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2.2 Contribuições teóricas acerca do Comportamento Antissocial na Infância

2.2.4 Modelo da Aprendizagem da Interação Social

O Modelo da Aprendizagem da Interação Social, também conhecido como Modelo da Coerção, foi proposto por Gerald Patterson (1926-2016) e seus colaboradores e sistematizado na década de 1990 (PATTERSON; REID; DISHION, 2002). Em suma, parte-se do pressuposto de que o comportamento antissocial é aprendido no meio familiar, a partir de relações coercitivas, e segue uma progressão que se inicia na infância e se prolonga até a idade adulta (PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989; PATTERSON; REID; DISHION, 2002). Embora se destaque o papel da família, esta perspectiva não ignora a importância de fatores contextuais, tais como aspectos culturais, lugar de moradia, condições socioeconômicas, estresse ou características de personalidade dos pais (PATTERSON; REID; DISHION, 2002).

O termo coercitivo se refere ao uso de um estímulo aversivo por um membro de uma díade (ex. mãe e filho) que é contigente ao comportamento de outra pessoa (PATTERSON; REID; DISHION, 2002). Nessa perspectiva, as contingências fornecidas pelo ambiente social (fuga ou reforçamento positivo) mantêm esses comportamentos coercitivos e são centrais no entendimento de como as famílias e os outros ambientes de socialização (escola, pares) treinam as crianças em seus comportamentos antissociais. Por exemplo, a mãe se opõe a comprar um determinado doce em um supermercado e o filho começa a chorar, gritar (aversivo). A mãe, a fim de eliminar o comportamento aversivo (fuga), dá o doce ao filho (reforço positivo). Estas relações coercitivas, quando não rompidas, podem se ampliar para diferentes situações, prejudicar a qualidade das relações e favorecer o desenvolvimento de comportamentos antissociais (PATTERSON; REID; DISHION, 2002).

Na versão original do modelo da coerção, o desenvolvimento do comportamento antissocial é organizado em quatro etapas, em que se apresentam diversos fatores que contribuem para a origem e a manutenção do comportamento antissocial em diferentes momentos do desenvolvimento (PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989). Entre os principais elementos envolvidos, estão: treino coercitivo parental, rejeição social por pares, fracasso escolar e associação com pares desviantes (PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989; PATTERSON; REID; DISHION, 2002).

Na primeira etapa, ocorre o que se denomina de “treinamento básico”, em que os pais, diante dos comportamentos coercitivos (ex. chorar, gritar, bater etc.) emitidos pela criança (0 a 6 anos), fazem uso de práticas parentais ineficazes, que reforçam tais comportamentos e contribuem para o desenvolvimento de comportamentos antissociais (KIM et al. 2014; PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989). Nesse contexto, ao estarem focalizados nos comportamentos inadequados, os pais acabam não priorizando os comportamentos pró-sociais dos filhos, o que leva à extinção e à ausência de treino destas competências (PATTERSON, 2002). Em um segundo momento, a mesma criança em idade escolar (7-12 anos), por não estar dotada de habilidades sociais, torna-se susceptível à rejeição social e ao fracasso escolar (GRANIC; PATTERSON, 2006; PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY 1989). Nesta etapa, em geral, as crianças apresentam dificuldade em participar de grupos (LANSFORD et al., 2014), como também se observa descompromisso com as atividades escolares e envolvimento em confusão na escola (PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY,1989). Em um terceiro momento, situado na adolescência, o indivíduo que em sua trajetória foi alvo de rejeição social e fracasso escolar, começa a selecionar grupos de pares que reforcem seus comportamentos “antissociais” (como por exemplo, gazear aula, mentir, envolver-se em confusões), portanto, é provável que comece a se relacionar com grupos desviantes (PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989). O resultado desse processo culmina na quarta etapa do modelo, em que se dá a cronificação dos comportamentos antissociais, em que o adulto que segue essa “escalada comportamental”, sem intervenção, tem alta probabilidade de se envolver em infrações mais graves (ex. roubo, furto, etc.) e ter problemas com a justiça (PATTERSON; DISHION; YOERGER, 2000; PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989).

Em 2006, o modelo foi reformulado pelo estudo da abordagem dos “sistemas dinâmicos”, a qual apresenta um conjunto de princípios fundamentados no campo das ciências exatas (multiestabilidade, feedback, atratores, causalidade circular), buscando explicar a probabilidade de ocorrer ou não mudanças comportamentais ao longo do desenvolvimento (GRANIC; PATTERSON, 2006; GRANIC, HOLLENSTEIN, 2003). A partir dessa abordagem, foi discutido o papel das escalas temporais micro (momento a momento) e macrossociais (perspectiva desenvolvimentista) para o desenvolvimento do comportamento antissocial. Além disso, também foram explicadas as relações entre fatores contextuais, fatores biológicos, comportamentos parentais e infantis envolvidos nos padrões de interação que geram problemas de comportamento. A integração do Modelo da Coerção à abordagem dos sistemas dinâmicos

possibilitou o seu aprofundamento teórico e uma visão integradora das variáveis propostas (GRANIC; PATTERSON, 2006).

De uma maneira geral, ao longo do processo de desenvolvimento da teoria, duas questões básicas buscam ser respondidas: (1) como se desenvolve o comportamento antissocial em crianças e adolescentes? (2) como esse tipo de comportamento pode ser efetivamente tratado? (DISHION, 2017). Assim, o modelo, apesar de complexo, é base para a intervenção em crianças e adolescentes antissociais (GOMIDE et al., 2017) e para fundamentação de importantes programas de prevenção parental, como é o caso do Oregon Model of Parent Management Training (FORGATCH; RAINS; SIGMARSDÓTTIR, 2015).

No contexto da infância estudos empíricos com base no modelo apontam a influência das interações coercitivas no desenvolvimento do comportamento antissocial (SMITH et al., 2014; PRICE; CHIAPA; WALSH, 2013). Um estudo realizado por Price, Chiapa e Walsh (2013), em que se avaliou como características dos contextos familiares predizem problemas de comportamento externalizantes em crianças do ensino fundamental (n=177), observou que o abuso físico, além de ser um dos mais fortes preditores de problemas externalizantes, também favorecia a presença de interações sociais negativas. Em estudo longitudinal que acompanhou crianças (n = 401, 43% meninas) do jardim de infância até a idade de 18 anos, apontou que a dinâmica familiar agressiva durante a infância e a adolescência influenciaram na perpetração da violência e da vitimização do namoro no final da adolescência (MAKIN-BYRD et al., 2013).

No desenvolvimento de um programa de intervenção focado na redução de comportamentos antissociais em crianças, esta perspectiva teórica será de grande utilidade, uma vez que, além de trazer bons resultados em distintos programas interventivos (ex. Parent Management Training Oregon- PMTO), também destaca o papel da promoção da interação social positiva (ex. contexto familiar, escolar) desde idades precoces e com base em uma perspectiva desenvolvimentista (PATTERSON; FORGATCH; DEGARMO, 2010; PATTERSON; DEBAYSHE, RAMSEY, 2017). Nesse sentido, ao se propor uma intervenção em comportamento antissocial focada em variáveis familiares (nesse caso, maternas), pressupõe-se que o comportamento antissocial emitido pelas crianças é influenciado e aprendido nas interações sociais, com mães, pais ou outros cuidadores primários.