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O movimento situacionista – que tinha o espírito revolucionário de unir arte e política, atuando principalmente nos pontos da vida cotidiana – encerrou suas ações políticas em 1972, mas seguiu influenciando movimentos posteriores, nos quais se revelam novos desdobramentos da ideia de caminhar. Após as experiências em território europeu, a Land Art, concebida nos Estados Unidos, segue investigando o caminhar como instrumento de conhecimento e de modificação física do espaço, assim como prática estética.

A segunda metade do século XX vê o caminhar como uma das formas de arte utilizadas pelos artistas para intervir na natureza. Em 1966, aparece na revista Artforum o relato da viagem de Tony Smith numa estrada em construção. Daí nasce uma polêmica entre os críticos modernistas e os artistas minimalistas. Alguns escultores começam a explorar o tema do percurso primeiro como objeto e depois como experiência. A land art revisita, por meio do caminhar, as origens arcaicas do paisagismo e da relação entre arte e arquitetura, levando a escultura a apropriar-se novamente dos espaços e dos meios da arquitetura (CARERI, 2013, p. 29).

A viagem de Tony Smith em companhia de alguns estudantes se deu numa estrada dentro de um canteiro de obras localizado no subúrbio de Nova York. A viagem como prática estética colocava a experiência de deslocamento como uma experiência artística e, por isso, foi apontada por muitos como um símbolo da arte minimalista porque afrontava as limitações existentes no domínio das artes.

Podemos reparar que essa experiência causa uma percepção estética pela vivência e não pela contemplação e, apesar dessa ideia de superação e confronto já ter sido demonstrada nas

43 vanguardas anteriores, é a partir dela que a “prática do caminhar começará a transformar-se em verdadeira e própria forma de arte autônoma” (CARERI, 2013, p. 112).

Um ano depois, Richard Long, no trabalho intitulado A Line Made by Walking, caminha pela paisagem marcando nela o rastro da ação exercida pelo seu corpo, “o objeto escultórico está completamente ausente, o caminhar transforma-se em forma autônoma” (CARERI, 2013, p. 30).

Figura 11: A Line Made by Walking. Fonte: richardlong.org26.

A Land Art, corrente artística surgida no final da década de 1960, aproveitava o meio ambiente e os recursos naturais para dar forma às suas obras. Essa corrente apresentou uma nova conexão com o espaço e com o espectador, se estendendo até a sociedade. Sem interesse pelos espaços museus-galerias, recorre à paisagem para a criação de suas obras. Ao produzir arte em outros lugares (fora dos espaços institucionais) de forma autônoma, a paisagem acaba se transformando em lugares próprios, em uma correspondência entre arte e natureza.

Os trabalhos dessa ordem desconcertaram a noção de paisagem ao deslocar o seu entendimento comum de algo parado, enquadrado e rígido a favor de uma paisagem que se faz por meio do fluxo, do deslocamento e da transformação. Esta nova forma de pensar amplia os

26 Disponível em: <http://www.richardlong.org/Sculptures/2011sculptures/linewalking.html>. Acesso em: fev. 2018.

44 modos de criação e, nesse momento, os mapas dão lugar ao percurso e sua sucessão de acontecimentos.

Na transição do minimalismo à Land Art, a paisagem, que é um ponto em comum nas criações do norte-americano Tony Smith e do inglês Richard Long, também se difere quanto ao sentido de atravessamento, isto é, “a paisagem como algo a ser atravessado ou como algo que tenha sido atravessado” (RIBEIRO, 2017, p. 02). Nesta última acepção, é o atravessamento enquanto experiência que se torna um modo de apreensão do mundo e das coisas, uma arte que se constitui caminhando, e com isso o percurso volta a ser uma forma estética no âmbito das artes.

Vários caminhos se abrem a partir das questões que surgem na viagem de Tony Smith. Para os minimalistas, a estrada é tida como objeto no lugar em que a travessia acontece; na Land Art é o próprio percurso como experiência que se torna o acontecimento artístico.

Como exprimir a experiência em forma estética? Para se aproximar desses trabalhos que se inventam por meio dos deslocamentos, o único recurso para análise, na maioria das vezes, são as cartografias. As cartografias, que podem ser concebidas em escritos, vídeos, fotografias, mapas e outros suportes, consistem apenas numa parte da bagagem vivenciada no percurso, a outra parte não é possível ser apresentada, somente experienciada. Transitar por esses objetos- documentos é um modo de se aproximar das sensações, das dificuldades e dos riscos do artista viandante que carrega em seu próprio corpo a vida do território explorado.

Uma forma que os artistas encontraram para divulgar o trabalho realizado em ambiente externo foi justamente voltar para as galerias (como uma forma de memória), apesar da Land Art ter se iniciado principalmente pela contestação ao sistema das galerias e museus. Essa estratégia não foi adotada por todos os artistas, mas ajudou a dar maior projeção ao movimento no ambiente urbano, fazendo com que esse tipo de arte começasse a ser interessante também para a cidade.

O caminhar como uma ação cotidiana passa a ter outros sentidos, no contexto das artes, em meados dos anos 1960 e, por isso, é fundamental reconhecer o desenvolvimento progressivo do caminhar enquanto prática estética. Revisitar essas obras-experiências, que habitaram e re- habitaram territórios múltiplos, colabora para um melhor entendimento da ideia de deslocamento na contemporaneidade. Do nomadismo primitivo à Land Art, a caminhada e o percurso são encarados como experiências intensas, capazes de agir potencialmente tanto nos espaços quanto na subjetividade das pessoas.

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3. PERCURSO: PRÁTICA-PROCEDIMENTO