Nesta primeira subdivisão, faremos um esforço de compreender a escola por meio das contribuições de Foucault (2014), sobretudo em relação ao modelo disciplinar que a sociedade moderna construiu, tendo a instituição escolar como um de seus suportes básicos.
Em sua obra ―Vigiar e Punir: nascimento da prisão‖, Foucault discute a evolução histórica da legislação penal e os meios e métodos coercitivos e punitivos utilizados pelo poder público para frear a criminalidade e conter a delinquência. Com o objetivo aparente de recuperar aqueles considerados ―fora da lei‖, tornando-os dóceis e úteis e integrando-os ao corpo social, todo um sistema judiciário e coercitivo foi organizado. Tal sistema não se restringe à prisão propriamente dita, mas a uma ―rede carcerária sutil, graduada‖ (FOUCAULT, 2014, p. 293), formada por várias instituições e procedimentos disciplinares, uma grande organização carcerária de fabricação de indivíduos submissos, que tem seu funcionamento em toda a sociedade.
Uma dessas instituições é a escolar. A escola, lugar por excelência da ―disciplina‖, surge como um local propício ao uso de métodos coercitivos e punitivos, cujo objetivo serve bem ao sistema carcerário: incidir sobre o desvio e a anomalia, trabalhar detalhadamente o corpo do indivíduo, exercer sobre ele uma coerção constante, impor-lhe uma relação de docilidade-utilidade.
Segundo Foucault (2014), houve na Época Clássica uma descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. O corpo pode ser manipulado, modelado, treinado. Surge um conjunto de regulamentos – militares, escolares, hospitalares – com o objetivo de controlar ou corrigir as operações do corpo. As disciplinas se tornaram, no decorrer dos séculos XVII e XVIII, fórmulas gerais de dominação. É o momento histórico das disciplinas – nasce a arte do corpo humano – que objetiva não apenas aumentar suas habilidades ou aprofundar sua sujeição, mas torná-lo tanto mais obediente quanto mais útil, e vice-versa. Surge uma ―mecânica do poder‖, uma ―política das coerções‖, um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus gestos, de seu comportamento. ―A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos ‗dóceis‘‖ (FOUCAULT, 2014, p. 135, aspas do autor).
A escola é também uma fábrica de regulamentos e normas. É a ―escola normal‖, o ―ensino regular‖. Ela traz em sua própria denominação a regra e a norma. É um espaço de controle de corpos: às 7h da manhã iniciam-se as tarefas escolares. Tocam-se os sinais, fecham-se os portões. Ninguém entra, ninguém sai. Todos os estudantes vão pras salas de
aulas e de lá só saem no horário do recreio. As filas são uma constante. Os corpos devem ser dispostos de modo que possam ser isolados e localizados. A disciplina, segundo Foucault (2014, p. 143), é a ―arte de dispor em fila‖. Fila que individualiza os corpos, fazendo-os circular numa rede de relações.
Todos esses elementos são visíveis no espaço escolar. A escola, muitas vezes, lembra prisões. É o que observo em meu diário de campo.
No pátio da escola, observo o local. Passada a empolgação do primeiro dia, reparo as portas e janelas das salas. Estão velhas e enferrujadas. As grades nas janelas me lembram prisões. Penso: ―Escola pobre para os pobres.‖ As escolas públicas me parecem todas iguais. O descaso do Estado é visível.
Vou para o pátio, o recreio se inicia. Os estudantes saem das salas, a maioria apressada. Formam uma fila no meio do pátio. É a merenda que está sendo servida ali. Duas cantineiras servem a comida ali mesmo, ao ar livre.
Os pratos de alumínio vão sendo enchidos com uma comida cheirosa. Os alunos sentam em mesas, ou ficam em pé, ou andam pelo pátio comendo. Comem de colher. É uma imagem que, ao mesmo tempo que lembra a simplicidade daquelas pessoas, também choca por suas características de instituições totalitárias.
Logo toca o sinal. Uma, duas, três vezes... O barulho estridente avisa: hora de voltar às atividades. O recreio é curto, mal dá para comer. Apesar disso, alguns estudantes parecem fazer deste um momento agradável. Em uma salinha, um adolescente toca violão, enquanto uma turminha canta sorridente.
A disciplina utiliza diversas técnicas para distribuir os indivíduos no espaço. A fila é uma delas. A ordenação por fileiras consta do século XVIII, definindo a grande forma de repartição de indivíduos na ordem escolar. Ela se forma nas salas, nos corredores, nos pátios das escolas. A lógica do alinhamento obrigatório transcende a fila e vai se revelar também no alinhamento das classes de idade umas após as outras, na sucessão dos assuntos ensinados, na hierarquia do saber ou das capacidades, num movimento contínuo (FOUCAULT, 2014).
Penso que, apesar da fila, das cores tristes da escola, das grades nas janelas, do local não convidativo para crianças, adolescentes e adultos, há ainda vestígios de vida na escola, e isso percebo na hora do recreio, quando meninos e meninas sorriem, batem papo, dão uma certa impressão que podem ser eles mesmos, ainda que por alguns minutos.
Mas, esta contradição, própria do sistema escolar, se traduz também na sutileza como os meios coercitivos são utilizados atualmente. Não é mais necessária a força física, a violência para domar os corpos; a domesticação é agora sutil, quase imperceptível. Ela se
mostra nos detalhes, no cotidiano, de forma quase ―natural‖. Está, pois, naturalizada nos costumes, na cultura, no dia a dia da escola. Não é mais ao corpo que se dirige a punição, mas à alma (FOUCAULT, 2014).
Há ainda outras técnicas disciplinares tão presentes no contexto escolar, nossas velhas conhecidas, como a cerca, as grades, os portões. A cerca tornou-se, na realidade, um ícone da sociedade moderna: um olhar rápido em nossas cidades nos coloca diante de verdadeiras fortalezas; muros, grades e portões caracterizam a maioria das casas na sociedade ocidental. Locais fechados em si mesmos, murados, antecipam uma forma de vida que mantém a propriedade privada em segurança, ou pelo menos, pretendem manter. Quanto maior a renda, maior o muro. Assim, é possível afastar qualquer indivíduo suspeito, que atente contra este direito garantido por lei: a propriedade privada.
Com relação às instituições públicas, os muros e grades vêm simbolizar o espaço disciplinar, um tipo de controle, de vigília sobre o comportamento de cada um, afim de ―(...) apreciá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades ou os méritos (FOUCAULT, 2014, p.140). É, como nos mostra Foucault, um procedimento que serve para conhecer, dominar e utilizar. É um espaço analítico, um espaço de saber-poder que a disciplina organiza. Estes lugares fechados garantem a obediência dos indivíduos, inspeciona-os, permitindo constatar sua presença ou ausência. São espaços que possibilitam o poder e o saber, técnicas de classificação e enquadramento que organizam um novo ―regime de verdade‖ (FOUCAULT, 2014, p. 26), técnicas, discursos da ciência, que se formam e se misturam à prática punitiva. Estes métodos de sujeição puderam originar o homem como objeto de saber e de um discurso considerado científico.
A Escola Cecília Meireles também apresenta seus muros, grades e portões (Fig. 1 e 2). Cercas que controlam a entrada e a saída de quem quer que seja. Olhar pela ―janelinha‖, não ter como ser atendida, a não ser que alguém que se encontra do outro lado do muro me aviste, é uma forma da escola dizer: ―Não entre‖. E também: ―Não saia.‖ É um controle sobre os corpos, tanto os que se encontram do lado de dentro como os que estão do lado de fora.
Para Caldeira (2000), estes elementos estão cada vez mais presentes nas cidades, independente da classe social dos moradores. Tornou-se comum a arquitetura fechada, o enclausuramento. Para a autora, a mensagem principal que revelam é o medo, a suspeita e a segregação. Estes elementos, juntamente com a valorização do isolamento e do enclausuramento e com as novas práticas de classificação e de exclusão, criam cidades onde ―(...) a separação vem para o primeiro plano e a qualidade do espaço público e dos encontros sociais que são nele possíveis já muda consideravelmente‖ (CALDEIRA, 2000, p. 297).
Interessante notar que a arquitetura fechada compõe não apenas condomínios de luxo e residências de pessoas da classe média; ela chega também até as instituições públicas. A escola não fica imune da sensação de medo, da clausura que domina toda a cidade. Para Caldeira (2000), todo esse aparato demonstra tensão, separação, discriminação e suspeição – marcas da vida pública. Uma das contradições da vida contemporânea é que a tecnologia tem servido para aproximar as pessoas (como podemos observar com as redes de comunicação, o email, o facebook), mas, ao mesmo tempo, cresce a cada dia os muros, cercas e grades nas cidades, paradoxo de nossos tempos.
Caldeira (2000) afirma que o espaço construído não é um espaço neutro: ele vai influenciar a qualidade das interações que acontecem dentro dele. Os muros e cercas falam de uma determinada sociedade: uma sociedade desigual, um apartheid social, que separa pobres e ricos, associando pobreza à marginalidade.
Assim, a segregação, tanto social como espacial, tornou-se característica fundamental das cidades. A sociedade moderna aparece como o lugar do fechamento. O acesso não é para todos.
Todos estes elementos indicam como os grupos sociais se interrelacionam no espaço público da cidade e como as cidades estão cada vez mais iguais, caminhando para uma homogeneização. Este ponto é importante porque mostra como os sentidos se constituem na vida pública, vão-se tornando cada vez mais idênticos, o que impede que outros sentidos possam se estabelecer e propiciar outras formas de vida.
Foucault (2014) revela como a modernidade constrói prisões, sobretudo aprisiona as subjetividades por meio das técnicas corporais de aprisionamento. E a escola reproduz essas técnicas.
Apesar de todos os aspectos mencionados, hoje já não é possível dizer que vivemos em uma sociedade predominantemente disciplinar. Esse modelo deu lugar a um outro: ―a sociedade de controle‖ (DELEUZE, 1992).
As sociedades de controle estão relacionadas com as mudanças acarretadas pelo desenvolvimento econômico, com a evolução tecnológica e informacional. Para Deleuze (1992), estas sociedades não representam apenas uma evolução tecnológica, mas uma mutação do capitalismo. Atualmente, o capitalismo não é mais dirigido para a produção, mas para o produto, para a venda, para o mercado. Assim, a fábrica deu lugar à empresa. O mercado não precisa mais da disciplina, mas do controle dos indivíduos.
Na sociedade disciplinar, o que se buscava era o autogoverno, o governo de si. Os indivíduos eram moldados conforme as instituições assim o desejavam. Já na sociedade de
controle, o controle é exercido por todos sobre todos, e isto se realiza a todo o tempo e em qualquer lugar (SIBILIA, 2012).
Um exemplo deste controle pode ser observado no cartaz da polícia militar, pregado nas dependências da escola, conforme mostra a Figura 3.
Figura 3: O cartaz Fonte: A autora
O cartaz traz elementos como um número de telefone que pode ser acessado para denúncias, como: crimes, tráfico, uso de armas, drogas, ameaças, irregularidades da própria polícia militar. Promete sigilo absoluto, sendo preservado o nome do denunciante. Justifica a necessidade deste serviço, ao colocar o ―disque-denúncia‖ como ―o instrumento de toda a sociedade para se valer do direito à segurança e à paz‖ (Figura 3).
Interessante notar que a instituição militar assume aí dois papéis: um ligado à proteção social e outro à insegurança, visto que também comete irregularidades contra a própria ordem social, e estas irregularidades devem ser denunciadas. Assim, todos controlam e são controlados, independente da posição que exercem no contexto social.
Desta forma, qualquer pessoa que freqüente a escola pode denunciar crimes desta natureza. Não é mais preciso se dirigir até um posto policial ou à delegacia para denúncias. O telefone auxilia nesta empreitada, até porque esse já é um aparelho típico da sociedade de controle, e a maioria dos brasileiros tem fácil acesso a ele a qualquer momento e em qualquer lugar.
O cartaz reflete também a violência que existe dentro e fora da escola, como algo que se torna cada vez mais comum nos nossos tempos. A polícia dentro da instituição escolar é hoje algo que se tornou corriqueiro. Há neste sentido vários projetos da instituição militar dentro das escolas, objetivando trabalhar a violência, a venda de drogas, dentre outros crimes. Tudo isto vem refletir que a sociedade clama por segurança. Nem mesmo o cenário escolar está livre desta ameaça.
Na sociedade disciplinar, o instrumento por excelência de vigilância era o panóptico (Figura 4). O panóptico construído por Bentham, no século XIX, é a figura arquitetural que representa a sociedade disciplinar. Constitui-se de um dispositivo construído nas prisões que permite uma vigilância constante sobre o preso. Compreende uma torre central, na qual é colocada um vigia, e celas construídas na periferia, espécie de jaulas individualizadas onde são mantidos os presos. Há uma vigilância permanente sobre os detentos, ainda que seja apenas pelo efeito da torre central, visto que não há como os presidiários saberem se há ou não um vigia na torre. O panóptico é um instrumento capaz de criar e sustentar uma relação de poder que independe daquele que o exerce (FOUCAULT, 2014).
Figura 4: Dispositivo panóptico construído no interior da penitenciária de Stateville, Estados Unidos, século XX. V. p. 222
(Fonte: FOUCAULT, 2014)
Atualmente, as escolas se utilizam de um outro dispositivo, que reflete a sociedade de controle: câmeras de segurança. Apesar de eu não ter identificado câmeras de segurança na
Escola Cecília Meireles, o cartaz da Polícia Militar, por meio de seu ―disque-denúncia‖, a meu ver, funciona também como uma câmera disfarçada.
A vigilância na sociedade disciplinar estava ligada à moral; na sociedade de controle, ela assume um caráter policial. Não possui mais a missão de inculcar respeito à lei, ou culpar determinado aluno pela desobediência, ou mesmo internalizar normas. O intuito é controlar os corpos e as mentes, mas de uma outra forma, de forma sutil. É um novo regime de dominação (SIBILIA, 2012).
Conforme Sibilia (2012, p. 166), os novos sistemas de vigilância vêm definir ―o que somos ou aquilo em que estamos nos transformando‖. Esta é uma reflexão essencial nos dias de hoje, visto que todos estes elementos apontam para uma sociedade marcada pela violência, pelo fechamento, pela dificuldade de diálogo, pela alienação, pelo consumismo, pela supremacia do mercado.