As micoses profundas possuem algumas características em comum, tais como: são causadas por fungos com virulência individual e inerentes a cada espécie; esses fungos são dimórficos e necessitam, para o seu isolamento, de laboratórios com as condições técnicas de segurança mínimas e profissionais bem treinados. Esses
35 fungos geralmente são autóctones de regiões de clima quente e úmido, tendo sua
distribuição relativamente limitada às zonas tropicais. Tais fungos vivem saprofiticamente no solo, na forma filamentosa e, em condições especiais, são capazes de liberar estruturas de reprodução assexuada (conídios) que, ao serem inaladas por homens e animais, vão ocasionar uma primoinfecção, que pode ser em geral discreta ou mesmo não aparente.
Essas infecções apresentam ainda, como característica comum, a ausência de contágio ao contato com uma pessoa infectada. Entretanto, populações que vivem em áreas conhecidas como zonas endêmicas, onde podem ser encontrados esses fungos em fase filamentosa no solo, mesmo que sejam imunocompetentes, são passíveis de desenvolver esse tipo de infecção.
Paracoccidioidomicose
É uma micose profunda, causada pelo Paracoccidioides brasiliensis, de início pulmonar, com manifestações observadas preferencialmente na pele, mucosas, gânglios e árvore respiratória, mas que podem ser observadas em outros órgãos. É uma micose estritamente localizada na América Latina. Apresenta maior incidência, sobretudo no Brasil e em particular na região Sudeste, principalmente em São Paulo.
Estudos mostram que esse fungo é mais frequentemente encontrado em regiões de floresta, com elevada umidade relativa do ar e temperatura moderadamente quente. O fato de esse fungo, na forma filamentosa, sobreviver muito bem em água evoca rios e lagos como possíveis habitats naturais. A aquisição da infecção se faz, sobretudo por via respiratória, com a inalação de conídios da forma filamentosa de P. brasiliensis, e que as lesões de pele e mucosa nada mais são do que as manifestações cutâneas secundárias da disseminação da doença. O homem parece ser a única espécie animal a desenvolver casos de paracoccidioidomicose, não tendo sido, até o presente, observada a doença em outras espécies animais.
A forma assintomática da doença é a mais comum e tem sido mais diagnosticada em zonas endêmicas; na maioria dos casos, não se observa nenhuma alteração clínica nem radiológica. A forma aguda/subaguda (tipo juvenil) é responsável por 3 a 5% dos casos da doença, predominando em crianças e adolescentes, mas podendo acometer indivíduos até os 35 anos de idade. Em ordem de frequência, podemos destacar a presença de linfadenomegalia, manifestações digestivas, hepatoeplenomegalia, envolvimento ósteo-articular e lesões cutâneas como as principais formas de apresentação desta forma da micose. A forma crônica (tipo adulto) responde por mais de 90% dos pacientes, e apresenta-se principalmente em adultos entre os 30 e 60 anos, predominantemente do sexo masculino. A doença progride lentamente, de forma silenciosa, podendo levar anos até que seja
36 diagnosticada. As manifestações pulmonares estão presentes em 90% dos pacientes.
Os pulmões podem ser o único órgão afetado em até 25% dos casos. Geralmente, a doença envolve mais de um órgão simultaneamente (apresentação multifocal), sendo pulmões, mucosas e pele os sítios mais acometidos pela infecção.
Histoplasmose
É uma infecção que tem como porta de entrada e manifestações primárias o pulmão, podendo o microrganismo disseminar-se por via hematogênica ou linfática. O agente causador dessa doença é um fungo dimórfico denominado Histoplasma capsulatum, que pode causar doença em seres humanos e em diversas espécies animais temperados. Esse fungo tem uma preferência por solos fofos, com PH levemente ácido e enriquecido por matéria orgânica, como fezes de aves e morcegos. A aquisição da infecção se faz geralmente por inalação dos conídios, ao limpar ou demolir galinheiros, viveiros de pássaros, ou ainda, ao penetrar em cavernas habitadas por morcegos.
A histoplasmose tem distribuição quase cosmopolita, tendo sido descrita em mais de 50 países e diagnosticada, praticamente, em todas as regiões de clima tropical e temperado. O homem e numerosas outras espécies animais, tais como cães, roedores silvestres e domésticos, são suscetíveis a desenvolver a histoplasmose; os próprios morcegos, que voam a grandes distanciam e vivem em grupo, podem desenvolver a doença, facilitando assim a disseminação do fungo.
A doença pode se manifestar de forma assintomática, na qual os indivíduos entram em contato com o fungo, mas não desenvolvem a doença. Algumas vezes podem aparecer sintomas que se assemelham a um resfriado. Quando não ocorre a cura espontânea, evolui para a forma generalizada, que ocorre por disseminação pulmonar e apresenta sintomas de acordo com o órgão afetado, principalmente fígado, baço e linfonodos.
Coccidioidomicose
É uma micose endêmica, causada por duas espécies fúngicas indistinguíveis: Coccidioides immitis e Coccidioides posadasii. A doença é transmitida pela inalação de artroconídios, que são fragmentos de hifas do fungo. Na maioria das pessoas a infecção é assintomática, mas pode ocorrer de forma progressiva levando à morte. O fungo é encontrado no solo e nas fezes de morcegos e roedores.
C. immitis é provavelmente o mais virulento de todos os patógenos fúngicos que afetam o homem. A coccidioidomicose primária pode se manifestar na forma de
37 doença pulmonar assintomática ou uma doença semelhante ao resfriado com febre,
tosse, dor torácica e perda de peso. Em pacientes que apresentam sintomas por 6 semanas ou mais, a doença progride para a coccidioidomicose secundária, que pode incluir nódulos, doença cavitária ou doença pulmonar progressiva.
MICOSES OPORTUNISTAS
Os fungos oportunistas só causam doença quando a resistência do hospedeiro encontra-se diminuída. Os pacientes que correm alto risco de infecções por fungos oportunistas incluem indivíduos com processos malignos, transplantes de medula óssea ou de órgãos, AIDS, queimaduras, traumatismo ou doenças que necessitam de uso prolongado de cateteres intravenosos ou intra-arteriais. Alem disso, são observadas infecções fúngicas em pacientes que receberam terapia antibacteriana de amplo espectro e cuja flora bacteriana intestinal normal foi acentuadamente reduzida. Nesses casos, fungos como Candida albicans proliferam desenfreadamente, podendo substituir as bactérias da flora normal.
Candidíase
A Candida é encontrada na faringe posterior e no intestino de muitos indivíduos sadios. O fungo parece exibir tropismo particular para os rins, podendo disseminar-se através do sangue para vários órgãos diferentes. Em geral, a infecção sistêmica é precedida por outras infecções superficiais, como aquelas que acometem a boca, a faringe, o esôfago ou outras partes do trato gastrintestinal ou a vagina.
Nos pacientes idosos debilitados, recém-nascidos, prematuros e desnutridos, a ocorrência da candidíase é alta, em suas variadas formas clínicas. Um dos principais fatores para a instalação da candidíase é a umidade.
Aspergilose
O Aspergillus fumigatus pertence ao grupo dos fungos filamentosos e são tão ubíquos que podem facilmente crescer em culturas a partir do ar, do solo ou de vegetação com bolor. Não fazem parte da flora normal dos seres humanos e não crescem em tecidos normais. Esses fungos só provocam doença invasiva em indivíduos profundamente imunocomprometidos, sobretudo aqueles com neutropenia. Os pulmões ou os seios paranasais constituem habitualmente o local inicial de invasão. Os pacientes com essas infecções invasivas também apresentam abscessos
38 intracerebrais, úlceras necróticas da pele e lesões do osso, do fígado e das mamas. O
Aspergillus também pode causar doença não-infecciosa, como alergia ou asma após inalação e crescimento do fungo na árvore brônquica.
Criptococose
A criptococose está habitualmente incluída entre as infecções fúngicas oportunistas, embora ocorra também em indivíduos imunocompetentes. Nesses úlitmos anos, a infecção criptocócica, em particular a meningite, tem sido observada mais frequentemente em pacientes com AIDS.
O agente etiológico da criptococose é uma levedura encapsulada, Cryptococcus neoformans, que é encontrada nos excrementos de aves, particularmente de pombos. O microrganismo também é encontrado em frutas e vegetal podre. O fungo é inalado nos pulmões, onde pode causar pneumonia, entretanto, a manifestação clínica mais frequente é a meningite.