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O primeiro contato que fiz com a Escola Cecília Meireles foi pessoalmente. Cheguei à escola no horário do recreio. Minha intenção era falar com a diretora sobre a proposta de pesquisa.

A primeira impressão da instituição não foi muito agradável. A escola é cercada por um grande muro, que impede que vejamos seu interior. Uma cerca de arames circunda todo o local, como pode ser visto na Figura 1.

Figura 1 – O muro Fonte: A autora

A entrada fica um pouco escondida e um portão um tanto quanto velho e enferrujado se impõe aos olhos de quem chega. Não é muito convidativo. Fiquei um pouco sem atitude ao ver que não havia campainhas ou interfones. Quem quiser ser atendido deve bater no portão que dá para o pátio da escola e é mantido trancado, porém, não é muito certo que seja ouvido, ao menos que haja alguém no pátio e perceba sua chegada.

Há uma abertura no portão, uma espécie de ―janela‖ bem pequena, que permite a visão do interior da escola, como mostra a Figura 2.

Figura 2 – O portão Fonte: A autora

Se quisesse ser ouvida teria que chamar por algum dos estudantes que se encontravam no pátio. Foi o que fiz. Coloquei o rosto nesta abertura e chamei a atenção de alguns alunos que passavam:

- ―Oi, como faço para ser atendida?‖

- ―Ah, vou chamar alguém...‖ Disse um dos meninos, educadamente.

Fiquei ali esperando, sem sucesso. Continuei olhando por essa greta do portão e fui avistada por uma mulher. Assim que ela me viu foi até o portão. Pôs o rosto na ―janelinha‖:

- ―Em que posso ajudar?‖

- ―Olá, eu gostaria de falar com a diretora.‖ - ―Ah, sim, sou a vice. O que deseja?‖

Apresentei-me como psicóloga educacional e estudante de mestrado. Disse que gostaria de conversar sobre a possibilidade de se fazer uma pesquisa na escola.

A vice-diretora – Cora - pediu que eu esperasse o recreio terminar. Ela colocaria os alunos nas salas e viria me atender. Fiquei lá fora por alguns minutos. Passado um tempo, uma servidora abriu o portão e pediu que eu esperasse no pátio, até que os meninos entrassem para a sala.

O sinal toca. Cora vai chamando os alunos para que eles retornem às atividades. Enquanto fiquei ali no pátio, observei um pouquinho do cenário escolar. É uma escola simples, pequena, precisando de reformas aqui e ali, porém, limpa, cuidada e seu interior é até agradável à primeira vista. Os estudantes – todos adolescentes - parecem animados, conversam e riem pelo pátio, alguns sentados pelo chão, em pequenos grupos. Não demora muito e todos entram para as salas.

Cora vai ao meu encontro e me pede para acompanhá-la. Fomos até sua sala: uma sala pequena, simples, com um banheiro acoplado. Duas mesas, algumas cadeiras e alguns avisos na parede. Um em especial me chamou a atenção: ―Reunião com professores. Tema: Educação para a vida.‖ Pensei: ―É um bom sinal!‖

Uma senhora aparece na sala da Direção. É uma avó de aluna. Foi buscar o boletim. Cora avisa:

―- Vó, teve reunião dos pais para entrega do boletim semana passada...‖ Vó responde:

- ―Ah, e como ela está?‖

- ―Aparentemente, não há reclamações‖. Cora pega o boletim. ―Ah, as notas não estão boas... estão muito baixas!‖

Vó parece alarmada:

- ―Nossa! Mas como pode ser? Ela fica em casa o dia todo, não sai pra nada, como pode estar com as notas tão ruins? Ela já repetiu uma vez...‖

Cora é enfática:

- ―Olha, é falta de estudo! Não tem justificativa, a senhora mesma diz que ela não sai de casa, não trabalha, tem o dia livre para estudar... Tem que estudar mais!‖

Vó parece desconsolada... E Cora continua:

- ―Mas, ela ainda tem chance, pode recuperar no segundo semestre. Avise à mãe que se quiser vir conversar com os professores...‖

Vó vai embora.

Fiquei a pensar: ―E a educação para a vida?‖

Considerei esse primeiro contato com a escola bastante rico e elucidador. Pude observar um pouco da relação escola-comunidade que, num primeiro momento, pareceu-me uma relação de distanciamento e medo, observada nos muros altos da escola, nas grades nas janelas, na janelinha como forma de atendimento à comunidade, por sinal, nada convidativa.

Estes elementos - as coisas, os objetos, o muro, o portão – também significam, produzem sentidos. Impõem-se como barreiras físicas, mas também subjetivas, demonstrando para quem chega que a escola ―pública‖ está fechada.

É visível também o descaso do Estado: os portões e as grades enferrujadas, as portas velhas precisando de reformas, bem como os móveis da escola, dão o retrato exato das escolas públicas brasileiras, principalmente as de periferia. É neste cenário que estuda, diuturnamente, a maioria dos brasileiros e brasileiras, sejam crianças, jovens ou adultos.

Pude observar também a relação escola-família que, segundo minhas primeiras impressões, apresentou-se como uma relação que expressa o poder que a escola, na figura da vice-diretora considerada neste exemplo, exerce (ou tenta exercer) sobre as famílias e seus estudantes. A escola segue legitimando suas crenças e ideologias: “É falta de estudo‖, diz Cora. A conversa se inicia e se encerra aí. Não há o que fazer, a aluna precisa estudar. Não há responsabilização da escola, do gestor, do professor, do sistema social. A aluna precisa responsabilizar-se pelo seu fracasso.

Ao longo da pesquisa, em outros momentos na escola, pude perceber que este discurso aparece constantemente na voz de vários sujeitos. O aluno não estuda, não aprende, fracassa. O aluno não quer estudar, não se interessa, evade, repete. Assim também pode ser observado na entrevista com a vice-diretora:

Infelizmente, a mentalidade deles (dos alunos), é, eu acho que é cultural, né, eu acho que é... infelizmente eles não têm esse hábito, né, de estudar, a gente vai ver que desde pequenininhos eles não estudam, não esforçam, a família não ensina, os pais não ensinam.... (CORALINA, 2015).

Ao colocar como ―cultural‖ o fato dos alunos não estudarem, não se esforçarem, bem como a família não auxiliar os filhos neste processo, Cora tende a naturalizar o fracasso escolar, colocando-o como sendo próprio a uma determinada cultura.

Observo este fato também quando a vice-diretora fala sobre os pais dos alunos. A escola se situa num bairro carente, pobre, e Cora atribui a este fator também a questão das dificuldades dos alunos: ―(...) Só que a gente tem que ter noção também da nossa realidade. Então, ao mesmo tempo que eu falo isso, eu sei, o bairro, a situação em que a gente tá (sic), né, o nosso contexto. Então, assim que eles foram criados e assim que eles tão criando os seus filhos‖ (CORALINA, 2015).

O que chama a atenção nestes discursos, primeiramente, é a forma como eles se inscrevem numa dada formação discursiva: a culpabilização do indivíduo por seu próprio fracasso.

Para analisarmos os discursos, faz-se necessário entender suas condições de produção, ou seja, em que contextos eles foram produzidos e legitimados. Estas condições incluem o contexto sócio-histórico e as ideologias. Assim, há algo que fala antes do sujeito discursivo, em outro lugar, de forma independente: é o interdiscurso ou memória discursiva: ―(...) o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra‖ (ORLANDI, 2012a, p. 31). Ou seja, tudo o que já foi dito sobre determinado assunto, mesmo em tempos e circunstâncias diferentes, produz sentido, é uma memória discursiva que se presentifica nos dizeres atuais.

O interdiscurso vai afetar o modo de significar do sujeito, independente de sua vontade. Assim, o sujeito pensa que o que diz é seu, porém, os sentidos se constituem no sujeito pela história e pela língua. Há uma relação entre o interdiscurso e o intradiscurso, ou seja, entre o já-dito e o que se está dizendo, entre a constituição do sentido e sua formulação (ORLANDI, 2012a, p. 32).

O que se quer aqui realçar, portanto, é que este discurso já foi dito em outros momentos, em outros tempos e por outros sujeitos, retornando agora num novo contexto.

Para entendermos melhor as condições de produção desse discurso, recorremos à Patto (2010), em sua obra clássica ―A produção do fracasso escolar‖, na qual a autora discorre sobre como esta formação discursiva se estabeleceu como verdade, estando relacionada ao contexto dos modos de produção capitalista.