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Modelo dos Dois Processos de Controlo

ÂMBITO E CONTEXTO

A competência social

1.2.3 Modelo dos Dois Processos de Controlo

Vamos continuar com a exploração dos 3 critérios de classificação de Seligman e colaboradores relativos aos trabalhos realizados em helplessness (Peterson et al., 1995): a história do não controlo, a mediação cognitiva e a inadequada inactividade, sublinhando aqui, principalmente os dois primeiros. Neste I Enquadramento de conceitos e indicadores do nosso Modelo, debruçamo- nos sobre a dimensão do Controlo e, agora especificamente,

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sobre o modelo do controlo ao longo da vida, de Heckhausen e Schulz, também muito útil na simplificação das abordagens aos processos em resiliência.

1.2.3.1 Introdução a este Modelo do Controlo

Heckhausen e Schulz (1995), ao proporem um modelo para o controlo psicológico ao longo da vida, referem que a actividade humana se pode explicar pelo controlo que o ser humano realiza. Continuando, indicam que, na interacção com a envolvente, o indivíduo com um alto nível de adaptação faz uma equilibração óptima entre uma assimilação e acomodação necessária (no sentido piagetiano dos termos), bem como uma interacção social adequada. Referem estes autores que o conceito de controlo é ideal como resposta às exigências de uma teoria ao longo da vida, pois a investigação tem abrangido microteorias pontuais do desenvolvimento, focando-o em determinados níveis etários, tendo-se obtido vastos e úteis dados empíricos. “Além disso, os conceitos de controlo têm sido aplicados a

diferentes áreas de investigação, como o desempenho intelectual, a saúde e o comportamento social. Finalmente, uma boa parte dessa pesquisa explora o valor adaptativo ou funcional dos fenómenos de controlo” (idem).

Mas o que é o controlo? A vasta biografia associa-o ao domínio de uma situação, ao enfrentar e modificar o mundo perante os nossos desejos e necessidades. A tarefa, o desempenho, o domínio, a eficácia, a competência e o controlo percebido são largamente sublinhados pela investigação (e.g., Bandura, 1997; White,1959, 1985; Rotter, 1966). Porém, a actuação perante a adversidade que existe ao longo de toda a vida (Selye, 1956) e a respectiva história são também enfatizados (Peterson et al., 1995; Rutter et al., 1992; Staudinger et al., 1999). Mais especificamente, parece que a passividade, a fuga e até mesmo a submissão pertencem a todo um processo de falta de controlo percebido, tornando-se não construtivo. Para sua análise, Rothbaum e colaboradores (1982) vêm propor o modelo de dois processos de controlo, o controlo 1.º e o controlo 2.º (C1.º, C2.º), como são designados. Não é uma reestruturação, mas uma nova perspectiva, como referem, pois pretendem, com o seu modelo, reavaliar a funcionalidade da passividade,

fuga e submissão, aparentemente de má adaptação, também no sentido piagetiano, mas

persistentes. Este último aspecto “(...) deve satisfazer algum propósito oculto, não

reflectindo meramente um défice de motivação” (Rothbaum et al., 1982). Estas no vas

podem albergar, são as grandes consequências do trabalho destes investigadores, como eles próprio sublinham: “(...) a saliência da escolha do termo controlo para o processo

secundário não é crucial. A questão é, como a revisão das atribuições e comportamentos realizada (nesse estudo) as pode explicar de um modo mais útil, (o sublinhado é nosso)”(idem). Vamo- nos debruçar sobre este conjunto de processos que investigadores

associavam a emoções negativas e que, segundo a teoria do desânimo aprendido,

helplessness, e de locus de controlo (Peterson, Maier e Seligman, 1995, Seligman, 1975;

Rotter, 1966), estavam todos ligados ao não controlo percebido bem como a um decréscimo de motivação que se auto-alimentavam numa espiral de aumento de intensidade dos três modos de estar (Rothbaum et al., 1982). É nesta reflexão que surge o modelo dos dois processos, com uma nova perspectiva. Ele organiza a investigação múltipla, da ampla diversidade das estratégias de coping, realizada só através de 2 aspectos mais gerais: o controlo primário e o controlo secundário (C1.º, C2.º)(e 4 tipos de controlo).

1.2.3.2 Controlo: dois processos

Os resultados da investigação indicam que as pessoas têm relutância e valoram fortemente o abandono da percepção de controlo, sentindo o controlo como uma necessidade intrínseca da vida (e.g., Seligman, 1995; Bandura, A., 1977; Burger e Arkin, 1980; Lefcourt, 1973; Averill, 1973; Adler, 1956; Cohen, Rothbart e Phillips, 1976). O resultado de modos de estar menos pró-activos, acima mencionados, parecem ter antecedentes de falta de controlo percebido e a existência de locus de controlo externo: e.g., passividade (Peterson, Maier e Seligman, 1995; Benson e Kennelly, 1976; Cohen, Rothbart e Phillips, 1976); a fuga (e.g., Goetz e Dweck, 1980; Carver, 1979); a submissão (e.g., Lefcourt, 1976, Seligman, 1975).

A persistência de exteriorizações menos pró-activas é causa de uma análise mais minuciosa (Rothbaum et al., 1982), suspeitando-se que poderia ser mais bem compreendida analisando a sua manifestação quotidiana. Partindo do preâmbulo do modo como o controlo é fortemente valorado e portanto o esforço para o exercer é assim raramente abandonado, Rothbaum e outros propõem a possível variação da meta do esforço, ensaiando o controlo 2.º (C2.º). Isto estaria em desacordo com muitas situações analisadas cientificamente e acima mencionadas (e.g.,teoria da percepção do não controlo e locus de controlo externo), no entanto “(...) acreditamos que a percepção do controlo é muito mais

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79 dinâmica” (Rothbaum et al.,1982). Assim, ao reavaliar esses processos, estes autores

propõem quatro formas de controlo, que mais tarde veremos sumariamente (o preditivo, o ilusório, o vicariante e o interpretativo), utilizando um alargamento do constructo de controlo, abrangendo o que apelidaram de controlo 1.º (C1.º) e controlo 2.º (C2.º).

Controlo 1.º (C1.º) é tido como a saliência de um processo que ”(...) envolve tentativas para mudar o mundo de modo a ajustá-lo às suas necessidades”. O controlo 2.º (C2.º),

seria a saliência de um processo ”(...) que envolve tentativas para se ajustar ao mundo e

‘nadar ao sabor da corrente’.” A tentativa para mudar o ambiente, que caracteriza o

controlo 1.º, e que tamb ém está de acordo com os modelos do desânimo aprendido e do

locus de controlo, está apta para produzir alguma satisfação com o sucesso, mas também

algum desapontamento com as falhas. E é neste evitar do desapontamento que estes investigadores propõem várias soluções que podem trazer maior segurança individual, sendo directamente menos activos ao pretenderem ajustar-se, mais do que alterar profundamente a envolvente. Prevenir-se do desapontamento pode ser também útil e sugere um alinhamento com as forças exteriores, como, por exemplo, a sorte e o poder dos outros, bem como a existência de tentativas de extrair significado da situação que, desde que sejam temporárias, podem ser saudáveis (Heckhausen e Schulz, 1995).

Assinalávamos também as 3 dimensões da percepção do controlo no modelo do controlo ao longo da vida de Heckhausen e Schulz (1995). Este modelo tem uma concepção tridimensional, sendo uma das dimensões o C1.º/C2.º, descrita mais extensamente; a segunda corresponde à funcionalidade/disfuncionalidade; e a última dimensão liga-se ao verídico/ilusório. A dimensão da funcionalidade capta o grau em que o controlo optimiza, a longo prazo, o potencial de controlar a relação contingente entre a acção directa e a situação. A dimensão da veracidade indica o grau em que o controlo reflecte objectivamente a realidade.

Para uma exposição do modelo e diferenciação em relação a outras posições, iremos abordar a adaptação; a auto-estima; os 4 diferentes tipos de controlo; e o controlo como

auto-eficácia percebida.

Neste modelo, vejamos o que os investigadores entendem por adaptação: “(...) Atento a

definido como o conhecimento de como e quando o indivíduo usa os dois processos de controlo (1.º e 2.º) e como os integra” (Janoff-Bulman e Brickman, 1980). A noção de

integração pode ser perspectivada, por exemplo, “(...) no esforço de controlo 2.º para

vítimas de paralisia para encontrarem significado e aceitarem aspectos da sua situação que são irreversíveis enquanto continuam a fazer esforços para dominar novas perícias para a resolução de problemas em áreas em que é possível o controlo 1.º”, (Silver e

Wortman, 1980). Pelas definições, verifica-se uma primazia do C1.º, perante o C2.º63. Nesta investigação (Rothbaum et al., 1982; Heckhausen et al.,1995), julgamos ter sido fundamental este conceito de integração para enquadramento do seu modelo de processos de controlo e diferenciação relativa a anteriores perspectivas. Um exemplo é esta noção geral de adaptabilidade: em teorias de competência e eficácia ou locus de controlo e atribuições internas, esta flexibilidade só é expressa em termos de C1.º; e neste modelo, a adaptação relaciona-se com o balanço, ou melhor, com o óptimo balanço entre os dois processos de controlo64.

Para uma nossa análise do modelo, também foi importante conhecer analogias: 1) a

analogia que os associa ao Mudar o Mundo, o C1.º, e o Mudar o Si, ao C2.º65; 2) o de

equilibração piagetiana, cuja analogia é empregue por estes investigadores associando também C1.º à assimilação e C2.º à acomodação66; 3) e o óptimo benefício, na relação de benefício/custo, ou, como referem alguns investigadores, mostrarem menos custos, menor stress, com “(...) maior benefício” (Rothbaum et al,1982; Heckausem e Schulz, 1995).

Vejamos agora o papel da auto-estima neste modelo de controlo. A aglutinação da

complexidade do si67 é importantíssima em resiliência (Ralha-Simões, 2001), e a

investigação no humano, em campos como a Psicologia, Psicologia Social, a Sociologia e a Saúde vêm realçar conceitos e papéis como o de consciência, sentimentos e emoções (Damásio, 2003a, 2000, 1995) e, dentro destes, a consciência do si e sua valorização. Aqui queremos apenas analisar “(...) o uso do termo defensivo (auto-estima) na teoria da atribuição causal” (Rothbaum et al., 1982).

Para o enriquecimento do modelo dos 2 controlos, vamos considerar brevemente só o C1.º, como, por exemplo, na perspectiva de Seligman (Seligman, 1975, 1991; Peterson et al.,

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1995). Vejamos o que a investigação sublinha. O modelo helplessness, desânimo aprendido de Seligman e colaboradores, utiliza a teoria da atribuição causal e sua reformulação, tendo como base uma longa série de estudos citados. O modelo “(...) prediz

que as descrições internas (dos resultados obtidos nas) das situações adversas estão associadas à perda de auto-estima” (Peterson et al., 1995).

Estes últimos investigadores propõem que as explicações causais para as situações não controláveis influenciam as respectivas reacções. A contribuição da nossa história significativa é um jogo entre as atribuições pelos resultados obtidos e as futuras consequências. Associada a essa experiência de atribuições e expectativas, há então uma mediação cognitiva, que é posta em relevo por estes investigadores, constituindo-se no seu 3.º critério para a indicação de uma situação de desânimo aprendido (Peterson et al., 1995), que temos vindo a sublinhar. A causa do desânimo aprendido é, segundo Seligman e outros autores (idem), a autofocagem pelo não controlo percebido. Aquando do desânimo pessoal aprendido, o indivíduo ‘rumina’, enredando-se, ocorrendo, como referem, a variação na auto-estima (idem).

É de realçar o défice, em vários campos, que o desânimo aprendido provoca, tendo sido proposto em 1995 os três critérios de desânimo aprendido (Peterson et al., 1995), mas anteriormente são bem conhecidos nesta área científica os três estilos ou esquemas para as consequências do significado experienciado, a saber: segundo a globalidade (generalização dos maus resultados a outros domínios -global/e não específica); segundo a estabilidade (continuidade das consequências não saudáveis -estável/e não instabilidade); segundo a atribuição causal interna (na acepção de Heider (1958) - interna/e não externa ). Neste processo cognitivo dentro da reformulação atribucional, Peterson e outros (Peterson et

al.,1985, 1995) anunciam que os três estilos descritivos (global, estável e interno) parecem

estar relacionados com a baixa auto-estima, mas nenhum em maior grau.

Vejamos, por outro lado, o cruzamento de alguns estudos sobre motivação para a realização, a eficácia e a competência, bem como o desânimo aprendido: eles vêm iluminar o papel do constructo auto-estima como indicador de “(...) alto diagnóstico” (Rothbaum et

al., 1982), “(...) ou crítico”, na utilização de Seligman (Peterson et al., 1995), pois “(...)

distingue a competência da incompetência (...) quando indivíduos de baixa auto-estima

é nosso]. Os mesmos indivíduos de baixa auto-estima preferem tarefas de muito alta dificuldade, nas quais há mais colegas que têm igualmente menor sucesso, ou então, escolhem a resolução de problemas de muito baixa dificuldade, onde sentem grande facilidade de execução. Ao compararem-se com outros, a média dificuldade na tarefa parece ser menos suportável. Inicialmente, este facto foi observado por Atkinson (1957, 1964) ao aplicar a teoria da atribuição no campo da motivação para a realização: verifica uma tendência geral dos sujeitos na opção em tarefas de dificuldade média, que explicam pela maximização do seu sucesso. No entanto, o que se torna interessante é o registo que este investigador faz sobre indivíduos de baixa auto-estima, que parecem evitar o insucesso ao preferirem não enfrentar tarefas com nível médio, optando por dificuldade muito grande ou muito pequena. Atkinson estava convencido que minimizavam o insucesso perante tarefas de elevada dificuldade e maximizavam o seu sucesso nas de grande facilidade. Investigadores (Peterson et al., 1995; Rothbaum et al.,1982) referem o estudo de Shaban e Jecker (1968) sobre a manipulação da falha em que pessoas que cronicamente assistem ao seu fracasso procuram atenuá- lo ao preferirem avaliadores mais ‘uniformes’ (que avaliam quase sem excepção com nível negativo ou positivo) do que outros mais ‘discriminativos’ (com atribuição de mais ou menos metade dos resultados positivos). A fuga e o evitamento são vistos como a resposta ao não controlo percebido. Estes padrões de respostas e possíveis causas experienciadas levam, já anteriormente, Frankel e Snyder (1978) a porem a questão do evitar o desapontamento, perante problemas ditos de média dificuldade e de motivação, de indivíduos com uma anterior má experiência de resultados. Em 1982, este sentido de reflexão leva à criação do modelo do C1.º e C2.º (Rothbaum et al., 1982) que, para além da fuga e evitamento, realça o não abandono do controlo. Neste caso, os indivíduos optam por um C2.º, mantendo a esperança do C1.º, gerindo concomitantemente a motivação e a volição (idem).

Abordámos assim o papel da auto-estima como indicador crítico na decisão da acção (a não escolha ou evitamento da tarefa de média dificuldade para indivíduos de baixa auto- estima). Iremos agora abordá-la na acção e posteriormente à acção, para além da ligação a descrições analíticas de mecanismos psicológicos clássicos ofensivos e de defesa (respectivamente C1.º e C2.º)(Rothbaum et al., 1982) bem como, na nossa perspectiva, os que designámos de optimização68.

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Na acção, o papel do C2.º ”(...) é o de manter a auto-estima” (Rothbaum et al., 1982). As propostas de C2.º constituem um rol rico de possibilidades desse mesmo controlo, assinalado no próximo Quadro 1-6. De notar que, considerando as estratégias de coping na acção, Pearlin e Shooler (1978) referem que, sendo elas mediadoras do impacto que as sociedades podem ter nos seus membros, exercem de três formas a função protectora na acção stressante: 1) por eliminação ou modificação das condições que criam os problemas; 2) por controlo emocional e 3) por controlo perceptivo do significado da situação ou das suas consequências. Este último aspecto é considerado como um mecanismo de defesa psicológica clássico. Exemplos dessas estratégias são propostos, como a ignorância

selectiva, o evitamento não activo relativo ao problema e o evitamento activo, dando como

exemplo a falta de oportunidade nesse preciso momento e a opção pela sua posterior resolução (ver 5.º anexo). No entanto, no caso do C2.º69, Rothbaum e colaboradores (1982) entendem não existir coincidência quando o indivíduo tenta manter a auto-estima através do desmentido da falha ou esquecimento desta. Neste caso, não mantinha a crença num eventual e posterior C1.º. Segundo Rothbaum e colaboradores (1982), o manter a auto- estima, na literatura da atribuição causal, é associado à demasiada variedade de situações que lhe diminuem o significado. Por seu lado, Heckhausen e Schulz (1995) resumem e citam os estudos em que é mantida a auto-estima num momento posterior à acção, para manter a crença numa futura habilidade para mudar a envolvente (C2.º), como por exemplo os ‘vieses atribuicionais’70, importantes para o jovem adulto (Brandley, 1978; Kelley e Michele, 1980; Luginbuhl, Crouve e Kahan, 1975; Zuckerman, 1979), também conhecido por ‘atribuições personalistas’ (Sydner et al., 1978) ou ‘padrões de atribuição positiva’ (Heckhausen, 1978) e ‘atribuição de benefício’ (Greenwald, 1980). Para lá deste tipo de atribuições e para além do manter a auto-estima, estes autores também referem o efeito de

melhoramento da auto-estima, ao qual associamos um melhor nível de saúde, com a

‘descoberta de significado’ no controlo de eventos ameaçadores (Bulman et al., 1977; Burguess et al., 1979), a ‘reconstrução da história pessoal’ (Greewald, 1980; Ross, 1980) ou ‘o controlo interpretativo’ (Rothbaum et al.,1982). Este último é um dos tipos de controlo que passaremos a analisar.

Uma primeira descrição sumariada dos diferentes tipos de controlo que já enunciámos (preventivo, ilusório, vicariante e interpretativo, Rothbaum et al.,1982), sendo propostas de 4 manifestações de controlo secundário, é a seguinte: atribuições a profundas limitações da habilidade podem servir para realçar o controlo preditivo e proteger o indivíduo do desapontamento; comportamentos passivos e de fuga reflectem a tentativa para inibir expectativas não alcançadas; atribuições ao acaso podem reflectir o controlo ilusório, pois as pessoas, muitas vezes, constróem o acaso como fo rma de características pessoais ligadas à ‘habilidade de ser uma pessoa de sorte’. Indivíduos que fazem atribuições à sorte, como causa dos resultados podem exibir passividade e fuga em situações de exigência de perícia, reservando investimento emocional e de energia para situações que lhes permitem capitalizar a sua força percebida, isto é, serem pessoas de sorte; atribuições ao poder dos outros permite o controlo vicariante quando cada um se identifica com outros. Submissão a um poder do ‘leader’, a um gr upo, ou à divindade, algumas vezes capacita o indivíduo para jogar no seu poder; todas as atribuições precedentes podem incentivar o controlo

interpretativo, no qual os indivíduos conseguem compreender, tirar significado e aceitar

situações que, fora disso, não eram controláveis.

Quando o controlo percebido é reconhecido, tanto na sua forma de C1.º como de C2.º, uma grande diversidade de comportamentos interiores pode ser vista como um esforço para manter, mais do que desistir, a percepção do controlo. Rothbaum e outros (Rothbaum et al, 1982), em resumo, exprimem a aplicação dos 4 tipos de controlo aos 2 processos de controlo, o C1.º e o C2.º, com o seguinte Quadro 1-6. Este, julgamos possibilitar uma perspectiva da densidade de prováveis respostas de controlo, organizadas em 2 categorias e 4 subcategorias.

Quanto à tenacidade e optimismo, a investigação de Bandura (1999, 1986, 1997, 1977), de Seligman (e.g., 1991) de Heckhausen e Shultz (1995), de Barros de Oliveira (1998), indicam a sua associação ao bem-estar como também ao balanço óptimo entre o C1.º e o C2.º, sem inadequada passividade, má história de controlo ou má mediação cognitiva, existindo algumas referências à resiliência. Nós diríamos que a tenacidade e o optimismo

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Quadro 1-6: Processos de controlo 1.º e controlo 2.º 71

Tipo de controlo Processo saliente Descrição

Preditivo Primário

Secundário

Tentativa para predizer e ter sucesso nas situações.

Comportamento activo e atribuições ao esforço do si sendo provável a habilidade pessoal, especialmente em tarefas de moderada dificuldade.

Tentativa para predizer situações bem como evitar o desapontamento. Comportamento passivo e de fuga, especialmente em tarefas de moderada dificuldade. Comportamento activo e persistente em situações extremamente fáceis ou difíceis. São prováveis atribuições a fortes limitações de habilidade.

Ilusório Primário

Secundário

Tentativa para influenciar os resultados determinados pela sorte. Comportamento activo relativamente a situações de sorte e de exigências de perícia e atribuições ao esforço do si, sendo provável a habilidade pessoal.

Tentativa para se associar à sorte. Comportamento activo em situações de sorte, mas comportamento passivo e de fuga em situações de exigência de perícia, sendo provável atribuições à sorte.

Vicariante Primário

Secundário

Tentativa para manipular o poder dos outros ou imitar o seu poder ou habilidade. Comportamento de submissão experimental ou comportamento manipulativo e atribuições ao esforço do si, sendo provável a habilidade pessoal.

Tentativa para se associar ao poder dos outros. Comportamento submisso não instrumental, e são prováveis atribuições aos outros.

Interpretativo Primário

Secundário

Tentativa para compreender problemas bem como tornar-se possível resolvê-los ou, por outro lado, dominá-los. Comportamento activo e atribuições ao esforço do si, e é provável a habilidade pessoal.

Tentativa para compreender os problemas bem como tirar significado dessas situações e aceitá-las. Comportamento passivo, de fuga e submisso, e é provável atribuições para forte limite de habilidade e sorte pessoal, bem como o poder dos outros.

Fonte: Rothbaum et al. (1982) (os realces são nossos)

se encontram associados ao nível de resiliência, o que se pode verificar na utilização destes indicadores na nossa avalição do constructo em estudo.

Vejamos o estudo da contribuição do controlo percebido sobre reacções depressivas (mais do que casos clínicos de depressão) numa população de crianças com uma média de idade de 11,5 anos, estudo este realizado por Bandura e colaboradores (1999). Segundo estes investigadores, o controlo aqui é consubstanciado na convicção da auto-eficácia percebida,

académica e social, sendo registado o comportamento social, pró-social e problemas de comportamento bem como os seus efeitos directos e indirectos em reacções depressivas. De notar que, em estudos subsequentes, estes autores pretendem também estudar a eficácia pessoal observada sobre o controlo emocional designado como mais eficaz, como já referimos. Na nossa classificação, para além da eficácia e o modo de enfrentar um problema (controlo de tarefa, sem área específica), sublinhamos também o controlo emocional como indicador importante na nossa operacionalização.

Foi então realizado o estudo longitudinal neste nível etário, escolhendo um intervalo de 1 a 2 anos, por envolver uma transição ecológica importante na passagem da “Escola Elementar para a Escola Junior Alta” (Bandura et al., 1999). No estudo da ligação da crença sobre as reacções depressivas, em diferentes facetas da eficácia académica e social percebida, estes investigadores constroem uma medida desta convicção a partir de 37 itens

em 7 campos72. As componentes principais da análise factorial foram 3: convicções na

auto-eficácia académica, social e na auto-regulação percebida. Foram então seleccionados

“(...) os 2 primeiros factores para este estudo pois eram o suporte mais directo para as reacções depressivas ao stress” (Bandura et al., 1999). Para o nosso estudo, interessou- nos

a área da eficácia social e a da tarefa em geral, considerando importante, por exemplo, a