2.4 A CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS FLORESTAIS
2.4.2 Modelo Institucional da Política Florestal
O modelo institucional para a gestão de florestas produtivas é fruto da política que é desenvolvida ou implementada nos estados, assim como os aspectos legais, os mecanismos de incentivos e as estratégias e programas concebidos para apoiar ou fomentar a atividade florestal. Assim, tendo por base o chamado Pacto Federativo de Gestão Descentralizada, os argumentos para o desenvolvimento das políticas florestais ficaram a cargo dos estados. Entretanto, pela forte influência internacional a respeito das pressões ambientais, também foram essas as premissas que passaram a orientar as prioridades das políticas estaduais. Isso leva ao questionamento das próprias estruturas administrativas e organizacionais do setor florestal que, no Estado do Paraná, acabou por caracterizar a produção florestal como simples parte da gestão ambiental. “A política estadual do atual Governo para o manejo dos recursos naturais tem enfocado principalmente as atividades de cunho ambiental e social, ao invés da promoção de reflorestamentos de produção industrial” (IAP/SEMA apud FAO, 2004, p. 66). Assim, não se verificaram, nos últimos anos, políticas consistentes ou estímulos específicos para o desenvolvimento do setor florestal produtivo. Conseqüentemente, os investimentos foram reduzidos, limitados às iniciativas das empresas estruturadas e sem a participação da pequena produção dentro do processo produtivo. Além disso, o excesso burocrático, principalmente na fiscalização, passou a imperar, e isto, somado à falta de informação, acabou por levar desconfiança aos pequenos produtores, que se sentiam inseguros para um investimento de longo prazo, como os plantios florestais.
No entanto, a denúncia da Executive Intelligence Review, (EIR) em seu livro
Máfia Verde, sob a coordenação de Lonrenzo Carrasco (2001), no qual afirma-se
que o ambientalismo encontra-se a serviço do governo mundial, isto é, longe de ser um fenômeno sociológico espontâneo, fruto de uma conscientização sobre as reais necessidades de compatibilização entre as ações humanas e o meio ambiente, o movimento ambientalista internacional foi criado e vem sendo empregado como um obstáculo contra as perspectivas de expansão da civilização industrial a todos os povos e países do planeta, bem como contra a instituição do Estado nacional soberano. Asseguram que, por trás dessa estratégia, está uma coleção de famílias oligárquicas internacionais, reunidas sob a liderança anglo-americana, para a qual o
ambientalismo tem servido eficientemente ao propósito de obstaculizar os esforços globais de desenvolvimento socioeconômico.
Nesse aspecto, vale ressaltar que o próprio governo assume que houve um certo exagero no tocante ao ambientalismo, principalmente após a RIO-92:
O “ambientalismo” surgido nessa época em função da ECO 92, e a facilidade de aplicação da legislação punitiva, levaram o IAP a uma excessiva concentração de ações na fiscalização, ficando o Desenvolvimento Florestal relegado a plano secundário (IAP, 2006).
Por isso, a política estadual para o manejo dos recursos naturais tem enfocado principalmente as atividades de cunho ambiental e social, ao invés da promoção de reflorestamentos de produção industrial (comunicação pessoal, IAP/SEMA in: FAO, 2004, p. 59).
Esse tipo de política com forte caráter burocrático ainda é alvo de crítica por parte do setor florestal organizado, que demonstra as dificuldades em se vencer tais barreiras:
Atualmente a agricultura de árvores está vinculada de forma incorreta ao Ministério do Meio Ambiente. A desburocratização da atividade é outro detalhe a ser amplamente discutido, pois para ela são exigidos cerca de 50 documentos para todas as fases do processo (limpeza do terreno, desbastes, corte, transporte e venda) enquanto nas demais atividades agropecuárias tais exigências resumem-se em quatro documentos (APRE, 2004, p. 1).
Em especial no que se refere à percepção dos pequenos agricultores quanto ao ambientalismo, ressaltam-se algumas conclusões de Malinovski (2002, p. 80):
Do ponto de vista comportamental, percebe-se que o produtor rural possui uma postura defensiva quando se trata de questões ligadas ao setor ambiental. Na ótica do produtor o Estado criou uma política ambiental altamente restritiva ao pequeno proprietário rural, fazendo com que muitos deles vendam suas terras e se mudem para a cidade grande, ocasionando o êxodo rural; o produtor rural acredita que acabou assumindo de forma ditatorial o ônus dos problemas ambientais gerados no passado.
Por conta de todas essas pressões (principalmente as internacionais a respeito dos problemas ambientais), o governo do Paraná também modificou a sua legislação. Assim, no Diário Oficial de 27 de julho de 1992, foi publicada a Lei 10.066, que criou a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA), bem como a entidade autárquica Instituto Ambiental do Paraná (IAP). Em seu Artigo 14 consta:
“ficam extintos a Superintendência de Recursos Hídricos e Meio Ambiente(Surehma) e o Instituto de Terras, Cartografia e Florestas (ITCF) [...]”. Esses fatos conduzem a uma análise a respeito das diversas faces que envolvem a questão da produção florestal no estado, tendo por um lado o setor produtivo e, por outro, os aspectos legais com os quais o governo se dedicou nesse período de tempo. Como ressalta a FAO (2004, p. 59-61):
No Paraná, a condução da política estadual de incentivos e de desenvolvimento florestal está ao cargo de órgãos públicos ambientais, notadamente o Instituto Ambiental do Paraná, órgão da Secretaria de Meio Ambiente (SEMA). Isto tanto no âmbito estadual, quanto em prefeituras.
Vale ressaltar que dentre os objetivos do IAP, instruídos no art. 6º da referida lei, constam, além de fazer cumprir a legislação ambiental e conceder o licenciamento de atividades produtivas, outros objetivos:
X - fiscalizar, orientar e controlar a recuperação de áreas degradadas por atividades econômicas de qualquer natureza; XI - promover, coordenar e executar a educação ambiental formal e não formal (Lei nº 10066/92).
Esses objetivos estão destacados apenas para reforçar a idéia de que o estado não deseja apenas fiscalizar, mas também orientar, apoiar e conscientizar os produtores de forma geral (e os cultivadores de florestas, em especial), para demonstrar que é possível implantar florestas, manejá-las e produzir dividendos sem, no entanto, comprometer os recursos naturais de forma irreversível.
É dentro desse enfoque que a questão da fiscalização sobre os plantios florestais encontra-se inserida no Estado do Paraná, contando com as estruturas do Instituto Ambiental do Paraná, da SEMA, e do Departamento de Fiscalização e Defesa Agropecuária, da SEAB, cujas atribuições recaem na fiscalização das leis ambientais envolvendo os solos e os agrotóxicos, bem como da produção de mudas através da fiscalização e registros de viveiros florestais.
O IAP, pela sua própria característica fiscalizatória, apresenta uma visão do setor produtivo florestal como uma atividade que deve receber atenção redobrada, uma vez que pode colocar em risco o meio ambiente, a partir do momento em que padroniza a flora com maciços de monoculturas que, quando em excesso, podem causar danos ambientais de grande monta. Além disso, a legislação federal que trata da Reserva Legal (RL), da Mata Ciliar (MC) e da Área de Preservação
Permanente (APP), coloca o IAP em situação de “alerta permanente”, uma vez que tem que fiscalizar o seu cumprimento em todas as instâncias, seja para pequenos, médios ou grandes propriedades, além das empresas agrícolas. O IAP, por sua vez, também é “fiscalizado” pelo Ministério Público, exigindo o cumprimento imediato da legislação.
Há, porém, uma visão do órgão de que, o fato da fiscalização centralizar-se no IAP, poderia ser uma vantagem em termos da facilidade de negociação desses tipos de conflitos no campo. Assim, embora esteja o setor administrado sob a ótica ambiental, não significa que haja descaso quanto aos aspectos produtivistas da exploração florestal, tendo em vista que se busca a sustentabilidade da produção ao garantir a adequação da legislação, bem como da harmonia entre o que se pode produzir e o que se deve preservar. Por outro lado, permanece o aspecto da necessidade de se cumprir as leis, principalmente as federais, tendo em vista a dificuldade de negociação e a supervisão do Ministério Público, cuja atuação é bastante ativa no estado. Nesse sentido, alega-se que o foro ideal para essa discussão é o próprio IAP, órgão fiscalizador da legislação ambiental no Paraná e que vem travando um longo debate a respeito desses temas há mais de uma década.
O Estado do Paraná, em especial, vem desenvolvendo, mesmo que em pequena escala, alguns programas para fomentar e estimular o seu reflorestamento desde os anos 1980, com destaques para o Programa de Desenvolvimento Florestal Integrado (PDFI), que se desenvolvia dentro da filosofia do manejo de solos e águas em microbacias hidrográfica (Programa de Desenvolvimento Rural do Paraná - Paraná Rural); Sistema Estadual de Reposição Florestal Obrigatória (Serflor); o Programa Paraná Biodiversidade; o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços com Fins Ecológicos (ICMS Ecológico); todos em consonância com o Sistema Estadual de Manutenção, Recuperação e Proteção de Reserva Florestal Legal e Áreas de Preservação Permanente (Sisleg). Mas funcionam mais como mecanismos de controle, fiscalização e de desenvolvimento das florestas nativas. Somam-se a esses outros programas voltados para a área de recursos naturais: Programa Bacia Azul; Programa Município Verde; Zoneamento Ecológico- Econômico e Programa Mata Ciliar.
O Sisleg foi instituído no Estado do Paraná através do Decreto Estadual 387/99, com base em elgislações florestais federal e estadual. Esse sistema se
integra aos principais mecanismos institucionais de estímulo à atividade e ao manejo florestal. É seu principal propósito “levar o Estado do Paraná a ter um índice de no mínimo 20 % da cobertura florestal através da conjugação dos esforços do Poder Público e da Iniciativa Privada” (art. 2º do Decreto 387/99). Pretende, assim, totalizar 4 milhões de ha de florestas até o ano de 2018. O sistema ainda tem por objetivo o estabelecimento de zonas prioritárias de conservação para a manutenção da diversidade biológica dos biomas paranaenses; a promoção das zonas prioritárias de conservação e remanescentes significativos através de “Corredores da Biodiversidade” e a implementação de ações que objetivem a recuperação florestal de áreas públicas e particulares, reabilitando-as para a manutenção da biodiversidade. Há o interesse do estado em disciplinar os proprietários de imóveis rurais a recuperarem a Reserva Florestal Legal, sem comprometer os rendimentos auferidos pelo imóvel. Assim, além do prazo de 20 anos (a contar do ano de 1998), há a possibilidade de o produtor fazer a recomposição da RL em outras áreas de sua propriedade ou ainda em propriedades de terceiros desde que as mesmas possuam vegetação nativa e tenham suas Áreas de Preservação Permanente protegidas dentro do mesmo bioma. A RFL deverá ser constituída por área com cobertura florestal com essências nativas em qualquer estágio de regeneração já existente. Poderão, também, ser transformadas em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), a qualquer tempo. De qualquer forma, é exigido que todos os proprietários rurais averbem a RL em cartório, além de cadastrá-la no Sisleg, com o prazo para regularizar a situação até 2018.
No que se refere ao ICMS Ecológico, trata-se de um importante instrumento de incentivo à criação e manutenção de áreas especialmente protegidas. Criado pioneiramente no Estado do Paraná, através da Lei Complementar 59/91, que definiu os percentuais de rateio do ICMS a que os municípios têm direito, considerando-se um critério ambiental. O mecanismo trata da inclusão de um critério ecológico em paralelo com os tradicionais usados para distribuir o ICMS destinado ao Fundo de Participação dos Municípios. Assim, são distribuídos entre aqueles que, em seu território, possuem áreas protegidas na forma de unidades de conservação, áreas indígenas ou faxinais ou, ainda, com mananciais de água que abasteçam outros municípios. Dessa forma, as Unidades de Conservação (UC) que antes eram vistas como um entrave ao desenvolvimento econômico dos municípios, por não poderem sofrer exploração econômica, passaram a gerar receita aos mesmos. Esse
mecanismo tem motivado a criação de novas Unidades de Conservação bem como a designação de Áreas de Proteção Ambiental (APA). Também criou uma nova atitude da parte do setor privado, levando a um aumento substancial das Reservas Naturais Privadas, como as RPPNs, minimizando a pressão sobre as florestas nativas. Os índices que definem o volume de recursos a ser repassado são calculados pela SEMA/IAP/Suderhsa, com base nos critérios de área do município atingida e de qualidade ambiental da unidade de conservação/manancial. Além disso, outros critérios, como a existência de um Plano de Manejo, efetiva proteção à unidade, qualidade da flora, da fauna e da água, entre outros, devem complementar a análise da área (FAO, 2004, p. 55).
Com relação ao Projeto Paraná Biodiversidade, o seu principal objetivo é o de recuperar a biodiversidade em corredores ecológicos, selecionados em função de sua importância estratégica de remanescentes de ecossistemas originais do estado. Os mesmos localizam-se principalmente em Unidades de Conservação já existentes (FAO, 2004, p. 64). As áreas prioritárias para o planejamento ambiental são compostas por faixas marginais de 10 km ao longo dos principais rios afluentes das diversas bacias hidrográficas do estado. A intenção é propiciar a interligação das Zonas Prioritárias de Conservação e das unidades de conservação públicas e privadas, conforme pode ser observado no mapa dos corredores de biodiversidade do estado. Sua estratégia operacional prevê a estruturação de um processo educativo de toda a sociedade e de um sistema de fiscalização e controle mais eficiente; a implantação de unidades de conservação; a estruturação de um processo de extensão rural voltado à recuperação da biodiversidade e ao desenvolvimento de uma agricultura de menor impacto sobre o ambiente, e o desenvolvimento de uma série de estudos visando a uma melhor gestão dos recursos naturais. Como resultante dessa estratégia, fragmentos de vegetação passarão a ser conectados por corredores ecológicos (SEMA21, 2003 apud FAO, 2004, p. 65). O Projeto Paraná Biodiversidade é dividido em quatro componentes para implementação das ações: Incentivos à Conservação e Manejo da Biodiversidade; Controle e Proteção; Educação e Capacitação da Sociedade para a Conservação da Biodiversidade e Gestão do Projeto.
21 SEMA-PR-a. 2003. Projeto Proteção e Conservação da Biodiversidade – Paraná Biodiversidade.