2 FATORES HUMANOS PARA A APRESENTAÇÃO DA INFORMAÇÃO EM SISTEMA DE
2.3 Sistema de processamento da informação
2.3.1 Modelo de processamento da informação visual
Para compreender o funcionamento do sistema de processamento da informação, é necessário entender os conceitos relacionados à memória humana. Os fatores relacionados à memória humana são investigados por meio da compreensão de modelos de processamento da informação (PUGLIESI et al. 2013). O modelo de etapas, ou de estágios, proposto por Klatzky3, descreve o processamento da informação por meio do uso de distintas memórias, as quais possuem diferentes capacidades de processamento, armazenamento e tempo de retenção da informação. As três principais estruturas descritas no modelo de etapas são memória icônica ou registro sensório, memória de trabalho ou memória recente (ou Memória de Curta Duração - MCD) e memória permanente ou repositório (ou Memória de Longa Duração - MLD) (EASTMAN, 1985; PETERSON, 1987, 1995; WICKENS et al. 2004).
2.3.1.1Memória icônica
A memória icônica é responsável por receber os estímulos, sejam visuais, sonoros, captados pelos órgãos sensoriais humano, como o olho, ouvido, e encaminhar esses estímulos
para uma estrutura de processamento que realiza o reconhecimento de padrões (EASTMAN, 1985; PETERSON, 1987, 1995; WICKENS et al. 2004; CYBIS et al. 2010). Parte da informação recebida na memória icônica é perdida até que se inicie o processo de reconhecimento de padrões (EASTMAN, 1985; PETERSON, 1995). Essa perda é devido ao tempo decorrido até o armazenamento da informação e (ou) em razão de uma sobrecarga no sistema de processamento do indivíduo (IIDA, 2005). A complexidade do padrão a ser reconhecido é outro fator responsável pela perda de informação na memória icônica (PETERSON, 1987, 1995).
O tempo que a informação é mantida ativa na memória icônica depende da natureza do estímulo percebido (CYBIS et al. 2010). No caso da percepção de um estímulo visual, o tempo necessário para iniciar o processo de reconhecimento da informação é da ordem de 500 milissegundos (PETERSON, 1987, 1995). No caso da percepção de um estímulo sonoro, a informação é mantida ativa na memória por cerca de dois segundos, sem que haja o processo de reconhecimento da mesma, e é esta característica da memória icônica que explica o fato de uma pessoa lembrar-se de algo que ‘acabou’ de ouvir, no instante em que coloca sua atenção em outra tarefa (CYBIS et al. 2010). Os estímulos visuais e sonoros ainda são os mais usados para comunicar a informação em mapas de sistema de guia de rota (PUGLIESI et al. 2013).
Em termos do processamento da informação visual, a memória icônica representa a memória visual, isto é, a ‘primeira impressão’ que se forma de uma cena (PETERSON, 1995). Quando se observa uma cadeira, por exemplo, é a memória icônica a responsável por reter as informações primárias da cadeira, como a quantidade de pés, o tipo de estofado, cor, tamanho (PETERSON, 1995) para, na sequência, encaminhar essas informações à estrutura que realiza o processo de reconhecimento de padrões (CYBIS et al. 2010). A função da memória icônica é facilitar a extração e análise das características da informação percebida, de maneira que as informações, cujas características são condizentes ao interesse do observador, ou que atraiam sua atenção, sejam selecionadas para serem processadas em uma estrutura de memória mais elaborada, denominada de memória de trabalho (CYBIS et al. 2010).
2.3.1.2 Memória de trabalho
A memória de trabalho é conceituada como um conjunto de registros especializados que manipulam informações de natureza distintas, como visual, sonora, tátil. Estes registros são coordenados por um processador ou executor central que atua como um sistema de controle da atenção (EASTMAN, 1985; WICKENS et al.; 2004; CYBIS et al. 2010).
A função da memória de trabalho é confrontar as informações recebidas da memória icônica com as informações contidas na memória de longa duração do indivíduo (EASTMAN, 1985; WICKENS et al.; 2004). A este processo, dá-se o nome de reconhecimento de padrões (PETERSON, 1987, 1995). O indivíduo classifica uma informação como conhecida caso ocorra convergência dos padrões comparados; caso contrário, isto é, se nenhum padrão retido na memória de longa duração do indivíduo corresponde à informação de entrada, o indivíduo a classifica como uma informação desconhecida (PETERSON, 1995; WICKENS et al. 2004). A memória de trabalho é limitada em ambos, na capacidade de armazenamento das unidades de informação e no tempo de retenção dessas unidades (EASTMAN, 1985; WICKENS et al. 2004; IIDA, 2005). Uma unidade de informação (chuncks) são estruturas do tipo letras, palavras, símbolos, números, lugares, as quais estão armazenadas na memória de longa duração e têm significado para o indivíduo (EASTMAN, 1985; WICKENS et al. 2004).
O limite armazenamento da memória de trabalho são 7 ± 2 unidades de informação (EASTMAN, 1985; WICKENS et al. 2004), isto é, o executor central tem a capacidade de integrar uma média de sete itens de informação ao mesmo tempo, e as experiências do indivíduo, bem como o contexto de realização da tarefa influenciam nesse processo (CYBIS
et al. 2010). Por esta razão, duas pessoas podem armazenar na memória um mesmo código,
porém de maneira distinta, a qual depende do contexto em que interagem com o código ou do conhecimento que possui sobre seu significado (CYBIS et al. 2010). Por exemplo, pessoas familiares com os aparelhos de telefone da fabricante Nokia podem facilmente memorizar o código ‘LUMIA 710’, pois, para elas, este código representa o modelo (‘LUMIA’) e a série (‘710’) do telefone, resultando somente em duas unidades de informação: LUMIA e 710. Por outro lado, pessoas não familiares com os aparelhos desse fabricante podem armazenar o mesmo código, como sendo seis unidades de informação, cinco unidades referentes às letras da ‘LUMIA’, e uma unidade referente ao número ‘710’.
O tempo de retenção das unidades de informação é a segunda limitação da memória de trabalho. Cybis et al. (2010) afirmam que, embora a recuperação da informação na memória de trabalho seja rápida, a informação pode ser esquecida em poucos segundos, dependendo das situações de distração no contexto de uso. As unidades de informação são retidas na memória de trabalho entre cinco e 30 segundos (IIDA, 2005), ou até que se ative o registro fonológico (WICKENS et al. 2004). A ativação do registro fonológico ocorre, por exemplo, quando, verbalmente ou mentalmente, realiza-se o processo de repetição periódica de um nome (ex.: de pessoa, livro, lugar), de um número (ex.: de telefone, CPF, RG, conta
bancária, senha) até que a informação seja registrada em uma agenda ou algo similar (WICKENS et al. 2004; IIDA, 2005; PUGLIESI et al. 2013).
2.3.1.3 Memória de longa duração
A memória de longa duração é caracterizada como a terceira estrutura no modelo de etapas, e consiste no repertório do indivíduo, o qual é ativado várias vezes na memória de trabalho com a finalidade de uso imediato (WICKENS et al. 2004; CYBIS et al. 2010). Na memória de longa duração é onde estão armazenadas as experiências, o conhecimento de um indivíduo (EASTMAN, 1985).
A capacidade de armazenamento da memória de longa duração é grande, e o tempo de retenção da informação é de muitos anos (IIDA, 2005). O armazenamento das informações nesta memória ocorre por meio da formação de redes de proposições conceituais (WICKENS
et al. 2004; CYBIS et al. 2010). As unidades de informações não são retidas na memória de
longa duração como itens aleatórios, desconexos, mas inter-relacionados, e são estas conexões que favorecem a recuperação imediata dos elementos armazenados (EASTMAN, 1985; WICKENS et al. 2004; IIDA, 2005). No exemplo do código ‘LUMIA 710’, os indivíduos familiares aos aparelhos da Nokia fazem a associação desse código com os demais aparelhos da fabricante e, facilmente, concluem que se trata de um modelo ‘LUMIA’, da série ‘710’. Para exemplificar o funcionamento do sistema de processamento da informação visual com base no modelo de etapas é apresentado um esquema na Figura 4.
Figura 4 - Sistema de processamento da informação humano.