e/ou de ajuda parcial ou total, de apoio emocional ou de outro tipo de ajuda instrumental. O cuidador é a personagem principal nos cuidados, tendo com principais funções o desenvolvimento ou coordenação dos recursos requeridos pelo indivíduo dependente. Os cuidadores são aqueles que garantem a maior parte do cuidado diário a quem sofre de uma doença e, ao mesmo tempo, permitem a estadia cómoda e segura à pessoa que por razões de idade ou incapacidade é totalmente dependente (Costa, 2002).
Atualmente, com a apologia da continuidade de cuidados e com a contenção de custos, os doentes têm alta hospitalar cada vez mais precoce, necessitando muitas vezes de cuidados médicos e de enfermagem no domicílio. Perante este cenário preocupante para o
cuidador, na maioria das vezes os doentes recorrem às Unidades de Saúde Local (USL) para obterem o auxílio necessário na prestação de cuidados especializados.