Modelo de Resilência e sua Operacionalização
DEFINIÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO EM RESILIÊNCIA
2.4.2 Pilares da explicitação do nível atingido
Este Modelo e, portanto, a sua Avaliação completamente graduada, pressupõe também três constructos pilares do nível de resiliência atingido: a independência/autonomia, com
inserção social, a flexibilidade e a actividade/acção.
Assim, o quadro conceptual do humano resiliente é, para nós, o seguinte: para além da
flexibilidade, do compromisso e do autocontrolo e domínio, tem de ter iniciativa, gostando de fazer sozinho, e descentraliza-se concretamente em acções, tendo facilidade de inserção social, ou seja, sendo, pelo menos, não isolado e bem aceite socialmente.
Como Grotberg (1995), consideramos o aumento do nível de resiliência no sentido da passagem da utilização do EU TENHO para o EU POSSO, enriquecendo o EU SOU, o que tem subjacente um maior nível para uma maior autonomia, independência, como
passaremos a designá-la124, com uma fácil inserção social. De notar que na lista de
verificação de Grotberg (1995) dos 0-12 anos de idade, surge o item “gosto de fazer sozinho” e “gosto de fazer coisas para agradar”.
Kobasa (1983) realça, por exemplo, o conceito hardy como uma habilidade geral para o uso de todas as fontes, pessoais e da envolvente, possíveis de utilizar, para mais eficazmente perceber, interpretar e actuar nas situações de stress. Neste sentido, a independência na actuação é construída através das 3 dimensões: com autonomia se desafia, se compromete e resolve problemas. Para além disto, o controlo e o compromisso
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na análise de conteúdo aquando da aplicação do intrumento RES a uma população de 125 jovens adultos, 2.ª fase do estudo. Como o Quadro Ic resume, ao ser considerada a contribuição para uma mais forte resolução de problemas e determinante envolvimento individual na situação difícil, verificou-se, nesta 2.ª fase e no compromisso pessoal, que ela foi traduzida pelo maior peso da auto-estima e da segurança pessoal (respectivamente, o indicador MN5 e MN6) relativamente ao optimismo e ao bem-estar activo (indicadores MN4 e MN3), razão por que o nível máximo atribuído é ligeiramente menor nestes 2 últimos indicadores. Não há dados para fazer uma maior diferenciação e não tem sido necessária. Na revisão de literatura, como vimos, é sublinhado o compromisso pessoal, nomeadamente a auto-estima. Neste sentido, congratulamo- nos com a introdução da auto- estima como um dos objectivos da Rede Nacional de Escolas Promotoras de Saúde, pertencente à Rede Internacional com a designação correspondente a esta.
Quanto à flexibilidade, a actividade cognitiva consciente tem um papel importante na dinâmica do modelo. Na perspectiva da aprendizagem positiva na situação difícil, existe a sua avaliação na dimensão do desafio, em MN5125; no sentido de ser uma avaliação crítica (significativa e diferenciadora) quando for trabalhada a educação para a resiliência126, é de reflectir e experimentar a sua relação com outro nível de contribuição deste indicador de aprendizagem.
Neste modelo também se parte do constructo de resiliência associado ao desenvolvimento, de orientação pessoal e interpessoal. No desenvolvimento psicológico, a vertente da
flexibilidade, de um modo geral, pode ser avaliada através da aplicação de um instrumento
baseado na teoria do denvolvimento cognitivo e de orientação interpessoal de D. Hunt (1978) (instrumento designado por PCM), o que pode ser posto em confronto com a análise dos resultados da resposta ao nosso instrumento de avaliação em resiliência (RES). Nesta e na subdimensão da flexibilidade/abertura/mudança, pode-se verificar, nomeadamente a abertura à aprendizagem e à descentralidade, em relação às quais a comparação com os resultados do instrumento baseado na teoria do desenvolvimento de Loevinger (FIPE) (Ra lha-Simões, 1995) é particularmente importante.
Assim, na recuperação pessoal quotidiana, a flexibilidade, com aprendizagem, descentralidade e consciência, é um constructo basilar no nosso modelo e, portanto, na sua avaliação. A actividade é igualmente bastante estruturante para o conceito em estudo. Para outros investigadores, mas também para Kobasa (1979, 1982), a temática das três dimensões de resiliência também faz referência à acção humana: Kobasa resume o desafio
como mudança, uma actividade (interior) também exterior que se altera, que muda; o compromisso como um actuar envolvido e, o controlo, como um actuar confiante.
Na nossa operacionalização, a acção encontra-se esquematizada também no Quadro Ic, realçada a azul (em observações). Esses realces representam os diferentes graus e áreas de actividade positiva para uma resiliência de maior nível. Na dimensão do Desafio, o indicador MN6 da flexibilidade tem o valor máximo A, que designámos por efectiva
actividade descentralizada. Na dimensão do Compromisso, o indicador MN3 do
compromisso pessoal tem o valor máximo M, sendo interpretado como um bem-estar não preguiçoso, designado por bem-estar activo. Também na dimensão do Compromisso, o indicador MN1 do compromisso social associado ao não isolamento social, ao convívio, foi apelidado de gregariedade. Na dimensão do Controlo, o indicador MN4 do controlo emocional e de tarefa, de valor máximo M, refere-se à actividade com falta de resolução directa do problema127, mas saudável solução temporária, pois é individualmente exercida uma actividade agradável, por exemplo, de lazer. A este exercício chamámos- lhe
actividade facilitadora. 2.4.3 Avaliação
1.º Escala de intervalo
Na avaliação utilizada em resiliência, os indicadores estão ligados a uma escala com os seguintes valores: A, M+, M, B+, e B. É uma escala de intervalo, de A a B, sendo o n.º ímpar importante para a clarificação da avaliação com um valor médio significativo. Os 5 níveis mostraram-se discriminantes para a análise do impacto quotidiano. Por cada indicador, a avaliação é concretizada tendo em conta a intensidade com que o conceito é expresso e a hierarquização do indicador na subdimensão. O grau obtido varia entre o nível B e o valor Máximo do Nível do indicador i (MNi)128. Se é silenciado, é atribuído o nível B; caso seja expresso com a máxima intensidade, é então atribuído o valor máximo do nível do indicador i (MNi) correspondente. Os MNi’s surgiram para dar corpo ao modelo proposto, após revisão teórica e 1.ª aplicação do instrumento RES. Como veremos, os 40 itens resultantes da análise de conteúdo foram agrupados nos MNi’s que figuram no Quadro Ic e Quadro IIb,c.
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2.º Máximos Níveis, MNi’s
Com a momenclatura de Máximos Níveis (MNi’s), queremos referir a 6 ou 3 categorias dentro das dimensões consideradas, bem como o peso da respectiva contribuição na avaliação. Consideramos que os indicadores propostos para cada subdimensão têm pesos diferentes para a definição do constructo. Aqui existe uma hierarquia de conceitos associada à operacionalização de uma determinada subdimensão: esta hierarquização é expressa pelo Máximo Nível i (MNi) com que determinado indicador i pode influenciar a avaliação da referida subdimensão. Resultante desta forte associação entre a designação de um determinado indicador e o Máximo Nível proposto, MNi, tornou-se útil também a utilização da designação abreviada MNi como sinónimo do conteúdo do indicador em causa.
3.º Silêncio ou escolha de conceitos afins- ‘a sua verdade’
Como a pergunta é bastante aberta129, verifica-se que as respostas contemplaram o facto de terem um forte grau de honestidade para o universo a que foram aplicadas. Por exemplo: quando é proposta a auto-estima, o optimismo e o autoconhecimento, verificámos que, se o indivíduo os considera assumidos, refere-o imediatamente130 mais ou menos intensamente. Caso contrário, silencia esses conteúdos ou escolhe outro conceito afim que satisfaça as condições de completa verdade131. Portanto, parece ser o aspecto mais significativo para aquela resiliência concreta132. Ora, nestas circunstâncias, o bem-estar foi enunciado por alguns que tinham poucas autodescrições consideradas construtivas. Para este nível etário, onde talvez ainda não seja muito claro o autoconceito e a auto-estima (Campbell et al., 1996), no compromisso pessoal e relativamente ao constructo e indicador “bem-estar”, foi
atribuída a designação MN3133 com o máximo nível M. Este é um exemplo do que
passaremos a expor já a seguir.
4.º Conceitos afins: sua inserção e peso na avaliação
Para além do exposto no 2.º ponto, a importância dos conceitos afins advém da
articulação134 das novas expressões empregues com o modelo proposto. Assim, por
exemplo, o indicador do exemplo no texto do instrumento RES, que designámos por “autoconhecimento”, levou a muitas respostas espontâneas com conteúdos que apelidámos de “preocupação com o seu desenvolvimento”. Este último foi também classificado na subdimensão flexibilidade/abertura/mudança135 e mais tarde, numa maior sistematização
desta, foi categorizado como MN3, na subdimensão referida, com o máximo nível de M+. Relativamente ao indicador “actividade facilitadora”, do exemplo em RES, para além da directa avaliação como MN4, da subdimensão controlo emocional e de tarefa, com o valor máximo de M, pode ser indicativo do grau de “gregariedade” MN1, da subdimensão
compromisso social136. De notar que tivemos muitíssimo cuidado com a análise de conteúdo quando é inferida uma resposta. Só foi considerado quando é ‘directamente inferido’ e, além disso, é classificado com um valor diferente no intervalo considerado: -6 e +6, como pode ser observado, e.g., na legenda do Quadro IIa, de cada estudo de caso. Observemos que a subdimensão flexibilidade pertence à dimensão Desafio com o tema Mudança, o que associado aos pilares do modelo137, leva a que possamos ter uma “efectiva acção descentralizada”, MN6, de sua iniciativa, que abarca a considerada independência, o máximo de flexibilidade/abertura e de acção. Está assim justificado o máximo nível A para este indicador.
Observemos também a ”preocupação com o desenvolvimento”, MN3 também da subdimensão flexibilidade, a que atribuímos um máximo valor de M+. Este indicador é de grande relevância para o desenvolvimento e resiliência, sendo a preocupação com a auto- aprendizagem, de grande flexibilidade mas autocentrada (sem descentralidade, portanto), pelo que lhe foi atribuído um valor, na escala de intervalo, menor que o de MN6 registado no parágrafo anterior.
5.º Contribuições dos indicadores de uma dimensão
Como o Quadro Ic (e, e.g., Quadros IIb,c) expõe, em cada uma das 3 dimensões da resiliência existe uma subdimensão com 3 Máximos Níveis e uma segunda com 6 Máximos Níveis.
Consideremos agora todos os indicadores de uma dimensão: do Desafio, por exemplo. Nesta dimensão temos também 2 subdimensões: a flexibilidade/abertura/mudança e o
desafio. Este último conceito, desafio, é por si só vector de relevo. Para esta subdimensão, desafio2, tomámos em conta a forma como o jovem adulto lida com esse termo: exprime-o com entusiasmo, aceita-o ou silencia-o, a que associámos os 3 máximos níveis de valor A, M e B, respectivamente.
2
É de notar que a designação desta subdimensão, “desafio”, é a mesma da dimensão a que pertence, “desafio”, mas foi-nos difícil mudar pois a designação de Kobasa para a dimensão é desafio e, a nossa
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Quanto à subdimensão flexibilidade, vamos considerar a sua inserção no tema geral da mudança bem como os pilares do modelo. Da aplicação do nosso instrumento de resiliência (RES) obtivemos os 6 indicadores MNi’s atrás descritos. Vejamos a justificação dos diferentes pesos. A MN6 e MN4 já nos referimos no ponto anterior. O indicador da
“mudança”, MN5, abarca a efectiva mudança por nós verificada138 através das
autodescrições, num dado momento ou em diferentes momentos. Os indicadores MN6 e MN5 podem ser classificados com o mesmo valor, A, para os respectivos máximos níveis, pois teoricamente se verifica o tema geral da dimensão (muda), podendo atingir o máximo valor ao serem analisados todos os pilares propostos no modelo.
Para “ver o positivo na situação difícil”, descrição sucinta do indicador MN4, parece-nos necessária uma grande flexibilidade. Ser criativo no modo como percepciona (predizendo a qualidade do funcionamento social e a resiliência, segundo Eisenberg et al, 2000) é de muita flexibilidade e um recurso de optimização na regulação da emocionalidade, verificado também na recuperação perante o stress e, portanto, com um papel especial em resiliência, estudado por Eisenberg e outros autores. Na aplicação do instrumento, também os respondentes o referem directamente ou por outras palavras, demonstrando como os ajuda (ver, e.g., Pedro): “(...) procurar coisas boas para tentar melhorar a situação” (RES97/S5)139. É um aspecto autocentrado mas que pode levar à auto-aprendizagem140. MN4 e MN3 foram classificados com o mesmo valor máximo, M+, pois ainda não é considerada a descentralidade, apesar de grande flexibilidade e auto-aprendizagem possível.
MN2, ter ideais, é uma perspectiva teórica (e portanto ainda não de acção, de mudança), com boa flexibilidade de maior ou menor repercussão nos pilares anteriormente desenhados. Portanto, foi- lhe associado o valor máximo M.
MN1 refere-se à insensibilidade. Muita rigidez e, como tal, nível B. Para a existênc ia de sensibilidade propomos o nível B+, pois estaria associado a uma flexibilidade, mas não a uma acção e independência.
Nota: A descentralidade sobre a actividade humana na situação difícil é proposta em 2 pontos do exemplo em RES, cujo conteúdo é o seguinte: RES/S11 “Perante a adversidade interrogo-me sobre os aspectos positivos que essa situação pode ter em mim ou nos que me estão próximos”; RES/P4 “Com facilidade me dou aos outros, mas falta- me tempo para o fazer para além da família”; e uma indirecta, RES/S9 “acredito e pratico uma religião em que sei que usufruo de uma Amizade exigente”. Estas propostas são importantes pois têm-
se aberto espaços para respostas significativas. Elas proporcionaram: o registo de uma situação de determinado grau de intens idade da dificuldade, obtendo-se o seu nível de descentralidade (e que se triangulou mais facilmente com FIPE, e.g.); e a análise da variação do registo, da variação do que é significativo, aquando da múltipla passagem respondida pela mesma pessoa. Estes factos puderam ser contrapostos com o tipo de situação vivida entre as diferentes passagens e exposta no preenchimento de um instrumento que utilizámos, designado por Comparação de questionários (Compquest.).
6.º Avaliação num Indicador e numa Subdimensão
Pelo anteriormente exposto, os indicadores de maior peso são os melhores descritores para os níveis altos da dimensão em causa, sendo esta enriquecida pelas outras categorias hierarquicamente de menor nível.
Assim, o valor obtido no indicador MNi tem como base o máximo peso/ponderação atribuído ao conteúdo desse indicador para a subdimensão respectiva bem como a intensidade com que o exprime na resposta a RES.
Mas noutro nível, perante os graus de A-B obtidos nos diferentes indicadores de uma determinada subdimensão, segundo o processo anteriormente exposto, a avaliação dessa subdimensão, na resposta desse elemento da população, coincide com o maior nível nela obtido. (Por exemplo: a análise de conteúdo associa expressões a 4 indicadores de uma determinada subdimensão classificados com B+,M,M,M+. A avaliação obtida nessa subdimensão é de M+. Obtém-se a classificação M+, sendo esta enriquecida pelas restantes 3 descrições).
7.º Avaliação numa Dimensão e Avaliação Total em resiliência
Pelos processos anteriormente expostos foram obtidos 2 níveis (de A-B) por cada dimensão. Para os resultados em gráficos foi realizada a correspondência da escala de intervalo, A, M+, M, B+, B, para os valores, 2,0; 1,5; 1,0; 0,5; 0,0. Foi considerado o respectivo somatório para os 2 níveis de avaliação (Avaliação por Dimensão e Avaliação Total em resiliência) pois, como veremos, foi verificada uma grande correlação entre os indicadores (Quadros IV no capítulo 4), sendo a resiliência considerada como um só constructo (como se verificou em hardiness, Kobasa, 1982).
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CAPÍTULO 3
Metodologia
Numa pequena introdução reflecte-se sobre o papel da designada ciência experimental na procura sistemática e rigorosa da expansão do conhecimento humano e do avolumar do peso da avaliação qualitativa, nomeadamente nas Ciências da Educação.
As opção metodológicas são descritas. É escolhida a investigação em ambiente natural, descritiva, heurística, longitudinal e prospectiva tendo o plano da investigação compreendido 3 fases: na 1.ª realizou-se o aprofundamento teórico, a construção do Modelo, a construção de um questionário em RESiliência (RES); a 2.ª fase refere-se à primeira aplicação de RES a uma maior população, de cuja análise de conteúdo surgem 40 itens que concretizaram a operacionalização do modelo em 3 dimensões e respectivos 9 (3+6) indicadores; e a 3.ª fase consistiu no estudo principal, em que se utilizou um estudo longitudinal e prospectivo de um a três anos, um estudo de 7 casos, aplicando-se 18 vezes o instrumento de medida em resiliência RES, construído neste estudo. Utilizam-se também outros instrumentos de avaliação de recolha de dados, nomeadamente um guião de entrevista do registo da comparação de respostas aos questionários RES, de acrónomo Compquest., por nós elaborado.
São utilizados outros instrumentos de avaliação baseados na investigação de Loevinger e Hunt (Ralha-Simões, 1995; Simões, 1996) para, numa análise de conteúdo e no 1.º momento de avaliação, se realizar uma triangulação de parte de conteúdo da avaliação em resiliência (e.g.,flexibilidade e descentralidade).