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3.5 COMO POR COMIDA NA MESA?

3.5.1 O MNER e as teses de Eduardo Murúa

Como todo movimento, o MNER não tem forma própria, assume forma de empreendimento recuperado, de instituição social, sindical e religiosa, e essa simbiose, por sua vez, imprime-lhe uma feição diversa e multifacetada, existindo, dentro dele, posições contraditórias, seja no pensar o trabalho e nas alternativas ao desemprego ou na compreensão das transformações sociais no mundo do trabalho.

Eduardo Murúa, na condição de dirigente do movimento, tem como premissa a manutenção da centralidade histórica da classe trabalhadora como agente de transformação social; a defesa de organização da luta social por um projeto nacional para a Argentina; a suspensão das dívidas externa e interna das fábricas recuperadas; a manifestação pela destruição da Aliança de Livre Comércio das Américas (ALCA); e o estabelecimento do pleno emprego, propondo a ocupação fábricas como alternativa ao desemprego, à miséria, à fome.

O MNER reclama a necessidade de desenvolver e consolidar a indústria argentina no marco de um projeto nacional capaz de pôr a economia a serviço da felicidade do povo, tendo ao homem como origem, ator e sujeito final da atividade econômica. Sustentamos que é imprescindível para o desenvolvimento nacional enfrentar as políticas do Imperialismo, pois elas fomentam uma guerra econômica contra nosso continente e pretendem nos destinar o papel de meros produtores, utilizando como armas nesta guerra a dívida externa, a ALCA. A sua política de subsídios internos e os planos econômicos que nos vêm impondo desde a ditadura militar de 1976 levam à marginalização e a exclusão milhões de pessoas. O MNER é independente

dos partidos políticos e solidário com a organização de todos os setores populares: desocupados, direitos humanos e aposentados. Consideramos que é imprescindível fomentar e obter a unidade dos setores populares de nosso país e sobre essa base começar a desenhar um país independente, soberano, que exerça o direito à autodeterminação, que tenha políticas de Estado dentro de um projeto nacional e popular onde o primeiro objetivo, o primeiro destinatário, seja o povo. Para o Estado Nacional exigimos políticas ativas de fomento, capacitação e crédito para as empresas recuperadas, um marco legal que promova e sustente o conjunto da Economia Social e Solidária. (MURÚA, 2005, tradução nossa) 79

O MNER polariza a defesa do princípio de autodeterminação dos povos, a ênfase na realização de um “projeto de Argentina” com prioridade ao nacionalismo e a busca de soluções contra o processo de desemprego e descentralização do trabalho instalado, efetivamente, na segunda metade da década de 1970.

A condição de militante ativista de esquerda acompanha a história de vida de Eduardo Murúa; todavia, o que ele defende no que diz respeito às fábricas recuperadas?

Nossa proposta é clara: queremos uma lei de expropriação de unidades produtivas, a sessão dos créditos dos bancos oficiais às cooperativas de trabalho, um fundo de capital do trabalho de 10 mil pesos por cada posto recuperado, a incorporação à vida sindical dos sindicatos, e um registro especial para a aposentadoria de nossos companheiros. Muitos companheiros não só não podem contribuir ao princípio da atividade, mas vêem que a patronal não contribuía nada durante cinco anos ou mais. Há muitos companheiros que se incorporaram depois, que eram da fábrica, mas não estiveram na luta da recuperação, isso lhes custou compreender o novo regime de trabalho. Há alguns que fazem muito bem seu trabalho, mas quando chegam as três horas vão para a casa; não assumem o compromisso do conjunto, da empresa ou do político. Às vezes, na assembléia, falamos metade sobre a empresa e a outra metade sobre questões políticas, desde o imperialismo até o que pode passar com a ALCA e a lei de quebra. Há muitos companheiros que, se ficam na assembléia não estão interessados nessas questões; interessa-lhes como está à fábrica e quantas pratas vamos repartir no fim do mês. Os que se interessam são 50% e os que assumem essa política 30%. Isso acontece, mais ou menos em todos os lados, mas nós não nos introduzimos na vida interna das empresas. A melhor forma desde os companheiros aprenderem é não nos intrometermos nas assembléias e na gestão, dizendo que eles é que têm que fazer. Confiamos que cada um irá fazer bem. Se necessitarem que abramos uma porta no Estado, abrimos. Se necessitarem de dinheiro para começar a produzir, tratamos de consegui-lo, mas, uma vez que a empresa é recuperada, a assembléia é soberana, e somente para os trabalhadores. Rejeitamos é a proposta do presidente Kirchner de fazer um ato demagógico com o MNER. Nós estamos totalmente em desacordo em utilizar a luta dos trabalhadores para isso;

79 MURÚA, E. L’IMPA, l’impasse...Calpa - Coordination de Soutien Aux Luttes Deus Peuple Argentin. Madri, 26 de abril de 2005. Entrevista publicada por José Larrea. Disponível em: <http://www.calpa- paris.org/spip.php?auteur1>. Acesso em: 22 de outubro de 2005.

sentar com um presidente da nação para que de uma migalha depois de seis anos de luta. Há muitos companheiros que ainda estão sendo processados, mas sabemos que se o governo quiser pode criar muitas fontes de trabalho da forma que estamos fazendo. É uma tentação do Estado, como todo Estado, de querer cooptar a força do movimento ao seu favor, para destruí-la ou para que lhe sirva, como alguns setores dos piqueteiros e sindicais; onde possa, seguramente, em algum momento o governo vai atuar, e temos que estar atentos para que isso não estremeça a unidade de cada fábrica. (MURÚA, 2003, tradução nossa) 80

3.5.2 O MNFRT e as teses de Luís Caro

Em 2003 o MNFRT realiza seu primeiro encontro nacional, com ampla divulgação, realizada via rede eletrônica e, principalmente, pela distribuição massiva de panfleto explicativo. O objetivo principal é “discutir” as proposta do MNRFT para o desenvolvimento do trabalho nas fábricas recuperadas. Uma das questões centrais à grande maioria dessas fábricas corresponde à necessidade de capital para iniciar o processo produtivo. Como solucionar a sua ausência? Para Luís Caro, o reaquecimento dos meios de produção não necessita de dinheiro, mas de organização interna e de trabalho. Por meio dessas duas variáveis é que a fábrica recuperada superará a falta de capital de giro. Ou seja, a tese de Caro, nesse momento, sustenta que a fábrica recuperada não necessita de dinheiro para iniciar a produção. Centralizado na categoria “resignação”, sugere que os recuperadores trabalhem por uma ínfima recompensa salarial e, assim, possam, aos poucos, capitalizar a cooperativa. Para reforçar essa proposição, Caro (2003) explica: “Um coletivo de 100 trabalhadores a um salário de 500 pesos por mês, em quatro meses de trabalho poderá acumular 200 mil pesos de capital”. Mas de que viverão os trabalhadores se não receberem salários? A essa pergunta, Caro responde: “De que sobreviveram durante os longos anos de desemprego?” (HELLER, 2004, p.52).

O interessante é notar que Caro, em 2003 mantém no seu discurso a defesa da autonomia dos recuperadores, propõe a institucionalização da assembléia geral como órgão máximo do processo decisório e nega a abertura da fábrica para investimentos externos.

80 Disponível em http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-25202-2003-09-08.html. Acesso em: 10 de julho de 2005.