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Finalizo este capítulo teórico com a explicitação das principais hipóteses desenvolvidas para este estudo. As evidências e análises apresentadas neste capítulo mostraram que as variáveis de intensidade tecnológica, setor e País em que uma empresa está estabelecida influenciam o seu processo de inovação e as características das práticas de inovação aberta implementadas. Tidd, Bessant e Pavitt (2005) argumentaram que a trajetória tecnológica da empresa se relaciona as formas de colaboração que ela desenvolve com parceiros externos e Mortara et al. (2009) complementaram esse argumento ao afirmar que o setor ao qual a empresa pertence influencia os benefícios que ela pode obter ao implementar uma estratégia de inovação aberta. Essas diferenças são evidenciadas pela forma com que as práticas de inovação aberta são exercidas, uma vez que em diferentes contextos as necessidades quanto ao tipo de projeto, os parceiros envolvidos e as fases do processo em que a interação acontece e como essas parcerias são estabelecidas também apresentam características distintas.

Os estudos discutidos ao longo deste capítulo consideraram diferentes variáveis para a caracterização do modelo de inovação aberta adotado pelas empresas. Com base nessa literatura, a Figura 4 representa o modelo conceitual desenhado para este estudo, trazendo quatro dimensões principais as quais permitem a compreensão das relações estabelecidas pela empresa e o ambiente externo para inovar em indústrias de baixa e média intensidade tecnológica. As dimensões exploradas são o tipo de parceiro (CHIARONI; CHIESA; FRATTINI, 2008; FERRO, 2010; BUENO; BALESTRIN, 2012; GARCEZ; SBRAGIA; KRUGLIANSKAS, 2014), o tipo de projeto quanto à natureza da inovação (BUENO; BALESTRIN, 2012; GARCEZ; SBRAGIA; KRUGLIANSKAS, 2014), as fases do projeto (CHIARONI; CHIESA; FRATTINI, 2008; FERRO, 2010; BUENO; BALESTRIN, 2012) e o tipo de parceria quanto á natureza do contrato (CHIARONI; CHIESA; FRATTINI, 2008; FERRO, 2010; BUENO; BALESTRIN, 2012; GARCEZ; SBRAGIA; KRUGLIANSKAS, 2014). Esse modelo suportará a coleta e a análise de dados quanto as parcerias estabelecidas entre a empresa unidade caso e os diferentes agentes externos que participam do processo de inovação.

Parceiros Tipo de Projeto Fases do Projeto Tipo de parceira Fornecedores Clientes Universidades e ICTs Competidores Radical Incremental Ideação Pesquisa Desenvolvimento Lançamento Relações Informais Licenciamento Desenvolvimento em Conjunto Cooperação em P&D

Figura 4: Modelo conceitual para caracterização das práticas de inovação aberta em empresas de baixa e média intensidade tecnológica.

Os estudos anteriormente discutidos (CHIARONI; CHIESA; FRATTINI, 2008; FERRO, 2010; BUENO; BALESTRIN, 2012; GARCEZ; SBRAGIA; KRUGLIANSKAS, 2014) evidenciaram colaborações com parceiros diferentes em cada estágio do desenvolvimento da inovação, bem como diferentes relações estabelecidas. O presente estudo busca compreender as práticas de inovação aberta em um setor de média intensidade tecnológica, intensivo em escala, conforme classificação de Tidd, Bessant e Pavitt (2005). Em específico o estudo será conduzido no setor petroquímico, no qual os processos produtivos estão baseados em tecnologias maduras e na sua maior parte licenciadas por poucos grandes fornecedores globais.

Em um contexto de baixa intensidade tecnológica, o caso da empresa Natura, pesquisado por Ferro (2010), tem como foco processos de inovação incremental com destaque para pequenas melhorias destinadas para os clientes finais através do lançamento de novos produtos. As empresas do setor não realizam grandes inovações que requeiram de inovações tecnológicas mas necessitam de ativos e ingredientes para permitir suas inovações incrementais. Nesse contexto, as parcerias mais relevantes são com fornecedores, para desenvolvimento em conjunto de produtos e ingredientes que atendam às necessidades de lançamento de produtos no mercado. As universidades e ICTs também são acessadas pois elas estão a todo tempo investindo em pesquisa básica, que leva a criação de novos ingredientes. Contudo, esses agentes externos aparecem mais como fornecedores desse conhecimento que é adquirido pelas empresas do setor. Dessa forma, o setor de HPPC reforça o argumento de que em setores de média e baixa intensidade tecnológica, em que pequenas melhorias em produtos e processos prevalecem, o foco para desenvolvimento em conjunto está nas interações com fornecedores. Quando as empresas nesses setores possuem necessidades específicas de

inovações tecnológicas, ou em casos infrequentes de inovações radicais, como desenvolvimento de um ingrediente totalmente novo, elas partem para o estabelecimento de parcerias com universidades e ICTs ou a compra de tecnologias desenvolvidas por esses agentes.

A publicação de Bueno e Balestrin (2012) discute as peculiaridades do desenvolvimento de um caso conceito. Nesse sentido, os autores traçam um paralelo comparando o processo de desenvolvimento de um carro que será lançado no mercado com o desenvolvimento de um carro que representa o futuro da tecnologia e exigiu competências que a empresa não possuía internamente. A pesquisa mostrou que os usuários e consumidores foram acessados nas fases iniciais, para insumos de mercados e geração de ideias para desenvolvimentos de produto. Os fornecedores, por sua vez, tiveram uma participação ativa no processo de desenvolvimento propriamente dito. As universidades e institutos de pesquisa colaboraram nas fases iniciais também como provedores de ideias e os autores destacaram a sua participação na fase de desenvolvimento, principalmente, por se tratar do desenvolvimento de um carro conceito em que a empresa precisou de um conhecimento totalmente novo, que não possuía internamente e foi busca-lo nesses agentes.

Em linhas gerais, espera-se que o foco das atividades inovativas no setor petroquímico acompanhe os resultados dos estudos em indústrias intensivas em escala, que inovações incrementais para melhorias em produtos e processos sejam mais frequentes do que grandes inovações tecnológicas. O estudo de Garcez, Sbragia e Kruglianskas (2014) em uma empresa petroquímica brasileira apresentou uma distribuição similar de projetos de inovação radical e incremental. Contudo, esse estudo focou em grandes projetos de inovação tecnológica dessa empresa e não no portfólio total de projetos de inovação. No modelo proposto por esse estudo, espera-se inovações incrementais mais frequentes considerando todo portfólio de projetos da empresa com foco em melhorias nos processos e produtos correntes. Melhorias nos produtos e processos atuais levam a busca pelos parceiros com os quais as empresas possuem mais relacionamento. Esse tipo de parceria para desenvolvimento de melhorias em produtos e processos atuais são correntemente desenvolvidas em conjunto com clientes e fornecedores (FERRO, 2010; BUENO; BALESTRIN, 2012), sendo os clientes participantes ativos na fase de ideação participando com expertise de mercado e os fornecedores de desenvolvimento com expertise técnico (GARCEZ; SBRAGIA; KRUGLIANSKAS, 2014). Por outro lado, nos casos em que as empresas desses setores possuam necessidade de gerar inovações maiores em seus processos e produtos, as quais estão distantes de seus processos core, seja por estarem ligadas ao desenvolvimento de tecnologia

totalmente nova ou a criação de um novo mercado, elas buscam conhecimento em parceiros diferentes. Nesse cenário, em que a empresa está desenvolvendo algo totalmente novo, como o caso do carro conceito desenvolvido pela FIAT (BUENO; BALESTRIN, 2012) ou os projetos de inovação radicais explorados por Garcez, Sbragia e Kruglianskas (2014), as empresas passam a acessar o conhecimento de universidades e centros de pesquisa, os quais possuem o conhecimento de ponta necessário para esse tipo de desenvolvimento. A hipótese 1 deste estudo delineia o tipo de projeto de inovação e os agentes com quem a empresa colabora nos diferentes projetos:

1. Em inovações incrementais prevalecem parcerias com fornecedores e clientes, enquanto em inovações radicais, prevalecem parcerias com ICTs e universidades.

Outra variável que muda no processo de inovação aberta é o estágio do desenvolvimento em que os diferentes agentes são acessados. Nas fases iniciais de um desenvolvimento, que vai da ideação ao desenvolvimento da tecnologia propriamente dita, as empresas precisam de maior conhecimento externo. Já nas fases finais, em que a empresa já possui o conhecimento do mercado em que está atuando e os canais de comunicação, não se observa necessidade de parcerias. Os resultados das pesquisas de Ferro (2010) e Bueno e Balestrin (2012) mostraram que a participação dos clientes está muito ligada à ideação do produto que será desenvolvido. Eles são o principal canal da empresa para buscam de fomento e tendências para as necessidades de mercado que serão atendidas. No mesmo sentido, o estudo de Garcez, Sbragia e Kruglianskas (2014) demonstrou que os clientes foram acessados em projetos e pesquisas complementares nos quais a empresa forneceu a expertise técnica e o cliente a expertise de mercado. No oposto dos clientes, os autores identificaram que nas relações estabelecidas com fornecedores, eles proveem a expertise técnica e a empresa a expertise de mercado. Dessa forma, eles são acessados principalmente na fase de desenvolvimento que é o estágio em que o conhecimento técnico torna-se fundamental. Quando se trata de projetos de tecnologias totalmente novas, em que é necessário o acesso a pesquisas e conhecimento mais complexo, as universidades e ICTs aparecem também como importante fonte de conhecimento, principalmente no que tange as pesquisas que serão utilizadas para o desenvolvimento subsequente. Dessa forma, esse tipo de parceiro também está presente nas fases iniciais. Em relação as fases em que os diferentes agentes externos são acessados, a hipótese 2 explica o comportamento esperado no presente estudo:

2. Em fases iniciais do processo de inovação, prevalecem parcerias com clientes, ICTs e universidades, enquanto em fases de desenvolvimento de tecnologia, prevalecem parcerias com fornecedores e em fases de lançamento, não há necessidade de parceiras;

Por fim, faz-se necessário entender como as relações com os agentes externos são estabelecidas nas diferentes fases do processo de inovação. Os fornecedores são parceiros conhecidos desde os estudos predecessores ao conceito de inovação aberta para desenvolvimento em conjunto. Em setores de média intensidade tecnológica, como o caso do setor petroquímico em que grande parte da tecnologia utilizada é licenciada por grandes fornecedores, espera-se confirmação da hipótese de que as empresas utilizam fornecedores para desenvolvimento em conjunto quando existe a necessidade de mudanças nos processos ou produtos de revisão tecnológica. Para projetos de maior complexidade ou de inovação radical, em que há necessidade de competências totalmente novas e tecnologias em estágio embrionário as parcerias observadas foram com universidades e ICTs. Esse tipo de parceria representa necessidade maior de interação entre a empresa e ICTs, uma vez que o conhecimento dificilmente é adquirido e integrado ao processo de desenvolvimento sem apoio do pesquisador. Tanto no setor de HPPC em que as universidades e ICTs são acessados na busca de novos ingredientes, no setor automotivo em que as ICTs atuam como co- desenvolvedores de novas tecnologias e no setor petroquímico em que alianças com universidades são formadas para pesquisa de ciência básica e inovação radical observa-se o que estamos chamando de parcerias de desenvolvimento em conjunto. Os clientes, conforme explorado anteriormente, são uma das principais fontes de ideias utilizadas pelas empresas para desenvolver novos produtos. Mesmo que em alguns casos desenvolvimento em conjunto possa ocorrer, em linhas gerais, as relações estabelecidas com esse agente são informais, através de relações comerciais, feiras e exposições e outras situações em que eles expõem as suas necessidades e as empresas capturam as oportunidades para desenvolver internamente. Os competidores, por fim, apareceram como fonte externa acessada pela empresa estudada por Garcez, Sbragia e Kruglianskas (2014) em alguns projetos específicos. No estudo, eles foram acessados quando se buscava a redução de riscos ao se investir da divisão de ativos de P&D, prevalecendo parcerias que envolvem recursos similares, permitindo o seu compartilhamento. Contudo, dada a especificidade dos projetos apresentados por esses autores, entende-se que avaliando as práticas de inovação aberta de uma empresa incluída em uma indústria de média intensidade tecnológica, que parcerias com esse agente não estão

estabelecidas. A hipótese final desse estudo apresenta o tipo de relação desenvolvida esperada pela empresa com os diferentes agentes externos que participam do processo:

3. Em relações com diferentes agentes prevalecem diferentes tipos de relação. Com fornecedores se estabelecem parceiras de licenciamento e desenvolvimento em conjunto, com universidades e ICTs parcerias de cooperação em P&D e com clientes relações informais.

Com base nos estudos discutidos ao longo deste capítulo e o modelo conceitual apresentado ao fim, os capítulos seguintes exploram os dados coletados na pesquisa de campo deste estudo. O próximo capítulo discute o caso escolhido e descreve a empresa e a indústria unidade caso. Em seguida, os dados quanto ao processo de inovação da empresa são analisados para compreender como os elementos da inovação aberta estão presentes nessa empresa. Ao fim, o modelo teórico aqui desenhado é utilizado para compreender as práticas de inovação aberta na empresa unidade caso desse estudo.

3 CARACTERIZAÇÃO DO SETOR PETROQUÍMICO E DA BRASKEM

Este capítulo caracteriza o setor químico e petroquímico no Brasil, bem como a empresa Braskem que é a unidade escolhida para condução deste estudo de caso. Primeiramente, introduz-se uma seção para discutir o setor químico no Brasil, o qual inclui as empresas petroquímicas. O setor é classificado em termos de sua intensidade tecnológica e em seguida a sua relevância para a economia brasileira é destacada. Somam-se a isso alguns indicadores de inovação do setor, comparando os investimentos em inovação do setor químico em relação a outros setores da economia brasileira. O intuito é justificar a escolha do setor petroquímico como um exemplo de setor de média intensidade tecnológica, bem como sua relevância em um país emergente, como o Brasil.

Em seguida apresenta-se a empresa unidade caso deste estudo, a Braskem. Nessa seção, a empresa é caracterizada através dos seus negócios, produtos, estratégia e estrutura para inovar. O objetivo é situar o leitor em relação ao caso estudado, destacando um pouco do histórico da empresa e as mudanças estratégicas pelas quais ela passou, as quais justificam a sua estrutura corrente para inovar, a qual engloba as práticas de inovação aberta desempenhadas.