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3. A Rua em Movimento

3.3 MNPR: Rio Grande do Norte

No Rio Grande do Norte (RN), o Movimento da população em situação de rua deu

seus primeiros passos em 2012, por meio do IV Seminário de Direitos Humanos – um evento

realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ocorrido no dia 12 de outubro

do referido ano, no bairro da Ribeira, em Natal/RN. Este evento foi organizado através de

uma articulação entre o Centro de Referências em Direitos Humanos (CRDH/UFRN) e

outras organizações para o debate do tema “Vivências de rua: sou invisível pra você?”. Dentre os principais representantes presentes no momento, estava a coordenação nacional

do MNPR, indispensável para a mediação e início do processo político-organizativo do

Movimento no RN. Segundo o relato de Almeida (2015):

Durante a atividade, escolheu-se, de forma democrática, um representante do grupo

de aproximadamente 50 pessoas em situação de rua, que participavam da atividade,

para viajar à Brasília, com o objetivo de participar de um curso de formação de

lideranças. Posteriormente, o mesmo representante foi para mais um encontro, que o

MNPR realiza anualmente com a Presidência da República. [...] Assim, de 2012,

onde se deu início ao processo de organização do MNPR em Natal/RN, até agosto

de 2015, a coordenação estadual realizou aproximadamente 21 viagens para

encontros com a coordenação nacional, seminários, congresso, audiência, reuniões,

dentre outras atividades (p. 109).

Este evento foi determinante para a mobilização de representantes do Movimento

em terras potiguares e consolidação do grupo. Desde então, a luta vem crescendo, a cultura

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causa do segmento. E, apesar dos grandes desafios e situações de turbulência que o

Movimento enfrenta ao longo da sua trajetória no RN, é fato que a existência de uma

organização desse tipo gera esperanças e conquista, pouco a pouco, os mecanismos

necessários para a sua autonomia. O Movimento se caracteriza como um importante espaço

político coletivo. Dessa forma, o sentimento de adesão à ideologia disseminada pelo MNPR,

e a crença de mudanças a partir dele para parte dos integrantes da organização, fica explícito

em alguns relatos registrados em diário de campo, como o seguinte: “Podemos, através do

movimento, lutar por uma política para a conquista dos nossos direitos, porque não

queremos depender de ninguém" (Pronunciante I21, Seminário do MNPR/RN, em 09/06/2017). E neste outro: “Veja as pessoas que foram alcançadas...elas mesmo que

entendendo pouco, transformaram suas rotinas, pensamentos, expectativas e, como falei,

seus horizontes. O MNPR representa minha luta por vida, liberdade de ser quem eu quero,

isso é liberdade!” (Participante I22, em 14/08/2017).

Tais relatos retratam duas percepções diferentes que, no entanto, se congregam, a

respeito da participação sócio-histórica dos sujeitos nos movimentos sociais e os reflexos

dessa relação. Em uma das falas, o caráter objetivo da atuação política é explícito; na outra,

a dimensão subjetiva do envolvimento do sujeito nessa relação fica evidente. Podemos

perceber que o primeiro relato dá enfoque à conquista dos direitos coletivos por meio da luta

política. É a maturação da ideia de que os direitos sociais são legítimos a todo e qualquer

21 As citações identificadas com o termo “Pronunciante” foram obtidas através de falas surgidas durante seminários e reuniões de formação política, resgatados por meio dos registros em diário de campo realizados nestes eventos.

22 As citações identificadas com o termo “Participante” foram obtidas através de entrevistas realizadas exclusivamente para fins deste estudo. Ao longo do texto, podem ser mencionadas também como “colaboradores”.

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Homem, e que deve haver uma atuação coletiva organizada em busca da efetivação dos

mesmos.

No segundo relato, podemos analisar a concepção de uma visão acerca de si, em que

prevalecem as dimensões da mudança interior, do pensamento, da atitude, da rotina, em

decorrência do conhecimento acerca do direito coletivo que também é, por sua vez, de si

mesmo. A dialética da questão é experimentada numa relação de reconhecimento da luta do

outro para o reconhecimento da sua própria luta. Ou seja, a atuação política de pessoas em

situação de rua através do movimento social, possibilita que outras pessoas do segmento

tenham a percepção de que elas também são capazes de assumirem o posicionamento de

um(a) cidadão(cidadã) com voz ativa na sociedade, que é reconhecido(a) e respeitado(a).

Pode emergir dessas questões mudanças de atitudes e a construção de uma identidade

coletiva. Esta, porém, não baseada apenas na identidade exclusiva de classes, mas de

ideologias em comum.

Conforme dados resgatados em diário de campo, atualmente, o Movimento no RN apresenta um representante de base escolhido democraticamente pelo grupo em 2012, mediante votação, para desempenhar o papel de liderança e permanece até o presente ano (2018). É de responsabilidade deste representante a participação em ações de capacitação de lideranças, seminários, audiências públicas, fóruns regionais ou em outros pontos do país, dentre outros eventos. Além dele, outros integrantes do movimento assumem posicionamentos importantes para a organização do grupo e desenvolvimento das atividades propostas. Suas atribuições são tão necessárias quanto a que é desempenhada pelo líder, em que pese suas participações em eventos fora do Estado sejam um pouco limitadas devido à dificuldade de financiamento para as viagens. Cabe aos demais coordenadores do grupo, então, assumirem o desenvolvimento dos encontros de formação política com os demais militantes do Movimento, além de organizarem e pensarem, em coletivo, táticas e estratégias

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de divulgação e visibilidade do movimento social às demais pessoas em situação de rua e demais atores da sociedade civil – além da participação presencial em Fóruns e Assembléias. O MNPR/RN não possui nenhum recurso financeiro, por isso, para a realização de qualquer atividade e eventos ou para participação de fóruns, seminários, cursos, palestras em outras cidades ou estados, precisam de ajuda financeira externa. Geralmente, em circunstâncias como essa, o apoio financeiro vem através do contato com a rede de assistência social do município, empresas, Câmara Municipal, através de doações ou até mesmo por meio de “vaquinhas” por parte das pessoas que participam ou se identificam com o grupo, além do apoio de projetos de extensão da Universidade.

A divisão de tarefas se constitui como caminho imprescindível na construção de um

grupo democraticamente participativo. Busca-se, a partir dessa configuração, possibilitar ao

máximo que as decisões do grupo sejam feitas de maneira consensual e menos

hierarquizadas possível, para que as ações não sejam, necessariamente, focadas em uma

única figura e todos sintam-se parte do processo de estruturação do movimento. No que se

refere às características de composição do grupo, seus integrantes são majoritariamente do

sexo biológico e gênero masculino, há poucas integrantes mulheres e parte do grupo se

identifica como público LGBT23.

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