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Modelos da Antropologia filosófica contemporânea

AS CONCEPÇÕES DO HOMEM NA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA

6. Modelos da Antropologia filosófica contemporânea

No panorama da filosofia contemporânea, a Antropologia filo­ sófica, seja como disciplina de ensinamento seja como ramo reco­ nhecido da árvore da filosofia, permanece problemática. A crítica de Heidegger, na qual se contrapôs exatamente a Max Scheler123, agiu poderosamente no sentido das dúvidas lançadas sobre a legi­ timidade filosófica de uma antropologia entendida como ontologia do homem124. É, portanto, com reservas que se pode falar de “mo­ delos da antropologia filosófica contemporânea*, sendo talvez mais prudente falar, como Max Müller125, de modelos de “imagens do homem* em perspectiva filosófica. Seja como for, admitindo que toda filosofia postula uma ontologia, implícita ou tematicamente explicitada, sentimo-nos autorizados a falar de “modelos da An­ tropologia filosófica*, em cujas linhas é possível sempre ler uma resposta à pergunta ontológica fundamental o que é o homem?

A enumeração que aqui apresentamos de modelos de Antro­ pologia filosófica no pensamento filosófico contemporâneo não tem a pretensão de ser exaustiva, nem de captar todos os matizes, às vezes extremamente sutis, que distinguem as concepções de vá­

rios dos pensadores aqui lembrados e que freqüentemente apenas uma convenção historiográfíca estabelecida reúne sob uma mes­ ma designação. Eis, pois, alguns desses modelos:

Antropologia existencial: a raiz comum que permite reunir autores diversos sob essa designação é a categoria de existência,

que vamos encontrar pela primeira vez, no sentido que passou a predominar na terminologia filosófica contemporânea, em S. Kierkegaard, Na acepção kierkegaardiana, trata-se da existência cristã como existência do indivíduo que manifesta sua singularida­ de irredutível à explicação lógica ao lançar sua liberdade no salto absurdo da fé120. Entre os herdeiros de Kierkegaard, mas sofrendo igualmente a influência de Nietzsche, Karl Jaspers (1883-1969) é, talvez, o pensador que mais se aproximou do modelo de uma Antropologia existencial, Essa já se anuncia em sua obra de 1919, Psychologie der Weltaunschauungen, em que desempenha papel fundamental a noção de situação-limite (Grenzsituation) e se des­ crevem as atitudes existenciais suscitadas no seio das visões do mundo. A obra principal de Jaspers é Philosophie(3 vols., 1932), que pode ser considerada uma das grandes obras filosóficas do século XX. A parte central dessa obra, exposta no 2o volume, inti­ tula-se justamente “clarificação da existência” (Existenzerhellung),

Jaspers distingue aí o Dasein,existência empírica do homem, e a

Exsistenz,ou seja, o indivíduo em sua unicidade irredutível, mas confrontado com a Transcendência por meio das estruturas exis­ tenciais que Jaspers chama as “cifras* (Chiffren)da transcendência, entre as quais se destaca a liberdade que é, ao mesmo tempo, lugar de leitura das “cifras” e também ‘ cifra”127. Deve-se, no entan­ to, observar que os grandes projetos filosóficos de Jaspers permane­ ceram a meio caminho, tendo sua atenção sido solicitada, nos úl­ timos anos de sua vida, pela temática político-social e histórica128. Contemporâneo e correspondente de Jaspers, Martin Hei­ degger, ao publicar em 1927 a primeira parte de Sein und Zeit,

tomou-se uma das fontes da concepção existencial do homem, não obstante sua crítica da Antropologia filosófica e o fato de que a intenção explícita de Sein und Zeit, ao propor inicialmente uma Analítica existencial do Daseinou do existente humano129, tenha sido a de traçar o horizonte fenomenológico no qual pudesse ser novamente proposto o problema do Ser, fundamento da Metafí­ sica130. A Analítica existencial heideggeriana exerceu, assim, uma

influência decisiva nas tentativas de constituição de uma antropo­ logia existencial131. Uma obra importante nesse campo foi a do psi­ quiatra suíço Ludwig Binswanger (1881-19661, primeiro discípulo de Freud e posteriormente criador de uma antropologia feno­ menológica inspirada em Heidegger132.

A tentativa mais conhecida de constituição de uma Antropolo­ gia existencial é a de Jean-Paul Sartre (1905-1979). Autor de uma obra extremamente vasta e desigual, que abrange o romance, o teatro, os textos políticos e a filosofia, Sartre teve sua reflexão per­ manentemente voltada para os problemas ético-pólíticos e é sem dúvida sobre o fundo desses problemas que são traçadas as linhas de sua Antropologia existencial. A evolução do pensamento de Sartre apresenta duas fases distintas133: a fase existencialista,na qual predominam as idéias expostas na obra fundamental L’Être et le Néant: essai d’une ontologie phénoménologique(1943), e a fase

materialista(tomando-se esse termo num sentido especificamente sartriano), inaugurada com a Ia parte da obra Critique de la Raison dialectique(i960; a 2a parte da obra não foi publicada) e continua­ da com as últimas obras, sobretudo L’Idiot de la Familie(3 vols., 1971-1972), um estudo sobre Flaubert e a pequena burguesia do século XIX. A concepção sartriana do homem, a exemplo da ana­ lítica de Heidegger, formula-se no contexto de uma ontologia,mas, diferente de Heidegger, Sartre encerra o ser no horizonte da des­ crição fenomenológica e limita o lugar de sua manifestação às estruturas da existência humana. Nela o ser se manifesta em dois modos fundamentais: a coisaou o en-soie a consciênciaou o pour- -soi.Na inseparabilidade e na tensão desses dois modos constitutivos da dialética da existência humana, repousa a antropologia sartriana, e nesse ponto Sartre não parece ter evoluído, pois tal dialética está presente seja na explicação do encontro com o outro (L'Être et le Néant), seja na explicação do grupo social (Critique de la Raison

dialectique).Contemporâneo de Sartre e, por algum tempo, co-edi- tor com ele da célebre revista Les Temps modernes,Maurice Merleau- -Ponty (1908-1961) pode, talvez, ser lembrado entre os autores que contribuíram para a constituição de uma Antropologia existencial pela influência exercida por sua obra principal La phénoménologie de la perception(1945), onde se tenta uma síntese entre a psicologia da Forma (Gestalt) e a fenomenologia do ser-no-mundo do homem, conduzida desde o ponto de vista da percepção134.

— Antropologia personalista: na Antropologia filosófica contem­ porânea, a categoria de pessoa é amplamente utilizada, e nessa utilização convém distinguir seja níveis epistemológicos distintos como o ontológico, o ético, o político, o psicológico ou o pedagógi­ co, seja concepções diferentes da pessoa segundo os diversos tipos de filosofia que empregam essa categoria. Desse modo, o perso­

nalismo é uma designação reivindicada por concepções do homem as mais diversas e, mesmo, opostas135. Aqui nos limitamos aos personalismos de inspiração cristã que se referem à tradição da Antropologia clássica, em particular à Antropologia tomásica e a seus prolongamentos na escola tomista, e aos personalismos de inspiração fenomenológica que, de alguma maneira, se referem ao pensamento de Max Scheler.

A característica comum dos personalismos de inspiração cris­ tã é a afirmação do Deus pessoal transcendente como paradigma e fim último da pessoa. Entre os personalistas cristãos mais conhe­ cidos, podemos enumerar Jacques Maritain (1882-1973), cuia estri- ta fidelidade ao tomismo não o impediu de formular uma conçep-

jgiõ de1 pessoa largamente aberta aos grandes problemas da civi­

lização contemporânea136-, Emmanuel Mounier (1905-1950), que li­ gou o nome do personalismo a um movimento politico-cultural por ele fundado e teve uma presença notável na vida católica dos anos 30 a 6Ò137; Maurice Nédoncelle (1905-1976), cuja notável obra filosó­ fica é orientada para a fundamentação de um personalismo cris­ tão que acolhe importantes contribuições da análise fenome­ nológica; Joseph de Finance (1904), cujas notáveis contribuições no domínio da ética de inspiração tomista inserem-se numa rigorosa e amplamente arquitetada filosofia da pessoa138. Entre os personalistas cristãos de língua alemã, convém lembrar Peter Wust (1884-1940), cuja obra Die Dialektik des Geistes(1928) enumera-se entre as mais importantes contribuições ao pensamento cristão neste século139; Romano Guardini (1885-1968), teólogo e pedagogo que ofereceu em seu livro Welt und Person(1940) uma síntese ex­ tremamente rica do personalismo cristão; e Max Müller (1906), cuja filosofia da pessoa140 retoma a inspiração agostiniana em con­ fronto com os temas da filosofia da existência;

Antropologias materialistas: o leque das Antropologias que se podem denominar “materialistas" no pensamento contemporâ-

neo é muito vasto, e o próprio conceito de matériaestá longe de apresentar aqui uma significação unívoca. Em geral essas antro- pologias se caracterizam pelo uso do procedimento metodológico que na Introdução denominamos reducionista,ou seja, aquele que, na interpretação filosófica do homem, atribui primazia ao pólo Natureza. Essa primazia implica conferir aos fatores naturais(en­ quanto distintos dos simbólicosou culturais)uma posição privile­ giada de princípiosexplicativos (causantes ou condicionantes) nas teorias sobre o homem. Entre essas antropologias materialistas ocuparam por longo tempo uma posição de destaque na vida in­ telectual do Ocidente as antropologias que, de uma maneira ou de outra, se filiavam à tradição marxistae elaboravam sob ângu­ los diversos sua filosofia do homem sobre o fundamento do mate­ rialismo histórico ou, em última análise, sobre a definição marxiana do homem como ser produtorM.Entre os autores marxistas que exerceram maior influencia no campo da antropologia filosófica convem destacar o nome de Emst Bloch (1885-1977)142.

As antropologias materialistas se caracterizam pelo fato de assumir como referência epistemológica básica uma determinada ciência que passa a ser considerada como ciência normativapara o conhecimento global do homem e para o desenho do modelodo homem que se considera ratificado pelo conhecimento científico. Entre as ciências que mais freqüentemente inspiram essas ima­ gens “científicas” do homem convém enumerar as ciências das origens (Paleontologia e Pré-história humanas), a Biologia huma­ na, as Psicologias profundas, a Lingüística e a Etnologia. Os mo­ delos do homem que se inspiram na ciência das origens são geralmente delineados na perspectiva da teoria da Evolução. O reducionismo materialista se apresenta, em geral, como o pressu­ posto metodológico dessas visões evolucionistas, como foi o caso nos evolucionismos do século XIX como o de E. Haeckel, e de conhecidos biólogos do século X X 143. Mas é necessário lembrar que a perspectiva evolucionista inspirou igualmente modelos an­ tropológicos espiritualistas, dentre os quais se tomaram mais co­ nhecidos o de Henri Bergson144 e o de Pierre Teilhard de Chardin145. Os diversos ramos da Biologia humana ofereceram, por sua vez, pontos de partida para a elaboração de sínteses antropológi­ cas que se constituíram em outros tantos modelos científicos da compreensão do homem. Assim a Biologia molecular com Jacques

Monod146, a Neurofisiologia com Popper-Eccles e J. P. Changeux147, ou a Sistemática zoológica com P. Grassé148. As numerosas tenta­ tivas de propor uma concepção geral do homem tendo como fun­ damento as ciências biológicas mostra, de um lado, a poderosa atração desse pólo do saber científico em rápido crescimento so­ bre o pensamento antropológico e, de outro, o reconhecimento do lugar singular e, propriamente, único que o homem ocupa na Na­ tureza149 e que impele incessantemente o saber científico para além de seus estritos limites, a fim de dar razão, em sua interpretação do homem, da originalidade do fenômeno humano.

As Psicologias profundas e, em particular, a Psicanálise em sua versão .freudiana difundiram na cultura contemporânea um estilo de modelo antropológico que tem sido fonte de inspiração permanente para a reflexão antropológica, seja no que diz respei­ to às concepções do inconscientetso, seja no que diz respeito aos problemas que surgem nas fronteiras entre Psicologia normal e Psiquiatria151.

Finalmente, a Lingüística e a Etnologia passaram a representar campos importantes para o pensamento antropológico, seja em

sua versão estruturalista, como na antropologia estrutural de

Claude Lévi-Strauss, declaradamente materialista152, seja em sua

versão hermenêuticacomo na obra notável, de inspiração profun­

damente espiritualista, de Paul Ricoeur153, que une a filosofia da linguagem com a tradição personalista.