Fase IV: A fase IV consiste num período de duração indefinida e não é supervisionado pelo
QUALIDADE DE VIDA
4.2. Modelos e Abordagens Teóricas sobre a Qualidade de Vida
Como já foi referido a qualidade de vida é discutida em muitos contextos (médicos, ciências sociais, psicologia, filosofia, entre outros), sendo que contextos diferentes tendem a adoptar a expressão QDV para diferentes propósitos.
Da análise das concepções subjacentes à definição de QDV, Ribeiro (1994), refere que da mancha de concepções existem cinco conceitos que vieram a contribuir para as actuais correntes:
1- Uma abordagem psicológica, que leva a supor a distinção entre sentir-se doente e ter uma doença e se firma na percepção da doença tanto aos olhos clínicos como dos utentes, expressando- se a perspectiva médica por indicadores objectivos, como prognóstico, mortalidade ou comorbilidade associada e a perspectiva dos utentes, centrada na percepção e grau dos sintomas e informação de outros casos semelhantes.
2- Uma abordagem custo / benefício, baseada na dicotomia quantidade versus qualidade de vida, considerando-se esta uma abordagem utilitarista.
3- Uma abordagem centrada na comunidade, em que as variáveis são organizadas de modo a apreciar o impacto da doença na comunidade.
4- Uma abordagem funcional, caracterizando-se por se centrar em aspectos funcionais, baseando- se em conceitos de reintegração e dando ênfase aos aspectos de adaptação e ajustamento à doença, alheando-se no entanto dos aspectos psicológicos do processo de reintegração.
5- A lacuna de Calman, que conceptualiza a QDV como a lacuna entre as expectativas do indivíduo e o que este na realidade conseguiu fazer, obtendo este uma maior qualidade de vida quando a lacuna é menor.
Para Lima (2002) cit. in Matos (2007), dentro dos vários modelos de QDV, destacam-se os
seguintes:
- Modelo Psicológico, no qual a percepção do doente de como as incapacidades provocadas pela doença influenciam a sua qualidade de vida é uma tentativa de traduzir o seu estado psicológico que, neste caso, é indissociável do físico.
- Modelo teórico de Beck, que apesar de valorizar o estado psicológico, dá maior ênfase ao psíquico, o carácter subjectivo e a intenção de tratar, havendo uma relação directa entre o grau de desconforto psicológico e a qualidade e quantidade de vida.
- Modelo de Utilidade, no qual o utente faz uma escolha entre a qualidade e a quantidade de vida, sendo explorado neste modelo o risco que o utente pode ter perante um procedimento perspectivando uma melhor vivência.
- Modelo baseado nas necessidades do individuo, postulando este modelo que a vida ganha em qualidade consoante a capacidade e habilidade do indivíduo em satisfazer as suas necessidades.
- Modelo de qualidade de vida relacionada com a saúde, em que a doença só significa problema quando interfere com a capacidade de desempenho, assumindo este modelo que a saúde é a variável mais influente na qualidade de vida.
Os representantes da medicina holística afirmam que a qualidade de vida tem impacto sobre a saúde. Não sendo elementos estáticos, nem independentes, saúde e doença, trata-se de um processo global, em que os factores estão em constante interacção e influenciam um equilíbrio instável.
4.3.Qualidade de Vida relacionada com a saúde
Com o aumento da expectativa de vida à nascença, no decorrer do século XX, dobrou o numero de anos de vida que as pessoas esperam viver. Atendendo a que o envelhecimento está associado a mais doenças, levantam-se questões sobre a qualidade de vida durante a longevidade.
A saúde tal como é formalmente aceite deve ser um recurso Universal.
A qualidade de vida para Wilson & Cleary (1995) refere-se aos vários aspectos da vida de uma pessoa que são afectados por mudanças no seu estado de saúde, e que são significativos para a sua qualidade de vida.
O termo qualidade de vida como vem sendo aplicado na literatura médica não parece ter um único significado (Gill & Feinstein, 1994). "Condições de saúde", 'funcionamento social" e "qualidade de vida" tem sido usados como sinónimos e a própria definição de qualidade de vida não consta na maioria dos artigos que utilizam ou propõe instrumentos para sua avaliação.
Qualidade de vida relacionada com a saúde é um estado subjectivo de saúde, são conceitos afins centrados na avaliação subjectiva do paciente, mas necessariamente ligados ao impacto do estado de saúde sobre a capacidade do indivíduo viver plenamente. Bullinger et al. (1993), consideram que o termo qualidade de vida é mais geral e inclui uma variedade potencial maior de condições que podem afectar a percepção do indivíduo, seus sentimentos e comportamentos relacionados com o seu funcionamento diário, incluindo, mas não se limitando, à sua condição de saúde e às intervenções médicas.
Chatterji, Ustun, Sadana, Mathers e Murria (2002), cit in Ribeiro (2008), alertam que a definição de saúde chama a atenção para os estados de saúde e não de categorias de doenças ou mortalidade, as quais eram referidas nas estatísticas de saúde. O mesmo autor (p.37, 2008) refere ainda que “ a definição coloca também a saúde num contexto alargado de bem-estar humano no geral”. É uma definição pela positiva, afirmando presença de determinadas características em detrimento da ausência de outras.
Os conceitos positivos, muito referenciados na psicologia da saúde e adoptados nas outras vertentes, proporcionam uma orientação para os aspectos positivos em relação aos negativos, aspectos positivos também utilizados nas organizações mais clássicas. Segundo Ribeiro (2008), esta mudança é devida, talvez a uma orientação mais geral da sociedade.
Com o aumento da expectativa de vida decorrente do progresso científico e tecnológico do século XX, surgiu a necessidade de atender à “qualidade de vida” dos indivíduos e grupos sociais. A “qualidade de vida” foi ganhando importância crescente quer nas Ciências Sociais quer nas Ciências da Saúde.
A Saúde segundo a Organização Mundial de Saúde é encarada como “um estado de completo bem- estar físico, mental e social, e não a mera ausência de disfunção ou doença” (OMS, 1958). Esta definição tem desencadeado inovações nas orientações das políticas de saúde, encarando - a como um funcionamento físico e psicológico interligado e satisfatório, em vez de mera ausência de sintomas e disfunções, físicas ou psicológicas. A saúde é tida como sendo uma abordagem que engloba, para além dos aspectos biológicos e psicológicos, a adaptação e os ajustamentos sociais.
Também a Organização Mundial de Saúde (OMS, 1998), considera a QDV como a “percepção do indivíduo sobre a sua posição na vida, dentro do contexto dos sistemas de cultura e valores nos quais está inserido e em relação aos seus objectivos, expectativas, padrões e preocupações” (WHOQOL-Group, 1994, p.28). Este é, portanto, um conceito que traduz a natureza subjectiva da avaliação do indivíduo, contextualizada no meio físico, cultural e social onde vive (WHOQOL-Group, 1998). É também um constructo dinâmico e multidimensional, que engloba os domínios físico, psicológico, social, nível de independência, ambiente e espiritualidade (Canavarro et al, 2006; Fleck, 2006).
Em 1982, Kaplan e Bush citados por Ribeiro, (2000) conceptualizaram a qualidade de vida relacionada com a saúde a fim de diferenciar os efeitos da saúde dos da satisfação profissional, do meio ambiente e outros factores que influenciam a percepção da qualidade de vida.
Segundo Ribeiro, Meneses e Meneses (1998, p.93) “a avaliação da qualidade de vida de pessoas que sofrem de uma doença tem a especificidade do elemento central ser a saúde das pessoas, ou melhor, o que se avalia é em que medidas os diversos domínios são influenciados pelas características da doença que afecta a pessoa”.
Hoje em dia avaliar a qualidade de vida reverte-se de imprescindível importância em virtude dos seus resultados contribuírem para aprovar e definir tratamentos e avaliar o custo/ benefício dos cuidados prestados.
A Qualidade de vida Relacionada com a saúde (QDVRS), emergiu no contexto da saúde e da psicologia para abordar as percepções relacionadas com a doença, sobretudo com a doença crónica e diferentes formas de tratamento das patologias, sendo um conceito aplicado à avaliação da qualidade de vida associada aos processos de saúde/ doença, incluindo os critérios de subjectividade, percepção pessoal, multidimencionalidade (inclui componentes de nível físico, psicológico, social, espiritual e outros) e valorização dos aspectos positivos.
No contexto dos cuidados de saúde é utilizado preferencialmente o termo QDVRS, atendendo a que o foco está centrado na saúde. De seguida apresentam-se algumas definições que ilustram o termo QDVRS.
•“É a valorização subjectiva que o doente faz de diferentes aspectos da sua vida, em relação ao seu
estado de saúde.”
(Guiteras & Bayés,1993)
•“É o valor atribuído à duração da vida, modificado pelos prejuízos, estados funcionais e
oportunidades sociais que são influenciados por doença, dano, tratamento ou políticas de saúde.”
(Patrick & Erickson, 1993)
•“Refere-se aos vários aspectos da vida de uma pessoa que são afectados por mudanças no seu estado
de saúde, e que são significativos para a sua qualidade de vida.”
(Wilson & Cleary, 1995)
Para Ribeiro et al, (1998, p.93-94), presentemente a questão principal “é a de saber se os indivíduos que vivem com doença crónica conseguem viver o dia a dia com a mesma facilidade e o mesmo grau de satisfação das pessoas que não sofrem de nenhuma doença”.
Os modelos de saúde ou os modelos de cognição social pretendem explicar os comportamentos de saúde/doença das pessoas e algumas das razões para as discrepâncias individuais encontradas na adopção, alteração e manutenção desses comportamentos, ao qual está associado as indicações e prescrições dos profissionais de saúde.
A QVRS, vem fornecer um ponto de referência comum em relação ao qual pode ser medido o impacto de diferentes tratamentos em diferentes condições (Thompson & Roebuck, 2001).
Devido à necessidade, os instrumentos de avaliação da QVRS têm evoluído para avaliar o impacto da doença, efeitos de tratamento, entre outras variáveis que afecta a vida das pessoas, dando dados para uma avaliação da vivência que a pessoa possui dos seus problemas de saúde nas diferentes áreas (função física, social, emocional, desempenho de papeis, dor e fadiga).
Segundo André (2005, p.57), a QVRS pode ser definida como “ um estado de saúde e vista como um continum da crescente complexidade das consequências no doente de factores biológicos/fisiológicos, sintomas, funções, percepção da saúde em geral e bem estar geral ou qualidade de vida”.
Para Ribeiro (2008), o estudo de variáveis psicológicas, são úteis no estudo da QDV.
A crescente utilização das mais diversas variáveis para avaliação da QDV na saúde demonstra que esta é uma dimensão que está na miragem dos profissionais de saúde e que o impacto das diferentes intervenções pode ser substancialmente diferente no bem estar dos indivíduos.