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Modelos constitutivos aplicados a solos residuais

2.4. COMPORTAMENTO GEO TÉCNICO DE SO LOS RESIDUAIS DE GRANITO

2.4.4. Modelos constitutivos aplicados a solos residuais

A previsão do comportamento dos solos frente a solicitações de interesse no campo da geotecnia requer a adoção de modelos geomecânicos fiéis à condição de campo, a determinação de parâmetros de comportamento confiáveis e representativos e o emprego de modelos de previsão de comportamento adequados para o fenômeno estudado. Neste sentido, Leroueil e Vaughan (1990) enfatizam que o estudo dos solos sob a ótica da engenharia requer modelos matemát icos e conceituais capazes de descrever o real comportamento destes materiais.

A determinação dos níveis de segurança em encostas frente à ocorrência de instabilidades de encosta tem sido realizada frequentemente com o emprego de métodos baseados em equilíb r io limite, como Morgenstern-Price (1965) e Janbu (1954) para superfícies de qualquer formato, e Bishop (1955) e Fellenius (1936) para superfícies circulares.

Dada a larga utilização destes métodos, é fato que os mesmos mostram-se suficientes quando se objetiva determinar as solicitações críticas que conduzem o solo ao colapso. Por outro lado, tais métodos relevam as implicações de distribuição de tensões e deformações de tais solicitações na massa de solo, o que leva a uma significativa simplificação do problema. Estes métodos podem se mostrar limitados em situações como:

 Instabilidade de encostas que envolvem movimentos lentos e dependentes do tempo;  Instabilidade de encostas que envolvem materiais cujos parâmetros de comportamento

são variáveis com os níveis de deslocamento;

 Condições em geral, em que existe interesse em determinar-se o estado de tensões e/ou níveis de deformação impostos ao solo quando solicitado.

Nestas circunstâncias, as análises precisam ser feitas com base em métodos que consideram as relações tensão-deformação para o material em questão, requerendo o emprego de modelos matemáticos de previsão de comportamento geotécnico. Tais análises tendem a ser, ao mesmo tempo, mais realistas e complexas. Isto porque o emprego de modelos constitutivos permite traduzir um comportamento mecânico mais compatível com a realidade, mas que, por outro lado, requer uma quantidade maior de parâmetros de comportamento (os quais muitas vezes são de difícil obtenção), e modelos que são, por si só, mais complicados.

Uma vez que as equações constitutivas sejam implementadas, as análises são realizadas utilizando-se o método de elementos finitos (FEM), conforme discutido em Duncan (1996), tendo em vista que o problema a ser resolvido é interativo. Diversos trabalhos relatam o

emprego de métodos fundamentados em modelos constitutivos para a avaliação de estabilidade de taludes, podendo citar-se Borja et al. (1989), Matsui e San (1992), Griffiths e Lane (1999) e Potts et al. (1977), além de tantos outros citados em Duncan (1996).

Uma das abordagens mais empregadas para previsão de comportamento geotécnico é o da teoria dos estados críticos, introduzida por Schofield e Wroth (1968), Atkinson e Bransby (1978) e Bolton (1979), e desenvolvida para o estudo do comportamento de solos em condição remoldada ou reconstituída. Contudo, como enfatizam Malandraki e Toll (1996), existe clara necessidade de se estender esta abordagem para incluir os efeitos da estrutura do solo. Esta extensão possibilita a adoção do modelo aos solos que apresentam comportamento condicionado por efeitos de estrutura e cimentação, como é o caso de muitos solos residuais. Futai et al. (2004) utilizaram a teoria dos estados críticos para a descrição do comportamento de solos residuais de gnaisse do sudeste do Brasil, em condição indeformada e saturada, avaliando aspectos de comportamento como a plastificação e anisotropia. De forma mais específica podem ser citados os trabalhos de Ng et al. (2004) e Wang e Yan (2006), que investigaram o comportamento de solos de granito à luz da mecânica dos solos dos estados críticos. Ng et al. (2004) avaliaram a influência do estado e trajetória de tensões de um solo residual de granito de Hong Kong em condição compactada. Wang e Yan (2006) investigar a m um solo residual de granito também de Hong Kong, verificando a adequabilidade do modelo dos estados críticos para expressar o comportamento geotécnico do mesmo em condição indeformada, apesar da presença de estrutura cimentada.

Em termos de resistência ao cisalhamento, solos sedimentares, como argilas normalme nte adensadas e areias fofas, apresentam comportamento mais facilmente descrito, uma vez que a relação tensão x deformação não mostra picos de resistência, assim como não ocorre dilatação durante o cisalhamento, tampouco hardening ou softening. Para o caso da ausência de picos de resistência ou quando as deformações de interesse se dão aquém daquelas que conduzem o solo ao pico de resistência, modelos constitutivos elásticos não lineares como o modelo hiperbólico (DUNCAN e CHANG, 1970; BOSCARDIN et al., 1990) e o modelo de hardening (SCHANZ, 2000) se mostram interessantes. Da mesma forma podem ter aplicação à predição do comportamento nestas circunstâncias os modelos elastoplásticos Cam-clay (SCHOFIELD e WROTH, 1968) e Cam-Clay modificado (ROSCOE e BURLAND, 1968), que têm como base conceitual a teoria dos estados críticos.

Em relação a ampliação da aplicação do modelo hiperbólico para outros materiais que não areias fofas e argilas normalmente adensadas, Stark et al. (1994) apresentaram diretrizes pioneiras à definição dos parâmetros de comportamento para siltes, cujo comportamento é notadamente transicional. Posteriormente, Stark et al. (2000) estenderam o estudo a solos siltosos cimentados e estruturados, mostrando diferenças marcantes nos parâmetros e comportamento exibidos pelo material cimentado em relação ao material reconstituído, conforme mostrado na Figura 15.

Figura 15: Curvas tensão x deformação experimentais e preditas de um solo siltoso (a) cimentado e (b) reconstituído (STARK et al. 2006).

No que tange à aplicação da teoria dos estados críticos a solos siltosos, cujo comportamento é transicional, cabe citar os trabalhos de Nocilla et al. (2006) em solos sedimentares siltosos da Itália, e de Ferreira e Bica (2006), Ferreira (2002) Martins et al. (2002) em solos residuais de arenito da Formação Botucatu, no Sul do Brasil.

Em solos argilosos pré-adensados e areias densas, ou ainda solos estruturados ou cimentados, requerem-se modelos mais complexos, que possibilitem contemplar a ocorrência de redução da resistência pós-pico (strain-softening) e dilatação. Nayak e Zienkiewicz (1972) apresentaram uma generalização das relações constitutivas elasto-plásticas que incluiu a reprodução do comportamento de strain-softening. Posteriormente, Prévost e Höeg (1975) apresentaram a

utilização do conceito de plasticidade como subsídio para o tratamento do solo como um material isotrópico com comportamento strain-softening.

Mais recentemente Pinyol et al. (2007) e Kavvadas e Amorosi (2000) sugeriram modelos de

strain-softening para materiais estruturados, sendo alguns dos resultados desses últimos

apresentados na Figura 16. Cabe citar também o trabalho realizado por Lollino et al. (2010), em que foram executadas análises de estabilidade de talude via elementos finitos envolve ndo materiais que apresentam esse tipo de comportamento.

Figura 16: Previsão do comportamento de um solo estruturado (KAAVADAS e AMOROSI, 2000).

Prasad et al. (2013) apresentam uma tentativa de aplicação dos modelos Cam-clay, Cam-clay modificado e de Wheeler para descrição do comportamento, em termos de tensão e deformação, de quatro solos residuais tropicais da Índia, em condição remoldada e indeformada. Os autores utilizaram resultados de ensaios triaxiais e de compressão isotrópica para obtenção dos parâmetros de comportamento. Para os materiais em estado remoldado os modelos Cam-clay e Cam-clay modificado mostraram resultados bastante próximos dos determinados experimentalmente. No caso do solo indeformado, a presença de cimentação requereu o emprego do modelo de Wheeler, que mostrou-se apto à predição de picos de tensão, mas não de expansão volumétrica.

Mofiz et al. (2004) apresentaram um estudo experimental e modelagem das característ icas tensão-deformação de um solo residual de granito compactado, do Sul da Ásia. Os autores empregaram ensaios triaxiais na fase experimental e utilizaram o modelo Cam-clay e um

modelo hierárquico para reproduzir o comportamento do material. Os autores apresentam curvas tensão-deformação bastante próximas às obtidas experimentalmente, neste caso em que a estrutura já não se mostra tão importante, seguindo trajetórias de tensão efetiva de compressão (Figura 17a) e extensão lateral (Figura 17b).

Figura 17: Resultados experimentais e previstos obtidos por Mofiz et

al. (2004).

Yahia et al. (2006) determinaram, para um solo residual de arenito do Sudão, os parâmetros necessários à implementação do Modelo Cam-clay. Os autores compararam a validade de correlações existentes na literatura entre os parâmetros do modelo Cam-clay e o índice de plasticidade. Concluíram que as correlações recomendadas na literatura, fundamentadas com base no conhecimento em solos sedimentares, se aplicam também para aquele solo residual.

(a)

2.5. INSTABILIDADE

DE ENCOSTAS CONDICIONADAS POR