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CAPÍTULO 2: O estilo de vida e a moda

2.1. O estilo de vida

Marginal tem estilo, ninguém consegue imitar. Ice Blue

Para melhor compreender o que chamamos de estilo de vida hip hop, nos aproximaremos da perspectiva de Pierre Bourdieu. Ainda que não possamos assumir integralmente o ponto de vista do autor, várias das afirmações quanto à relação do habitus com o estilo de vida serão muito úteis na elucidação do nosso problema de pesquisa. Ainda sobre o estilo de vida, apresentaremos a perspectiva de Herschmann. O autor, no entanto, não coloca em questão o conceito, e o adota de forma mais relativista. Em seguida apresentaremos um breve histórico da moda nas sociedades modernas a fim de apresentar o conceito de moda aberta, proposto por Lipovestky. Em seguida, para entendermos a função de demarcação de um estilo de vida, apresentaremos a noção de customização do corpo.

2.1 O estilo de vida

Para Bourdieu, a noção de estilo de vida está diretamente ligada à noção de habitus. Os estilos de vida são definidos como a retratação simbólica de determinadas condições de existência, e é através delas que compreendemos as posições sociais dos sujeitos. Segundo o autor,

as práticas e as propriedades constituem uma expressão sistemática das condições de existência (aquilo que chamamos de estilo de vida) porque são produto do mesmo operador prático, o habitus84.

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BOURDIEU, Pierre. Gostos de classe e estilo de vida. in ORTIZ, Renato (org). Pierre Bourdieu: sociologia. São Paulo, Ática: 1983. p.82

Esse operador prático, o habitus, é definido como o sistema de disposições duráveis e transponíveis que exprime, sob a forma de preferências sistemáticas, as necessidades objetivas das quais ele é produto85. Estilo de vida e habitus se relacionam na medida que o primeiro é uma espécie de espelho das condições objetivas de existência e o segundo, aquele conjunto de ações que resultam no primeiro. Condições de existência semelhantes produzem habitus semelhantes, apesar das variáveis que permeiam o habitus serem muitas. Não que uma determinada condição de existência defina completamente todas as possibilidades do habitus, mas conforma às condições objetivas das quais são produto e às quais estão objetivamente adaptadas86. Essas condições, transmutadas em distinções simbólicas, constituem um determinado tipo de condição material de existência, no qual estão envolvidos (na ordem do simbólico) questões de direcionamento ético e estético, assim como determinadas preferências que, quando colocadas em oposição a outro sistema de habitus, são capazes de apontar diferenças entre as posições sociais.

De acordo com Nogueira, o conceito de habitus proposto por Bourdieu pretende enfrentar a dificuldade teórica de se reconhecer a orientação dos sujeitos sobre seus atos como uma escolha flexível e ainda assim, socialmente orientada. Para tal, Bourdieu propõe o conhecimento praxiológico – em detrimento do fenomenologista e do objetivista – como uma alternativa capaz de solucionar os problemas do subjetivismo e do objetivismo. Este conhecimento não busca investigar estruturas externas aos sujeitos e sim, de que forma os sujeitos interiorizam estas estruturas.

Essa forma de conhecimento apreenderia, então, a própria articulação entre os planos da ação ou das práticas subjetivas e o plano das estruturas, ou como repetidamente refere-se o autor, captaria o processo

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BOURDIEU, Pierre. Gostos de classe e estilo de vida..82

de interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade87

De acordo com Nogueira, a pretensão de Bourdieu se encontra, então, em não enveredar na concepção subjetivista de que toda prática é organizada de forma autônoma pelo sujeito e, menos ainda, na concepção objetivista de que essa organização passaria somente pela subordinação às grandes estruturas. Para escapar de ambas as concepções, Bourdieu propõe o conceito de habitus, entendido como

sistema de disposições duráveis estruturadas de acordo com o meio social dos sujeitos e que seriam predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações88.

Este conceito pode ser entendido como uma mediação entre o objetivismo e o subjetivismo. Para Bourdieu, as práticas não são constituídas de fora para dentro e menos ainda, de forma autônoma: elas apresentam traços da posição social de quem as produz, porque a própria subjetividade é previamente estruturada em relação ao momento da ação89. No entanto, o habitus não está reduzido a um conjunto inflexível de regras de comportamento a serem indefinidamente seguidas pelo sujeito90. Ele é um princípio gerador de improvisação que deve ser adaptado pelo sujeito em qualquer local no qual ele pratica uma ação .

Esse conceito é capaz de nortear nossa análise, uma vez que Bourdieu aponta a relação dialética do habitus com a situação como alternativa para evitar uma

87 NOGUEIRA. Entre o subjetivismo e o objetivismo: considerações sobre o conceito de habitus em Pierre Bourdieu. p.149

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NOGUEIRA. Entre o subjetivismo e o objetivismo: considerações sobre o conceito de habitus em Pierre Bourdieu. p.150

89 NOGUEIRA. Entre o subjetivismo e o objetivismo: considerações sobre o conceito de habitus em Pierre Bourdieu. p.150

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NOGUEIRA. Entre o subjetivismo e o objetivismo: considerações sobre o conceito de habitus em Pierre Bourdieu. p.150

recaída no objetivismo. Nogueira afirma que o habitus seria fruto da incorporação da estrutura e da posição social de origem no interior do próprio sujeito. No entanto, esta estrutura é colocada em ação em situações diferentes das quais o habitus foi formado91. Notamos isso ao olharmos para os membros da cultura hip hop. É no momento de confronto, seja nas letras das músicas ou nas imagens dos videoclipes, nas quais os rappers se posicionam como donos de um discurso que merece ser ouvido por uma fatia da sociedade que não presencia o seu cotidiano, que percebemos com mais clareza o habitus e, consequentemente, de acordo com Bourdieu, a subjetividade desses sujeitos, formados em outros contextos mas mais aparentes nos momentos de embate.

Nogueira afirma que o conceito de habitus, na obra de Bourdieu, articula três dimensões fundamentais de análise: a estrutura das posições objetivas, a subjetividade dos indivíduos e as situações concretas de ação92. A posição do sujeito nas estruturas das relações objetivas tende a constituir um conjunto de vivências típicas que tenderiam a se consolidar como um habitus adequado à sua posição social93 . Esse habitus faria com que o sujeito agisse como um membro típico de um grupo ou uma determinada classe social, independente do local de ação. Desta forma, ao agir como membro de uma classe ou grupo, independentemente do local de ação, o sujeito colabora para reproduzir as propriedades do seu grupo social de origem e a própria estrutura das posições sociais na qual ele foi formado94.

Para o melhor entendimento da relação entre estilo de vida e habitus, Bourdieu recorre às noções de unidade e de sistemacidade. Ambas se apresentam tanto

91NOGUEIRA. Entre o subjetivismo e o objetivismo: considerações sobre o conceito de habitus em Pierre Bourdieu. p.150

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NOGUEIRA. Entre o subjetivismo e o objetivismo: considerações sobre o conceito de habitus em Pierre Bourdieu. p. 151

93 NOGUEIRA. Entre o subjetivismo e o objetivismo: considerações sobre o conceito de habitus em Pierre Bourdieu. p. 151

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NOGUEIRA. Entre o subjetivismo e o objetivismo: considerações sobre o conceito de habitus em Pierre Bourdieu. p.151.

nas propriedades que cercam o indivíduo (casas, roupas, carros e afins) quanto nas práticas (esportes, distrações culturais, etc.) porque estão na unidade originalmente sintética do habitus, princípio unificador e gerador de todas as práticas95. Fazem parte do princípio gerador do estilo de vida a propensão ao consumo de um determinado bem, seja ele material ou simbólico, assim como o gosto que move este consumo e ainda a inclinação à uma determinada prática classificatória. Finalmente, Bourdieu define estilo de vida como

um conjunto unitário de preferências distintivas que exprimem, na lógica específica de cada um dos subespaços simbólicos, mobília, vestimentas, linguagem ou héxis corporal, a mesma intenção expressiva, princípio da unidade de estilo que se entrega diretamente à intuição96

Ao considerarmos esta unidade de estilo, ou seja, o conjunto que exprime todo um habitus e um estilo de vida, não há como efetuarmos uma análise que o recorte em diferentes universos. Ao olharmos, por exemplo, para a cultura hip hop, é preciso compreender todas suas dimensões e a forma como se complementam. Cada uma dessas dimensões, de acordo com o autor, é capaz de simbolizar todas as outras, e a oposição das classes aparece exatamente nos estilos de vida: pode ser na forma de se relacionar com os semelhantes, na música, na moda. Bourdieu afirma que

as diferenças sociais mais fundamentais conseguiram, sem dúvida, exprimir-se através de um aparelho simbólico reduzido a quatro ou cinco elementos, tais como Pernod, vinho espumoso, água mineral, Bordeaux, champanhe, uísque, mais ou menos tão completamente quanto através de sistemas expressivos aparentemente mais complexos e refinados com os que os universos da música ou da pintura oferecem à preocupação de distinção.97

95 BOURDIEU, Pierre. Gostos de classe e estilo de vida.p.83

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BOURDIEU, Pierre. Gostos de classe e estilo de vida. p.83

Nesta pesquisa, optamos por privilegiar o aspecto da moda. Dentre os elementos do estilo de vida da cultura hip hop, acreditamos que ela tem uma importância crucial na ação dos sujeitos, uma vez que se apresenta antes mesmo que eles pronunciem seu discurso verbal. Os elementos do estilo de vida, através da moda, se deixam ver no corpos dos sujeitos, nos seus gestos, na forma como conduzem o seu discurso.

As variações de distância com o mundo são apontadas por Bourdieu como o mais importante ao contrastarmos os estilos de vida98. Segundo o autor, essas variações de distância não podem ser tomadas como subjetivas, pois residem na interiorização objetiva de determinadas trajetórias sociais. A adoção de um estilo de vida reside na liberação (ou não) de certos tipos de urgência de consumo, o que define aquilo que pode ser consumido e de que forma se dá este consumo. Quando fazemos uma comparação entre classes, percebemos que certos desejos, objetos ou mesmo extravagâncias parecem inalcançáveis para uma classe e para uma mais abastada soa como um desejo corriqueiro. É nesta relação que percebemos que o consumo de determinados bens surge como elemento distintivo, já que este promove a demarcação de um lugar economicamente mais elevado na sociedade. É esta a relação entre a necessidade e o luxo.

Bourdieu afirma que o princípio da conformidade, aquele que mantém os membros de uma classe social no seu lugar de origem, está ligado às normas da conduta popular impostas por condições objetivas, que encerram em si mesmas as ambições de mudar de grupo ou mesmo identificar-se com outros. Essas normas de conduta, tal qual defende o autor, são responsáveis, por exemplo, por estigmatizar hábitos das classes diferentes, como o fato de o homem se tornar mais refinado ser sinônimo de tornar-se também efeminado.

Para o autor, toda a tentativa de se construir valores estéticos comuns à todas as classes é fadada ao insucesso, exceto se esta se der através da língua ou da moral universal. Bourdieu diz que a língua, assim como toda moral universal, é ao mesmo tempo comum às diferentes classes e capaz de receber sentidos diferentes, ou mesmo opostos, nos usos particulares, até antagônicos que dela se faz99.

Para explicitar esse uso particular do idioma, o autor ilustra de que forma diferentes classes fazem uso de determinadas palavras, atribuindo-lhes diferentes significados ou mesmo usando sinônimos mais apropriados à determinado segmento. A forma de se dizer uma determinada palavra, a entonação, ou mesmo a criação de um neologismo podem conferir ao uso da língua um traço determinante no estilo de vida. No caso das músicas de rap, por exemplo, percebemos toda uma utilização particular da língua, seja ela falada ou escrita. É comum encontrarmos letras com erros ortográficos e gramaticais, assim como a adoção de várias gírias. Nos exemplos abaixo, apontamos essas gírias em trechos de letras das músicas dos videoclipes analisados.

Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão. Ele ainda tá com aquela mina (...)

Alguns companheiros têm a mente mais fraca. Não suportam o tédio, arruma quiaca (...)

Brown: "Aí neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá?

Lembra desse cururu que tentou me matar?" Blue: "Aquele puta ganso, pilantra corno manso. Ficava muito doido e deixava a mina só.

A mina era virgem e ainda era menor. Agora faz chupeta em troca de pó!"100

Pow Pow, um corpo no chão, Pow Pow, de um vacilão Um otário que agora é finado porque se achava o malandrão

Amanheceu todo furado, do lado da lojinha Era um otário se achando malandro(...)

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BOURDIEU, Pierre. Gostos de classe e estilo de vida. p. 86

Armadilha pra pegar negão, se liga na fita101 não sei qual que é se me ve dão ré

trinta cara a pé do piolho vem descendo lá na conde ferve

diz que beck enlouquece black só de arma pesada inverno em massa violentando a minha quebrada basta eu registrei vim cobrar sangue bom

com idéia quem tem, não vai tirar a ninguém

meditei, mandando um som com os irmãos da fundão volta ao canão se os homens vem

desfaço grandão rap é o som

e mora lá no morro só loco a união não tem fim vai moscar, se envolve jão já viu seus pivetes, dizer que rap quer curtir o bit fortalece

se não esquece, quem conclui é o mestre, basta que longe vou, bem que lutou para conquista forte dor tem que depor e não voltar

sujou, bem vindo ao inferno aqui é raro eu falo sério102

Em todos os trechos, percebemos um uso da língua peculiar aos moradores de favelas e, principalmente, aos membros da cultura hip hop. Há trechos da letra de “Um bom lugar”, em que a compreensão é praticamente impossível para aqueles que não têm nenhum contato com a favela ou com o rap.

Sabemos que o estilo de vida da cultura hip hop tem suas raízes nos Estados Unidos. No entanto, no decorrer dos anos, a cultura hip hop brasileira tomou rumos diferentes e consolidou-se como uma voz da periferia, enquanto na América do Norte essa cultura transformou-se em um trampolim social para os negros se realizarem financeiramente e atingirem o estilo de vida das classes ricas e, mais ainda, poderem consumir seus carros, suas jóias, suas roupas e seu ideal de mulher. Não podemos esquecer que no Brasil o fator objetivo da necessidade e a proximidade com o mundo influenciaram e influenciam o estilo de vida da cultura

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MVBill. Traficando Informação in Traficando Informação. Rio de Janeiro: Independente, 1999

hip hop. Em grande parte constituído por moradores das periferias nacionais, o consumo e comportamento desses sujeitos é limitado por fatores financeiros. Mas esta limitação muito nos esclarece sobre esse grupo. O fato de morar em favelas, o que implica no compartilhamento de práticas, valores e significados, é uma das características que dá coesão ao grupo e define todos os outros aspectos de seu estilo de vida.

Comecemos pela música. O rap produzido e consumido no Brasil tem como temática a exploração dos pobres pelos ricos, o racismo, a alienação da população de baixa renda pelos meios de comunicação de massa, o difícil acesso à educação, a violência, o abuso por parte dos policias, entre outros. Essa temática, experimentada cotidianamente pelos moradores de periferia é, em primeiro lugar, o fator que agrega cada vez mais membros à cultura hip hop, uma vez que produz identificação nas pessoas que sofrem com esse problema. Como canta Mano Brown na música “Periferia é periferia em qualquer lugar”, existem pontos em comum que indicam o estilo de vida dos moradores das diversas periferias brasileiras.

Periferia é periferia. Periferia é periferia.

Milhares de casas amontoadas Periferia é periferia.

Vacilou, ficou pequeno. Pode acreditar Periferia é periferia.

Em qualquer lugar. Gente pobre Periferia é periferia.

Vários botecos abertos. Várias escolas vazias. Periferia é periferia.

E a maioria por aqui se parece comigo Periferia é periferia.

Mães chorando. Irmãos se matando. Até quando? Periferia é periferia.

Em qualquer lugar. É gente pobre. Periferia é periferia.

Aqui, meu irmão, é cada um por si Periferia é periferia.

Molecada sem futuro eu já consigo ver Periferia é periferia.

Periferia é periferia.

Deixe o crack de lado, escute o meu recado103.

Essa temática é típica de centros urbanos, assim como os demais aspectos que delimitam o gosto dos membros da cultura hip hop para o grafite. Esse tipo de expressão está presente nos muros das grandes cidades e faz parte dos quatro elementos que compõem a cultura hip hop. Em boa parte desses grafites encontramos mensagens de cunho social, a exaltação do bairro ao qual o grafiteiro pertence, a sua própria exaltação através de um codinome que é quase uma marca (o tag) ou alguma referência à cultura pop. O apreço pelo grafite nos aponta para o consumo e produção de uma forma de expressão que faz uso da própria cidade e de seus muros como suporte para suas mensagens.

A ambientação das festas e dos shows da cultura hip hop também se apresenta como aspecto de seu estilo de vida. Esses eventos são realizados, geralmente, em casas de shows de bairros periféricos, a preços bem acessíveis, principalmente nos fins de semana. Vale ressaltar que a maior parte do público destes eventos é masculino.

Em meio a estes diferentes aspectos do estilo de vida da cultura hip hop, pretendemos investigar mais detalhadamente a presença da moda. O típico membro da cultura hip hop é o indivíduo negro, que usa calça bastante larga, camisetas de esporte norte-americano (ou inspiradas neste modelo) também bastante largas, grandes agasalhos, gorros, bonés, bandanas amarradas com o nó virado para cima e tênis baixo. Antes porém, de comentarmos a importância e a escolha da moda como fio condutor da análise do estilo de vida, gostaríamos de lembrar como se dá a difusão do estilo de vida da cultura hip hop através da mídia.

Herschmann procura renovar o conceito de estilo de vida para compreender a cultura hip hop. O autor aponta possíveis intervenções dos sujeitos consumidores na própria lógica de consumo de mercado, o que constitui uma outra lógica que incorporaria a lógica de mercado no jogo das relações sociais104. A noção de estilo (ou estilo de vida) é definida como uma forma de auto-expressão e uma consciência de si estilizada105.

O corpo, as roupas, o discurso, os entretenimentos de lazer, as preferências de comida e bebida, a opção de férias de uma pessoa são vistos como indicadores de individualidade, do gosto, do senso de estilo do proprietário/consumidor106.

Para Herschmann, o entendimento do estilo de vida tornou-se crucial para a compreensão das dinâmicas sociais contemporâneas, uma vez que vivemos a era do excesso de informação e de imagens e as velhas cristalizações e

caracterizações sociais vêm deixando de ser pontos de referência

fundamentais107.

Ao traduzir as escolhas éticas e estéticas dos sujeitos, a noção de estilo de vida permite o mapeamento das novas cartografias do campo social108. No entanto, há de se construir as análises baseadas na noção de estilo de vida com devido cuidado, uma vez que estes operam em constantes mudanças e que se guiam por dinâmicas de gosto, de sociabilidade e de ocupação do espaço urbano, tal como foi apontado por Bourdieu na noção de habitus.