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CAPITULO I ALTERIDADE E LOUCURA

1.1 Modelos, valores e a afirmação da alteridade

Existem modelos morais universais que participam ativamente para imposição de modelos ideais, valores e comportamentos dentro da família e fora dela. Essas interações e intervenções baseadas em valores morais põem em prática a negação da diferença; estabelecem-se de forma verticalizada, concebendo o outro pela falta de algum atributo esperado dentro do modelo de referência.

Para ir adiante nessa discussão, faz-se necessária uma delimitação do conceito de moral e ética que será utilizado para as análises propostas nesse estudo.

Os conceitos de ética e moral são utilizados, em muitos estudos, como sinônimos, de emprego intercambiável, ambos referindo-se ao conjunto de normas e regras que o sujeito deve seguir. Porém, de forma geral, os autores diferenciam esses conceitos. La Taille (2006) aponta que a convenção mais adotada para diferenciar o sentido de moral e ética seria atribuir ao primeiro conceito o fenômeno social e para o segundo a reflexão filosófica ou científica sobre ele. Para o autor essa diferenciação é apenas uma convenção e cita outra possível, a que estabelece uma fronteira entre as esferas privadas e públicas. Nesta perspectiva o conceito de moral está relacionado às regras que valem para as relações privadas (para ser um bom pai ou boa mãe, por exemplo), e o conceito de ética às regras que regem o

espaço público (códigos de ética que regem comitê científico e instituição profissional, por exemplo). O autor destaca que está ocorrendo uma inflação contemporânea no emprego da palavra ética em detrimento do emprego da palavra moral. Esta última se tornou suspeita por falar de normas, porém as atuais referências à ética também tratam de deveres.

Ao contrário de referências que assumem a sinonímia entre esses conceitos, nesse estudo, moral e ética serão formas de dimensões distintas das relações entre as pessoas.

O conceito de moral utilizado nesse estudo é aquele a que se refere um conjunto de valores e regras apresentadas aos membros de uma dada sociedade (indivíduos e grupos). Essas normas são determinadas de forma explícita ou implícita por aparatos prescritivos como, por exemplo, a família, instituições e profissionais de saúde, alvo dessa discussão.

Diante das regras, das leis e das normas sociais propostas, está o homem. O homem moral vê o mundo a partir da perspectiva do certo e do errado, do bem e do mal. É importante considerar que o homem moral faz parte do desenvolvimento da subjetividade e é essencial para nossa sobrevivência. Faz parte de uma transição essencial: do ser obediente, do acovardado pela lei, ao homem que define sua posição em relação ao preceito que segue. Para Rolnik (1995 a)

O homem da moral que nos habita é o vetor de nossa subjetividade que transita no visível: é ele que conhece os códigos, isto é, o conjunto de valores e regras de ação vigentes na sociedade em que estamos vivendo; ele guia nossas escolhas, tomando como referência tais códigos - daí porque chamá-lo de ‘moral’. É o homem da consciência: o operador de nosso funcionamento no mundo vigente, e enquanto tal é essencial para nossa sobrevivência (p.7).

O homem moral é concebido por Kant (1793/1980) a partir de princípios universais, sendo que as situações particulares são abstraídas para serem alcançadas as condições ideais de moralidade do homem. Nessa concepção, as leis são válidas para todo sujeito humano.

O conceito de ética que será adotado nesse trabalho afasta-se da concepção do sujeito obediente a leis universais, categóricas. Valoriza a relação do sujeito com a potência de ação, na busca de uma “estética de existência”, termo utilizado por Foucault (1984), que se refere fazer da própria vida uma obra de arte, com toda singularidade envolvida no conceito “obra de arte”.

Por estética da existência, há que se entender uma maneira de viver em que o valor moral não provém da conformidade com um código de comportamentos, nem com um trabalho de purificação, mas de certos princípios formais gerais no uso de prazeres, na distribuição que se faz deles, nos limites que se observa, na hierarquia que se respeita (p.103).

A concepção adotada aproxima-se da ética de Espinosa (1677/2007). É a ética que se contrapõe a valores e modelos a serem seguidos e valoriza o modo singular de existência pautados no bom/mau. Substitui o bem x mal universais por bom x mau contratuais. A concepção de homem não mais baseada em uma essência por uma concepção baseada na potência. O bom acontece quando nossa potência é aumentada no encontro com outro corpo. O mau resulta da decomposição de nosso corpo no encontro com o outro. Portanto o bom e o mau relacionam-se ao que convém e o que não convém à nossa natureza.

O bom e o mau, além do sentido objetivo exposto anteriormente, assumem outro sentido, o de qualificar tipos de existência do homem. Assim, classificam dois tipos: o bom é aquele que, ativamente, vai à busca de encontros que convém à sua natureza, que combina com ela e que aumenta a sua potência. A bondade está relacionada ao dinamismo e à potência. O ser bom está relacionado a ser livre, razoável, forte. Ao contrário, o mau é aquele que vive ao acaso dos encontros e que, passivamente, aceita o sofrimento e as conseqüências dessa forma de existência, reagindo apenas quando lhe é revelada a sua própria impotência. É o sujeito fraco, escravo ou insensato (Deleuze, 2002). Chauí (2005) aponta que este sujeito é contrário a si mesmo e contrário aos outros, tendo como desejo mais intenso o de apropriar-se do outro e de seu desejo. Por outro lado, a vida ética consiste em passar da fraqueza à força, na relação com o outro. “Em contrapartida, na ação e na liberdade, os humanos se descobrem como concordantes e, sobretudo, que sua força para existir e para agir aumenta quando existem e agem em comum...” (Chauí, 2005, p. 66).

Para Espinosa, a ética está relacionada à potência e não ao dever. Assim, a pergunta a ser feita é de que se é capaz, e não o que se deve fazer (Deleuze, 2002).

Rolnik (1995 a) aponta que, na atualidade, nossa subjetividade estaria deixando de se limitar ao vetor homem da moral, guiado pelos códigos, pela consciência, e estaria ativando o que a autora chama de “homem da ética”. O homem da ética seria aquele que nos habita e que escuta as reverberações das diferenças e nos leva a tomar decisões que encarnem tais diferenças em um novo modo de existência, guiando nossas escolhas e tendo como critério a afirmação da potência criadora da vida. Perceber a vida como com suas múltiplas forças em expansão é recusar as explicações causais lineares, é ter a diferença como

fundamento, além dos aspectos instituídos pela moral. Viver uma subjetividade restrita ao homem da moral é ter acesso apenas ao visível e reconhecer a alteridade como anunciadora de um perigo de desintegração de uma suposta identidade e, a partir daí, defender-se dela numa vã tentativa de manter a ordem como parâmetro fundamental.

A existência, para uma subjetividade restrita ao homem da moral, é relacionada a valores transcendentes que são inquestionáveis, têm apenas um sentido. Assim, as leis são tomadas por um “deve-se”, como verdades eternas. “Ora, basta não compreender para moralizar” (Deleuze, 2002, p. 29). Assim, essa subjetividade fica articulada a modelos morais universais e passa a modelar, apreciar por meio de características externas, condenar e julgar os atos. “A imanente expressão da vida é negada/aprisionada por transcendentais de estabilidade, essências verdadeiras e modelos de julgamento” (Andrade, 2007, ¶ 65).

A psiquiatria contribuiu para instaurar normas que estabeleciam as formas de lidar com o corpo e com outras pessoas. As instituições psiquiátricas foram atravessadas pela moral. É essa forma de subjetivação que legitimou o primeiro modelo de tratamento dispensado aos loucos no início da prática psiquiátrica, com Pinel na França e Tuke na Inglaterra: o tratamento moral. Assim, era necessário isolar o doente mental em um meio que pudesse fazê-lo retornar a uma vida mais “natural”, dentro das regras e normas que o permitissem conviver socialmente. Esse primeiro modelo ainda está presente em algumas práticas de saúde, ainda que de forma velada. Ainda persistem tratamentos que visam antes de tudo à eliminação dos sintomas e serviços de assistência em saúde mental que fazem a manutenção da ordem, oferecendo aos pacientes como única possibilidade a identificação pela dor,

levando-os a construírem um estereótipo de doente mental segundo o qual se conduzem quase que automaticamente em sua vida cotidiana.

Para o exercício da cidadania da pessoa com sofrimento psíquico, tão reivindicada pelo chamado Movimento de Reforma Psiquiátrica Brasileira, é necessário abrir-se para a ética no sentido da afirmação da alteridade na sua dimensão invisível, de atingir-se essa condição que nos obriga a nos diferenciar de nós mesmos e a aceitar o desconhecido e a incerteza criadora. É um processo que não se limita à ampliação dos direitos sociais civis e políticos. Trata-se de uma ruptura com o pensamento modelar ocidental que, ao incorporar valores morais, acovarda, subjuga o outro e nega sua potência de agir. A cidadania a ser conquistada é aquela livre para normatizações próprias, que traz a experimentação da vida, e a afirmação da diversidade como ponto de partida para ações criativas e transformadoras.

Em relação aos familiares, Melman (2001) aponta que a psiquiatria participou ativamente do processo, em conjunto com outras instituições, para que a família fosse condicionada a regras da moralidade, a partir do modelo ideal de “boa” família. Segundo o autor, envolver os familiares no processo de tratamento implica abrir os fluxos criativos que atravessam a família nas suas relações. Para envolver a família nesse processo é necessário abrir os serviços de saúde mental para elaboração de novas práticas.