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2. Mecanismos de defesa

2.4. O Modelo de Ihilevich e Gleser

Apresentaremos agora em detalhe o modelo de Ihilevich e Gleser (1986), dado que o presente estudo utilizará como modelo de mecanismos de defesa o instrumento desenvolvido por estes autores.

23 2.4.1. Desenvolvimento do modelo

Ao longo das décadas, vários autores classificaram os mecanismos de defesa segundo a sua “vigilância”, “complexidade” e “nível de adaptação” (Ihilevich & Gleser, 1986). Na década de 1960, Haan (1963) e Kroeber (1963) criaram um modelo que caracterizava os mecanismos de defesa como necessariamente rígidos, dominados pelo passado do indivíduo e deturpadores da realidade, em oposição à sua definição de coping. Segundo este modelo, os mecanismos de defesa eram desadaptativos e parte integral da psicopatologia. Já Vaillant (1971), uma década mais tarde, aceitava a existência de mecanismos de defesa adaptativos, criando 4 categorias para arrumar os vários tipos de mecanismos de defesa – defesas maduras (como o Humor e o Altruísmo), defesas imaturas (como a Projecção), defesas neuróticas (como a Intelectualização, por exemplo) e defesas psicóticas (Negação, Delírios, entre outras). Esta classificação das defesas mostrou-se, no entanto, inconsistente com a maioria dos estudos empíricos que demonstram que indivíduos em níveis de adaptação diferentes usam a maioria das defesas clássicas, embora as usem com diferentes graus de distorção da realidade (Ihilevich & Gleser, 1986).

Ihilevich e Gleser (1986), inspirados pelos trabalhos destes autores bem como os de Lazarus, French, Menninger, Caplan e Horowitz, decidiram tomar uma perspectiva diferente, propondo que aquilo que torna o mecanismo de defesa adaptativo ou desadaptativo é a sua flexibilidade e o nível em que é apropriado ao contexto. Esta perspectiva começou por ser explorada por Anna Freud (1965) que enfatizou que os mecanismos de defesa associados a um funcionamento desadaptativo em casos patológicos, estavam presentes de forma adaptativa noutros indivíduos – o problema não seria o mecanismo de defesa em si, mas a sua inflexibilidade (Ihilevich & Gleser, 1986).

Segundo esta perspectiva, o que precipita a defesa são as emoções negativas (medo, culpa ou qualquer outra emoção que ameace o Ego), e a maioria das defesas associadas com o funcionamento normal envolvem a modificação, distorção ou elaboração de pensamentos e sentimentos (Juni, 1999) ao retirá-los da consciência (Repressão, por exemplo), atacando outros

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objectos substitutos dos objectos de ameaça reais (como na Deslocação), ou criando a ilusão de que as ameaças internas têm uma origem externa (Projecção, por exemplo). No fundo, é criada a ilusão de controlo sobre as ameaças percebidas, de forma a resolver conflitos internos numa situação que seria intolerável se trazida à consciência (Ihilevich & Gleser, 1986). Significa isto que até mesmo algum grau de distorção da realidade pode ser benéfico (Ihilevich & Gleser, 1986).

2.4.2. Categorização dos mecanismos de defesa

Os mecanismos de defesa são vistos por estes autores como reacções automáticas involuntárias perante conflitos e ameaças que são activadas quando o coping ou estratégias de resolução de problemas não são eficazes (Ihilevich & Gleser, 1986). São disposições relativamente estáveis e inconscientes dirigidas para a resolução de conflitos entre valores internos do indivíduo e experiências ou exigências externas experienciadas como sendo opostas às internas (Ihileivich & Gleser, 1994). Nesta linha, Ihilevich e Gleser (1986) definem cinco estilos de resposta defensiva – Turning Against Object,

Projection, Principalization, Turning Against Self, Reversal – cada um

caracterizado por um conjunto específico de operações mentais, respostas emocionais e reacções comportamentais, e podem englobar a maioria dos mecanismos de defesa clássicos mencionados na teoria psicanalítica, correspondendo a certos tipos de psicopatologia e estando associados a vários factores demográficos, biológicos e de personalidade. Estes cinco estilos de resposta defensiva cumprem funções de falsificação de realidade; ilusão de controlo da ameaça; redução, redirecção ou regulação da ansiedade e de aumento da auto-estima (Ihilevich & Gleser, 1986). Vejamos mais em pormenor os cinco estilos de defesa:

Turning Against Object – esta categoria envolve a expressão directa ou

indirecta de agressão, com o propósito de obter um domínio percebido de ameaças externas ou de mascarar conflitos internos que são demasiado dolorosos para confrontar de forma consciente (Ihilevich & Gleser, 1986). O indivíduo ataca perante o perigo percebido, diminuindo a ansiedade ao

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transformar a experiência de se sentir ameaçado numa experiência de agente ameaçador – uma ilusão de poder e força que aumenta o bem-estar do indivíduo (Ihilevich & Gleser, 1994). Dentro desta categoria, podemos encontrar as defesas clássicas de deslocamento e de identificação com o agressor (Ihilevich & Gleser, 1986; 1994).

Projection – esta categoria envolve a atribuição de intenções ou

características negativas a um outro sem evidência real que o suporte, activando respostas defensivas a uma ameaça ou conflito percebidos que justifiquem a expressão de hostilidade ou rejeição (Ihilevich & Gleser, 1986; 1994). Estas falsas atribuições podem ter base nas próprias características negativas do indivíduo que este, de forma inconsciente, nega; Podem também ter o propósito de aumentar a auto-estima do indivíduo ao rejeitar estas características no próprio, inferiorizando o outro em comparação, ao atribuí-las a este. Poderá ser também que ao rejeitar ou atacar os outros que, presumivelmente, terão essas características, isso dê ao indivíduo a sensação de controlo sobre esses atributos. Poderá também ter o propósito de redirigir a ansiedade amorfa para uma ameaça externa concreta, o que pode promover um funcionamento mais adaptativo (Ihilevich & Gleser, 1986). Este tipo de defesa representa a maioria das formas de projecção e de externalização (Ihilevich & Gleser, 1986).

Principalization – este processo falsifica a realidade ao reinterpretá-la

através do uso de uma variedade de princípios gerais, expressos na forma de clichés e lugares-comuns de forma a obscurecer o conflito interno ou a ameaça externa percebida, e substituindo uma compreensão genuína por uma “verdade vazia” sobre a qual o indivíduo exerce um controlo intelectual (Ihilevich & Gleser, 1986; 1994). Ao invocar estes princípios, o indivíduo desloca a sua atenção de assuntos específicos para assuntos abstractos, modificando assim a importância pessoal das ameaças percebidas (Ihilevich & Gleser, 1986). Incluem-se aqui defesas clássicas como a intelectualização, racionalização e o

isolamento do afecto (Ihilevich & Gleser, 1986; 1994).

Turning Against Self – esta categoria inclui manobras intrapunitivas que

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ameaças à auto-estima percebidas pelo indivíduo (Ihilevich & Gleser, 1986). Quando confrontado com ameaças ou conflitos, o indivíduo dirige crítica excessiva, raiva ou hostilidade não justificada para o self, criando assim um “colchão” que atenua o impacto dos acontecimentos negativos (e, portanto, da ansiedade), ao esperar sempre o pior possível de uma dada situação (Ihilevich & Gleser, 1986; 1994). Estas defesas são frequentemente expressas em formas exageradas e persistentes de autocríticas, expectativas negativas e afecto depressivo (Ihilevich & Gleser, 1986), e impilcam respostas pessimistas, masoquistas e autodestrutivas (Ihilevich & Gleser, 1986; 1994).

Reversal – nesta categoria existe uma redução do conflito interno ou de

ameaças externas percebidas ao se minimizar a sua importância ou ao eliminá- las da consciência (Ihilevich & Gleser, 1986; 1994), criando um controlo ilusório sobre uma realidade desagradável, atenuando a ansiedade e aumentanto o sentimento de bem-estar (Ihilevich & Gleser, 1994). Incluem-se aqui defesas como a negação, a repressão e a formação reactiva (Ihilevich & Gleser, 1986; 1994).

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