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Modelo do Ciclo de Vida do Crime

Capitulo III A Prevenção Situacional do Crime

4.3 Modelos da criminalidade causal

4.3.1 Modelo do Ciclo de Vida do Crime

Baseado na teoria desenvolvida por Wootton e colaboradores (2003), e elaborado para auxiliar os designers a implementarem questões de prevenção da criminalidade no desenvolvimento dos seus conceitos (Figura 8), o Modelo do Ciclo de Vida do Crime, incorpora três parâmetros:

Figura 8 – Modelo do ciclo de vida do crime

 Comportamento ofensor pode produzir mais comportamento ofensor, sendo por isso a quebra deste ciclo o objectivo real da prevenção criminal.

As fases iniciais (fase 1) e finais (fase 10) do ciclo estão interligadas, na medida em que a motivação para cometer um crime é influenciada maioritariamente pelas circunstâncias de vida do ofensor e pela crença de que o comportamento criminal é aceitável e é uma opção válida de vida. As consequências a longo prazo da actividade criminal irão afectar a motivação de um ofensor para cometer um crime. Por exemplo, a dificuldade para encontrar emprego, por aqueles que já tenham antecedentes criminais, pode constituir-se como uma motivação adicional para cometer um crime. Para além de que, ter estado preso com um número elevado de criminosos, pode ter providenciado uma aprendizagem de conhecimentos criminais e acesso a recursos para futuras actividades.

 Todos os seis pontos que antecedem o evento criminal são pré-requisitos para

que um crime ocorra.

Dirigindo-se de forma detalhada a qualquer um destes pontos, o evento criminal pode ser impedido.

 Os pontos que sucedem o evento criminal também devem ser considerados.

Como já foi mencionado, é improvável que qualquer medida seja eficaz a cem por cento. Por isso, é importante considerar como é que um produto, um serviço ou um espaço físico podem ser projectados prevenir problemas que surgem após o evento criminal.

Estes três parâmetros gerais subdividem-se em fases mais específicas, totalizando dez fases ao longo de todo o ciclo de vida do crime. Como tal, iremos fazer uma abordagem sucinta do que constitui cada uma destas fases e as problemáticas subjacentes a cada uma delas. De forma a entendermos a ligação deste modelo com a pratica do Design.

4.3.1.1 As dez fases do evento criminal

Fase 1: a prontidão para que o ofensor ofenda.

Esta primeira fase relaciona-se com os aspectos circunstanciais da vida do potencial ofensor, incluindo: (i) situação financeira; (ii) situação profissional; (iii) circunstancias familiares; (iv) relações pessoais; (v) educação; (vi) crenças; e (vii) motivações. Um exemplo de como o Design pode fazer face a este tipo de questões centraliza-se na regeneração e renovação de áreas mal protegidas.

Davey e colaboradores (2002a) enaltecem o caso da Royds Community

Association como um exemplo onde os residentes locais foram integrados no

planeamento e no processo de Design, tanto ao nível da tomada de decisões, como da própria construção. Este tipo de envolvimento melhorou significativamente os sentimentos de comunidade, de propriedade e de responsabilidade pelo espaço público, num espaço residencial caracterizado por níveis muito elevados de desemprego, alcoolismo, drogas e furtos.

Fase 2: Disponibilidade de recursos para o crime por parte do ofensor.

Esta fase relaciona-se com os recursos que um determinado ofensor possui para cometer um crime. Tais recursos incluem itens físicos, tais como ferramentas e equipamento, mas principalmente o recurso principal do ofensor – o seu conhecimento e a sua habilidade para cometer uma ofensa particular. Quanto mais experiência tiver o ofensor, mais hábil se tornará na prática do crime.

Os co-ofensores também podem ser considerados um recurso, porque: (i) auxiliam o ofensor antes ou durante o evento criminal; e (ii) auxiliam o ofensor após o crime ocorrer. Os designers devem estar cientes que os ofensores podem usar as suas criações como um recurso para o comportamento criminal, e devem projectar de encontro a este princípio.

Fase 3: Presença ou acesso do ofensor à situação.

Esta fase focaliza-se na presença, propositada ou ocasional, de um ofensor numa situação de conflito ou de crime.

Em relação à presença de ofensores em situações de conflito, o estudo de caso realizado em Wendover (Davey et al., 2002a) dá um exemplo do redesign de um bar para reduzir a incidência de argumentos que conduzem a crimes e à violência. Neste bar, foram removidos os bancos de apoio ao balcão e as cadeiras suplementares na zona de esplanada, diminuindo, deste modo, grandes aglomerados que produziam frequentemente lutas pelos encontrões e derrame de bebidas.

Fase 4: Atributos do design de um produto, ou de um espaço físico.

Esta fase relaciona-se directamente com a vulnerabilidade do produto ou de um espaço físico ao crime. Por exemplo, no caso de roubo, um produto tem maior probabilidade de ser roubado se for CRAVED – Concealable; Removable; Available; Valuable; Enjoyable e Disposable27(Clarke, 1999).

Fase 5: Comportamentos, acções e habilidades de terceiros.

Esta fase considera as acções de terceiros numa situação de crime, como preventores ou promotores. Os preventores podem ser activos (e.g., um residente que desafie um desconhecido que age de forma suspeita) ou passivos (e.g., a mera presença de indivíduos pode deter um ofensor de atacar alguém). Similarmente, os promotores do crime podem ser deliberados (e.g., o cúmplice que vigia enquanto outro assalta uma casa) ou descuidados (e.g., a pessoa que se esquece de fechar o carro ou deixa o telemóvel na mesa do escritório).

Fase 6: Antecipação do risco, do esforço e da recompensa por parte dos ofensores A presente fase diz respeito às motivações imediatas dos ofensores para cometer uma ofensa, incluindo: (i) a sua percepção do risco de serem detectados; (ii) a sua percepção do risco de serem identificados; e (iii) a sua percepção da potencial recompensa que a ofensa oferece. Esta recompensa pode ser financeira,

27 Fácil de Ocultar; fácil de Remover; quando se encontra Disponível; quando é Valioso; Agradável; e a sua distribuição e/ou venda é facilmente Executável.

mas pode igualmente ser apenas pela aquisição de status dentro do grupo de que faz parte o ofensor.

Fase 7: Impacto imediato

Esta fase está relacionada com as consequências imediatas do evento criminal. Os designers devem reflectir sobre o impacto potencial na vítima e no ofensor, como ambos podem reagir, e se as reacções negativas podem ser, de alguma forma, modificadas pelo Design.

É nesta fase que os resultados negativos das intervenções de Design, realizadas durante as fases do pré-crime, devem ser considerados, de forma a assegurar que o impacto do crime para a vítima não tenha sido inadvertidamente prejudicial.

Fase 8: Detecção do crime.

Esta fase envolve a detecção do crime por testemunhas e, por último, pelas autoridades policiais. Tal detecção deve fornecer uma evidência adequada para permitir a condenação do ofensor. Exemplos de como este ponto pode ser implementado incluem o uso de CCTV, a marcação da propriedade através de tinta que é visível através de luz ultra violeta.

Fase 9: Condenação dos ofensores (e co-ofensores).

Esta fase diz respeito à condenação bem sucedida do ofensor e de todos os co-ofensores. Para fazer face a este ponto, os designers devem pensar sobre o modo como os seus projectos podem produzir vários testemunhos e evidências válidas.

Fase 10: Consequências a longo prazo.

Esta fase está relacionada com o decréscimo das consequências a longo prazo do crime, tais como o aumento do medo e da insegurança por parte das vítimas e das suas famílias.