2.1 EVOLUÇÃO DOS MODELOS TEÓRICOS DA
2.1.3 O modelo da Nova Administração Pública
O modelo da Nova Administração Pública ou administração pública gerencial foi, segundo Denhardt (2012), o resultado de um contexto mundial de crise fiscal que ocorreu a partir da década de 1970 e culminou na necessidade de redefinição dos governos para que
‘funcionasse melhor e custasse menos’. Dessa forma, as experiências positivas da administração gerencial em países como Nova Zelândia, no Canadá, na Inglaterra e nos Estados Unidos influenciaram inúmeros outros países nessa tendência (DENHARDT, 2012; ANDION, 2012).
Conforme Paes de Paula (2005), Secchi (2009), Salm, Menegasso e Motta (2013), o gerencialismo como uma cultura se define por pressupostos como crença na sociedade de mercado livre; o indivíduo como autoempreendedor; a excelência em destaque para o aperfeiçoamento individual e coletivo, inserção de metas, indicadores e competição no serviço público, descentralização, prestação de contas e a valorização de tecnologias gerenciais para racionalizar atividades organizacionais.
Ideologicamente, para Motta (2013), a administração gerencial retomou os valores do liberalismo, como a redução do Estado e a inclusão de mecanismos do mercado no governo. A busca de soluções no racionalismo econômico levou a medidas como o maior controle fiscal, ações para a produtividade pública e novas formas de prestação de serviços, outrora mencionados (DENHARDT, 2012). Assim, verifica-se que a própria concepção de Estado foi alterada. Atividades consideradas ‘meio’ foram privatizadas, apoiando-se na visão de que o setor privado poderia alcançar padrões mais elevados de eficiência.
No Brasil, a revitalização da administração pública tem início a partir da segunda metade da década de 1990, enquadrando-se no contexto da redemocratização que trazem mudanças na forma de conceber o papel do Estado e dos cidadãos. Além da proposta de descentralização entre os níveis de governo, criam-se novos instrumentos para ampliação da participação social, fortalece-se a sociedade civil organizada, surgem novas formas de ação da administração para promover o controle fiscal e
melhorar a performance do Estado (ANDION, 2012).
Assim, em 1995, por meio da instituição do Ministério da Administração e Reforma do Estado (MARE), conduziu-se a reforma administrativa do Estado brasileiro a fim de estabelecer as atividades inerentes à administração pública e àquelas que, descentralizadas, poderiam ser prestadas por outras entidades - setor privado ou terceiro setor (BRESSER PEREIRA, 1998). A nova perspectiva de prestação de serviços públicos trouxe consigo importantes mudanças na administração pública mundial e no Brasil (ANDION, 2012).
Constata-se que a adoção da abordagem gerencial visava romper com as disfunções do modelo burocrático, como excesso de formalismo, processos lentos e rígidos, dificuldade em lidar com o público, foco nos meios e não nos objetivos e uma rígida hierarquização da autoridade.
Como argumentam Osborne e Gaebler (1994), a burocracia não é apropriada às exigências contemporâneas de flexibilidade, adaptação, produção e qualidade.
Nesse âmbito, assevera Secchi (2009, p. 354) que a administração pública gerencial pode ser definida como “um modelo normativo pós-burocrático para a estruturação e a gestão da administração pública baseada em valores de eficiência, eficácia e competitividade”. Ainda, segundo o autor e também para Vendramini (2012), a noção de dicotomia entre política e administração, conforme pensamento de Wilson (1887), é mantida tanto no modelo burocrático quanto no gerencialismo. Nessa ótica, Paes de Paula (2005, p. 81-82) defende que para se desenvolver a gestão pública é necessário considerar “a elaboração de ideias e práticas administrativas específicas para o setor público, a interrelação entre administração e política e a democratização do Estado”. Assim, não há de se falar na distinção entre quem toma as decisões e quem as executa, entre política e administração.
O novo modelo para a administração pública, todavia, não superou a burocracia (PAES DE PAULA, 2005; SALM; MENEGASSO, 2009; MORETTO ET AL, 2014), apenas a flexibilizando e centralizando as decisões no poder executivo. Na visão de Salm e Menegasso (2009) e Motta (2013), o modelo gerencial não atendeu às expectativas de transformar a prática e a teoria de administração pública.
Como esclarece Denhardt (2012, p. 255), na lógica de mercado, os órgãos públicos devem ter o foco no consumidor para atender às suas demandas, mas alcançam somente o “autointeresse de curto prazo de indivíduos isolados”. Conforme esse autor, a filosofia do autointeresse, que fundamenta a administração pública gerencial, consiste na perspectiva de que “o governo existe apenas para mediar os interesses pessoais e coletivos específicos dos membros da sociedade e para propiciar uma arena em que os autointeresses possam ser plenamente exercidos e adjudicados” (DENHARDT, 2012, p. 255).
É salutar destacar, contudo, que a soma de autointeresses não pode ser confundida com o bem comum, pois interesses particulares podem não representar o interesse público (MORETTO ET AL, 2014). Nesse sentido, valores humanos como liberdade, justiça e igualdade são substituídos pelo cálculo de custos e benefícios, meios e fins (DENHARDT, 2012).
O autor ainda defende que “as organizações públicas deveriam agir, por definição, de acordo com procedimentos democráticos e perseguir resultados democráticos” (DENHARDT, 2012, p. 294) e, para tanto, dependem de inclinações teóricas em favor de novos preceitos de
servidor público, cidadão e papel das organizações (formais e informais) na promoção do bem público.
Na visão de Souza (2009), a administração pública continua alvo de críticas, o que suscita a necessidade de reformas e mudanças estruturais profundas em seu funcionamento e dinâmica. Nesse contexto, o autor evidencia a necessidade de a gestão pública brasileira construir novos modelos de gestão com fundamento na gestão do conhecimento.
Para compor novos arranjos de administração pública, Sullivan (2004) destaca a necessidade de a gestão pública restabelecer a fusão entre a competência técnica, a consciência cívica e o propósito, caracterização esta não visualizada na proposta da Nova Administração Pública. Para a autora, no modelo gerencialista prevalece uma visão tecnocrática na gestão de pessoas mantém em segundo plano os valores republicanos que devem nortear as ações dos profissionais.
No âmbito dessa discussão e das críticas entre discurso e prática em relação aos resultados alcançados com o gerencialismo, retoma-se o papel central dos cidadãos e do interesse público na administração pública (DENHARDT, 2004, ANDION, 2012) por meio de uma nova proposta: a Teoria do Novo Serviço.