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Resistência ao cisalhamento em condição residual (ring shear)

3. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDOS

4.2. PROGRAMA EXPERIMENTAL DE LABORATÓRIO

4.2.4. Resistência ao cisalhamento em condição residual (ring shear)

4.2.4.1. Aspectos gerais

O ensaio ring shear tem sido a técnica mais aplicada no estudo da resistência ao cisalhame nto residual e utilizado largamente no estudo de movimentos de massa, como atestam os trabalhos de Stark e Hussain (2010), Tiwari e Marui (2004), Silveira (2003), Mesri e Shahien (2003), Bianchini (2000) e Tika e Hutchinson (1999). A resistência residual desempenha um papel importante na estabilidade de antigos movimentos gravitacionais de massa, no comportamento

de depósitos de solo que contém superfícies de ruptura pré-existentes e no entendimento do risco de rupturas progressivas (LUPINI et al., 1981).

O equipamento ring shear foi desenvolvido com o intuito de superar algumas limitações apresentadas pelo ensaio de cisalhamento direto na determinação da resistência residual, que era o método até então utilizado (HEAD, 1982). A principal limitação do uso do cisalhame nto direto para obtenção da resistência residual é a necessidade de múltiplas reversões. Com o emprego de reversões o solo não é submetido a uma deformação cisalhante contínua em uma única direção, e a orientação das partículas acaba não sendo plena.

Neste ensaio o corpo de prova é moldado em uma célula anelar e por meio de um cabeçote é aplicada a tensão normal desejada. Tanto na base da célula quanto no cabeçote existem ranhuras que promovem a aderência do solo à célula anelar. Aplica-se então um torque que provoca o giro da parte inferior da célula, enquanto que o cabeçote permanece fixo. Isto provoca o cisalhamento do corpo de prova de forma contínua, em uma única direção, atingindo qualquer magnitude de deslocamento e possibilitando a orientação paralela entre as partículas, e consequente atingimento da condição residual.

Nesta tese os ensaios ring shear foram executados com o intuito de avaliar à resistência ao cisalhamento em condição residual dos solos GrBt e GrLt, e ArBr. Isto porque o solo GrLt revelou elevada quantidade de argila em sua composição, bem como slickensides em profusão ao longo da área em que ocorre. No caso do GrBt, a presença significativa de biotita chamou a atenção para a possibilidade de desenvolvimento de baixos valores de ângulo atrito residual sob grandes deformações. O emprego do ensaio ao solo ArBr justifica-se pela própria natureza do material, pela maneira como ocorre e pelo papel que planos de descontinuidade preenchidos por argila podem ter na estabilidade de taludes. Complementarmente, foram ensaiados também os solos GrVm e GrAm, de forma a obter-se informações relativas ao comportamento dos mesmos sob grandes deformações, possibilitando a comparação entre os diversos materia is investigados nesta tese e aqueles disponíveis na literatura.

4.2.4.2. Equipamento utilizado

Os ensaios ring shear desta tese foram realizados em um equipamento produzido conforme o proposto por Bromhead (1979), pela Wykeham Farrance. Durante a execução dos ensaios foram seguidos os procedimentos e recomendações constantes na norma ASTM D6467/2006.

O equipamento utilizado é instrumentado com um transdutor de deslocamento para medida de variação de altura do corpo de prova, e duas células de carga com capacidade nominal de 50 kgf. A aplicação da tensão normal é feita por um pendural e discos metálicos. Um computador faz a aquisição de dados, apresentando as leituras de deslocamento versus tensão cisalhante em tempo real.

4.2.4.3. Preparação dos corpos de prova e execução do ensaio

O ring shear de Bromhead (1979) exige que os corpos de prova utilizados sejam remoldados. Assim, os solos utilizados na confecção dos corpos de prova foram inicialmente secos ao ar, destorroados e peneirados. Para o ensaio utilizou-se apenas a fração passante na peneira #40, de diâmetro máximo 0,42 mm, visto que, de acordo com a norma adotada, as partículas devem ter diâmetro máximo não superior a 10% da altura da amostra, que é de 5 mm.

O teor de umidade do solo foi corrigido de forma a atingir o limite de plasticidade, conforme sugerido por Stark e Vettel (1992) e Bromhead (1986). Para tal, fez-se a adição de água destilada, mantendo a amostra hermeticamente fechada por 24 horas, pelo menos, para assegurar o equilíbrio da umidade.

O preenchimento da célula anelar, produzindo o corpo de prova, foi executado manualme nte. O solo era adicionado à cavidade da célula e levemente pressionado com espátula até o completo preenchimento da mesma. O arrasamento e nivelamento do corpo de prova foram feitos com movimentos radiais da espátula, do interior para o exterior da célula. Foram executados ensaios com tensões normais da ordem de 25, 50, 100 e 200 kPa. No caso do solo ArBr foi executado um ensaio também com tensão normal de 400 kPa.

Nesta tese adotou-se o ensaio em estágios únicos, isto é, para cada tensão normal utilizo u- se um corpo de prova distinto. Tiwari e Marui (2004) mostram que não são encontradas diferenças significativas entre os resultados obtidos através das técnicas multiestágio (quando um corpo de prova é empregado para todas as tensões normais) e da técnica de estágio único. Contudo, em ensaios de teste observou-se que o emprego da técnica multiestágio levava a substancia l perda de material durante as sucessivas etapas de cisalhamento, reduzindo a representatividade da amostra e elevando o atrito, porque a superfície de cisalhamento é perturbada.

Após ser posicionada no equipamento a célula foi inundada, se aplicou a tensão normal e aguardou-se a consolidação do corpo de prova para dar início ao cisalhamento. Findada a consolidação, executou-se a formação da superfície de cisalhamento. Nesse procedimento

aplicou-se um giro de 360°, a uma velocidade de 12°/min (8,9 mm/min). Stark e Vettel (1992) reportam que a utilização do pré-cisalhamento facilita o desenvolvimento da superfície de cisalhamento, eliminando picos de resistência, e reduz a deformação necessária para que a condição residual seja alcançada.

A velocidade utilizada durante o ensaio propriamente dito foi da ordem de 0,12º/min (0,089 mm/min) definida com base nos trabalhos de Pinheiro et al. (1997) e Rigo (2005). No trabalho desses autores verificou-se tendência de aumento da resistência ao cisalhamento residual para velocidades superiores a 1 º/min (0,742 mm/min). Por outro lado, Tika e Hutchinson (1999) reportam que, utilizando taxas de cisalhamento bastante altas, superiores a 100 mm/min, ocorreu expressiva perda de resistência, até 60% abaixo da resistência residual medida sob baixa velocidade.

Os ensaios foram conduzidos até que a tensão cisalhante se tornasse estável, o que era verificado por meio do surgimento de um trecho retilíneo na curva tensão x deformação.