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3.4 Modelos de Cuidado de Enfermagem

3.4.3 Modelos de Enfermagem

Os modelos de enfermagem explicam a realidade de Enfermagem, por meio de construções teóricas sobre a sua essência, o propósito das ações e os princípios que a substanciam. Portanto, os modelos de enfermagem servem para orientar a assistência profissional e formam o conhecimento que sustenta a disciplina (PIRES, 2009). McEwen e Wills (2016) identificaram as seguintes estruturas como modelos de enfermagem: o Modelo Comportamental de Johnson, Modelo de Conservação de

Levine, Sistema Conceitual de King, Modelo de Adaptação de Roy e a Ciência dos Seres Humanos Unitários de Rogers.

No entanto, os modelos de enfermagem são referidos como termos diversos, geralmente, em função de sua composição conceitual. Alguns nomes utilizados são: modelo conceitual, estrutura conceitual, sistema conceitual, estrutura ou marco teórico, grande teoria e paradigma (NÓBREGA; BARROS, 2001). O que esses termos têm em comum, porém, é seu embasamento nos quatro conceitos centrais à Enfermagem, pessoa, saúde e ambiente e de outros, menos abstratos e gerais específicos do modelo. Contêm, também, proposições gerais significativas que auxiliam a construção de outras propostas teóricas mais especificas (FAWCETT, 1997).

No entanto, os modelos de enfermagem, também conhecidos como grandes teorias, são difíceis de evidenciar na realidade devido à sua generalidade e ao alto grau de abstração de seus conceitos. Dessa forma, os modelos de enfermagem servem de base para a derivação de teorias mais concretas, tais como teorias de médio alcance. As teorias de médio alcance explicam a enfermagem de forma mais específica, com foco do cuidado em grupos determinados, possui menos conceitos, porém mais concretos. Isso permite que essas teorias possam ser generalizadas e utilizadas na prática para orientar o cuidado em foco. As microteorias abordam a prescrição para tratar uma situação específica de enfermagem e, portanto, são menos generalizáveis (MCEWEN; WILLS, 2016).

Dessa forma, os modelos de enfermagem, ou grandes teorias, exercem um papel fundamental no desenvolvimento da prática de enfermagem, na medida em que guiam o pensar sobre a essência da enfermagem e a derivação de teorias operacionais e as boas práticas assistenciais (BRANDÃO et al., 2019). Assim, entende-se que os modelos de enfermagem auxiliam o desenvolvimento da prática embasada na teoria (RAUDONIS; ACTON, 1997), na medida em que os modelos abrangentes de enfermagem subsidiam a construção de modelos de cuidado para as boas práticas de enfermagem nos contextos de trabalho.

3.4.4 Modelos de Cuidado de Enfermagem

Modelos são direcionados de acordo com a sua área, foco, função e contexto no qual se aplicam. Da mesma forma, as definições variam de acordo com o tipo de modelo a que se referem e com a terminologia utilizada ao nomeá-lo, dificultando assim, uma definição precisa do conceito. Nesse sentido, Davidson et al. (2006) se referem a modelo como um desenho abrangente embasado em teoria, nas evidências e em padrões definidos para efetuar um tipo de serviço de saúde, utilizando elementos e princípios que organizam a estrutura para a aplicação e avaliação do cuidado.

Tal definição coaduna com as propostas apontadas por órgãos, instituições de saúde e autores (OLIVEIRA, 2008), que se referem ao termo, de forma geral, como uma estruturação de serviços para ofertar a melhor atenção e cuidado em saúde.

Quanto à definição do conceito, Modelo de Cuidado de Enfermagem, essa também carece de consistência devido às abordagens do foco, da função a qual se destina. Ressalta-se, porém, a definição de Rocha e Prado (2008), estudiosas brasileiras que definem Modelo de Cuidado de Enfermagem como uma estruturação de cuidado embasada em uma ou várias teorias e em uma abordagem metodológica que, em conjunto, representa uma forma teórica e que permite o planejamento e a sistematização do cuidado.

Dessa forma, entende-se que Modelo de Cuidado de Enfermagem, pode ser aplicado aos diversos modelos que culminam no planejamento e na sistematização do cuidado nos diversos contextos da prática, quer na gestão, na prática específica ou na assistência a um grupo de indivíduos receptores de cuidado.

Entretanto, entende-se que as semelhanças dos modelos de cuidado de enfermagem permitem classificá-los em modelos assistenciais (ou modelos da prática profissional) e em modelos de cuidado de enfermagem, que também podem orientar as práticas de cuidado a pessoas específicas. Esses modelos se fundamentam em teoria, quer nas grandes teorias ou de áreas relacionadas, e que tem o objetivo em comum do cuidado qualificado e seguro, diferenciando, porém, em alguns aspectos, do foco e contexto de aplicação.

Os modelos aqui classificados como modelos assistenciais de enfermagem, também conhecidos como modelos funcionais, organizam e sistematizam a prestação do cuidado em instituições hospitalares e serviços de saúde ao definir competências

especificas para a equipe de enfermagem e gerenciar seu dimensionamento. Esses modelos também visam a eficiência do serviço no cuidado, o custo-benefício, a satisfação do cliente e os melhores resultados com os serviços prestados (TIEDEMAN; LOOKINLAND, 2004; FERNANDEZ et al., 2012; GEROLIN; CUNHA, 2013).

São exemplos desse tipo de construção de modelos funcionais, o Modelo Centrado no Paciente, o Modelo Baseado nas Evidências, o Modelo de Cuidado Total, o Modelo Funcional, o Modelo de Cuidado em Equipe (TIEDEMAN; LOOKINLAND, 2004; FERNANDEZ et al., 2012; GEROLIN; CUNHA, 2013), o Modelo de Melhoria da Prática Clínica (FOWLER; HARDY; HOWARTH, 2006), entre outros.

Os modelos, conhecidos como modelos da prática profissional de enfermagem, podem ser enquadrados nessa perspectiva organizacional, porque propõem meios para delinear a prática do enfermeiro em um serviço. Entretanto, enquanto os modelos assistenciais visam estruturar a organização dos profissionais no cuidado, os modelos da prática profissional geralmente estruturam, organizam e apresentam as ações de cuidado, visando a excelência profissional e a qualidade dos resultados (RIBEIRO; MARTINS; TRONCHIN, 2016).

Para tanto, esses modelos têm sido definidos como sistemas que delineiam a estrutura, os processos e os valores de enfermagem e que dão suporte ao enfermeiro no controle de sua prática e do cuidado a ser realizado (HOFFART; WOODS, 1996; SLAYTER et al., 2015). Esses modelos possuem base científica em forma de teorias, construtos e elaborações hipotéticas que orientam a prática do enfermeiro profissional em conformidade com os princípios e valores da profissão (RIBEIRO; MARTINS; TRONCHIN, 2016; BENDER et al., 2019).

Um exemplo desse tipo de modelo é o Modelo de Prática do Enfermeiro Clínico Líder (Clinical Nurse Leader Practice Model), com base no conceito de Enfermeiro Clínico Líder (Clinical Nurse Leader) da American Association of Colleges of Nursing

(AACN, 2007). Esse modelo integra o papel do Enfermeiro Líder Clínico no serviço de enfermagem, geralmente, hospitalar, para assumir o controle e a responsabilidade do cuidado e implementar os construtos relacionados às suas competências de liderança na comunicação, relações interprofissionais, manutenção de equipes e apoio (BENDER et al., 2019).

Outro exemplo é o modelo Atenção de Enfermagem com Abordagem Humana, que focaliza a identidade do enfermeiro e seu compromisso com os conceitos e

valores paradigmáticos da disciplina na implementação de sua autonomia no cuidado (HERMIDA; SANCHEZ-HERRERA, 2018).

Com relação aos modelos da prática de enfermagem, que orientam o cuidado em áreas especificas, estes também diferem entre si, em função da área prática em que pretende guiar o cuidado. Diferentemente dos modelos que focalizam a prática profissional da enfermagem, os modelos da prática centram-se na população e no contexto que abordam. Por exemplo, o Modelo de Cuidados de Enfermagem à Família, de Figueiredo e Martins (2009), estabelece como foco o processo familiar e orienta os conceitos e as ações de enfermagem para avaliação diagnóstica da sua estrutura, desenvolvimento e estado funcional. O modelo teórico “Fazendo o Bom

Cuidado” (Doing Good Care) é outro exemplo de modelo que focaliza o cuidado em

contexto específico. Esse modelo orienta os comportamentos do enfermeiro para o bom cuidado a pacientes em cuidados paliativos no contexto domiciliar (SANDGREN

et al., 2007).

Outros modelos focalizam a essência da(s) teoria(s) e seus conceitos para orientar o cuidado, de forma geral, na prática. Nessa categoria, encontra-se o Modelo de Cuidado Transpessoal em Enfermagem Domiciliar (FAVERO, 2013).

Favero (2013) e o The Principal Components Model (MCSHERRY, 2006), ambos centram a sua proposta em conceito(s) contido(s) nos seus referenciais teóricos. Do mesmo modo, o modelo de Favero (2013) propõe a implementação das três fases do Cuidado Transpessoal, derivado do modelo de Jean Watson, para sistematizar o encontro entre o enfermeiro e paciente. Já McSherry (2006) focaliza quatro conceitos principais do modelo de Jean Watson, que precisam ser considerados pela enfermagem na determinação das necessidades de cuidado espiritual daqueles sob cuidado. Já o Unitary-Caring Model (REED, 2010) integra os conceitos de duas teorias, a Teoria de Rogers do Homem Unitário e a do Modelo de Cuidado Transpessoal de Jean Watson, como princípios para a sistematização do cuidado na prática avançada da enfermagem.

Os modelos de cuidado de enfermagem, a pessoas com afecções específicas, são pouco discutidos na literatura. No entanto, embora os modelos de cuidado de enfermagem especifiquem os indivíduos aos quais os cuidados são dirigidos, estes também visam a qualidade da prática de enfermagem com essas populações. Isso, porque esses modelos direcionam as ações de cuidar para serem realizadas junto ao indivíduo e na condição que vivenciam seu processo de saúde e doença. Ou seja,

esse modelo difere dos que abordam a prática geral de uma área de atuação, pois as ações do cuidado são organizadas e centradas no paciente (CARROLL, 2020).

Com base nesse entendimento, uns exemplos desse tipo de modelo foram identificados na literatura a seguir. O Modelo de Cuidado de Enfermagem às pessoas com Diabetes Mellitus Hospitalizadas, proposto por Arruda (2016), orienta as ações do cuidado por meio da implementação de princípios específicos (nas dimensões clínica, educativa e gerencial), considerando a condição do indivíduo. O modelo intitulado The Transitions Model of Palliative Care, de Murray (2007), foca na integração e na autonomia do paciente e a família, assim como nos processos e resultados de cuidado paliativo na transição da condição de cronicidade. Outro exemplo é o Modelo de Cuidado de Enfermagem a Crianças Institucionalizadas Vítimas de Violência, por Rocha et al. (2008), que orienta o cuidado às crianças no contexto de violência, por meio da terapia de brinquedo.