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1 PERSPECTIVA GLOBAL DAS COMPETÊNCIAS DE LEITURA E ESCRITA

1.4 L EITURA E E SCRITA

1.4.2 Modelos de Reconhecimento de Palavras

1.4.2.2 Modelo da Dupla Via

Coltheart, Patterson e Marshall, na década de 80, apresentaram o Modelo da Dupla Via, segundo o qual um leitor hábil recorre a duas vias para poder ler em voz alta itens isolados: uma via fonológica e uma via lexical.

A via fonológica permite uma leitura assente na conversão grafema/fonema (CGF), ou seja, permite-nos relacionar um conjunto de letras aos seus respectivos sons. Através desta via, é-nos possível ler pseudopalavras e palavras novas, que não façam parte do nosso vocabulário, bem como palavras regulares. As palavras irregulares se forem lidas por esta via, sem ter em conta as regras ortográficas, podem ser lidas incorrectamente como, por exemplo, na palavra “exame” não ler o “x” com valor /z/. Este tipo de erros designam-se de erros de regularização, pois a palavra é lida como se fosse regular, não tendo em conta questões de ortografia.

Já a via lexical, permite-nos ler palavras irregulares, caso estas tenham uma forma visual familiar. Contudo, segundo Ehri (1998), a via lexical não permite apenas ler palavras irregulars, “This is not true – all words, once they have been read a few times, become sight words, even easily decoded words.” (p. 91). A via lexical assemelha-se a um dicionário, onde se encontram armazenadas as palavras mais frequentes e resulta de uma aprendizagem mais apoiada no contexto, do que na leitura de palavras isoladas, ou seja, “Readers acquire sight words mainly by reading words in context rather than in isolation.” (Ehri, 1998, p.91). Neste sentido, a criança desenvolve um “dicionário”, que lhe permite determinar se um estímulo que já tenha sido visto está ou não correctamente escrito. A via lexical está subdividida em três nós: o nó ortográfico, o nó semântico e o nó fonológico. O ortográfico está relacionado com a forma gráfica da palavra e as regras contextuais para a sua escrita, ao passo que o nó semântico está relacionado com o significado que atribuímos a cada palavra. Por fim, o nó fonológico é aquele que nos permite saber quais os sons de determinada palavra, ou seja, ligam a palavra escrita à

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sua forma falada. Assim, por esta via, conseguimos ler quer palavras regulares, quer palavras irregulares, desde que já tenham sido antes visualizadas.

Figura 1: Adaptação do Modelo da Dupla Via

Partindo deste Modelo da Dupla Via, surgiu o Modelo da Dupla Via em Cascata, um modelo computacional desenvolvido por Coltheart e colaboradores (Coltheart, Curtis, Atkins, Haller, 1993; Coltheart, Rastle, Perry, Langdon & Ziegler, 2001) para simular dislexias adquiridas, tentando perceber a reacção perante determinados estímulos e compará-los com a actividade de leitura. Através dos diversos estudos, estes investigadores chegaram à conclusão de que as palavras de alta frequência são lidas de forma mais célere que as palavras de baixa frequência, bem como as palavras em relação às pseudopalavras. Este modelo foi, contudo, conotado como não conexionista, ao contrário dos modelos de Seidenberg e McCelland de 1989 e de Plaut, McCelland, Seidenberg e Patterson, de 1996. Os modelos conexionistas apoiam-se nas relações neuronais (networks), facto que não está na base do Modelo de Dupla Via em Cascata.

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Contudo, o modelo estandardizado da Dupla Via tem sido criticado por alguns investigadores (e.g., Barron, 1986; Ehri, 1992) e várias versões alteradas do modelo têm sido propostas (e.g., Ehri, 1991).

De acordo com Ehri (1991), a via visual do Modelo de Dupla Via devia ser modificada e devia incluir o elemento fonológico. Esta nova via é descrita como a via fonológico – visual. Com base no conhecimento das correspondências letra e som e na informação ortográfica, conexões específicas entre a forma visual da palavra escrita e a sua pronúncia armazenada na memória (representação fonológica) são formadas. As conexões entre a escrita da palavra e a sua pronúncia são imediatas e as regras de conversão de letra e som, ou recodificação fonológica, usada na via fonológica já não são necessárias. Na verdade, o leitor associa a escrita ao significado. Esta formulação sugere que não é uma informação visual arbitrária, que é associada ao significado da palavra na memória, mas a informações das letras e sons, que ligam a forma visual da palavra à sua pronúncia na memória. Estas conexões são, possivelmente, obrigatórias quando a palavra não é familiar ao leitor.

Resumindo, o Modelo da Dupla Via modificado propõe que a criança aprende primeiro a ler a palavra através da via fonológica e a descodificá-la usando as estratégias de conversão grafema e fonema. Depois da experiência de descodificação da palavra, as crianças aprendem a reconhecer a palavra instantaneamente, não sendo mais necessária a conversão de cada grafema. Este Modelo da Dupla Via modificado destaca a importância das tarefas de processamento fonológico no processo de leitura e tem importantes implicações ao nível educacional. De acordo com Ehri (1991), a descodificação de qualquer palavra requer, até certo ponto, um conhecimento do processamento fonológico. Por esta razão, as crianças com capacidades de consciência fonológica inadequadas terão dificuldades no reconhecimento das palavras através da via fonológica. Este défice pode ser particularmente evidente na leitura de textos complexos. Mesmo no segundo ano de escolaridade, as crianças que não fazem uso das suas informações fonológicas, e apenas recorrem ao reconhecimento visual das palavras, acabam por tornar-se maus leitores (Stuart & Coltheart, 1988). As estratégias de escrita para encorajar a criança a olhar para a palavra, a dizer a palavra, a ouvir os sons da palavra, a esconder a palavra e depois escrevê-la são consistentes com o Modelo modificado de Ehri (1991), no qual o acesso à forma visual da palavra, baseado em algumas informações fonológicas, é encorajado.

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