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3 A FIGUR A DO J UIZ NO INQUÉRITO POLICI AL HOJE

4.2 AS INVESTIGAÇÕES NO P ROJETO DE LEI 156/2009

TÍTULO II

DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL CAPÍTULO I

DISPOSIÇÕES GERAIS

Ar t . 8 º. A i n v e s t i g a ç ã o c r im i n a l t e m p o r o b j e t i v o a i d e n t if ic a ç ã o d a s f o n t e s d e p r o v a e s e r á i n i c i a d a s e m p r e q u e h o u v e r f u n d a m e n t o r a zo á v e l a r e s p e it o d a p r á t ic a d e u m a i n f r a ç ã o p e n a l .

Ar t . 9 º. A a u t o r id a d e c o m p e t e n t e p a r a c o n d u zi r a in v e s t i g a ç ã o c r im in a l, o s p r o c e d im e n t o s a s e r e m o b s e r va d o s e o s e u p r a z o d e e n c e r r a m e n t o s e r ã o d e f i n i d o s e m l e i.

A in vestigação criminal vem re gulad a no PL 156 /2009 nos artigo s 8º ao 13.

Objetiva a produ çã o de pro vas da au toria re lativa s ao crime e de ve rá se r iniciada sempre qu e houve r ind ício s d o cometimento de crime.

Logo no p rime iro artigo referente à inve stigação crimin al, o p rojeto já ino va ao deixa r e xp resso que a in ve stigação crim inal só será iniciada se houve r fundamento ra zoá vel da prá tica da infração, co nforme art. 8º:

“A investigação criminal tem por objetivo a identificação das fontes de pro va e se rá iniciada sempre que houve r fundamento ra zoá ve l a respeito da prática de uma infração penal.”

Em seguida, no art. 11 o projeto repete o conteúdo da súmula vincu lante 14 do STF ao dispor:

É d ir e i t o d o d e f e n s o r , n o in t e r e s s e d o r e p r e s e n t a d o , t e r a c e s s o a m p l o a o s e le m e n t o s d e p r o v a q u e , j á d o c u m e n t a d o s e m p r o c e d im e n t o i n v e s t i g a t ó r io r e a l i za d o p o r ó r g ã o c o m c o m p e t ê n c ia d e p o lí c i a j u d ic iá r i a , d i g a m r e s p e i t o a o e x e r c í c io d o d ir e it o d e d e f e s a .

Esse artigo trata do acesso à informação quando da in vestigação. O advo gado tem ace sso às pro vas, te ndo inclusive o d ireito de cop iá-las.

Contudo ao ad vo gado não é assegurada a pa rticipa ção na colhe ita de pro vas e ga rantido o sigilo du rante a condução das in ve stigações.

Ar t . 1 1 . É g a r a n t i d o a o i n ve s t ig a d o e a o s e u d e f e n s o r a c e s s o a t o d o m a t e r i a l j á p r o d u zi d o n a i n v e s t i g a ç ã o c r im in a l, s a l v o n o q u e c o n c e r n e , e s t r i t a m e n t e , à s d i l i g ê n c ia s e m a n d a m e n t o . P a r á g r a f o ú n ic o . O a c e s s o a q u e f a z r e f e r ê n c ia o c a p u t d e s t e a r t i g o c o m p r e e n d e c o n s u lt a a m p l a , a p o n t a m e n t o s e r e p r o d u ç ã o p o r f o t o c ó p i a o u o u t r o s m e io s t é c n ic o s c o m p a t í ve is c o m a n a t u r e za d o m a t e r i a l.

O artigo sup racita do coaduna com a pre visão constitucional do art. 5º, L V da Constituição Federal que busca garantir a ampla defesa: “aos litigantes, em processo jud icial ou administrativo, e aos acusad os em geral são asse gurados o con traditó rio e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes;”. O acesso do investigado às provas é necessário exatamente pa ra o pleno e xercício destes direito s.

Contudo e xiste ce rta dificuldade em compatibiliza r a pre visão do a rtigo 11 do PL156 /2009 com a súmula acima transcrita. Isto porque, a súmula se refere aos elementos de prova já documentados, enquanto o art. 11 se refere ao material que já tenha sido produ zido na in vestigação crim inal, momentos distintos. Pinto e Silva citando SILVERIA, 2 011, pág. 51 escla rece m que se deve discern ir entre os dois momentos das pro vas, quais sejam o de sua produção e de documentação. Afirma ele ser necessária a distin ção so bre o momento do sigilo (assunto tratado no item 1 .3). Este se re laciona à fase de produção da p ro va. Trata o PL 1 56 não da juntad a das pro va s produ zida s aos autos do inqué rito, ma s ao d ire ito do in ve stigado de ter acesso a pro va p roduzida e redu zida a te rmo, por e xe mplo, ainda que

esta ainda não ten ha sido documenta da , e juntado o te rmo ao s autos pelo dele gado.

Também poderá o inve stigado e xercer a ampla defesa te ndo em vista a pre visão de que é dire to deste ser ouvido pe la autoridade antes do término das in vestigações. Preo cupou -se o p rojeto com a possib ilidade de o investigado ter recon hecido seu direito de ser ou vido pelo delegado, podendo também influenciar na p ropositura de no va s diligência s contribu indo para o d eslinde da in vestigação.

Ar t . 1 2 . É d ir e it o d e o i n ve s t ig a d o s e r o u v i d o p e l a a u t o r i d a d e c o m p e t e n t e a n t e s q u e a i n v e s t i g a ç ã o c r im i n a l s e j a c o n c l u í d a . P a r á g r a f o ú n ic o . A a u t o r id a d e t o m a r á a s m e d id a s n e c e s s á r i a s p a r a q u e s e j a f a c u l t a d o a o in v e s t i g a d o o e x e r c í c i o d o d ir e i t o p r e v is t o n o c a p u t d e s t e a r t i g o , s a l v o im p o s s ib i l i d a d e d e v i d a m e n t e j u s t if ic a d a

Ouvir o indiciado significa d ar a ele a possibilidade de inclusive faze r emergir a nece ssid ade de busca de n ova s p ro vas , e pa ra tanto , no va s diligência s.

O inte rro gató rio, a ntes meio de p ro va, passa a go ra, so b o enfoque do PL 156/2009 a se r tratado como meio de defesa do acusado. Se ndo-lhe ga rantido ao acusa do ser informado de todo o teor da denúncia e do s fatos que lhe são imputados, tendo então o direito de ser ou vido em interro gatório e xercendo assim seu dire ito à defesa. Assim também o interro gatório do réu pre so, pod endo ser rea liza do ago ra por videoconferência.

No artigo 13 há a possibilidade de o indiciado p rodu zir pro va s que repute necessárias à sua defesa.

Ar t . 1 3 . É f a c u lt a d o a o in v e s t i g a d o , p o r m e i o d e s e u a d v o g a d o , d e d e f e n s o r p ú b lic o o u d e o u t r o s m a n d a t á r i o s c o m p o d e r e s e x p r e s s o s , t o m a r a in ic i a t i v a d e id e n t if ic a r f o n t e s d e p r o v a e m f a v o r d e s u a d e f e s a , p o d e n d o i n c l u s i v e e n t r e v is t a r p e s s o a s .

§ 1 º As e n t r e v is t a s r e a li za d a s n a f o r m a d o c a p u t d e s t e a r t ig o d e v e r ã o s e r p r e c e d i d a s d e e s c la r e c im e n t o s s o b r e s e u s o b j e t i v o s e d o c o n s e n t im e n t o f o r m a l d a s p e s s o a s o u v i d a s .

§ 2 º A v í t im a n ã o p o d e r á s e r i n t e r p e l a d a p a r a o s f in s d e i n ve s t ig a ç ã o d e f e n s i v a , s a l vo s e h o u ve r a u t o r i za ç ã o d o j u i z d a s g a r a n t i a s , s e m p r e r e s g u a r d a d o o s e u c o n s e n t im e n t o .

§ 3 º N a h i p ó t e s e d o § 2 º d e s t e a r t i g o , o j u i z d a s g a r a n t ia s p o d e r á , s e f o r o c a s o , f ix a r c o n d iç õ e s p a r a a r e a l i za ç ã o d a e n t r e vis t a .

§ 4 º O s p e d id o s d e e n t r e v is t a d e ve r ã o s e r f e it o s c o m d is c r iç ã o e r e s e r v a n e c e s s á r i a s , e m d i a s ú t e is e c o m o b s e r v â n c i a d o h o r á r i o c o m e r c i a l.

§ 5 º O m a t e r ia l p r o d u zi d o p o d e r á s e r j u n t a d o a o s a u t o s d o i n q u é r it o , a c r it é r i o d a a u t o r i d a d e p o l ic i a l.

§ 6 º As p e s s o a s m e n c i o n a d a s n o c a p u t d e s t e a r t i g o r e s p o n d e r ã o c i vi l , c r i m in a l e d is c i p l i n a r m e n t e p e l o s e x c e s s o s c o m e t i d o s .

Nesse sentido pode inclusive entre vistar pessoa s. Pinto e Silva (2013 ) escla recem que a redação do artigo causa certa espé cie uma ve z que parece ser permitido ao indiciado entre vista r pessoas pessoalmente, o que se ria uma aberra ção juríd ica atribuir -lhe ta is poderes. Para dirimi r tal confusão a Co missã o de Acompa nhamento Legislativo do Conselho Naciona l de Procuradores -Ge rais de Justiça su gere modificação na redação do artigo, a saber:

É f a c u l t a d o a v í t im a , o u s e u r e p r e s e n t a n t e l e g a l , e a o i n ve s t ig a d o i d e n t if ic a r f o n t e s d e p r o v a e m f a vo r d e s u a d e f e s a , p o d e n d o i n c lu s i v e i n d ic a r p e s s o a s a s e r e m e n t r e vis t a d a s , n o s t e r m o s d o a r t . 2 6 d e s t e C ó d ig o .

Também os prazos se alte raram no PL 156 /2009. O inquérito de ve se encerra r em 15 d ias caso o indiciad o esteja p reso , e em 90 dias se solto. No atua l có digo ess e s p ra zos são re spectivame nte de 10 e 30 dias.

O resu ltado desta in vestigação não se destina rá ao judiciá rio como hoje, se destina ao convencimento do órgão acusado r. Não há que se perqu irir, po rtanto, sobre a atuação do judiciário nesta fase, senão como ga rantido r d os direito s e gara ntias do indiciado, ao que será chamado a atuar o juiz das garantias, instituto introdu zid o pelo p rojeto de lei

O in quérito po licia l virá d isciplinado à partir do Cap ítu lo III, do T ítulo II, a rt.

18 e segu intes do Projeto de Le i 156/2009.

No a rt. 20 do PL 156 /2009 é dada legitimidade para inciar o IP apenas à autoridade po licial, o Min isté rio Pú blico e a p róp ria vítima ou quem a represente . Ademais, qua lquer pesso a do po vo que tive r conhecimento da prática de infração penal poderá com unicá -la ao dele ga do de polícia ou a o Min isté rio Púb lico, ve rbalmente ou por escrito, pa ra que sejam adotadas as pro vidên cias cab íveis, caso ha ja fundamento ra zoá ve l para o in ício da in vestigação.

A redação do a rt. 2 0 do P ROJETO DE LEI 156/2009:

O i n q u é r i t o p o l ic ia l s e r á i n ic i a d o : I – de ofíc io;

I I – m ediante requisiç ão do Ministér io Público;

I I I – a r equer im ento, verbal ou esc rito, da vítim a ou de quem t i v e r q u a li d a d e p a r a

r e p r e s e n t á - la .

§ 1 º A v í t im a o u s e u r e p r e s e n t a n t e le g a l t a m b é m p o d e r ã o s o lic i t a r a o M in is t é r i o Pú b l ic o a r e q u is iç ã o d e a b e r t u r a d o i n q u é r it o p o l ic i a l.

§ 2 º D a d e c is ã o q u e i n d e f e r ir o r e q u e r im e n t o f o r m u l a d o n o s t e r m o s d o in c is o I I I d e s t e a r t i g o , o u s o b r e e l e n ã o s e m a n if e s t a r a a u t o r i d a d e p o l ic i a l e m 3 0 ( t r i n t a ) d i a s , a ví t im a o u s e u r e p r e s e n t a n t e l e g a l p o d e r ã o r e c o r r e r , n o p r a zo d e 5 ( c i n c o ) d i a s , à a u t o r id a d e p o l ic i a l h i e r a r q u ic a m e n t e s u p e r i o r , o u r e p r e s e n t a r a o M i n is t é r io P ú b l ic o n a f o r m a d o p a r á g r a f o a n t e r i o r .

Cumpre re ssaltar que o PL 156/2009 continua tra zendo a pre visão do sigilo no inqué rito policia l, como se nota na dicção do a rt.10 in verbis :

Ar t . 1 0 . T o d a i n v e s t i g a ç ã o c r im i n a l d e v e a s s e g u r a r o s ig i l o n e c e s s á r io à e l u c i d a ç ã o d o f a t o e à p r e s e r va ç ã o d a i n t im id a d e e vi d a p r i v a d a d a v í t im a , d a s t e s t e m u n h a s , d o i n ve s t ig a d o e d e o u t r a s p e s s o a s in d ir e t a m e n t e e n v o l vi d a s . Parág raf o único. A autoridad e d ilig enciará p ara q ue a s pesso as ref eridas no cap ut deste ar tig o não sejam submetidas à e xpos ição dos me ios de co munic ação.

Dentre outras a lterações, destaca -se a altera ção no pra zo para co m conclusão do IP, que hoje é de 30 dia s, pro rro gá veis, em caso de réu so lto, e 15 dias, impro rro gá ve is, no caso de réu pre so.

Assim os a rtigos 3 1 e 32 do PL 156/2009:

S e ç ã o V

D o s p r a zo s d e c o n c l u s ã o

Ar t . 3 1 . O in q u é r i t o p o l ic i a l d e v e s e r c o n c l u í d o n o p r a zo d e 9 0 ( n o v e n t a ) d i a s , e s t a n d o o i n v e s t i g a d o s o lt o .

§ 1 º D e c o r r i d o o p r a z o p r e v is t o n o c a p u t d e s t e a r t i g o s e m q u e a i n ve s t ig a ç ã o t e n h a s i d o c o n c l u í d a , o d e l e g a d o d e p o l í c ia c o m u n ic a r á a s r a zõ e s a o M i n is t é r i o Pú b l ic o c o m o d e t a l h a m e n t o d a s d i l ig ê n c i a s f a l t a n t e s , p e r m a n e c e n d o o s a u t o s p r i n c ip a is o u c o m p l e m e n t a r e s n a p o l í c ia j u d ic i á r ia p a r a c o n t in u i d a d e d a i n ve s t ig a ç ã o , s a l v o s e h o u ve r r e q u is iç ã o d o ó r g ã o m i n is t e r ia l .

§ 2 º A c o m u n ic a ç ã o d e q u e t r a t a o § 1 º d e s t e a r t i g o s e r á r e n o v a d a a c a d a 3 0 ( t r i n t a ) d i a s , p o d e n d o o M i n is t é r io Pú b l ic o r e q u is i t a r o s a u t o s a q u a l q u e r t e m p o .

§ 3 º Se o in v e s t i g a d o e s t i v e r p r e s o , o i n q u é r it o p o l ic i a l d e v e s e r c o n c l u í d o n o p r a zo d e 1 5 ( q u in ze ) d i a s .

§ 4 º C a s o a i n v e s t i g a ç ã o n ã o s e j a e n c e r r a d a n o p r a zo p r e v is t o n o

§ 3 º d e s t e a r t i g o , a p r is ã o s e r á r e v o g a d a , e x c e t o n a h i p ó t e s e d e p r o r r o g a ç ã o a u t o r i za d a p e lo j u i z d a s g a r a n t i a s , a q u e m s e r ã o e n c a m in h a d o s o s a u t o s d o i n q u é r i t o e a s r a zõ e s d o d e l e g a d o d e p o l í c ia , p a r a o s f i n s d o d is p o s t o n o p a r á g r a f o ú n ic o d o a r t . 1 4 .

§ 5 º Em c a s o d e c o n c u r s o d e p e s s o a s , o s a u t o s d o i n q u é r i t o p o l ic i a l poderão se r d e s m e m b r a d o s e m re la ç ã o a o i n ve s t ig a d o q u e e s t i v e r p r e s o , t e n d o e m vis t a o d is p o s t o n o s § § 3 º e 4 º d e s t e a r t i g o .

Ar t . 3 2 . N ã o o b s t a n t e o d is p o s t o n o a r t . 3 1 , c a p u t e § § 1 º e 2 º , o i n q u é r it o p o l ic i a l n ã o e x c e d e r á a o p r a zo d e 7 2 0 ( s e t e c e n t o s e v i n t e ) d i a s .

§ 1 º Es g o t a d o o p r a zo p r e v is t o n o c a p u t d e s t e a r t i g o , o s a u t o s d o i n q u é r it o p o l ic i a l s e r ã o e n c a m i n h a d o s a o j u i z d a s g a r a n t i a s p a r a a r q u i v a m e n t o .

§ 2 º Em f a c e d a c o m p le x i d a d e d a in v e s t i g a ç ã o , c o n s t a t a d o o e m p e n h o d a a u t o r i d a d e p o l ic ia l e o u v id o o M in is t é r i o P ú b l ic o , o j u i z d a s g a r a n t ia s p o d e r á p r o r r o g a r o i n q u é r it o p e l o p e r í o d o n e c e s s á r io à c o n c l u s ã o d a s d il i g ê n c i a s f a l t a n t e s .

Os pra zos no p roje to do no vo cód igo merecem des ta que . Observa-se que o projeto tra z um pra zo má ximo para o conclusão do in qu érito. O pra zo para a conclusão, vem regulado no a rt. 31 do PL 156/2009, que p re vê que este não poderá exce der a 720 dias, ou seja, 2 anos, sob pena de encaminhamento dos autos ao juiz das ga rantia s para arquivamento, acabando assim, com os casos de In ve stiga ções que se arrastam por mais

de 10 anos, acarretando a pre scrição da pena.Conforme o caso e a necessidade p ro rro ga r o pra zo, se gun do pre visão do art. § 2º do art. 32.

5 O JUIZ D AS G AR ANTI AS NO P ROJETO DE LEI 156/2009

O Código de Processo Penal em vigor atualmente data de 1941, cujo conte xto histórico, político social e cultu ral e ra outro. Atualmente, merecida atenção tem sido dada à necessidade de se modificar a legislação p rocessual penal brasileira. Para tanto des de 2009 tramita no Congresso Na cional o PL 159/2009, projeto de le i que tem por finalidade introdu zir profundas e necessárias mudanças no Código de Processo Penal.

Muito s esforço s tem sido vertido s no sentido d e dar me lhor aplicab ilidade ao Código de Pro cesso Penal vigente, po is ine gá ve l é a necessidade de m odificação e aprim oramento deste. O PL 156/2009 concretiza essa n ecessidade ao tra ze r significativa s altera ções em vá rio s institutos d o Processo Penal brasile iro inclusive na fase de inqué rito policia l, fase, como já exp licado, situada na esfera administrativa, pré -processual.

Nesse conte xto o p rojeto p ropõe a in serção de um in stitu to ino vado r no Direito Penal bra sile iro, o Juiz das Garantias. Esse juiz é um magistrado que atuará desde o momento em que é instaurado o inqué rito até sua finalização, com o oferecimento ou n ão da denúnc ia pelo titu lar da ação penal.

Importante ressaltar que esse juiz não presidirá o in quérito, que continuará sob a p residên cia do D e le gado de Polícia. Esse juiz esta rá vo ltado para o respeito aos dire itos e garantias fundamentais do in vestigado ou indiciado, e para proporciona r a imparcialidade necessária à quele juiz que atua rá na instrução do pro cesso , ju lgando o mérito da cau sa.

Sobre o juiz da s ga rantia s, e xposição de motivo s do PL 159/2009 assim preleciona:

P a r a a c o n s o l i d a ç ã o d e u m m o d e l o o r i e n t a d o p e lo p r i n c í p i o a c u s a t ó r i o , a in s t it u i ç ã o d e u m j u i z d e g a r a n t i a s , o u , n a t e r m i n o l o g i a e s c o l h id a , d e u m j u i z d a s g a r a n t i a s , e r a d e r i g o r . I m p e n d e s a l i e n t a r q u e o a n t e p r o j e t o n ã o s e l im it o u a e s t a b e l e c e r u m j u i z d e i n q u é r i t o s , m e r o g e s t o r d a t r a m it a ç ã o d e i n q u é r i t o s p o l ic ia is . F o i, n o p o n t o , m u i t o a lé m . O j u i z d a s g a r a n t i a s s e r á o r e s p o n s á ve l p e l o e x e r c í c i o d a s f u n ç õ e s j u r is d ic i o n a is a lu s i v a s à t u t e l a im e d i a t a e d ir e t a d a s i n vi o l a b i l i d a d e s p e s s o a is . A p r o t e ç ã o d a in t im id a d e , d a p r i va c i d a d e e d a h o n r a , a s s e n t a d a n o t e x t o c o n s t it u c i o n a l, e x ig e c u id a d o s o e x a m e a c e r c a d a n e c e s s i d a d e d e m e d id a c a u t e l a r a u t o r i za t i v a d o t a n g e n c i a m e n t o d e t a is d ir e it o s i n d i v i d u a is .

Sobre o tema Mau rício Za noide de Mo raes d ispõe :

S e j á t e m o s j u í ze s a t u a n d o n e s s a f a s e d e i n ve s t ig a ç ã o , p o r q u e d e v e r á h a v e r u m m a g is t r a d o c o m e s s a e s ó c o m e s s a f u n ç ã o e s p e c í f ic a ? P o r q u e o q u e s e v is a c o m e s s a f ig u r a j u r í d ic a n ã o é a p e n a s a t e n d e r o c i d a d ã o n a p r o t e ç ã o d e s e u s d ir e i t o s n a in v e s t i g a ç ã o e d o s ó r g ã o s d e p e r s e c u ç ã o e t e r u m j u i z m a is a f e it o à r e a li d a d e d e u m a i n ve s t i g a ç ã o c r im i n a l , m a s a g r a n d e f i n a l i d a d e d e s u a i n s e r ç ã o e s t á e m g a r a n t ir q u e o j u i z d a c a u s a n ã o a t u e c o n t a m in a d o p o r s u a a t u a ç ã o a n t e r i o r ( e m f a s e i n v e s t i g a t i va ) . C o m is s o s e e vi t a m o s i n e g á ve is c o m p r o m e t im e n t o s d e r e s u l t a d o e v i n c u l a ç ã o p s ic o l ó g ic a q u e o m a g is t r a d o q u e a t u o u n a i n ve s t ig a ç ã o c a r r e g a p a r a d e n t r o d a a ç ã o p e n a l . Q u e m é c a p a z d e n e g a r q u e u m m a g is t r a d o a t u a n t e n a f a s e d e i n ve s t i g a ç ã o j á f o r m e s u a c o n v ic ç ã o d e s d e e s s e p r im e ir o i n s t a n t e , s e n d o , n ã o r a r a s a s ve ze s , ir r e l e v a n t e a f a s e j u d ic ia l ? C o m a s e p a r a ç ã o d a f a s e j u d ic i a l , c o n f o r m e p r o j e t a d o , g a r a n t e - s e d e f o r m a m u i t o m a is e f e t i v a o d e v i d o p r o c e s s o l e g a l , o c o n t r a d i t ó r i o , o d ir e it o à p r o va e a p r e s u n ç ã o d e i n o c ê n c ia ( Z AN O I D E, Bo l e t im I B C R I M , 2 0 1 0 , p á g . 2 2 ) .

Luiz Flá vio Gomes sobre o tema e xp lica:

O j u i z d a s g a r a n t i a s ( p r o j e t a d o ) , d e o u t r o l a d o , n ã o t e m n a d a a ve r c o m o j u i z o u j u i za d o d e i n s t r u ç ã o ( d a Es p a n h a e F r a n ç a , v . g . ) . O j u i z d a s g a r a n t i a s n ã o v i a p r e s id ir o in q u é r i t o p o l ic i a l , is t o é , v a i a p e n a s c u id a r d a s u a l e g a l i d a d e a s s im c o m o d o r e s p e i t o a o s d ir e i t o s e g a r a n t i a s f u n d a m e n t a is d o i n d ic i a d o o u s u s p e it o . A f i g u r a d o j u i z d a s g a r a n t i a s n ã o e x t i n g u e o in q u é r i t o p o lic i a l o u o u t r o p r o c e d im e n t o i n ve s t ig a t ó r i o ( le v a d o a c a b o p o r q u e m d e d ir e i t o , d e a c o r d o c o m a le i – CPP, art. 4º, par ágraf o único) ( Luiz Flávio, ar tigo O j u i z d e ( d a s ) g a r a n t i a s p r o j e t a d o p e lo n o v o C ó d i g o d e Pr o c e s s o P e n a l , 2 0 1 0 , p á g . 0 1 ) .

O juiz das ga rantias no PL 156/20 09 surge, po rtanto, como figura ga rantido ra do re speito aos diretos fundamentais dos inve stigados na fase pré-pro cessua l, capa z de conferir ce rta impa rcia lidade ao juiz da causa. A e le não é dado geren cia r o inqué rito, sua atuação deve ser pro vocada caso d ire itos fundamentais re lativos aos envo lvidos na in vestigação estejam sendo violad os. Não cabe a ele solicita r diligência s e nem decidir os rumos da in vestigação.

Nesse sentido a e xposição de motivos do PL 156/2009 assim e xplica:

O d e s l o c a m e n t o d e u m ó r g ã o d a j u r is d i ç ã o c o m f u n ç ã o e x c lu s i v a d e e x e c u ç ã o d e s s a m is s ã o a t e n d e à d u a s e s t r a t é g ia s b e m d e f i n id a s , a s a b e r : a ) a o t im i za ç ã o d a a t u a ç ã o j u r is d ic i o n a l c r im in a l, i n e r e n t e à e s p e c i a l i za ç ã o n a m a t é r ia e a o g e r e n c i a m e n t o d o r e s p e c t i vo p r o c e s s o o p e r a c io n a l; e b ) m a n t e r o d is t a n c i a m e n t o d o j u i z d o p r o c e s s o , r e s p o n s á ve l p e l a d e c is ã o d e m é r it o , e m r e l a ç ã o a o s e l e m e n t o s d e c o n v ic ç ã o p r o d u zi d o s e d ir ig i d o s a o ó r g ã o d a a c u s a ç ã o .

Frisa -se mais uma ve z que o ju iz da s ga rantias terá a função não só de ga rantir os direito s do acusado na persecução crimin al mas também, como já dito, de garantir a impa rcia lidade do juiz que a tuará na fase processual, uma vez que este último não atuará na fase do inquérito, ficando distante dos atos da fase de investigaçã o e portanto suficientemente alh eio para ap reciar a s pro va s sem pré -julgamentos.

A exposição de motivos ainda reafirma a necessidade de os Tribunais atuarem na busca da afirmação do papel do ju iz das ga rantias:

Evidentemente, e como ocorre em qualquer alteração na organização judiciária, os tribunais desempenharão um papel de fundamental importância na afirmação do juiz das garantias, especialmente no estabelecimento de regras de substituição nas pequenas comarcas. No entanto, os proveitos que certamente serão alcançados justificarão plenamente os esforços nessa direção.

Como se vê essa figura, do ju iz das ga rantias, ora confirmada pelo PL 156, terá fundamental importância na efetivação do siste ma acusatório no processo penal, não olvidando esforços o le gislado r na intenção de

ga rantir ao ju ízo p rocessual a máxim a isenção quando do julgamento, uma ve z que este estará isento para presidir o p rocesso e va lora r a s pro vas. Acredita -se com isso que o inqué rito e, po rtanto a fase in vestigatória, gan hará, além de se gurança ju ríd ica pa ra o ind iciado, relativa ce leridade, pois atuaria nessa fase um juízo com exclusividade para tanto .

Sobre suas competências, desta ca -se o Capítulo II do Projeto de Lei que tra z o a rtigo 14 que as e lenca:

Ar t . 1 4 . O j u i z d a s g a r a n t ia s é r e s p o n s á v e l p e lo c o n t r o l e d a l e g a l id a d e d a in v e s t i g a ç ã o c r im in a l e p e l a s a l v a g u a r d a d o s d ir e i t o s i n d i vi d u a is c u j a f r a n q u i a t e n h a s i d o r e s e r v a d a à p r é v i a d o P o d e r J u d ic i á r io , c o m p e t i n d o - l h e e s p e c i a lm e n t e : I – rec eber a com unic ação im ediata da pr is ão, nos term os do i n c is o L X I I d o a r t . 5 º d a C o n s t i t u iç ã o d a R e p ú b l ic a ;

I I – rec eber o auto da pr is ão em flagrante, para efeito do d is p o s t o n o a r t . 5 5 5 ;

I I I – zelar pela obser vânc ia dos dir eitos do s pres os , podendo d e t e r m in a r q u e e s t e s e j a c o n d u zi d o a s u a p r e s e n ç a ;

I V – s er inform ado da aber tur a de qualquer inquér ito polic ial;

V – dec idir sobr e o pedido de pr is ão pr ovisór ia ou outr a m e d i d a c a u t e l a r ;

VI – pr orr ogar a pr isão pr ovisór ia ou outr a m ed ida c autelar , b e m c o m o s u b s t it u í - la s o u r e v o g á - l a s ;

VI I – dec idir sobre o pedido de pr oduç ão antec ipada de p r o v a s c o n s id e r a d a s u r g e n t e s e n ã o r e p e t í v e is , a s s e g u r a d o s o c o n t r a d i t ó r i o e a a m p la d e f e s a ;

VI I I – pr orrogar o pr azo de duraç ão do inquér ito, es ta ndo o i n ve s t ig a d o p r e s o , e m a t e n ç ã o à s r a zõ e s a p r e s e n t a d a s p e la a u t o r i d a d e p o l ic ia l e o b s e r va n d o o d is p o s t o n o p a r á g r a f o ú n ic o d e s t e a r t ig o ;

I X – determ inar o tr ancam ento do inquér ito polic ial quando n ã o h o u v e r f u n d a m e n t o r a zo á v e l p a r a s u a i n s t a u r a ç ã o o u p r o s s e g u im e n t o ;

X – requisitar doc um entos, laudos e inform ações da

a u t o r i d a d e p o l ic ia l s o b r e o a n d a m e n t o d a in v e s t i g a ç ã o ; X I I – dec idir s obr e os pedidos de:

a ) i n t e r c e p t a ç ã o t e l e f ô n ic a o u d o f l u x o d e c o m u n ic a ç õ e s e m s is t e m a s d e in f o r m á t ic a e t e l e m á t ic a ;

b ) q u e b r a d o s s i g i l o s f is c a l , b a n c á r i o e t e l e f ô n ic o ; c ) b u s c a e a p r e e n s ã o d o m ic i l ia r ;

d ) o u t r o s m e io s d e o b t e n ç ã o d a p r o v a q u e r e s t r i n j a m d ir e i t o s f u n d a m e n t a is d o in v e s t i g a d o .

X I I I – julgar o habeas c or pus im petrado antes do o f e r e c im e n t o d a d e n ú n c ia ;

X I V – outr as m atér ias inerentes às atr ibuições def inidas no c a p u t d e s t e a r t i g o .

P a r á g r a f o ú n ic o . Es t a n d o o in v e s t i g a d o p r e s o , o j u i z d a s g a r a n t i a s p o d e r á , m e d i a n t e r e p r e s e n t a ç ã o d a a u t o r i d a d e p o l ic i a l e o u v i d o o M i n is t é r i o P ú b l ic o , p r o r r o g a r a d u r a ç ã o d o

i n q u é r i t o p o r p e r í o d o ú n ic o d e 1 0 ( d e z) d i a s , a p ó s o q u e , s e a in d a a s s im a i n v e s t i g a ç ã o n ã o f o r c o n c l u í d a , a p r is ã o s e r á r e vo g a d a .

Ar t . 1 6 . A c o m p e t ê n c i a d o j u i z d a s g a r a n t i a s a b r a n g e t o d a s a s i n f r a ç õ e s p e n a is , e x c e t o a s d e m e n o r p o t e n c i a l o f e n s i v o e c e s s a c o m a p r o p o s it u r a d a a ç ã o p e n a l .

Assim o PL 156 pre vê que a prisã o de qualque r pessoa de verá se comunicada imedia tamente ao juiz da s garantias, bem como o auto de prisão em flagra nte. A partir da í o ju iz da s garantias pode rá acompanhar as in ve stiga ções ze land o pelo re speito às ga rantia s que assistem ao pre so , assim como o re speito aos pra zos e pro vidências lega is. A ele cab erá também a decretação de medidas cautelare s quando for o caso. A atuação do juiz das ga rantia s se encerra rá quando da propositura da ação p enal, conforme § 2º do art. 16 do PL 156/2009:

Ar t . 1 6 . A c o m p e t ê n c i a d o j u i z d a s g a r a n t i a s a b r a n g e t o d a s a s i n f r a ç õ e s p e n a is , e x c e t o a s d e m e n o r p o t e n c i a l o f e n s i v o e c e s s a c o m a p r o p o s it u r a d a a ç ã o p e n a l .

§1º Proposta a ação penal, as questões pendentes serão decididas pelo juiz do processo.

§2º As decisões proferidas pelo juiz das garantias não vinculam o juiz do processo, que, após o oferecimento da denúncia, poderá reexaminar a necessidade das medidas cautelares em curso.

§3º Os autos que compõem as matérias submetidas à apreciação do juiz das garantias serão juntados aos autos do processo.

Quanto à instituição da figura do Juiz das Garantia s o Conselho Naciona l de Justiça editou Nota Técn ica 10/2014, publicada no DJ -e n º 160/2010, em 01/09/2010, pág. 2-4 , tratando, dentre outros, deste tema:

8 . O Pr o j e t o , p r e o c u p a n d o - s e c o m a c o n s o li d a ç ã o d e u m m odelo acus atór io, institui a figura do „juiz das garantias ‟, q u e s e r á o r e s p o n s á v e l p e l o e x e r c í c i o d a s f u n ç õ e s j u r is d ic i o n a is a lu s i v a s à t u t e l a im e d i a t a e d i r e t a d a s i n vi o l a b i l i d a d e s p e s s o a is , s o b d u a s p r e o c u p a ç õ e s b á s ic a s , s e g u n d o a e x p o s iç ã o d e m o t i vo s , a s a b e r : a d e o t im i za r a a t u a ç ã o j u r is d ic i o n a l c r im in a l e a d e m a n t e r o d is t a n c i a m e n t o d o j u i z in c u m b i d o d e j u lg a r o p r o c e s s o . C o n t u d o , a c o n s o l id a ç ã o d e s s a id e ia , s o b o a s p e c t o o p e r a c i o n a l , m o s t r a -s e i n c o m p a t í ve l c o m a a t u a l e -s t r u t u r a d a -s j u -s t iç a -s e -s t a d u a l e f e d e r a l . O l e v a n t a m e n t o e f e t u a d o p e l a C o r r e g e d o r i a N a c i o n a l d e J u s t iç a n o s is t e m a J u s t iç a A b e r t a r e v e la q u e 4 0 % d a s

v a r a s d a J u s t iç a Es t a d u a l n o Br a s il c o n s t it u e m - s e d e c o m a r c a ú n ic a , c o m a p e n a s u m m a g is t r a d o e n c a r r e g a d o d a j u r is d iç ã o . As s im , n e s s e s l o c a is , s e m p r e q u e o ú n ic o m a g is t r a d o d a c o m a r c a a t u a r n a f a s e d o i n q u é r i t o f ic a r á a u t o m a t ic a m e n t e im p e d id o d e j u r is d i c i o n a r n o p r o c e s s o , im p o n d o - s e o d e s l o c a m e n t o d e o u t r o m a g is t r a d o d e c o m a r c a d is t i n t a . L o g o , a a d o ç ã o d e t a l r e g r a m e n t o a c a r r e t a r á ô n u s a o j á m i n g u a d o o r ç a m e n t o d a m a io r i a d o s j u d ic i á r io s e s t a d u a is q u a n t o a o a u m e n t o d o q u a d r o d e j u í ze s e s e r v id o r e s , l im it a d o s q u e e s t ã o p e l a L e i d e R e s p o n s a b i l i d a d e F is c a l, b e m c o m o n o q u e t a n g e a o g a s t o c o m d e s lo c a m e n t o s e d iá r i a s d o s m a g is t r a d o s q u e d e v e r ã o a t e n d e r o u t r a s c o m a r c a s . A d e m a is , d ia n t e d e t a is d if ic u ld a d e s , c o m a e ve n t u a l im p l e m e n t a ç ã o d e t a l m e d i d a h a v e r á r is c o s a o a t e n d im e n t o d o p r i n c í p io d a r a zo á v e l d u r a ç ã o d o p r o c e s s o , a p a r d e u m p e r i g o im i n e n t e d e p r e s c r iç ã o d e m u it a s a ç õ e s p e n a is . T a m b é m é n e c e s s á r i o a n o t a r q u e h á o u t r o s m o t i vo s d e a f a s t a m e n t o s d o s m a g is t r a d o s d e s u a s u n i d a d e s j u d ic ia is , c o m o n o s c a s o s d e l ic e n ç a , f é r i a s , c o n v o c a ç õ e s p a r a T u r m a s R e c u r s a is o u p a r a c o m p o s iç ã o d e T r i b u n a is ( C O N S EL H O N A C I O N A L D E J U ST I Ç A, 2 0 1 0 )

O art. 162 d o PL15 6/2009 assim p rele ciona:

As p r o v a s s e r ã o p r o p o s t a s p e la s p a r t e s . Pa r á g r a f o ú n ic o . S e r á f a c u l t a d o a o j u i z, a n t e s d e p r o f e r ir a s e n t e n ç a , e s c la r e c e r d ú v id a s o b r e a p r o v a p r o d u zi d a , o b s e r va d o o d is p o s t o n o a r t . 4 º .

E assim o referido art. 4º. “O processo penal terá estrutura acusatória, nos lim ites definid os neste Cód igo, vedada a iniciativa do juiz na fase de in vestigação e a substituição da atuação probató ria do órgão de acusação.”

Pode-se inferir do s artigos supracitado s que, no que diz respe ito à produção de pro va s, não e stará o juiz da instrução (co mo já d ito é u m juiz d istinto do juiz do in quérito) impedido de, excepciona lmente, determinar a p rodução de p ro vas com o intuito de dirimir e ventua is dúvidas ad vindas daquela s já p rodu zidas pelas pa rtes. Rompe -se com a trad ição in quisitoria l na qua l o ju iz dete rmina va prova s de oficio agindo como in ve stigador, passando agora a ser ga ra ntidor. P oderá have r, inclus ive d e ofício, a determ inação de diligências p robatória s para dirim ir e ventu ais dú vidas.

As parte s, nesse modelo de sistema acusatório que o PL 156 intenciona introdu zir, tem papel ativo na produ ção de pro vas para escla recimento do fato pelo juiz. Sob re o juiz, re cai a responsabilidade de avalia r as pro va s e decidir o proce sso, por isso a necessidade deste de dirim ir qua isqu er dú vidas e ventu ais e atuar, de forma eqüidistante das partes, para de cidir.

A questão centra l que já se vislumbra refere -se à ope racionalização d o sistema com a inse rção do juiz das garantia s em re lação, principalmente, àquela s coma rcas onde há um só magistrado acumulando funções diversas, re ssa ltando -se a inco mpatibilidade da atual estrutura do s Tribunais com o instituto do juiz d as ga rantias, inclu sive quanto à questão o rçamentária resultante do incremento no judiciário desse in stituto.

O poder jud iciá rio, já caren te de ju ízes, te ria se us processos paralisados em função da ine xistên cia de ta l ju iz. Infelizmente a estrutu ra do Es tad o não comporta co m tranqü ilidade ta l ino vação.

Embora haja ta l preocupação é ce rto que o le gisla dor inten ciona ga rantir a imparcialidade do ju iz quando da sepa ra ção e ntre as funções de juiz da fase de inquérito e d a fase processual.

T o d a s a s f u n ç õ e s j u r i s d ic i o n a is c o n s t it u c i o n a lm e n t e v á l id a s e r e la c i o n a d a s c o m a p r im e ir a f a s e d a p e r s e c u ç ã o p e n a l d e v e m s e r e x e r c id a s p o r e s s e j u i z d a s g a r a n t i a s , q u e n ã o p o d e r á p a r t ic ip a r d o p r o c e s s o c o n t r a d it ó r i o u l t e r i o r ( le v a n d o p a r a d e n t r o d e l e d e f o r m a a b s o l u t a m e n t e i n c o n s t i t u c i o n a l e inconvenc ional todos os seus “ pr é -juízos” e “pré -convicções”

a c e r c a d o s f a t o s , d a s u a a n t ij u r id ic i d a d e , d a c u lp a b i l i d a d e d o agente etc.) . Quem se pos ic iona no sentido de que “o pr oj eto s i g n if ic a u m e v id e n t e a t r a s o l e g is l a t i v o , a p e q u e n a n d o , s e m q u a l q u e r p r o p ó s i t o , a s f u n ç õ e s d o s j u í ze s q u e p a s s a m a n ã o m a is b u s c a r a v e r d a d e d o s f a t o s e c o n t e n t a n d o - s e c o m a p r o d u zi d a o u o r q u e s t r a d a p e la s p a r t e s , e m p r e j u í zo d o própr io Es tado de Direito” (Faus to de Sanctis) , não tem a e x a t a n o ç ã o d e q u a l é a p o s iç ã o d o j u i z b r a s i le ir o n a f a s e d e inves tigaç ão. O juiz que “busca a ver dade do fatos”, s o b r e t u d o n a f a s e i n v e s t i g a t ó r ia , p e r d e c o m p l e t a m e n t e s u a im p a r c i a l i d a d e e , c l a r o , n ã o p o d e p r e s i d ir a f a s e p r o c e s s u a l ( p r o p r i a m e n t e d it a ) , s o b e p e n a d e n u li d a d e a b s o l u t a

( G O M E S, 2 0 1 0 , O J u i z d e [ d a s ] g a r a n t ia s p r o j e t a d o ( . . . ) , D is p o n í v e l e m : h t t p : / / w w w . lf g . c o m . b r )

Muita s são as críticas que ainda su rgirão em to rno do instituto do ju iz das ga rantia s, qu estionando sobre as limitações o rçamentárias e estrutu rais do P od er Jud iciário para dar aplicab ilidade a esse instituto, a morosidade que pod eria vir a causa r, dentre outro s im pecilho s .

Sobre as críticas já existente s, e xp lica Zanoide (2010):

As c r í t ic a s a o i n s t i t u t o d o j u i z d a s g a r a n t i a s c a m in h a m e m d o is s e n t i d o s : o p r im e ir o é q u e e l e é d e s n e c e s s á r i o , p o r q u e h á j u í ze s q u e g a r a n t e m o s d ir e i t o s d o i n v e s t i g a d o ; o s e g u n d o , é q u e o P o d e r J u d ic i á r i o , t a n t o n o â m b it o f e d e r a l q u a n t o e s t a d u a l, n ã o p o s s u i c o n d iç õ e s o r ç a m e n t á r i a s p a r a a s s e g u r a r a o m e n o s d o is j u í ze s e m c a d a s e ç ã o j u d ic iá r i a o u c o m a r c a d o t e r r i t ó r i o n a c io n a l ( Z AN O I D E, B o l e t im I B C R I M , 2 0 1 0 , p á g . 2 2 ) .

Também pesam críticas sob re o fato de o juiz do pro cesso poder re ver, aprecia r questõe s decidida s pelo ju iz das ga rantia s. Isso imp li ca ria dizer que ta l p re visão coloca ria em risco a impa rcia lidade deste juiz.

Ha veria uma inco ngruência , pois d eterminada medid a d ecretada po r este ju iz o to rnaria parcial para posterior ju lgamen to o que não ocorreria se fosse m distinto s os ju íze s da in qué rito e do processo. Ma is uma ve z impo rtante ressa ltar que qua isquer medida s determinadas pelo juiz das ga rantias não vin culam aque le juiz que irá atua r no processo , que poderá re ve r e stas medidas.

Em sentido contrá rio há aque les qu e confirmam a necessidade de independência en tre esse s do is órgãos, sustentan do não haver qualque r incon gru ência no fato de o juiz do p rocesso poder re ve r decisões já p roferidas pelo ju iz da s garantias.

Fato é que o p rojeto tra z ino va ções d e difícil aceitação para a queles já acostumados a u m sistema arra ig a do, fundado em conceitos e com paradigmas u ltrapa ssados.

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