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CAPÍTULO 2: UMA TRAJETÓRIA DO PROGRAMA DE MICROCRÉDITO

2.1 Antecedentes

2.1.2 O microcrédito no Brasil

O Brasil representa um mercado bastante significativo para as microfinanças, principalmente quando se considera a sua dimensão territorial, seu potencial econômico e o seu contingente populacional. Dados estatísticos do IBGE, citados por Souza (2003, p. 19) assim o caracterizam:

O País possui 8,5 milhões de quilômetros quadrados, constituindo-se o quarto maior do mundo, população superior a 174 milhões de habitantes, considerada a quinta maior em termos mundiais e um PIB de R$ 1,32 trilhão (US$ 503,9 bilhões) em 2002, o que o posiciona como a maior economia da América Latina e a oitava do mundo.

Farranha (2005) afirma que as primeiras experiências de microcrédito no Brasil ocorreram por volta de 1970, lideradas inicialmente por Organizações Não Governamentais (ONGs), geralmente de atuação internacional.

Barone et al. (2002) destaca duas dessas organizações que tiveram atuação no Brasil, na área de microcrédito: a Accion Internacional, na época AITEC, uma ONG com sede em Boston, especializada em microcrédito e a União Nordestina de Apoio a Pequenas Organizações (UNO) experiência realizada em Recife, a partir de 1973.

Barone et al. (2002) enaltece o trabalho realizado pela UNO, informando tratar-se de uma organização não governamental, especializada não apenas em microcrédito, mas também na capacitação dos clientes em temas básicos de gerenciamento. Além disso, produzia pesquisas sobre o perfil do microempresário informal e o impacto do crédito. Os recursos iniciais dessa organização vieram, inicialmente, de doações internacionais e, mais tarde, por outras linhas de crédito. O trabalho realizado pela UNO produziu o desenvolvimento do associativismo, resultando na criação de cooperativas, associações de artesãos e grupos de compra. Apesar de todo o êxito obtido na área técnica, a UNO não conseguiu sustentar-se financeiramente e veio a desaparecer após dezoito anos de atuação..

Farias (2006), localiza que a primeira experiência de microcrédito no Brasil foi implementada em Porto Alegre, em 1986, numa parceria entre Accion Internacional e Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) com o apoio do governo do estado do Rio Grande do Sul. Destaca, outrossim, experiências informais realizadas anteriormente nas Comunidades Eclesiais de Base e através das pastorais sociais da Igreja Católica. Farias (2006, p. 61) se expressa:

[...] o microcrédito no Brasil, ainda que não conhecido ‘formalmente’ por este nome, já vinha, em meados da década de 1960, sendo implementado de forma embrionária pelos movimentos sociais, mais especificamente pelas CEB’s e pastorais sociais, tanto em áreas rurais como urbanas, objetivando o desenvolvimento de projetos produtivos”.

Souza (2003) considera que a “indústria de microcrédito” brasileira constitui- se da seguinte forma: 1. Organizações do terceiro setor, a maioria sob a forma de Organizações da Sociedade Civil de Interesse público (OSCIP); 2. Sociedades de Crédito ao Microempreendedor (SCM); 3. Programa Crediamigo, do Banco do Nordeste, onde a instituição não visa lucro, mas o programa deve ser autossustentável para que a sua perenidade possa ser garantida, permitindo novos empréstimos; 4. Os chamados “Banco do Povo”, atrelados ao poder público, que atuam com juros subsidiados, onde os principais exemplos são o Banco do Povo Paulista e o Banco do Povo de Goiás, ambos com juros mensais de 1% e recursos oriundos do respectivo tesouro estadual; 5. Cooperativas de Crédito, que atendem a empreendedores familiares urbanos ou rurais. (SOUZA, 2003, p. 19)3

Destacamos em Farranha (2005) o Formato Institucional do Microcrédito no Brasil a partir da composição da autora, conforme Quadro 2 abaixo:

Natureza Formato Principais características

Organizações não governamentais (ONGs)

Sujeitas a restrições quanto aos juros praticados (máximo de 12% a.a.)

Sem fins lucrativos (Pessoas Jurídicas de Direito

Privado)

Organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPS)

Reguladas pela Lei 9.790/1999, e devendo ser registradas junto ao Ministério da Justiça, não sujeitas a restrições quanto a estipulações usurárias (taxa de juros livre)

Sociedade de Crédito ao Microempreendedor (SCM)

Autorizada pelo Banco Central, controlado por qualquer pessoa física ou jurídica, inclusive instituição financeira ou OSCIPS. Com fins lucrativos

Instituições financeiras (diretamente)

Oferecendo crédito ao público diretamente.

3

Para melhor entendimento de conceitos, convém destacar que, de acordo com Soares e Sobrinho (2007), o segmento de microfinanças é entendido a partir de três aspectos:

- As microfinanças, que englobam a oferta de todos os serviços financeiros (conta corrente, poupança, seguro, orientação empresarial) para a população de baixa renda, incluindo o crédito produtivo e o crédito para consumo, direcionado àqueles que não necessariamente desenvolvem atividade produtiva;

- O microcrédito, com oferta de todos os serviços financeiros, exceto o crédito para consumo; - O microcrédito produtivo orientado, que financia apenas o crédito produtivo, exceto para consumo

Poder Público Bancos de Desenvolvimento, com participação indireta, fomentando entidades especializadas ou participação direta, por intermédio de bancos públicos com carteira

especializada.

Indiretamente: como “banco de segunda linha”. O principal exemplo, na época era o BNDES que atuou através do Programa Crédito Produtivo Popular (PCPP).

Diretamente: o exemplo mais recorrente é o BNB que atua através do programa Crediamigo. Programas Municipais e Estaduais Trata-se de diferentes experiências que vem sendo implementadas pelos governos municipais, de diferentes formatos institucionais, cuja principal referencia é o Portosol, criada em 1995, como instituição de crédito comunitária ligada às políticas de geração de emprego e renda da Prefeitura Municipal de Porto Alegre.

A principal característica dessas experiências é que elas estão ligadas às políticas de geração de ocupação e renda, sendo

conhecidas pelo nome fantasia de Banco do Povo. Na maior parte das situações, os governos municipais e estaduais criam fundos públicos destinados especificamente ao microcrédito, os programas são

operacionalizados por órgãos públicos, por entidades criadas para esse fim e por meio de parcerias com a sociedade. Os principais exemplos são o Banco do Povo Paulista; o Banco do Povo de Goiás, o Banco do Povo de Juiz de Fora e Creditrabalho, do Governo do DF.

Diversos Serviço Brasileiro de Apoio a

Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), Caixa Econômica Federal e Agências de Fomento.

Atuação indireta oferecendo recursos ou outros serviços de apoio ao microcrédito.

Quadro 2 - Formato Institucional do Microcrédito no Brasil (2003)

Para efeito de compreensão e análise, Farranha (2005) divide o caminho institucional feito pelas diversas experiências de microcrédito no Brasil em quatro fases, com características diversas que vão apontando maneiras diferentes de abordar o tema. Essas fases estão, assim, caracterizadas:

FASE PERÍODO ACONTECIMENTOS

Fase 1 Início da década de 1970, abrangendo os anos 1970 e 1980

- Construção de uma rede de ONGs pioneiras no financiamento de pequenos negócios ligadas ao Centro de apoio aos pequenos empreendimentos (CEAPE), filiado à Accion International.

- Realização de experiência pioneira em Recife (1973), através da UNO.

- Destaque para a experiência do Banco da Mulher, em Salvador (1986).

Fase 2 Anos 1990 - Nascimento de ONGs especializadas em microfinanças, devidamente encaixadas na normatização do Banco Central. - Desenho dos principais desafios para a expansão e massificação do microcrédito no Brasil, na agenda política.(1993 a 1998). - Articulação de programas/instituições vinculados a uma política de geração de renda para a população.

Fase 3 Final dos anos 1990 - Envolvimento dos bancos e financeiras do sistema bancário formal, no segmento de microfinanças.

- Garantia de estatuto jurídico para viabilização da entrada de Organizações da Sociedade Civil de Interesse público (OSCIPS) e das Sociedades de Crédito ao Microempreendedor (SCMs) nesse segmento de mercado.

- Criação do Programa Crediamigo do Banco do Nordeste, referenciado no tema seguinte deste documento.

Fase 4 A partir de 2002 - Alteração da regulamentação da política de microcrédito.

- Criação do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO), 2004, buscando uma maior articulação com o MTE e o Conselho Monetário Nacional (CMN).

Quadro 3 - Fases do Microcrédito no Brasil

Fonte: Elaboração Própria da Autora com base em Farranha (2005, p. 86).

Situemos, especificamente, na trajetória do microcrédito, o Programa Crediamigo do BNB.