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QUALIDADE DE VIDA

4.1. Qualidade de Vida: O Conceito

A qualidade de vida é um conceito holístico que abrange múltiplos significados, reflectindo conhecimentos, experiências e valores, individuais e colectivos.

Não existe consenso relativamente a este tema, apesar deste ser comentado por diferentes estratos sociais, culturas e politicas.

Wood-Dauphinee e Kuchler (1992), cit. in Ribeiro (2008), explicam que o termo qualidade de vida (QVD), tinha sido utilizado para averiguar o bem-estar dos trabalhadores em contexto de trabalho cerca do ano 1920, tendo depois desaparecido até à segunda metade do século XX.

Na década de sessenta emerge o interesse científico sobre a qualidade de vida com a publicação do relatório da “Commission on National Goals” da responsabilidade do ex -Presidente Eisenhower. Nesta época pós guerra este relatório tinha subjacentes a preocupação com a qualidade de vida e o bem-estar da população (Ribeiro, 1998, 2008).

Também em 1997,alguns autores referem que a qualidade de vida é determinada por uma interacção complexa entre as características do indivíduo e o seu envolvimento.

O conceito de qualidade de vida, após a segunda Guerra Mundial começou a ser utilizado com frequência, ligado á riqueza material, tendo seguidamente incorporado os aspectos não materiais e na actualidade como um conceito que se disseminou por todos os domínios “ (…) desde a ecologia até à organização do trabalho, passando pela medicina onde tentam elaborar-se escalas de avaliação de qualidade de vida segundo as patologias.” (Couvreur, 2001, p.12).

O número de definições de qualidade de vida são imensas. Farquar (1995), citado por Ribeiro (2008, p.32), divide as definições de QDV em definições propostas por especialistas e definições propostas por leigos. A autora, nas primeiras definições considera as seguintes: “definições globais, definições em componentes, definições focadas e definições combinadas”.

A literatura apresenta muitas definições, conceptualmente diferentes e com implicações de avaliação diferentes. Umas baseiam-se na satisfação com diversas áreas da vida, outras do bem- estar, outras na funcionalidade, outras no diferencial entre o que o indivíduo tem e o que deseja ou espera ter.

Com base na revisão da literatura dois aspectos são destacados no plano conceptual: subjectividade e multidimensionalidade.

A mudança do perfil de mobilidade e mortalidade, indica o aumento da prevalência das doenças crónico degenerativas, assim sendo, cada vez mais se assiste ao interesse dos profissionais de saúde , ligados às práticas assistências com esta temática, procurando indicadores da qualidade de vida nos diagnósticos clínicos de doenças específicas. Tenta-se perceber qual o impacto físico e psicossocial que as doenças, disfunções ou incapacidade, podem trazer a essas pessoas, permitindo um melhor conhecimento do doente e da sua adaptação à nova situação.

Atendendo o número crescente de publicações com o termo “quality of life” na sua base Pubmed do National Institute of Health, pode-se observar a relevância do construto e seu crescimento.

A natureza abstracta do termo qualidade de vida é explicação em parte, dos diferentes significados, nas diferentes pessoas em momentos e lugares diferentes.

Após a revisão de algumas definições, Bowling em (2001), citado por André (2005), reuniu uma série de conceitos de qualidade de vida que passamos a citar:

“Qualidade De Vida é o débito (output) dos estímulos (inputs) físicos e espirituais”.

(Liu, 1974)

“Qualidade de Vida é uma entidade vaga e etérea, algo sobre o qual muitas pessoas falam, mas

ninguém sabe claramente o que significa”.

“Qualidade de vida é o produto do dote natural de uma pessoa(DN)pelo esforço feito a favor dela

pela família (F) e pela sociedade (S)”.

QV=DNxFxS

(Shaw, 1977)

“Qualidade de Vida é o grau em que cada pessoa realiza os seus objectivos de vida”.

(Cella & Cherin, 1987)

“Qualidade de Vida é a qualidade da nossa vida em cada ponto do tempo entre o nascimento e a

morte”.

(Torrance, 1987)

“Qualidade de Vida é um estado pessoal positivo ou negativo de atributos que caracterizam a

vida de cada indivíduo”.

(Grant, 1990)

Após esta análise Bowling concluiu que se trata de um conceito utilizado por muitas disciplinas, amorfo e multidimensional, incorporando todos os aspectos da vida humana.

Suzuki (2002), ao realizar uma revisão de estudos sobre qualidade de vida de doentes internados em cuidados intensivos, verificou que 75,7% dos estudos, o conceito de qualidade de vida não estava explícito claramente.

Diferentes estudos de meta análise como o de Smith et al, responderam às questões sobre a relevância e o peso das diferentes dimensões na QDV (qualidade de vida), trazendo mais clareza ao construto.

O grupo de estudos sobre a qualidade de vida da (OMS 1994), cit in (OMS,1998, p.3), definiu a qualidade de vida como “a percepção do indivíduo da sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objectivos, expectativas, e valores nos quais ele vive e em relação aos seus objectivos, expectativas ,padrões e preocupações”.

Hoje em dia persiste ainda uma diversidade de conceitos e opiniões sobre a definição de qualidade de vida parecendo no entanto haver consenso quanto a alguns aspectos conceptuais, de acordo com Martins (2006, p.41) são os seguintes:

1. “Integra domínios relacionados com o bem-estar (...)

2. Contém mais que uma dimensão ou categoria, podendo haver inter-relação entre eles (...) 3. Integra factores objectivos externos à pessoa (...)

4. É influenciado e varia com a idade, sexo, raça, cultura e estatuto socioeconómico (...)

5. É caracterizado por uma larga variabilidade intra e inter sujeitos diferentes por padrões culturais e sociais (...)

6. Integra uma visão holística que permite compreender o que é importante para cada indivíduo (...)

7. É baseado nas percepções individuais;

8. Estes aspectos reflectem a necessidade dos indivíduos terem escolhas e controle pessoal nas actividades e intervenções, uma forma de empowerment que lhes permite um controle individual.”

Diversos autores fora do campo da saúde, em estudos dirigidos à população, iniciam especificações sobre os componentes da qualidade de vida o que mais uma vez vem a reforçar a ideia da qualidade de vida como conceito muito alargado que inclui de forma complexa” (...) a saúde física do indivíduo, o seu estado psicológico, o seu nível de autonomia e independência, as suas representações e crenças, as relações sociais, assim como a sua relação aos diversos elementos essenciais do seu ambiente” (Ramos, 2004, p.101).

Atendendo à complexidade da noção de QDV, da sua relatividade referente às diferentes culturas e realidades sociais, diversos instrumentos têm vindo a ser construídos, no sentido da avaliação.

Nos cuidados de saúde, a sua importância foi crescente, tornando-se uma questão importante nos resultados das intervenções na saúde e é estudada em quase todas as doenças crónicas.