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1. O DESENVOLVIMENTO DAS CÂMERAS CINEMATOGRÁFICAS ATÉ

1.5. Os principais modelos de câmeras

1.5.4 Mitchell: o mito

Nos anos de 1920 é lançada uma marca de câmera que se tornaria padrão na Hollywood dos anos 1930, 1940, 1950 e 1960 (em seus vários modelos). Com a repentina passagem para o cinema sonoro, e a dificuldade da Bell&Howell 2709 em se adaptar a ele, a Mitchell passa a ocupar o primeiro posto como a câmera mais utilizada pelo cinema industrial norte-americano. Ademais, é a câmera que a Vera Cruz adota como modelo principal, quando da compra de seus equipamentos.

A Mitchell aproveita muito do engenho da 2709: o corpo todo em metal, o chassi em formato de “orelhas de Mickey”, o uso das contragrifas, o uso do rackover para avaliar o foco e enquadramento entre as tomadas. Nos modelos do final dos anos 1920, ao contrário das Bell&Howell, as contragrifas não eram posicionadas logo acima

32 NORONHA, Jurandir. Pioneiros do Cinema Brasileiro. São Paulo: Melhoramentos, s.d. CD-ROM. 33 ADES, Eduardo; KAUFMAN, Mariana (Org.). Luz em movimento: a fotografia no cinema brasileiro.

da janela e fixas, mas entravam e saíam das perfurações por trás, o que tornava o mecanismo mais silencioso por não necessitar que o filme fosse retirado e colocado nas contragrifas fixas, permitindo a adaptação ao sonoro, mesmo que à custa de blimps34 pesadíssimos. Mas o melhor da Mitchell eram os imensos recursos para os efeitos especiais dentro do próprio corpo da câmera. As lentes na torre podiam fazer movimentos como nas máquinas fotográficas de fole35, mudando o plano focal da imagem; defronte à janela havia máscaras que permitiam cobrir parte ou o total do quadro, tanto de cima para baixo quanto lateralmente; o seu rackover era mais prático, não necessitando mover toda a câmera como na 2709, pois na Mitchell o sistema de

rackover movimentava apenas a parte traseira da câmera. Desse modo, o operador não

necessitava ter que mover o parassol (que fica defronte às lentes, na parte frontal da câmera), simplificando o processo de focagem e tornando-o mais rápido. O quadro no visor aparecia melhor do que na concorrente36; havia máscaras já preparadas que

poderiam ser postas defronte do quadro (que poderiam fazer efeitos com formatos de binóculos, fechaduras, oval, redondo, etc.) e colocadas gelatinas (para efeitos de filtro, como escurecer uma parte do céu, por exemplo). Um efeito de íris poderia ser colocado em qualquer parte do quadro, havendo ainda um sistema de máscaras que poderiam se deslocar lateral e horizontalmente (permitindo fazer efeitos de dupla exposição em partes diferentes do quadro, assim como fazer composição, juntando num mesmo quadro imagens filmadas em separado). O visor lateral (o com erro de paralaxe) possuía um despolido, melhorando a precisão do enquadramento37. Desse modo, a Mitchell era uma câmera que devido aos seus inúmeros recursos foi muito utilizada pelos fotógrafos da época. É importante lembrar, boa parte dos efeitos especiais eram realizados diretamente na câmera até os anos 1920 e 1930. Portanto, a Mitchell foi uma câmera muito adequada ao cinema de Hollywood.

Nas câmeras do final dos anos 1920 a Mitchell estabelece o seu famoso movimento, com as grifas puxando o filme para baixo e, quando soltava, as contragrifas agiam. Junto com a Bell&Howell, são consideradas as câmeras mais estáveis que

34 Blimps são invólucros que são colocados ao redor da câmera para reduzir o barulho que elas produzem

nas filmagens com som direto. Como em geral eram feitos de aço, pesavam muito, quase inviabilizando o trabalho em locação.

35 Máquinas de fole são aquelas nas quais a lente é montada numa estrutura que é ligada ao corpo da

câmera por um fole, para permitir que a lente seja inclinada lateral e verticalmente, em busca de correções de perspectiva, muito úteis quando se fotografa itens arquitetônicos.

36 SALT, Barry. Op. cit. p. 156.

existem. Richard Edlund, criador de efeitos especiais nos primeiros três filmes da série

Guerra nas Estrelas38, costumava usá-las, e mesmo hoje ela consta em propagandas de equipamentos de motion control39.

O desenho da Mitchell era tão eficiente, que a Panavision, a câmera que a desbancou no cinema norte-americano, tinha um mecanismo praticamente similar ao dela40, quase uma cópia.

Vale observar, tamanha vantagem tinha seu preço. Como já foi citado, a Mitchell era mais cara que a Bell&Howell, a qual já não era considerada um câmera barata. De modo que a sua aparição no Brasil é rara no cinema silencioso. A primeira Mitchell no Brasil foi adquirida por Ademar Gonzaga41 para sua Cinédia. Podemos ver uma Mitchell na filmagem de Saudade (Adhemar Gonzaga, inacabado). Parte de Limite (Mário Peixoto, 1931)42 foi filmado com ela, emprestada por Adhemar Gonzaga.

Com o passar dos anos, a Mitchell desenvolve novos modelos. Para nós, o modelo que mais interessa é a Mitchell BNC (Blimped Newsreel Camera). A BNC é uma evolução da Mitchell NC (Newsreel Camera), que foi lançada em 1930, numa tentativa de se produzir uma câmera mais silenciosa com o advento do cinema falado. A vantagem da BNC é que seu blimp era mais integrado ao corpo da câmera, permitindo que se fizesse o rackover de modo mais simples, facilitando o trabalho de se conferir o enquadramento e o foco. É importante reiterar que as câmeras Mitchell não possuíam, até a década de 1960, visores diretos, ou seja, um sistema reflex no qual, ao se filmar, se enxergasse o exato enquadramento. E o peso da Mitchell BNC com seu blimp, ainda que grande (em torno de 60 kg), era inferior ao da Mitchell NC com um blimp. Também foi modificado na nova câmera o número de lentes que poderiam ser montadas. A BNC abolia o sistema de torres, em que era possível colocar quatro lentes, e passa a permitir a montagem de uma só lente em frente à câmera.

A Mitchell BNC pode ser considerada o cavalo de batalha das câmeras de estúdio. Grande parte deste sucesso se deveu ao seu sistema, advindo dos modelos de câmeras Mitchell do final dos anos vinte. Era a presença das contragrifas, que dão uma

38 Composta pelos filmes Guerra nas estrelas (Star Wars, George Lucas, 1977), O império contra-ataca

(Star Wars: episode V – The empire strikes back , Irvin Kershner, 1980) e O retorno de jedi (Star Wars:

episode VI – Return of the jedi , Richard Marquand, 1983).

39 Motion control é uma máquina que faz movimentos de câmera extremamente precisos, e com repetição

idem. São controlados por computador. Assim, podem ser feitas várias tomadas, exatamente com o mesmo movimento, e isto é utilizado para efeitos de composição de imagem.

40 SALT, Barry. Op. cit. p. 257. 41 NORONHA, Jurandir. Op. cit.

imagem com fixidez muito grande. Estas eram em número de duas, e o filme era tracionado por quatro grifas, sendo duas de cada lado do filme.

Como a imensa maioria das câmeras de sua época, a BNC trazia a roda dentada inserida dentro do corpo da câmera, assim como as grifas e contragrifas. A laçada se dava então dentro do corpo da câmera. Este procedimento, padrão à época, possui alguns significados para o operador. Primeiro, facilita o carregamento do chassi, pois o segundo assistente de câmera só tem o trabalho de carregar o filme virgem e fazê- lo passar por uma fenda saindo pela base do chassi. Esta parte é feita no escuro. No claro, ele deve voltar o filme por outra fenda, retornando para dentro do chassi, fazendo- o encaixar no lado onde vai ser recolhido o filme exposto. Como esta operação tem de ser feita parte no escuro e parte no claro, este procedimento simples pode ser executado muito rapidamente, em torno de dois e três minutos por um segundo assistente de câmera experiente. O trabalho maior, que fica ao cargo do primeiro assistente de câmera, que é o de passar o filme pela roda dentada uma primeira vez, encaixá-lo entre a janela e o pressure plate, voltar a passá-lo na roda dentada, formando uma laçada de tamanho ideal. Esta operação pode ser feita no claro e leva de três a cinco minutos quando executada por um primeiro assistente de câmera experiente. Isto implica em que numa filmagem, a cada troca de rolo faz-se necessário uma pausa relativamente longa para a troca do chassi no corpo da câmera. Quando formos estudar as Arriflex e as Éclair veremos que aqui reside uma diferença fundamental entre estas câmeras mais novas e as de desenho mais tradicional. Por ora, basta frisar esta particularidade, sem entrarmos em detalhes desnecessários. .

O fato de ter a roda dentada e mecanismos de movimento intermitente dentro do corpo da câmera faz com que este tenha um volume considerável, pois para acomodar a roda dentada, a laçada, duas contragrifas e as quatro grifas dentro da câmera, e tendo que todo este conjunto se mover, é necessário espaço. Para cada conjunto de grifa, para cada conjunto de contragrifas há um braço mecânico, o que requer espaço livre. Logo é necessário um corpo de câmera volumoso. Assim como os modelos precedentes, a BNC tinha obturador variável, que poderia ser variado enquanto o plano era rodado (permitido clareamentos e escurecimentos feitos na câmera), a possibilidade de efeitos dentro da câmera, como máscaras e íris, além de uma follow

focus43 e parassol44. Era uma câmera que poderia ser rodada de trás para frente,

perfazendo uma série enorme de possibilidades para os diretores de fotografia manipularem efeitos.

Em resumo, a Mitchell BNC era uma câmera grande, pesada, sem visor reflex, porém com uma estabilidade excelente, um nível de ruído relativamente baixo para a sua época, e dona de um leque de acessórios considerável, permitindo uma série de possibilidades no seu manuseio. A combinação destas últimas características permitiu- lhe dominar o mercado norte-americano durante quase quarenta anos, reinando absoluta e se tornando um verdadeiro ícone. O sucesso da Mitchell depois da Segunda Guerra foi tão grande que a empresa foi incapaz de suprir a demanda, e permitiu que uma cópia fosse fabricada, sob sua autorização, pelo fabricante inglês Newall45, cujas câmeras também foram adquiridas pela Vera Cruz.

Para se ter uma idéia do que a Mitchell significou para os cineastas de sua época, vale a pena citar Roberto Santos, sobre a filmagem do seu longa-metragem O

grande momento (Roberto Santos, 1958):

“Mas o restante do filme foi feito com uma Newal [sic] – uma filhote da Mitchell, com rolo de 300 metros - e uma Debrie pesadona que tinha na Maristela. A Arriflex era uma câmera tão precária, do nosso ponto de vista, que não passava pela cabeça de ninguém filmar com uma Arriflex se houvesse a possibilidade de filmar com uma Mitchell, eu acho que as razões disso são evidentes: porque uma qualidade pior se se pode ter melhor qualidade?”46.

fig. 11: uma Mitchell modelo BNC com blimp e cabeça a manivela. (fonte: INTERNET ENCYCLOPEDIA OF CINEMATOGRAPHERS.

Classic motion picture cameras. Disponível: <

http://www.cinematographers.nl/Cameras/Mitchell- BNC.jpg>. Acesso em: 26 abr. 2009)

assistente não se vê obrigado a ficar com a mão sobre o anel de foco da lente, o que o coloca numa posição desconfortável e em rota de colisão com o operador de câmera.

44 Em inglês parassol se chama mattebox. Tal termo deriva do fato de que era nele que se faziam os

efeitos de matte, ou “máscaras” em português, aplicados sobre a imagem do negativo no cinema mudo. É nele também onde se colocam os filtros.

45 THE FILM CENTRE. Camera data. Disponível em <http://www.filmcentre.co.uk/faqs_film.htm>.

Acesso em: 05 mar. 2009.

46

GALVÃO, Maria Rita. Burguesia e Cinema: O Caso Vera Cruz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira

fig. 12: uma Mitchell modelo standard. (fonte: INTERNET ENCYCLOPEDIA OF CINEMATOGRAPHERS. Classic motion picture

cameras. Disponível: <http://www.cinematogra

phers.nl/Cameras/Mitchell-Standard.jpg>. Acesso em: 26 abr. 2009)

fig. 13: uma Mitchell modelo NC. (fonte: INTERNET ENCYCLOPEDIA OF CINEMATOGRAPHERS. Classic motion picture cameras. Disponível: <http://www.

cinematographers.nl/Cameras/Mitchell-NC.jpg >. Acesso em: 26 abr. 2009)