Foto 2 – Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe
2 FLUÊNCIA EM LEITURA ORAL E COMPREENSÃO DE LEITURA:
2.4 Modelo de leitura
2.4.1 Modelo da dupla rota de leitura
O modelo de dupla rota em cascata da leitura em voz alta (COLTHEART et al, 2001; COLTHEART, 2013) é um modelo computacional que testou o processamento cognitivo da leitura por meio de dois processos e foi considerado uma evolução computacional, porque conseguiu identificar como ocorrem os processos da leitura em voz alta (COLTHEART, 2013). O modelo consiste em duas rotas: a rota lexical (semântica e não semântica) e a rota fonológica (de conversão grafema-fonema). O modelo está em cascata, porque a ativação é encaminhada de um módulo para o seguinte, assim que um processo nesse módulo é iniciado, sem aguardar a conclusão do próprio processo.
Compreender o processo da leitura em voz alta pelo modelo de dupla rota de leitura em voz alta pode ser esclarecedor para identificar a automaticidade (ou a sua falta) na leitura.
Coltheart (2013) retrospecta que a primeira concepção da leitura deste modelo foi enunciada por Saussure, em 1922, para explicar as duas maneiras de leitura: para palavras novas, o leitor decodifica letra por letra, enquanto as palavras familiares são lidas de forma global, visualmente, sem preocupação com as letras individualmente. Esses processos de leitura foram tratados por Coltheart et al (2001) como modelo de dupla rota da leitura em voz alta (Figura 2). O modelo recebe esse nome devido à utilização de duas rotas cognitivas para o processamento de informação da palavra escrita à sua pronúncia, acessando a rota lexical e fonológica.
Para compreendermos melhor o processamento nessas duas rotas de leitura em voz alta, é necessário, primeiramente, entender o conceito de léxico. Lupker (2013, p. 57) explica que léxico ou memória lexical é como um dicionário mental onde estão organizadas todas as palavras que o leitor conhece. Dehaene (2012, p. 57) também faz uso dessa metáfora do dicionário para explicar as várias representações do léxico (ortográfico, fonológico). Assim, podemos dizer que léxico mental designa aquela parte da memória semântica (onde se armazenam os conceitos) que processa a informação fornecida por cada palavra (ao nível gráfico, fonológico, morfológico, sintático e semântico), durante a recepção e a produção da palavra escrita na leitura em voz alta.
Ilustrando esse modelo, conforme a figura 2, uma rota exige da palavra lida uma representação no léxico ortográfico e a outra é usada quando não há representação dessa palavra. O reconhecimento da palavra escrita inicia com o input visual (unidades de características visuais e unidades de letras), que é responsável por dois processos: construir representações das letras impressas, diferenciando umas das outras, e codificar as letras em
palavra. A partir desse reconhecimento, o leitor pode assumir uma rota lexical ou fonológica, o que depende da palavra e do nível de automaticidade em leitura.
No processamento da palavra escrita pela rota fonológica, o input visual envia informações diretamente para o sistema de regras grafêmicas e fonêmicas, que realiza a conversão dos grafemas em fonemas, e, para a articulação da fala, acessa o sistema fonêmico. Nesse processo, as letras são agrupadas em grafemas, sem levar em consideração a familiaridade da palavra ortográfica e o significado das palavras, mas a sua pronúncia (COLTHEART et al, 2001).
Quando o processamento da palavra escrita ocorre pela rota lexical, pressupõe-se uma leitura automatizada. O léxico ortográfico identifica se a representação construída pela sequência de letras forma uma palavra conhecida. Nele estão armazenadas todas as palavras familiares do leitor, no entanto, o significado é buscado no sistema semântico, que funciona como um repositório de todo conhecimento acerca do significado das palavras familiares. A pronúncia dessa palavra é acessada no léxico fonológico, que detém todas as informações sobre a pronúncia das palavras. Por fim, o sistema fonêmico é considerado um depósito de curto prazo, que armazena os fonemas das palavras recuperadas nos processos anteriores até a sua articulação (COLTHEART et al, 2001). Todo esse processo acontece em cascata, como foi explicado anteriormente, de forma que um acontece sem precisar que o anterior tenha sido concluído.
Nos estudos de Coltheart e seus colaboradores (2013) sobre o que o modelo de dupla rota de leitura consegue explicar sobre a leitura em voz alta, eles identificaram que:
a) palavras de alta frequência são lidas em voz alta com mais rapidez do que palavras de baixa frequência;
b) palavras são lidas em voz alta com mais rapidez do que não palavras9;
c) palavras regulares10 são lidas em voz alta com mais rapidez do que palavras irregulares;
d) o tamanho da vantagem da regularidade é maior para palavras de baixa frequência do que para palavras de alta frequência [...] (COLTHEART, 2013, p. 33).11
O leitor faz uso da rota fonológica quando a palavra analisada visualmente não está representada no léxico ortográfico e, consequentemente, não é reconhecida como palavra
9 Não palavra ou pseudopalavra é a sequência de letras organizadas de acordo com a estrutura de uma palavra, mantendo relações de semelhança formal, mas não possui um significado, por exemplo “exercico”, “fetre” (COLTHEART, 2013).
10 Nas palavras regulares, as letras (grafemas) sempre representam o mesmo som (fonema); nas irregulares, não há a correspondência letra-som explicada por regras ortográficas.
11 Poderíamos acrescentar ainda que palavras são lidas em voz alta mais rápido em L1, língua materna, do que em L2, língua estrangeira (PORTO; FREITAG; TEJADA, 2018).
familiar e frequente. Acessando essa rota, pode ocorrer a pronúncia incorreta de palavras irregulares que não apresentam uma correspondência unívoca entre grafema e fonema, por exemplo, “complexa” e “chão”. Já as palavras regulares e transparentes12 podem ser lidas com sucesso, por exemplo “bala”.
A rota fonológica é acessada por leitores que estão em período de aprendizagem inicial da leitura e em processo de desenvolvimento da automaticidade (como no período de alfabetização) ou quando leitores hábeis se deparam com uma palavra nova ou estrangeira e precisam fazer a correspondência grafofonêmica para decodificar essa palavra. Na leitura em voz alta, o acesso à rota fonológica possibilita identificar:
1) Erro de decodificação que pode ser realizado na leitura em voz alta de palavras que não são frequentes (quantidade de ocorrência na língua) para o leitor (SALLES; PARENTE, 2007; AQUINO, 2011);
2) Falta de conhecimento do sistema ortográfico do Português Brasileiro (PB). No PB, há grafemas representados de forma biunívoca com seu correspondente fonêmico, como em “bala”, demonstrando uma relação transparente. No entanto, em algumas palavras, o sistema ortográfico do PB não é transparente, como nas palavras grafadas com “r” representadas por mais de um fonema em “rápido” e “caro”, ou ainda um fonema representado por grafemas diferentes em “xícara” e “chá”. O afastamento dessa transparência ortográfica do PB pode causar dificuldades na leitura de palavras que não são frequentes para o leitor que oraliza a palavra escrita tentando fazer a correspondência grafofonêmica, sem acessar o léxico, podendo ler a palavra de forma que não corresponda à escrita (MORAIS, 1996; DEHAENE, 2012; QUADRIO et al, 2016).
No acesso à rota lexical, geralmente utilizada por leitores hábeis, o leitor reconhece as palavras que estão armazenadas no léxico mental. A leitura de palavras familiares e frequentes é acessada de forma direta, porque a palavra escrita armazena todas as informações como em um dicionário. O leitor reconhece o léxico ortográfico (afeto), que armazena as informações do léxico fonológico (a pronúncia da palavra), o conhecimento gramatical (substantivo masculino) e semântico (sentimento terno de afeição por pessoa ou animal, amizade).
A ênfase do modelo centra-se na leitura pela rota lexical que possibilita demonstrar a leitura eficiente. O acesso a essa rota na leitura em voz alta possibilita identificar:
1) Fenômenos variáveis da fala transpostos para a leitura em voz alta, mostrando que o leitor conhece a palavra escrita porque é frequente para ele, por isso ele a oraliza em seu vernáculo (AQUINO, 2011; HORA; AQUINO, 2012; PINHEIRO et al, 2017; MACHADO, 2018). 2) Hipercorreção, decorrente de fenômenos variáveis da fala, ocorre devido à insegurança
linguística que o falante, numa situação em que uma variedade é considerada de estigma em relação a uma de prestígio, tenta aproximar-se da variedade de prestígio cometendo
12 Palavras que apresentam uma correspondência maximamente regular e biunívoca entre os grafemas e os fonemas. Por exemplo, na palavra “bala”, os fonemas não apresentam possibilidade de representações diferentes (DEHAENE, 2012, p. 49).
exageros ou impropriedades (LABOV, 2008). Esses “exageros” são tratados como hipóteses malsucedidas (BORTONI-RICARDO, 2004).
Nos leitores aprendizes, a rota fonológica é mais usada do que a lexical, por isso a leitura é mais lenta. Nos leitores hábeis, a rota lexical é mais utilizada, apresentando uma leitura mais rápida e precisa. No entanto, o leitor hábil também faz uso da rota fonológica, quando lê uma palavra nova. O objetivo de leitura também envolve a escolha da rota de leitura, como na leitura para memorizar palavras novas ou estrangeiras, primeiramente, é acessada a rota fonológica. A mudança dos processos de leitura pelas rotas fonológica e lexical pode ser indício do desenvolvimento da leitura ao avançar nos estudos (PINHEIRO; CUNHA; LÚCIO, 2008).
Embora os estudos apoiados no modelo de dupla rota de leitura em voz alta apresentem um diagnóstico da automaticidade, as pesquisas da área da saúde realizam a avaliação de leitura em uma abordagem clínica e investigam os processos sem levar em consideração a heterogeneidade linguística presente na sala de aula, produzindo diagnóstico de patologias em leitura, como a dislexia. Esses estudos são desenvolvidos na área da Psicologia Cognitiva e da Fonoaudiologia, com base em pesquisas na análise de erro de decodificação da palavra escrita. Esses erros são verificados a partir do modelo de dupla rota da leitura em voz alta que avalia os processos cognitivos de decodificação da palavra escrita, com intuito de identificar os problemas no processamento de decodificação ortográfica na leitura de palavras isoladas.
Os estudos de Salles (2005), Pinheiro, Cunha e Lúcio (2008) e Ávila et al (2009) apresentam categorias de erros de decodificação na leitura de palavras isoladas. Os procedimentos de categorização e de tipificação dos erros de decodificação da palavra escrita na avaliação da leitura estão preocupados em diagnosticar dificuldade cognitiva de leitura do estudante, não considerando o uso da linguagem do estudante na automaticidade do processo de decodificação da palavra escrita (MACHADO, 2018). Para avaliação da leitura em voz alta, ressaltamos a importância da concepção de língua. Discutiremos sobre essa abordagem mais à frente.
Como demonstramos, o modelo de dupla rota em cascata de Coltheart et al (2001) e Coltheart (2013) permite aferir o processamento da leitura em voz alta a partir da automaticidade na decodificação ou a falta dela. Com intuito de identificar os processos da compreensão em leitura que demonstram a automaticidade na decodificação, adaptamos os pressupostos do modelo de dupla rota aos de compreensão de Perfetti e Stafura (2014), conforme apresentado na figura 2. Em seguida, mostramos os processos do modelo de compreensão que contribuem para identificar a automaticidade na leitura em voz alta.