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A moda aberta como componente do estilo de vida

CAPÍTULO 2: O estilo de vida e a moda

2.2. A moda aberta como componente do estilo de vida

Nostra, 1997.

104HERSCHMANN. O funk e o hip hop invadem a cena. p. 59

105 HERSCHMANN. O funk e o hip hop invadem a cena. p. 61

106 HERSCHMANN. O funk e o hip hop invadem a cena. p. 61

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HERSCHMANN. O funk e o hip hop invadem a cena. p .61

Como já dissemos antes, a moda é o aspecto do estilo de vida da cultura hip hop sobre o qual nos deteremos mais demoradamente. Tal como apresentaremos a seguir, a moda é capaz de explicitar a posição dos membros da cultura hip hop na sociedade através de seus corpos, gestos e roupas. Iniciaremos com a noção de moda aberta proposta por Gilles Lipovetsky e passaremos por outros autores para tratar da relação entre moda e corpo.

Para compreender o conceito de moda aberta proposto por Lipovetsky, faremos uma brevíssima menção a um período da história da moda. Para tal, nos remeteremos aos anos 50, nos quais teve início uma supervalorização da beleza, fase que o autor chama de segunda fase da moda ou nascimento da moda aberta.

Essa segunda fase da moda moderna prolonga e generaliza o que a moda de cem (1848-1948) anos instituiu de mais moderno: uma produção burocrática orquestrada por criadores profissionais, uma lógica industrial serial, coleções sazonais e desfiles de manequins para fins publicitários109.

Mas é na década de 90 que a moda aberta alcança todo o seu poder de expressão. Ela pode ser definida como uma releitura dos códigos culturais múltiplos e de fácil acesso, transformada em estilo de vestir. Lipovetsky aponta que, entre os anos 60 e 70, a pulverização da moda proporcionou modelagens baseadas não mais nas imposições das grandes marcas e da alta costura, e sim, na experiência estética do próprio sujeito. Era o início da moda baseada na rua, no apelo dos movimentos marginais dos jovens, do esporte e de outras referências da vida cotidiana.

A fragmentação do sistema de moda liga-se, ainda, à emergência de um fenômeno historicamente inédito: as modas de jovens, que se apoiam em critérios de

109 LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 76

ruptura com a moda profissional (...) Com as vogas hippie, "baba", punk, new wave, rasta, ska, skin head, a moda viu-se desestabilizada, os códigos foram multiplicados pela cultura anticonformista jovem, manifestando- se em todas as direções nas aparências do vestuário, mas também nos valores, gostos e comportamentos110.

O comportamento do consumidor passa a ser afetado não só pela funcionalidade do produto, mas também pelos símbolos que induzem à identificação e indicam o pertencimento a um grupo que compartilha determinados valores e pontos de vista. Por conseguinte, os estilistas conquistaram uma maior liberdade e passaram a criar coleções díspares. Apesar de ainda existirem algumas semelhanças entre a criação de um estilista e outro, não existia mais um padrão único a ser seguido.

Os ingredientes deste coquetel (de estilos) tornam –se suficientemente distintos a ponto de desnortear o consumidor. Qual é o filtro, então, que define as bases de conduta nessa batalha com a própria identidade? A resposta é, simultaneamente, simples e complexa: informação e opinião própria111.

Lipovetsky propõe esta liberdade de estilo como uma emancipação da moda que vem da rua. A assimilação do que é apresentado nas revistas e editoriais funciona segundo um código individual e não mais com o caráter de ditadura. O público consumidor tem seu próprio diferencial, construído por ele mesmo, de acordo com suas escolhas.

A sociedade contemporânea, que legitima o prazer, que oferece sem cessar novas escolhas ao indivíduo, permitiu, finalmente, o desenvolvimento do individualismo. Dizendo de outro modo, permitiu a paixão por governar-se a si mesmo, a paixão pela autonomia individual na vida familiar, na vida sexual,

110

LIPOVETSKY. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. p. 126

na relação com a religião, até mesmo na relação com o político112.

Segundo Lipovetsky, a moda aberta rege nosso tempo, pois ela está ligada à liberdade de vestir-se. Ela é marcada pelo desprendimento em relação às grandes grifes e pela aproximação da roupa com a necessidade de conformação da identidade, em um gesto que privilegia de certa forma a individualidade, mas que também promove o pertencimento a um determinado grupo.

Renata Pitombo afirma que a moda dá conta da estruturação simbólica própria de uma determinada cultura. Se fazemos de nosso corpo uma auto imagem, significa que, ao vestirmo-nos, estamos contando uma história: de onde viemos (ou gostaríamos de vir) e para onde vamos (ou gostaríamos de ir). É essa história que contamos através de nosso corpo que o torna mediador entre o físico e o social e que configura nossa inscrição em uma determinada cultura113.

Para estudarmos a moda como componente do estilo de vida e de que forma ela aparece no videoclipe de rap, acreditamos que devemos não só nos ater ao conceito de moda aberta, mas também buscar apoio em outros estudos que descrevem as inter-relações entre corpo e moda. Dario Caldas aponta dois pólos antagônicos constitutivos do funcionamento da moda: a imitação e a diferenciação. Castilho também apresenta dois pólos para a compreensão da moda : de transformação e exaltação do sujeito frente a si mesmo e, simultaneamente, de distinção frente ao grupo que pertence114.

A proposição de Caldas em muito se assemelha à noção de moda aberta. O pólo da imitação e da diferenciação podem ser definidos como o uso da moda para

112Entrevista Lipovetsky

113 PITOMBO, Renata. Teatralização da aparência A moda enquanto código cultural. CD Compós. p.6

114

CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. in CASTILHO, Kathia. GALVÃO, Diana (orgs.) O corpo da moda a moda do corpo. São Paulo: Editora Esfera, 2002. p.71

pertencer a um grupo ou para não pertencer a grupo nenhum. De acordo com Caldas, a moda é capaz de posicionar o indivíduo dentro da sociedade, de forma a explicitar o seu lugar de pertencimento ou ao qual ele gostaria de pertencer115. Estas concepções da moda indicam o caráter identitário que o uso de uma determinada roupa pode trazer. Pertencer a um grupo, no caso, a cultura hip hop, significa compartilhar a identidade deste grupo. Não basta apenas comportar-se como tal. É preciso se vestir da mesma forma, numa espécie de consagração do estilo. Lomazzi acredita que quando o sujeito se veste de forma a pertencer a um grupo está, na verdade, se adequando às normas do grupo e demonstrando respeito a elas, de forma que não seja colocado à margem. Essas normas são tão assimiladas a ponto de criar uma ilusão de estar-se criando uma moda própria, enquanto a liberdade de opção, na verdade, se encontra restrita àquilo que o grupo define como estilo de vida116. Segundo Renata Pitombo, neste movimento de integração ao grupo, não se mostra, através da aparência, o que se é, mas sim o que se gostaria de ser. Fabrica-se, desse modo, através do vestuário, um ser ideal, objeto de desejo que, supostamente, será bem acolhido pelo grupo de pertencimento117. De acordo com Carol Garcia, a roupa é um dos itens prediletos na hora de negociar com o imaginário118. O vestuário transforma o corpo na medida em que lhe dá novas formas e transforma as pessoas de acordo com seus desejos ou com o desejo do outro. É através do nosso corpo que nos relacionamos com o mundo e é quando o adornamos que negociamos as relações com o mundo externo.

Pela natureza social do homem ele troca sinais. Por esse motivo, de acordo com Castilho, é impossível existir consciência de si mesmo se não em relação ao

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CALDAS, Dario. O universo da moda. São Paulo: Anhembi Morumbi,1999. p. 39

116 LOMAZZI, Giorgio. (1989) Um consumo ideológico, in Psicologia do Vestir. 3. ed. Lisboa: Assírio e Alvim

117 PITOMBO. Teatralização da aparência A moda enquanto código cultural. p.8

118

GARCIA, Carol. Corpo, moda, mídia e mercado: radiografia de uma relação visceral in A moda do corpo o corpo da moda. CASTILHO, Kathia. GALVÃO, Diana (org). São Paulo: Editora Esfera, 2002. p. 23.

outro119. Por esse motivo, é para nos comunicarmos com o outro que utilizamos a linguagem. E na relação que estabelecemos com o outro, o corpo é crucial para a representação dessa linguagem. De acordo com a autora

A impossibilidade primeira de transmitir a experiência da realidade vivida leva-nos a representá-la, inventando meios cada vez mais complexos e dinâmicos de comunicação120.

À medida que passamos a entender a moda como construção de linguagem que se manifesta sobre o corpo, percebemos como este é um grande gerador de sentidos. A roupa no cabide é muito diferente da roupa sobre a pele. É no contato com nosso corpo que uma peça passa a significar, e esse significado é passível de diferenciação, uma vez que a peça é colocada em diferentes corpos. Por esse motivo não poderíamos falar de moda, menos ainda analisá-la nos videoclipes que propomos, sem compreender a importância assumida pelo corpo. Para Castilho,

A imagem que o corpo oferece ao olhar externo constitui o primeiro e o mais imediato contato com o mundo. É em torno das imagens corporificadas que se constróem e se desenvolvem estratégias fundamentais de comunicação e sentido. Trata-se de uma organização própria que aprendemos tanto fenomenológica e perceptiva quanto cognitivamente121.

De acordo com Castilho, por ser a primeira coisa que realmente temos quando nascemos, o corpo é nosso primeiro objeto. Mas pode ser considerado ainda algo que somos. É nosso porque nos pertence e porque construímos nele nossa subjetividade, mas também é coletivo, porque promove a mediação entre o eu e o outro. Podemos ainda dizer que o corpo é um território de construção de significados sem limite, uma vez que está em constante mudança e é um dos

119

CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p. 59

canais de materialização do pensamento, do perceber e do sentir o circundante122. No entanto, apesar de não haver limite para a construção de significados no corpo, esbarramos nas limitações das condições físicas, o que ao mesmo tempo o aprisiona, mas o diferencia.

Por mais que o corpo seja suporte para a construção de sentidos diversificados, o ser humano possui uma relação problemática com seu corpo, já que este, quando está nu, é algo muito genérico e impossibilita o estabelecimento de uma série de diferenciações123. Para a autora, este é um dos cernes da insatisfação do sujeito em relação a seu corpo. Essa insatisfação o impulsiona, desde o momento em que toma consciência de seu ser, a retocá-lo plasticamente de múltiplas maneiras124. Como exemplo, podemos citar as tatuagens, cirurgias plásticas, branding, escarificação, maquiagem, cosméticos, espartilhos, entre outras várias práticas capazes de modificar desde a aparência até mesmo à dinâmica do corpo. Essas modificações re-significam o corpo de forma a validá-lo dentro de uma coletividade. Castilho afirma que, mesmo que esse tipo de modificação do corpo tenha como finalidade resignificá-lo para o outro, trata-se de um tipo de individualização.

O que distingue o homem dos animais é o fato dele produzir, consumir e transmitir cultura. É através desse impulso que ele supera determinações biológicas, naturais e culturais e que modifica o corpo que naturalmente possui, tanto para não ser apenas mais um em meio aos outros, quanto para atrair o olhar de outros muitos com os quais ele gostaria de parecer.

A partir desta percepção do corpo, Castilho propõe uma diferenciação entre o corpo anatômico/morfológico e o corpo simbólico/semântico. Como não

121 CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p.64

122 CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p.64

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CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p.66

possuímos anatomicamente nenhum tipo de embelezamento que se adapte às mais diferenciadas situações (tal como certas aves que, frente à possibilidade de acasalamento, mudam de plumagem ou à exibem de forma diferente), recorremos à ressemantização de nosso corpo nu, o que nos garante uma enorme possibilidade de atrativos no interior de uma determinada cultura:

Na máxima de sua individualidade, o corpo reflete a identidade que viu nascer das entrelinhas do discurso do semelhante, na apreensão de valores e significados pertinentes a seu grupo e que se organizam em seu ser, seu fazer e na sua estrutura, concepção e construção corpórea125.

O conceito de aparência está ligado a duas situações distintas: a construção de uma imagem que atenda aos anseios do sujeito e ainda a forma por intermédio da qual esse indivíduo é apreendido socialmente126. Para Castilho, a aparência é um efeito de sentido que necessita da percepção sensorial para esclarecer o que se mostra.

Os exemplos de possibilidades desses jogos de aparência são infinitos. Se as mudanças no próprio corpo já são capazes de diferenciá-lo e decorá-lo de variadas maneiras, quando pensamos na segunda pele, o tecido, essa decoração encontra variáveis que se transformam e abrem novas possibilidades em um curto espaço de tempo. Como o tecido é capaz de transformar-se e ainda transformar o corpo através da moda, ele abre a possibilidade de aparecer de uma determinada forma em uma determinada ocasião e logo em seguida descartá-la:

é justamente a possibilidade de redesenhar o próprio corpo, em razão da eterna insatisfação humana com a própria aparência, um dos moventes que permitem a transformação do homem biológico em homem cultural. A imagem que um sujeito cria de si mesmo se exprime, então, em codificações, em seu modo de aparecer, de se

125

CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p.67

mostrar para ser visto. Esse seu fazer, uma montagem discursiva, resulta na re-arquitetura anatômica de seu corpo e de todas as suas modalidades expressivas e narrativas.127

Essas modificações, principalmente aquelas que acontecem através da moda e se esvaem ao seu sabor, têm como o foco principal despertar o olhar do outro. Podemos perceber essa necessidade do olhar do outro mais claramente em eventos ritualísticos, como festas, cultos e shows. É durante este tempo que o corpo está mais adornado e mais apto e desejoso de despertar, no olhar alheio, algum de tipo de atenção. Ressaltamos aqui o fato de nossa análise se ocupar dos videoclipes, que não são rituais, mas nos quais os sujeitos que aparecem apresentam o máximo de estilização, desde suas roupas à maquiagem. No caso dos videoclipes de rap percebemos, prioritariamente, uma necessidade de mostrar-se, por parte do rapper, como um sujeito pertencente à uma determinada cultura que compartilha determinados códigos que permitem seu reconhecimento pelos semelhantes. Castilho afirma que

Essa prática de reorganizar o corpo segundo concepções culturais faz parte de um contrato implícito do grupo social que aceita as regras de estruturas básicas referentes à forma do vestir-se e adornar-se, o que as torna elementos presentes na linguagem das roupas128.

Por exibir particularidades de e em determinadas situações e ainda por exibir-se como linguagem, o vestuário é elemento fundante em cada cultura129. A partir dessa concepção do vestuário, Castilho propõe para a moda uma conceituação de linguagem que plasma ou modela o corpo humano por intermédio da apropriação do corpo biológico do sujeito130.

127 CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p.68

128 CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p.69

129

CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p.70

Por essas características do vestuário e da moda, eles devem ser observados enquanto inscritos em um determinado meio social, onde se manifestará como uma das mais espetaculares e significativas formas de expressão presentes no processo cultural131. O vestuário é capaz de configurar-se em meio de persuasão, ação, performance:

consequentemente (o vestuário) articula diferentes tipos de discurso: político, poético, amoroso, agregador, hierárquico, etc. tais discursos são construídos à medida que a sociedade vai se estruturando, se desenvolvendo e exercendo a função confirmadora externa do sistema de organização que o homem social privilegia e o traduz por intermédio da linguagem visual do traje132.

É pertinente, neste momento, que apontemos a performance como instrumento importante para a cultura hip hop. De acordo com Silverstone, todos nós realizamos performances, a fim de mostrar, impressionar os outros, e definir e manter o senso de nós mesmos, um senso de identidade133. E, através dessa performance, que acontece em diferentes cenários e se utiliza do corpo como suporte, pode-se apresentar diferentes identidades para diferentes públicos. A mídia é crucial para a performance, já que amplia a possibilidade de público. No caso da cultura hip hop, a performance realizada nos palcos, ou nos videoclipes, apresenta para o semelhante e o não-semelhante, através do corpo e invariavelmente da roupa, a identidade tanto do rapper quanto da cultura a que ele pertence. De acordo com Silverstone

essas performance não são apenas jogos(...)são totalmente sérias. Nosso mundo é um mundo de aparência visível. Vivemos uma cultura apresentacional em que a aparência é a realidade134.

131 CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p.71

132 CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p.71

133

SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia.. p. 132

É por esse motivo que priorizamos o aspecto da moda na cultura hip hop. A articulação entre a postura corporal e a roupa antecipam o discurso falado do rapper e, ao primeiro olhar, já o posicionam culturalmente, uma vez que a composição visual dirige-se à nossa sensibilidade plástica muito antes do que ao conhecimento suposto135. No entanto, essa postura e essa roupa que demarcam espaços de diferentes culturas são constantemente apropriadas pela mídia e pela indústria têxtil e cosmética.

Garcia afirma que o mercado se aproveita do estoque de significados das artimanhas rituais do corpo136. A autora dá exemplo de uma tribo das ilhas Carolinas, as jovens Ponape, que tatuam os genitais a fim se tornarem mais atraentes. No ocidente percebemos a indústria cosmética lançar tatuagens de verão, artifício com duração determinada, que tem a mesma intenção das jovens Ponape: a de atrair o sexo oposto. Garcia acredita que a disputa de mercado, consequentemente, passa a girar em torno de corpos reesculpidos por desejos de segunda mão: é a era do volátil na busca da perpetuação137. É para atender ao desejo do outro que modificamos nosso corpo, seja através de adereços, tatuagens ou mutilações, ou ainda por meio de cirurgias plásticas em busca da juventude prolongada. E esse desejo do outro é legitimado pelos meios de comunicação de massa, seja através da publicidade, seja através de programas de TV´s que divulgam ideais de corpos e comportamentos. De acordo com Castilho

Fragmentam-se (elementos em uma linguagem plástica) de acordo com cada cultura que determina, através do tipo de exposição, a evidência ou não de determinados aspectos físicos, de determinadas partes do corpo que poderão, então, ser assinaladas, reconstruídas ou

135 CASTILHO, Kathia. Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. p.72

136

GARCIA. Corpo, moda, mídia e mercado: radiografia de uma relação visceral. p. 24

anuladas através de elementos de decoração determinados pela moda138

Percebemos o mesmo movimento de apropriação de mercado em relação à moda da cultura hip hop. A revista Vogue Brasil (Edição nº 302) do mês de setembro de 2003, estampava na capa o título “Prévia De Verão Vermelho É Tudo O Estilo Hip Hop A Moda Geométrica” . No interior da revista, o editorial que apresenta a moda hip hop é, no mínimo, peculiar. Com o título de “Hip Hop Hype Hit139” e o subtítulo “colorida e com influências esportivas, a moda desenvolve cultura de rua e, com estilo próprio, entra no embalo do verão”, o editorial mostra uma modelo com longos cabelos loiros milimetricamente atrapalhados. As roupas oscilam entre mistura inusitada de referências dos anos 70 e 80, com forte presença de tacheados e metalizados, sandálias com saltos altíssimos e finíssimos, e uma releitura fashion do street wear.

Neste exemplo fica clara a apropriação de um ritual do cotidiano dos centros urbanos através de um dos aspectos de seu estilo de vida: a moda. A criação de