Um masculino subjetivado e transtornado: a terapia da dor, o agenciamento de códigos sociais e outras masculinidades
1. O meu reencontro com o homem traído em mesa de bar: o tema (re) significado
Botequim é mesmo um templo onde os solitários se sentem bem acompanhados com seus copos, pensando..., pensando... Só falam de mulher, de futebol, de samba e de política, sem discutir de forma tensa, visto que ninguém vai a um boteco pra esquentar a cabeça (MARTINHO DA VILA)216
Dezoito anos se passaram desde a minha separação judicial. Escapei com vida, me tornei diferente e me sentindo outra mulher. Eu não só passei a me sentir com mais liberdade, como também, passei a subjetivar outra condição feminina, trabalhando, pesquisando, estudando e construindo novas experiências. Recentemente, passei a pesquisar sobre a masculinidade. Pela primeira vez, desde que comecei a exercer a profissão docente, passei a ter contato com as leituras sobre gênero, e mais particularmente, com o tema da masculinidade, o que foi um grande desafio217. Em 2007 ingressei como aluna do doutorado em Ciências Sociais na UFCG218 no final de 2007, houve um reencontro meu com o tema da infidelidade. Os temas da infidelidade e da masculinidade não haviam saído da minha vida e eu me despi para reencontrá-lo. Descortinei valores e ‗arregacei as mangas‘ para pesquisar sobre eles. Os temas
216 Disponível no site: http://www.martinhodavila.com.br/butiquim.htm visitado em 17 de Março de 2011.
217
Até então, influenciada pelas leituras realizadas nas obras de Foucault217 eu havia canalizado minhas pesquisas para a área de educação. As obras de Foucault apareceram na minha vida acadêmica transpassando meu corpo e minha ‗alma‘. Muitos dos valores que ainda sustentavam os meus ‗lugares de gênero‘ foram fragmentados e violentados de forma positiva, em parte, pelas leituras e discussões que fiz sobre as obras deste autor. Como afirma Jorge Larrosa, essa foi o tipo de leitura que me modificou e me transpassou. 218
Na época entrei com um projeto no qual discutia as identidades da etnia indígena Potiguara, resultante da minha participação na equipe que realizou estudos e workshop para implementar o curso superior em Educação Indígena nesta Universidade. Fazia dois anos que eu vinha, juntamente com outros professores, assessorando os índios da Baia da Traição, cidade próxima a João Pessoa para elaboração de um Projeto Pedagógico para implantar o curso em Licenciatura Indígena. Nossa equipe realizou um estudo de viabilidade para oferta de um curso de Licenciatura em Educação Indígena no Centro de Humanidades da Universidade Federal de Campina Grande destinada exclusivamente à etnia indígena. Hoje o curso funciona de forma semi-presencial e a primeira turma já está em fase de conclusão. Sobre o relatório desse estudo cf. – Rodrigo de Azeredo Grünewad, etalli. Cadernos do LEME, Campina Grande, vol. 1, nº 2, p. 114 – 150. Jul./dez. 2009.
reapareceram na minha vida, quando resolvi assistir a um espetáculo circense219. Cheguei por volta das dezenove horas, portanto uma hora antes do início do espetáculo. Era um circo com perfil popular, típico daqueles que faz turnê em cidades pequenas do interior220. Enquanto aguardava o início da sessão fui tomar uma cerveja no ‗bar do Tonho‘221
. Como afirma o cantor Martinho da Vila na epigrafe acima, o bar é um lugar ―onde os solitários se sentem bem acompanhados com seus copos.‖ ―É na mesa de bar, como afirma o compositor e cantor Toquinho, que se engana a razão e a saudade maltrata o coração‖222.
Em uma mesa ao lado da minha, não havia homens solitários, como afirma Martinho da Vila, mas encontrava-se um grupo de homens muito descontraído. Aqueles homens apresentavam um diferencial: falavam em voz alta e riam de um homem traído. Eles riam de um colega que estava com eles, sentado na mesma mesa e que havia sido traído pela namorada223.
A forma, como aqueles homens estavam lidando com a traição, teve continuidade e eu tive um novo impacto, quando um transeunte que passava em uma bicicleta foi convocado para vir até a mesa e com eles, tomar uma cerveja. Ouvi, quando um deles disse: ‗senta aí cara, vamos tomar uma‘. E todos riram, inclusive, ‗Tonho‘, o dono do Bar. O convidado para sentar à mesa era o ‗urso‘ ou o ‗Ricardão‘, como é denominado popularmente o homem que trai outro homem. Ele estava sendo convocado para partilhar outro tipo de sociabilidade: a astúcia de aguentar e rir publicamente da dor produzida pela traição feminina. Os valores, de um homem considerado macho, aquele que lavava a honra com sangue parecia não constituir como parte de suas práticas masculinas.
O bar, que sempre foi considerado historicamente, entre tantas representações, um espaço masculino para viver o sofrimento pela dor de um amor perdido, estava por aquela experiência sendo (re)significado, ou havendo outras formas de produtividade dos códigos
219 Como nasci em uma cidade muito pequena da Paraíba e na minha infância assisti a alguns espetáculos nos circos, assim, não recusei o convite de meu namorado, para assistir uma dessas apresentações no bairro onde ele morava - Santa Rosa – em Campina Grande.
220 Em geral, são circos que tem as lonas de cobertura remendadas, as arquibancadas ou ‗puleiro‘, como se dizia em Juazeirinho, feitas com tábuas rachadas e quebradas sobrepostas umas sobre as outras. Adorei ficar no ‗puleiro‘, comer pipoca e comprar confeitos àqueles meninos que com uma caixa presa por uma faixa de couro entre o pescoço e a cintura vendiam seus bombons, chocolates e chicletes transitando entre os espectadores.
221
Este bar localizado no bairro de Santa Rosa, em frente onde o circo estava instalado. O bar do ―Tonho‘, como todos os bares, é um lugar de sociabilidade e descontração.
222 Mesa de Bar- Composição: Toquinho / Gianfrancesco Guarnieri.
223
Há décadas atrás, um acontecimento desse tipo, possivelmente, provocaria violência, e quem sabe até a morte.
masculinos. Nos anos 50 do século passado, por exemplo, Lupicínio Rodrigues traduzia musicalmente a dor da traição na música intitulada ―Vingança‖. ―Eu gostei tanto, quando me contaram que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar‖. No bar de Tonho naquele momento estava havendo, pelo menos para mim, algo diferente. Os homens, inclusive o traído e o traidor, compartilhavam da mesma mesa e riam da situação, era uma vivência diferente daquela colocada na música de Lupicínio Rodrigues. Era um indicativo de que os valores masculinos sobre a infidelidade eram múltiplos, como também, estavam em processo de fragmentação.
O que teria mudado, do ponto de vista social, para que aqueles homens tratassem a dor da traição de forma distinta daquela vivenciada por mim nos anos 90? Estaria havendo outros significados positivos sobre a infidelidade feminina ou era uma tática masculina para vivenciar a dor de forma distinta? Ou eram novos arranjos para praticar outras formas de masculinidades? Voltei para casa renovada de idéias e decidida a mudar o tema da tese de doutorado pesquisando sobre masculinidade e infidelidade.
O tema da infidelidade estava em 2009 na pauta da midia224 e motivando a discussão nas ruas, nos bares, na mídia e também nas salas de muitas residências.225Em um dia de domingo, mas precisamente em trinta de março de 2008, o telefone da minha residência tocou. Fui atendê-lo. Era Keila Queiroz, uma professora da UFCG e minha amiga avisando que havia saído no Jornal da Paraíba uma matéria sobre uma Associação de Cornos - A CORNOLÂNDIA -226 em João Pessoa. Era o tema da pesquisa ‗batendo em minha porta‘.
224
Como exemplo, a novela da rede globo ―Caminho das Índias‖, ganhou em 2009, um prêmio como a melhor novela do mundo224, e um dos temas abordados na novela foi a infidelidade feminina vivenciada pela interpretação da atriz Dira Paes com a personagem de ‗Norminha‘. Este tema além de ser provocador, estava motivando a discussão sobre gênero, nas ruas, nos bares, na mídia e também nas salas de muitas residências. Um exemplo são as recorrentes entrevistas de antropólogos e as opiniões de populares sobre o tema na mídia, durante o ano de 2009. ―Caminho das Índias‖ foi escolhida a melhor novela do 37th International Emmy Awards, prêmio entregue dia 23/11/2009, em Nova York, à autora Glória Perez e ao diretor artístico Marcos Schechtman [...] Caminho das Índias, entre as dezenas de obras inscritas, disputou com duas novelas das Filipinas e uma da França a estatueta que representa a mais importante premiação no mercado de televisão. Cf.<http://caminhodasindias.globo.com/Novela/Caminhodasindias/Bastidores/0,,AA1706613-
16543,00.html>
225Cf. as entrevistas disponíveis nos seguintes sites<http://anamariabraga.globo.com/home/canais/canais- casa.php?id_not=2736>(10-09-2009) <http://anamariabraga.globo.com/home/forum/?p=102>
<http://www.luzia.psc.br/blog/2010/04/traicao-no-casamento-2/>”Homens são mais tolerantes a traição homossexual que mulheres”(dezembro de 2009).
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/867473-homens-sao-mais-tolerantes-a-traicao- homossexual-que-mulheres.shtml(28/01/2011) visitados em 17 de Março de 2011.
226A Associação de Cornos do bairro da Torre em João Pessoa ou Cornolândia foi criada, de acordo com seu presidente, como uma forma de seus participantes brincar a situação dos homens traídos.
Comprei o Jornal e a manchete era ―ELES SÃO MAIS FELIZES NA CORNOLÂNDIA‖.227
Era uma reportagem sobre uma Associação de homens traídos que funcionava no mercado do bairro da Torre na cidade de João Pessoa. Concluída a leitura do jornal, lembrei-me da experiência, na qual vivenciei no bar do Tonho e me dei conta que eu já estava apaixonada pelo tema, e fiquei mais convencida, de que eu havia escolhido um tema especial.
Apaixonar-se academicamente pela pesquisa é sonhar sobre os encontros projetados para com ela. É suspirar e sentir prazer quando vem uma idéia para facilitar o encanto com as leituras e com o material da pesquisa. É criar ilusões, sonhos e, às vezes, pesadelos. É mais do que isso, é arrumar campos de cumplicidade para não perdê-la e demonstrar, muitas vezes sem querer, sua afetividade, seu desejo, mas é também uma relação de alteridade, de produtividade, de violência, de descontinuidade do lugar de pesquisadora e de novos encontros com outros saberes.
Meu tema continuava estimulando novos encantos e novos encontros. Em um final de semana, encontrei uma professora do ensino médio que foi minha aluna na Universidade Estadual da Paraíba no início dos anos 90, e que hoje trabalha em uma Escola pública de Campina Grande, na qual, se interessou pelo tema e me convidou para falar sobre ele em sua turma do ensino médio. Depois de minha visita à escola, a professora juntamente com os alunos e alunas formaram um grupo de pesquisa sobre sexualidade.228
Eram jovens pesquisadores que estavam sendo atraídos por temas até então, para eles,considerados proibidos, muitas vezes, censurados ou conversado entre quatro paredes‘. Estavam aqueles adolescentes criando novos espaços de discussão na produção dos saberes, como a sexualidade, a pedofilia na internet e a gravidez na adolescência. Eles e elas ainda foram mais audaciosos e se colocaram a disposição para me auxiliar na minha pesquisa de doutorado, aplicando quatrocentos questionários aos homens em Campina Grande sobre traição. Com o desenvolvimento da escrita da tese, os dados dos questionários não puderam ser utilizados.229
227Cf . Jornal da Paraíba, domingo 30 de Março de 2008 -Caderno 7.
228 Durante quase um ano, estudamos juntos e pela primeira vez, alunos e alunas do ensino médio daquela escola escreveram textos para apresentar em uma Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão do Centro de Humanidades da UFCG.
229Depois de sistematizar a organização da tese resolvi guardar esses dados dos questionários para um outro momento pois fugia dos interesses da problemática construída para os capítulos traçados depois da qualificação da tese.
Neste capítulo, analiso os discursos sobre a experiência de um homem traído, discutindo a trajetória de uma masculinidade subjetivada e o agenciamento de outros códigos sociais, praticados na Associação de Cornos - CORNOLÂNDIA -, para exercer múltiplas masculinidades. Como material de pesquisa utilizo as entrevistas realizadas com o presidente e a ‗psicóloga‘ da Associação. Além disso, utilizo o material disponibilizado por eles, como por exemplo, a relação dos tipos de cornos, a oração dos cornos etc. para articular com os seus discursos.
Na Associação, a dor da traição é tratada através da sociabilidade ―[...] pela qual, os participantes se mostram a um só tempo interessados e descomprometidos, autonomizando suas atuações no sentido de evitar qualquer demonstração de um interesse objetivo nos assuntos (SIMMEL, APUD GASTALDO 2005, p. 108).‖230 Nesta associação, a sociabilidade funciona como um agenciamento para vivenciar a masculinidade por outras formas de subjetivação.
As atitudes masculinas naquela mesa de bar e as experiências da Associação de cornos indicavam que estavam havendo mudanças no tratamento dado pelo masculino à infidelidade feminina. Eram mudanças, tanto do ponto de vista das lutas das mulheres, pelas conquistas sociais e de gênero, como das transformações no processo de subjetivação, pelas quais as mulheres e homens estavam sendo afetados e afetando o comportamento e atitudes, em particular, no que diz respeito ao corpo e a sexualidade.
Os acontecimentos ocorridos na segunda metade do século XX, juntamente com novos saberes minaram e fragmentaram as práticas da masculinidade hegemônica, contribuindo para agenciar novos códigos e repor outros, indicando que o homem está exercendo, múltiplas formas da masculinidade, transitando pela multiplicidade de códigos, o que sugere, que as masculinidades hegemônicas ainda são exercidas e outras emergentes estão em trânsito. Esses acontecimentos funcionam como uma relação de forças ―[...] que se encontra em jogo da história (FOUCAULT, 1979, p. 28231)‖. São esses e outros acontecimentos que contribuíram para que, o homem traído, analisado neste capítulo, fosse transformado, mas também, se sentisse transtornado.
230Cf. Édison, Gastaldo. O complô da torcida: futebol e performance masculina em bares - Horizontes
Antropológicos, Porto Alegre, ano 11, n. 24, p. 107-123, jul./dez. 2005.
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