2 DISLEXIA DE DESENVOLVIMENTO
2.3 E TIOLOGIA DA D ISLEXIA
2.3.1 Causas Cognitivas de Base Neurobiológica
2.3.1.3 Teoria do Défice Visual
A leitura envolve uma tarefa de processamento visual, que implica uma análise e a integração de informação de padrões visuais, por meio de sequências de movimentos oculares e de fixação. Inicialmente, o conceito de dislexia esteve relacionado com as dificuldades de processamento visual (Bronner, 1917; Orton, 1937). Neste sentido, as dificuldades de leitura e escrita seriam resultado de problemas ao nível da discriminação visual, dos movimentos oculares e da memória visual.
Hinshelwood (1990; 1997) e Orton (1937), pioneiros na investigação da dislexia, consideraram que na base da dislexia se encontravam problemas visuais. Assim, Orton, depois de analisar a estrutura cerebral de crianças disléxicas, verificou que estas revelam problemas em termos de dominância, o que interferia na percepção da esquerda e da direita. Neste sentido, deu o nome de estrefossimbolia ao que actualmente designamos de dislexia. Este facto reforça a ideia de que a questão visual está subjacente a esta dificuldade de leitura e escrita.
Orton rejeitou a teoria defendida por Hinshelwood, segundo a qual a “word- blindness” resultava de uma má formação congénita no giro angular esquerdo, a base da palavra no cérebro. Na realidade, segundo Orton, os dois hemisférios eram idênticos à nascença e os dois capazes de processar um normal recurso à linguagem. Atendendo à frequência com que as crianças disléxicas trocavam o /b/ pelo /d/ e à tendência para escrever partes de palavras ou mesmo palavras da esquerda para a direita, concluiu que as principais dificuldades dos disléxicos residiam nas trocas e em dificuldades nas sequências. Para explicar a sua teoria, procurou uma explicação neurofisiológica, segundo a qual os dois hemisférios do cérebro eram iguais e que a informação sensorial (engrams) era apresentada simultaneamente nos dois hemisférios o que produzia uma imagem espelhada. Apesar disto, as funções relativas à linguagem estão apenas dependente de um hemisfério, considerado o «dominante». Desta forma, a compreensão do termo escrito ocorre apenas quando a informação sensorial, em um ou em outro hemisfério, passa a estar associada à base da linguagem, que se encontra no hemisfério esquerdo. Os estudos de Orton abriram novos caminhos na investigação do cérebro, uma vez que conseguiu comprovar que o hemisfério esquerdo é o hemisfério dominante em relação à linguagem e às sequências, enquanto o hemisfério direito é superior em termos de orientação, reconhecimento e outras funções associadas ao processamento paralelo.
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Neste campo da neurologia, outra descoberta importante foi a de Geschwind e Levitsky (1968) que comprovaram as assimetrias estruturais do cérebro, especificamente do planum temporale. Por último, é necessário referir os estudos efectuados por Galaburda e Kemper (1979) que observaram irregularidades no desenvolvimento do cérebro humano, o que vem no fundo comprovar a teoria de Hinshelwood.
De acordo com autores Miles (1993), num nível biológico, a base para o défice visual encontra-se numa disfunção ao nível magnocelular e parvocelular. O nível magnocelular está relacionado com as dificuldades em termos de processamento visual e de atenção visuo-espacial. Este défice ao nível magnocelular encontra-se comprovado através de estudos anatómicos, que revelaram anormalidades nas camadas do núcleo geniculado lateral. Esta anomalia manifesta-se, por vezes, nas capacidades diferenciadas das crianças disléxicas. De acordo com Livingstone, Rosen, Drislane e Galaburda (1991), o tamanho das células magno nos disléxicos apresenta-se 30% inferiores, comparativamente a crianças sem dificuldades de aprendizagem da mesma idade. Em 2009, Lukasova, Barbosa e Macedo procuraram também comprovar a hipótese magnocelular da dislexia de desenvolvimento.
Deste modo se explica que os disléxicos sejam proficientes em determinadas áreas criativas como a arte, a arquitectura e a engenharia e em actividades que exijam capacidade de construção. Estas actividades estão normalmente associadas a tarefas executadas ao nível do hemisfério direito e o hemisfério esquerdo está assim eminentemente relacionado com a linguagem e os símbolos. Neste sentido, por detrás da dislexia encontram-se causas neurológicas, como refere Miles “For neurological reasons – connected with deficiencies in the magnocellular system – there may be an anomaly of development wich sometimes gives rise to an unusual balance of skills. This anomaly is sometimes, but not always, the result of hereditary factors.” (1993, p.190).
Retomando a questão do défice visual, torna-se importante referir as investigações que decorreram nas décadas de 70 e 80, que procuraram comprovar que os disléxicos revelam problemas em termos de processamento visual. Pode-se, desde já, colocar a questão se de facto o défice visual é a causa da dislexia ou uma das muitas manifestações desta dificuldade de leitura e escrita.
Associado ao processamento visual encontra-se a frequência espacial, uma vez que a informação visual chega até ao cérebro através de diferentes vias paralelas. Cada um destes canais é especializado na transmissão de determinados estímulos visuais.
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Ora, a frequência espacial está relacionada com o número de ciclos (um ciclo escuro e um branco) por cada grau do ângulo visual. Quando se verifica uma baixa frequência espacial, os canais apenas transmitem informação geral sobre o estímulo. Este facto está relacionado com os subsistemas de transição e retenção (sustained and transient
subsystems). Através de estudos fisiológicos, comprovou-se que os dois sistemas se
podem inibir um ao outro, ou seja, se o sistema de retenção responde, quando o sistema de transição é estimulado, este último fará com que o sistema de retenção termine. Por outras palavras, se nos fixarmos num detalhe de um objecto e o estímulo passa para uma posição periférica da nossa visão, o sistema de transição inibe o sistema de retenção.
Sustained System Transient System
Less sensitive to contrast
Most sensitive to high spatial frequencies Most sensitive to low temporal frequencies Slow transmission times
Responds throughout stimulus presentation Predominates in central vision
The sustained system may inhibit the transient system
Highly sensitive to contrast
Most sensitive to low spatial frequencies Most sensitive to high temporal frequencies Fast transmission times
Predominates in peripheral vision
The transient system may inhibit the sustained system
Tabela 2. Propriedades gerais dos subsistemas de transição e de retenção (Fawcett & Nicolson, 1999, p.116)
Quando lemos, os olhos movimentam-se rapidamente e a esse movimento designamos de movimento de sacada, que estão separados por intervalos fixos, quando os olhos estão parados. No caso da leitura, os movimentos sacádicos dos olhos fazem-se da esquerda para a direita, podendo ocorrer também movimentos de regressão, quando os olhos se movem da direita para a esquerda. O tempo normal de fixação é de aproximadamente 200 a 250 ms em leitores normais. Ora, quando ocorrem problemas nos movimentos de sacada, devido aos subsistemas de retenção e transição, a leitura está gravemente implicada, uma vez que as palavras aparecem sobrepostas umas em relação às outras.
Um dos grupos de investigadores que procurou demonstrar que a causa da dislexia reside em problemas visuais foi o de Lovegrove, Martin e Slaghuis (1986). As
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descobertas efectuadas sugerem que os disléxicos diferem do grupo controlo em termos do funcionamento dos sistemas de transição.
Contudo, é importante salientar que esta questão não é unânime, mesmo entre aqueles que defendem o défice visual como causa da dislexia. Alguns investigadores, como Lovegrove et al. (1986), sugerem que os disléxicos demoram mais tempo a ler, enquanto outros como Mason, Pilkington e Brandau (1981) apontam a dislexia como uma patologia que implica dificuldades em termos de ordem, mais do que na informação do item em si. Torna-se, por isso, necessário encontrar um consenso entre estas diferentes posições. Por outro lado, a questão dos problemas visuais dos disléxicos levanta outras implicações, nomeadamente no que concerne a estratégias de intervenção. Alguns estudos recentes procuraram demonstrar que a cor ou a forma de uma lente pode influenciar em termos dos canais de processamento sustentado e de transição. Contudo, apesar dos estudos efectuados há ainda algum caminho a percorrer em relação ao uso de lentes prismáticas na correcção das dificuldades de leitura. Por outro lado, podemo- nos questionar até que ponto estes problemas visuais dos disléxicos não são mais do que problemas concomitantes, como as dificuldades de processamento fonológico ou de memória de trabalho.