1. CONSTITUCIONALISMO CONTEMPORÂNEO
1.2. Modelos conflitantes de Estado de Direito
Esse cenário turbulento de definição de identidade do Estado Democrático de Direito transpõe os limites nacionais e alcança dimensão transnacional. Nesse sentido, GARAVITO (2011) analisa o movimento mundial de expansão do Estado de Direito (ED) para todos os Países do mundo, o que pode ser designado de Estado Global de Direito (EGD). Esse fluxo transnacional envolve, na sua origem, dois grupos de concepções de ED e dois projetos transnacionais ideológicos e políticos no campo do EGD que estão potencialmente em conflito.
No tocante às concepções de ED, a primeira é batizada de versão light de ED. As concepções light – cuja formulação básica procedeu de Friedrich Hayek –
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Para Habermas, o Direito não pode impor-se só pela ameaça de sanção (faticidade, positividade). Ele precisa ser aceito pelos indivíduos (validade, legitimidade). "Nos termos da síntese de Marcelo NEVES (2001, p. 119), o direito vale não apenas porque é posto, e sim enquanto é posto de acordo com um procedimento democrático, no qual se expressa intersubjetivamente a autonomia dos cidadãos" (LOPES, 2006, p. 244).
privilegiam a função estabilizadora do ED, enfatizando aspectos que inspiram segurança jurídica ao mercado mediante a previsibilidade das regras jurídicas e a repressão à criminalidade9. A universalização dessa versão light de ED é apoiada por economistas (mais do que por juristas) e por ações e financiamentos de agências internacionais, como fundações privadas (ex.: Fundação Ford), diversas empresas transnacionais e associações profissionais, o Banco Mundial, a USAID (United States Agency for International Development) e, na América Latina, o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). No entanto, GARAVITO (2011, p. 251) adverte que, na sua visão, essas concepções conseguem conviver harmonicamente com regimes autoritários e não democráticos:
As concepções light incluem correntes que são indiferentes ao conteúdo das leis que proporcionam segurança jurídica (e, portanto, são compatíveis com regimes não democráticos) e outras que, sublinhando a ordem pública e a liberdade econômica, defendem os direitos civis e políticos como limites ao poder estatal.
O segundo grupo de versões reporta-se à concepção “densa” de ED, que enfatiza “uma compreensão expansiva dos direitos civis, políticos e sociais” (GARAVITO, 2011, p. 251), valorizando a promoção de direitos sociais, econômicos e culturais. E, embora GARAVITO seja omisso a respeito, é certo que essas concepções densas também conseguem coexistir com regimes autoritários e antidemocráticos, os quais amiúde se disfarçam como democráticos, a exemplo dos regimes totalitários da Venezuela de Nicolás Maduro e da Nicarágua de Daniel Ortega. Este último, além de mudar a Constituição para permitir reeleições indefinidas, introduziu um sistema unipartidário para eliminar a oposição no Congresso (ZERO HORA, 2016). Esses casos exemplificam o que metaforicamente Uta THOFEM (2016) qualifica como “ditaduras socialistas com verniz democrático”.
Relativamente aos dois projetos ideológicos e políticos em voga, o primeiro é o “projeto neoliberal global”, ou seja, o “neoliberalismo global” (GARAVITO, 2011, pp. 250-252 e 279), o qual se baseia nas concepções light de ED. O segundo é o “projeto neoconstitucional global”, ou seja, o
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“Na prática, essas funções [manter clima estável de investimento com regras de jogo previsíveis e garantir ordem pública] se traduzem em um programa político de reforma judicial que tem dois eixos principais e foi desenvolvido nas obras de influentes economistas neoliberais na América Latina e em outros lugares (ALESINA, 2002; KLUGER e ROSENTAL, 2000; CLAVIJO, 2001). Em primeiro lugar, para manter a previsibilidade das normas que regulam os mercados, os juízos de direito privado devem fazer cumprir os contratos e não recorrer ao ativismo judicial redistributivo. Em segundo lugar, para garantir a paz e a ordem, os tribunais penais e outros organismos estatais dedicados ao controle social devem ser eficientes na prevenção e repressão da criminalidade” (GARAVITO, 2011, p. 257).
“neoconstitucionalismo global” (GARAVITO, 2011; pp. 250-252 e 279), o qual envolve uma combinação de elementos das versões light e densas de ED.
GARAVITO, diante dos embates entre esses dois projetos na reforma do sistema judicial colombiano, sustenta que o neoliberalismo e o neoconstitucionalismo globais vivem em constante conflito e costuram acordos provisórios e em constante remodelação na definição das diretrizes político-jurídicas, mas sempre há uma hegemonia do projeto liberal. Essa aproximação tímida do neoconstitucionalismo perante o hegemônico neoliberalismo é designado como “neoconstitucionalismo repreendido”10, o qual está presente não apenas na Colômbia, mas em todo o mundo como uma dinâmica típica do campo do EGD. Exemplificam-no: (1) a mitigação, na Colômbia, do ativismo judicial redistributivo da década de 1990, como fruto de um rendição parcial “a críticas dos economistas e a diversas tentativas do Governo de suprimir poderes da Corte Constitucional” (GARAVITO, 2011, p. 277)11; e (2) “a aproximação de um neoliberalismo em ascensão e um ativismo judicial cada vez mais moderado nos casos paradigmáticos da Índia (RAJAGOPAL, 2007) e da África do Sul (BILCHITZ, 2007)” (GARAVITO, 2011, p. 279).
Seja como for, o paradigma do Estado Democrático de Direito tem de posicionar-se diante desse conflito entre a concepção ligth de Estado de Direito, que está vinculada ao projeto neoliberal global, e a concepção densa de Estado de Direito, que se atrela ao projeto neoconstitucional global. Garavito assinala que o projeto neoliberal tem prevalecido com algumas concessões ao neoconstitucionalismo, razão por que se poderia falar em neoconstitucionalismo repreendido. Garavito faz essa constatação com ar de crítica e de lamento, por demonstrar afeição pela prevalência de um modelo denso de Estado de Direito.
Todavia, após tratarmos das linhas de pensamento contemporâneos que interrelacionam Direito, Estado, Economia e Sociedade, exporemos a compreensão de que o modelo dito de neoconstitucionalismo repreendido não necessariamente é censurável e que, no lugar de “repreendido”, o adjetivo mais
10 A tradução, em português do texto de Garavito, serve-se da expressão “neoconstitucionalismo arrependido”,
mas temos por mais compatível o vocábulo “repreendido”.
11 Esse recuo do ativismo da Corte colombiana é ilustrado com “a declaração de constitucionalidade da reforma
trabalhista de 2002, que, ao flexibilizar as condições de contratação e demissão dos trabalhadores, adotava uma das principais propostas dos economistas críticos da Corte” (GARAVITO, 2011:277).
adequado seria “prudente” para o estado de conciliação entre os projetos neoliberal e neoconstitucional.
2. PRINCIPAIS ABORDAGENS DE DIREITO, ECONOMIA E