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No Seminário 17: O Avesso da Psicanálise, Lacan desenvolve sua teoria sobre os discursos.

O discurso é uma estrutura que se encontra fundada na lógica de funcionamento da linguagem e que tem por consequência dessa organização a formação de laços sociais. Embora o discurso seja sem palavras, ele é o caminho para que se possa formar uma vasta gama de significados e significantes. É em cima da impossibilidade que se constrói o discurso. O dizer vem daquilo que escapa, do que é impossível. A partir da emergência do discurso da psicanálise é que podemos pensar, retroativamente, os outros discursos. Lacan acredita que os discursos são quatro formas de relacionamento que são também fontes de angústia para o sujeito, segundo Freud: psicanalisar, governar, educar e fazer desejar. Essas quatro configurações variam de acordo com a posição do sujeito e os laços formados pelos elementos em jogo.

[...] a partir do momento em que se sustenta um discurso, o que surge são as leis da lógica, isto é, uma coerência refinada, ligada à natureza do que é chamado de articulação significante. [...] As leis dessa articulação, eis o que domina inicialmente o discurso. (LACAN, 1968-1969/2008, p, 79).

Aqui nos interessa refletir sobre uma derivação de um desses discursos, o do mestre.

Porém, antes de considerar esse discurso, é preciso entender a estrutura dos discursos. Lacan (1969-1970/1992, p. 11) define estrutura como “um discurso sem palavras”, o discurso é uma estrutura necessária que subsiste na relação fundamental de um significante com outro.

Os discursos nada mais são do que a articulação significante, o aparelho, cuja mera presença, o status existente, domina e governa tudo o que eventualmente pode surgir de palavras.

São discursos sem palavras, que vêm em seguida alojar-se nele. (LACAN, 1969-1970/1992, p. 158)

Então, a distribuição espacial dos discursos se dá em dois níveis: quanto às posições e quanto aos termos. As posições são permanentes:

O agente organiza a produção discursiva, domina o laço social, ao dar o "tom" ao discurso e possibilitar que haja alteridade. O outro é aquele a quem o discurso se dirige. O outro precisa do agente para se constituir. A produção é o efeito do discurso, é aquilo que resta. A verdade sustenta o discurso, mas é acessível apenas pelo “semi-dito”. A verdade não pode ser toda dita, havendo uma interdição ( // ) entre a produção e a verdade. (COELHO, 2006, p.3)

Quanto aos termos do discurso, embora apareçam numa sequência fixa, ocupam alternadamente cada uma das posições estruturais.

S1- o significante mestre S2- significante saber

a- objeto causa de desejo $- o sujeito do inconsciente

Para falar sobre o discurso do mestre, Lacan evoca Hegel em seu mito de fundação, descrito na Fenomenologia do espírito, o mito do Senhor e do escravo, onde o trabalho liberta.

Sem prejudicar a dialética hegeliana por uma constatação de carência, há muito levantada a propósito da questão do vínculo da sociedade dos senhores, mestres [...]. O trabalho, diz-nos ele, a que se submete o escravo, renunciando ao gozo por medo da morte, será justamente a via pela qual ele realizará a liberdade. Não há engodo mais manifesto politicamente e, ao mesmo tempo, psicologicamente. O gozo é fácil para o escravo e deixará o trabalho na servidão (grifo nosso) (LACAN, 1960/1998, p. 825).

Nesse discurso há um laço social entre agente e o outro (escravo) e uma intimidade cúmplice onde vemos o sujeito do inconsciente no lugar da verdade, verdade essa que não há mestre. O escravo é detentor de um saber que produz um gozo.

Lacan propõe uma nova leitura acerca desse discurso, que é baseada na indagação de que, se há um mercado, de que forma nele se situa o trabalho: no mercado, a força de trabalho é vendida e comprada como qualquer outra mercadoria. O que Marx propõe de novo é justamente notar que há um mercado do trabalho, o que muda por completo todo o entendimento que até então havia sobre o que é trabalho e quanto o que é mercado. Um mercado que compra trabalho, um trabalho que se vende no mercado, um trabalho para o qual há um mercado; esses índices indicam a instauração não só de um novo sistema econômico, mas de uma nova época da história – a que torna a força de trabalho dos trabalhadores uma mercadoria. Lacan falará, em seus termos, desse novo discurso: o discurso capitalista.

Nessa formulação temos o sujeito barrado no lugar de agente, mas quem age é o senhor, quem move o sujeito é o objeto de gozo. A ciência, articulada junto ao discurso do capitalismo, disponibiliza novos objetos que se propõem como promessa de gozo à disposição dos consumidores, os gadgets. Poderíamos dizer que há um mundo de mercadorias clamando por um possuidor. Mercadorias essas, cada vez mais sofisticadas. Vivemos em um mundo povoado de gadgets, de bugigangas, de artigos ultramodernos que, em pouco tempo de existência, revelam sua condição de descartáveis. Basta para isso que, em poucos meses, esteja à venda um modelo ainda mais moderno. Cria-se, assim, uma nova demanda de um novo objeto para suplantar aquele já obsoleto.

A moda pode ser entendida como um discurso, posto que existe apenas para sujeitos, seres de linguagem.

O psicanalista Mauro Mendes Dias (1997), em seu livro Moda divina

contribuições. Ele admite a moda como um discurso em duas acepções diferentes relatadas em uma nota ao final do primeiro capítulo:

O conceito de discurso será utilizado segundo duas acepções. A primeira se refere ao discurso como organizador do vínculo social. Indica as relações específicas do sujeito com os significantes e o objeto. A moda assim caracterizada tenderia a coincidir com o advento de enunciados do assujeitamento, moldados a partir de relações de consumo mercado e propaganda. A referência teórica que lhe fundamenta é o Seminário XVII de Jacques Lacan – O avesso da psicanálise [...]. De outra parte, a indicação da moda como discurso se refere à ligação com a imagem própria, pela vestimenta. Recobre, nesse caso, o sentido do discurso comum. Jacques Lacan cunhou o neologismo “disque-ursocorrente”, do francês disque-urcourant que, segundo o dicionário de psicanálise Larousse, designa o discurso comum, no qual o inconsciente não se faz ouvir ou, pelo menos, não é reconhecido.’ Nesse segundo sentido, a moda será abordada em sua relação com a moral. (DIAS, 1997, p. ??)

Entendida como o motor de todo o sistema capitalista de produção e consumo, a moda passa assim a designar o fenômeno que transforma os consumidores em seres hipnotizados pelos objetos (OLIVEIRA, 2013), como no exemplo que formulamos acerca da bolsa Prada.

No discurso capitalista, as “leis da lógica” aparecem a partir do momento em que o sujeito assume um lugar do qual toma a palavra nesse laço social. Ou seja, no capitalismo, não é viável dar significação ao que quer que seja, uma vez que seu sentido está condicionado tanto às leis da articulação simbólica que ocupam o lugar da verdade capitalista quanto ao mais-de-gozar que nada mais é do que o produto desse laço social.

Partindo do conceito de valor de uso da mercadoria, segundo Marx e por meio de sucessivos movimentos lógicos chegamos ao fetiche, conceito que encerra o primeiro capítulo de O capital e que explicita a condição de existência da organização social capitalista. A partir daí, o que entendemos como mais-valia e sua homologia com o objeto a nos proporciona vislumbrar a falta fundamental que motiva o capital e o “falta-a-ser” que esse discurso produz.

Podendo ser reconhecida como uma espécie de autorretrato da sociedade, a moda é, dentro desta articulação com o sistema capitalista mediático, o cerne de dois efeitos que definem a nossa época tecnológica: o da

aceleração da experiência do tempo e o da “sentimentalização” da sociedade. Nela se torna substancial uma consciência de insatisfação que obriga a acompanhar permanentemente os fluxos de renovação e mudança e acomodar as necessidades em dispositivos e objetos que oferecem significados emprestados e voláteis. No domínio do vestuário como das máquinas o que adquirimos rapidamente se torna de novo obsoleto e distantes do objeto de desejo. Como na linha do horizonte, que parece tornar-se eternamente distante a cada passo que damos na sua direção, o caminho que fazemos no sentido da atualização progressiva do que temos e do que somos parece um caminho irremediavelmente incompleto – trilhado pelos sujeitos faltantes que somos.

A busca do novo, ditada pelo dinamismo das tendências, apressa as rotinas de consumo numa resposta aos anseios das transações económicas, no mesmo passo em que abrevia o destino das coisas e dos indivíduos e nos coloca perante o desafio do eterno recomeço.

A moda é, desde a revolução industrial, o processo pelo qual se faz esse exercício erótico que é a vida em sociedade. No vestuário com que nos apresentamos como nos objetos que administram o cotidiano, a moda funciona como mecanismo de gestão do consumo pela manipulação dos afetos. Maquinadora dos gostos, ela exerce o discreto poder de determinar à superfície das aparências, na espuma do consumo frívolo, o modo como se desenvolve a própria humanidade.

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