CAPÍTULO VI RESULTADOS
6.2 Que demanda? Quem demanda?
6.2.2 Oferta e captura
Realmente, espera aí, calma aí: o que é que vamos fazer com isso? Porque se elas não vêem, como vamos lidar com isso se a gente precisa delas? (P5).
Alguns fogem, fogem de tal forma que fica até complicado pra gente o trabalho. Quando digo foge, foge como? Porque a família é fundamental no processo, no atendimento. Se a família não comparece, seja chamado, seja porque necessita, porque a demanda pode ser da instituição ou da família e se essa família não comparece, eu tava conversando com X. [colega de trabalho do profissional], falando disso, têm algumas demandas que acabam sendo nossas (P3).
Outra questão importante que este relato apresenta é a manifestação de escape dos familiares ao que lhes é oferecido. Estariam os familiares “fugindo” de algo que os captura? Essa captura, nesse caso, se faz pelo controle e esses familiares se negam ao que é ofertado. No entanto, o desvencilhar-se da captura exercida pela oferta do profissional, não quer dizer que o familiar encontrou uma alternativa para sua condição. Ainda que não aceitem e não se adaptem passivamente ao que lhes é proposto, não significa que estejam ampliando sua potência, que não estejam necessitando de atenção e cuidado:
Tenho a Dra. X. que me acompanha. Às vezes eu nem venho... Às vezes eu não quero vir, às vezes falo vou e não vou, às vezes me dá vontade de sair andando e não voltar pra casa. Aí chega uma hora que a D. mesmo fala: ‘Vamos, P.!’. Ela pede pra mim vir. Eu falo: ‘Filha, não vou não, não tô me sentindo bem’ (...) Não tenho vontade de sair, não tenho vontade de me arrumar, ando de qualquer jeito. Eu ando numa desanimação tão grande, que eu só penso em limpar a casa, lavar a roupa e cuidar da D.. Não penso em mim, então não venho em reunião aqui. Eu já vim umas duas vezes , não vim mais. (F8).
Então falei, não quero psicólogo pra mim. Quando eu tiver a minha vida, eu tiver fazendo coisa por mim vou te procurar, vou te falar: ‘eu preciso, agora eu preciso’. No momento eu não quero, é só D., Teresinha. Eu não tenho nada pra falar de mim. (...) Ela tava marcando
de quinze em quinze dias. Terça feira, sentei lá, ‘tomara que X. não me chame hoje’.Aí ela olhou pra mim, tipo assim:’não quer conversar não?’. Eu disfarcei, ai meu Deus, vou ter que conversar com X.. (...) Porque eu só falo de D., não tenho coisas pra falar de mim, do que eu fiz, de coisas que aconteceram na minha vida e me deixaram feliz. Não tenho, não tenho, só D., só D. (F3).
Essas pessoas se sentem tão despotencializadas, tomadas por afetos tristes, que a proposta de falar de si nestes atendimentos (pelos discursos, parece ser dessa forma que compreendem a proposta) torna-se assustadora e afasta esse encontro. O falar de si, da forma como é proposto, não é uma necessidade desses familiares, porém, a demanda de atenção e cuidado não é descartada.
Em contrapartida alguns familiares não reconhecem os encontros com os profissionais como espaços para falarem de si, de suas necessidades:
As reuniões comigo não são sempre, só quando ela entra em crise. Tá bom desse jeito, qualquer coisa, quando ela tá nervosa, eles chamam. Coisas pra ela, pra ela mesmo... não é pra gente, é pra ela (F2).
Então familiar que eles chamam, quando está agravada a crise dela que eles chamam pra ver o que que acontece. Só nos momentos de crise. (...) Eu acho que devia ter um momento, eu nunca dei essa sugestão, um momento assim, de só psicólogo, psiquiatra, conversar com a gente. (...) Eu também tenho minhas tribulações e eu gostaria de partilhar com a assistente social, com a psicóloga, com o pessoal do CAPS (F4).
Esses encontros também são vistos por familiares como algo que não muda em nada a sua condição. Assim, não aumentam a potência desses sujeitos, não são bons encontros:
Tem coisas que eu vou mesmo pra marcar presença. Eu acho muito pequeno, não sei se eu sou muito exigente, eu prefiro... Porque eu acho tudo... Eu queria que tivesse algo que me preenchesse, aquela coisa grande, sabe, que você fala: ‘tem coisa além daquilo que eu penso’. Então tá tudo dentro daquele mundinho que eu já tenho e fica tudo muito monótono” (F3).
“Eu acho que se eu falasse com a psicóloga dele, eu acho que ela até me atenderia, mas eu nunca procurei... Eu não sei, hoje é a primeira vez que eu tô... sempre é em grupo. Não vai resolver meu problema. (F9).
Para alguns familiares, ainda, esses encontros representam mais um encargo que devem arcar dentro dos cuidados com seu ente com transtorno mental:
-Eu vinha naquele encontro de família, de familiar, mas faz um bom tempo que eu não to vindo.
-Por que o senhor não tem vindo mais?
-É que eu tenho muita idade...Quando meus meninos tavam todos reunidos e a gente tinha condições, a gente vinha com eles, mas hoje tá todo mundo correndo atrás de uma coisa. Porque a gente não pode ficar... todo mundo envolvido com ele porque se não... (F1).
Uma vez eu tava muito cansada, eu falei para minhas filhas: a multi é pra vocês agora, vocês é que vão participar. Aí elas começaram, mas elas trabalham; que nem a Y. tem que estar no banco, abrir o banco. Não é todas as vezes que elas podem vir (F9).
Assim, os sentidos desses encontros com os profissionais, dados por esses familiares, podem ser resumidos em: encontro a ser evitado, não reconhecem como espaço para falarem de si e sentem-se como informantes, não traz acréscimo algum a suas vidas, é mais um encargo no cuidado de seu familiar com transtorno mental.
Diante disso, fica evidente que o que está sendo oferecido, talvez a forma dessa oferta, não está indo ao encontro das necessidades desses familiares. Trata-se, portanto, de elucidar essas necessidades e os possíveis modos de satisfazê-las.