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Modernidade e educação: a reflexão de Kant

CAPÍTULO 3 – EDUCAÇÃO PÓS-MODERNA: NOVA EMANCIPAÇÃO

3.1 Modernidade e educação: a reflexão de Kant

O texto kantiano Idéia de uma história universal de um ponto de vista

cosmopolita, de 1784, é caracterizado por um essencialismo iluminista das tradições, no qual

estão ausentes as determinações históricas. O ponto de partida de Kant é metafísico, nele as ações humanas são determinadas por leis naturais universais. A história, ao narrar as manifestações humanas, busca descobrir um curso regular das causas ocultas do jogo da liberdade da vontade humana: “dessa forma, o que se mostra confuso e irregular nos sujeitos individuais poderá ser reconhecido, no conjunto da espécie, como um desenvolvimento

continuamente progressivo, embora lento, das suas disposições originais” (KANT, 1986, p. 9).

Como os homens partem de sua livre vontade, aparentam não estar submetidos a nenhuma regra. No entanto, suas vontades estão sujeitas a leis naturais constantes, a um plano oculto da natureza: “os homens, enquanto indivíduos, e mesmo povos inteiros mal se dão conta de que, enquanto perseguem propósitos particulares, cada qual buscando seu próprio proveito e freqüentemente uns contra os outros, seguem inadvertidamente, como a um fio condutor, o propósito da natureza, que lhes é desconhecido, e trabalham para sua realização” (Ibid., p. 10).

As ações humanas não são apenas instintivas ou racionais, em razão disso não se pode afirmar que exista uma história humana planificada. Mas, no geral, a conduta humana apresenta um quadro desolador: vandalismo, maldade, infantilidade, etc. Tendo em vista esse quadro, o filósofo não pode supor antecipadamente nenhum propósito racional próprio no conjunto das ações humanas. A alternativa é tentar descobrir “neste curso absurdo das coisas humanas, um propósito da natureza que possibilite todavia uma história segundo um determinado plano da natureza para criaturas que procedem sem um plano próprio” (Ibid., p. 10).

Há uma teleologia da história sujeita à teleologia da natureza, uma determinação da natureza conduzindo a história humana, na qual “todas as disposições naturais de uma criatura estão destinadas a um dia se desenvolver completamente e conforme um fim”(Ibid., p. 11). Essa teleologia da natureza, regulada por leis, deve ser cumprida e conduzir a razão.

No homem, única criatura racional na Terra, as disposições naturais estão voltadas para o uso de sua razão e se desenvolvem completamente apenas na espécie e não individualmente. A razão possibilita ultrapassar os instintos naturais, por meio dos ensinamentos que fazem progredir a inteligência. Como a natureza concedeu aos indivíduos um tempo muito breve para esse desenvolvimento, carece das gerações transmitirem umas às outras as suas luzes para a condução da espécie, levando o germe da natureza ao seu propósito inerente de desenvolvimento (Ibid., p. 11). Do contrário, os esforços humanos e as disposições naturais seriam vistas como inúteis e sem finalidade.

Em relação a esse propósito, Kant afirma que: “a natureza quis que o homem tirasse inteiramente de si tudo que ultrapassa a ordenação mecânica de sua existência animal e que não participasse de nenhuma felicidade ou perfeição senão daquela que ele proporciona a

si mesmo, livre do instinto, por meio da própria razão” (KANT, 1986, p. 10). Na natureza tudo tem um propósito: a razão e a liberdade de vontade dados pela natureza ao homem é para que ele não se guie pelos instintos e pelo inatismo. Tudo em sua vida teve de ser criado por ele próprio, e com isso a natureza tinha o propósito de tornar o homem mais digno do que bem instalado no mundo.

Assim, a transmissão de conhecimentos entre as gerações, portanto, é fundamental e determinante nessa formação humana:

as gerações passadas parecem cumprir suas penosas tarefas somente em nome das gerações vindouras, preparando para estas um degrau a partir do qual elas possam elevar mais o edifício que a natureza tem como

propósito, e que somente as gerações posteriores devam ter a felicidade de

habitar a obra que uma longa linhagem de antepassados [...] edificou, sem mesmo poder participar da felicidade que preparou (Ibid., p. 12-13). (Grifo nosso).

Para Kant, há na natureza humana um antagonismo insuperável que é a insociável

sociabilidade, a tendência, de um lado, a viver em comunidade e, de outro, a se isolar.

Contudo, “o meio que a natureza se serve para realizar o desenvolvimento de todas as suas disposições é o antagonismo das mesmas na sociedade, na medida em que ele se torna ao fim a causa de uma ordem regulada por leis desta sociedade” (1986, p. 13). Paradoxalmente, é a tendência à insociabilidade que torna possível a sociabilidade.

No homem, a inclinação para associar-se se deve ao fato de ele se sentir mais humano nesse convívio, pois possibilita o desenvolvimento de suas disposições naturais. Contudo, a tendência a isolar-se também é muito forte, “porque encontra em si ao mesmo tempo uma qualidade insociável que o leva a querer conduzir tudo simplesmente em seu proveito, esperando oposição de todos os lados, do mesmo modo que sabe que está inclinado a, de sua parte, fazer oposição aos outros” (Ibid. 1986, p. 13).

A discórdia posta pela natureza no homem, a insociabilidade, possibilita o desenvolvimento da sociabilidade e realiza a natureza racional disposta pelo Criador. É tal socialização que leva, no entanto, o homem da rudeza à cultura e também constitui o seu valor social:

desenvolvem-se aos poucos todos os talentos, forma-se o gosto e tem início, através de um progressivo iluminar-se (Aufklärung), a fundação de um modo de pensar que pode transformar, com o tempo, as toscas disposições naturais para o discernimento moral em princípios práticos determinados e assim

finalmente transformar um acordo extorquido patologicamente para uma sociedade em um todo moral (KANT, 1986, p. 13-14).

Contudo, para a efetiva realização dessa sociabilidade, é preciso uma constituição

civil que ordene a liberdade a partir de leis exteriores e que realize essa sociabilidade que

limita os instintos e possibilita a convivência coletiva: “o maior problema para a espécie humana, a cuja solução a natureza a obriga, é alcançar uma sociedade civil que administre universalmente o direito” (KANT, 1986, p. 14).

A insociabilidade, com sua inclinação animal egoísta, leva o homem a se exceder na sua liberdade e ter necessidade de um senhor para que todos possam exercer universalmente a liberdade: “Este problema é, ao mesmo tempo, o mais difícil e o que será resolvido por último pela espécie humana. A dificuldade que a simples idéia dessa tarefa coloca diante dos olhos é que o homem é um animal que, quando vive entre outros de sua espécie, tem necessidade de um senhor” (Ibid., p. 15).

A mesma insociabilidade que determina a necessidade de uma constituição em razão da sua animosidade existe também entre os Estados: “O problema do estabelecimento de uma constituição civil perfeita depende do problema da relação externa legal entre Estados, e não pode ser resolvido sem que este último o seja” (Ibid., p. 16). Dessa forma, a sociabilidade se realizará, também, pela saída do “estado sem leis dos selvagens” para uma federação de nações em que todo Estado goze segurança e direito, não através da própria força, mas de uma grande confederação de nações, que tenha um poder unificado.

Para Kant, a história é a realização de um telos natural por meio da política, na busca do desenvolvimento de uma humanidade originariamente selvagem: “pode-se considerar a história da espécie humana, em seu conjunto, como a realização de um plano oculto da natureza para estabelecer uma constituição política [...] como o único estado no qual a natureza pode desenvolver plenamente, na humanidade, todas as suas disposições” (Ibid., p. 20). No pensamento kantiano, o Iluminismo teria surgido no horizonte da história como uma luz em meio a realização desses desígnios naturais para nortear os homens individual e coletivamente, inclusive os dirigentes políticos:

e assim surge aos poucos, em meio a ilusões e quimeras inadvertidas, o Iluminismo (Aufklärung) como um grande bem que o gênero humano deve tirar mesmo dos propósitos de grandeza egoísta de seus chefes, ainda quando só tenham em mente suas próprias vantagens. Mas este Iluminismo, e com ele também um certo interesse do coração que o homem esclarecido

(aufgeklärt) não pode deixar de ter em relação ao bem, que ele concebe perfeitamente, precisa aos poucos ascender até os tronos e ter influência mesmo sobre os princípios do governo (KANT, 1986, p. 21).

Kant buscou elaborar filosoficamente a história universal segundo um plano da natureza, tendo em vista a perfeita união civil na espécie humana: “a natureza, mesmo no jogo da liberdade humana, não procede sem um plano nem um propósito final” (KANT, 1986, p. 22). A observação dessa história universal no lado do Ocidente, no seu entender, apresenta uma marcha regular de aperfeiçoamento da constituição política que, provavelmente, um dia determinará todas as outras. Apesar dos vícios que destroem a constituição civil, as leis e a relação entre os Estados, permanece sempre “um germe do Iluminismo que, desenvolvendo-se mais a cada revolução, preparou um grau mais elevado de aperfeiçoamento” (Ibid., p. 23).

Este potencial iluminista de desenvolvimento contínuo e progressivo é um fio condutor da política das futuras mudanças estatais, “na qual a espécie humana será representada num porvir distante em que ela se elevará finalmente por seu trabalho a um estado no qual todos os germes que a natureza nela colocou poderão desenvolver-se plenamente e sua destinação aqui na terra ser preenchida” (Ibid., p. 23). Para Kant, essa natureza é a Providência. Contudo, alerta o autor, a idéia de uma história do mundo com um fio condutor a priori não exclui a elaboração da história propriamente dita, composta empiricamente.

Em 1783, é publicado o escrito de Kant Resposta à pergunta: o que é

“esclarecimento”? (Aufklärung) 57 que se tornou emblemático e imprescindível para a

compreensão da centralidade da razão na época iluminista:

Esclarecimento [Aufklärung] é a saída do homem de sua menoridade, da

qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de

57

Transcrevemos aqui uma nota de Floriano de Souza Fernandes, um dos tradutores da edição de uma coletânea de textos de Kant, sobre o significado de Aufklärung, por a considerarmos extremamente primorosa e esclarecedora e, por isso, necessária aos nossos propósitos de compreender o Iluminismo no contexto da educação: “É impossível fazer uma tradução exata do termo filosófico alemão Aufklärung, tal a multiplicidade de sentidos congregados nesta noção. Certamente várias tentativas foram feitas, nos diversos idiomas neolatinos propondo-se versões tais como ‘iluminismo’, ‘ilustração’, ‘filosofia das luzes’, ‘época das luzes’, etc. nenhuma delas oferece equivalência satisfatória, razão pela qual alguns comentaristas preferem referir-se à Aufklärung pura e simplesmente, sem se preocuparem em traduzir o vocábulo. Diversos motivos levam-nos a julgar que, sem ser perfeita, a transcrição pela palavra ‘esclarecimento’ talvez seja de todas a melhor, principalmente porque acentua o aspecto essencial da Aufklärung, o de ser um processo e não uma condição ou uma corrente filosófica ou literária, que a razão humana efetua por si mesma para sair do estado que Kant chama ‘menoridade’, a submissão do pensamento individual ou de um povo a um poder tutelar alheio” (KANT, 2005, p. 63).

seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio

culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de

entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento [Aufklärung] (KANT, 2005, p. 63-64).

A preguiça e a covardia constituem causas da menoridade para alguns homens e explicam como outros se tornam seus tutores. Kant ironiza: “É tão cômodo ser menor” (2005, p. 64), pois se alguém pensa ou faz as coisas, por outro, não é necessário que se despenda esforço. Mesmo assim, os tutores ensinam para a maioria da humanidade que a passagem à maioridade é difícil e perigosa. Com isso, eles embrutecem e adestram as pessoas para que elas próprias não se tornem autônomas e conquistem a maioridade. Contudo, esse perigo e essa dificuldade são ilusórios, pois com algumas quedas as pessoas aprenderiam a andar sozinhas. A maior dificuldade que as pessoas encontram para se desvencilharem da menoridade é o fato de terem aprendido com os tutores que esta é uma natureza delas e, por isso, a ela se apegam, tornando-se incapazes de qualquer autonomia. Contudo, é possível e necessário que o público se esclareça [aufkläre]. Todos os indivíduos, inclusive os tutores, têm a capacidade de pensar por si próprios, mas o público só chega ao esclarecimento de forma muito lenta.

O esclarecimento [Aufklärung] exige liberdade, em especial a de fazer uso público da razão em todas as questões (KANT, 2005, p. 65). Contudo, o uso privado da razão, apesar de limitado, pode promover também o progresso do esclarecimento. O uso público da razão é quando o sábio fala o que pensa para o grande público. O sábio, o militar ou o religioso pode até obedecer às exigências de um determinado cargo, uso privado da razão, pois cumpre seu dever e preserva a harmonia social, mas deve expor para a comunidade as suas discordâncias e questionamentos. A justificativa maior para que os tutores façam uso público da razão é que “o fato de os tutores do povo (nas coisas espirituais) deverem ser eles próprios menores constitui um absurdo que dá em resultado a perpetuação dos absurdos” (Ibid., p. 67).

Não é aconselhável a tutela da menoridade, pois, mesmo se aprovada pelas autoridades, inviabilizaria um posterior esclarecimento [Aufklärung] da humanidade. “Uma época não pode se aliar e conjurar por colocar a seguinte em um estado em que se torna impossível para esta ampliar seus conhecimentos (particularmente os mais imediatos), purificar-se dos erros e avançar mais no caminho do esclarecimento [aufklärung]. Isto seria

um crime contra a natureza humana, cuja determinação original consiste precisamente neste avanço” (KANT, 2005, p.68). A humanidade deve marchar no caminho do aperfeiçoamento, e todo homem deve contribuir para esse esclarecimento progressivo.

Kant diz que sua época não era ainda uma época esclarecida (aufgeklärten), os homens ainda não faziam uso do seu próprio entendimento. Contudo, havia “claros indícios” de que foram abertas as possibilidades para “tornarem progressivamente menores os obstáculos ao esclarecimento [Aufklärung] geral ou à saída deles”, (Abid., p. 69-70), para que os homens saíssem de sua menoridade e alcançassem a maioridade através do esclarecimento. Nessa marcha progressiva de esclarecimento é imprescindível a vontade do homem de alcançar um estágio superior de racionalidade, pois “os homens se desprendem por si mesmos progressivamente do estado de selvageria, quando intencionalmente não se requinta em conservá-los nesse estado” (Ibid., p. 70). É preciso que exista a vontade pessoal de alcançar a maioridade do esclarecimento.

Kant não produziu uma obra sistemática sobre a educação. O livro Sobre a

Pedagogia, de 1803, é a compilação, por seu aluno Teodoro Rink, de um ciclo de aulas

universitárias de pedagogia. A obra, autorizada pelo próprio Kant, foi publicada um ano antes de sua morte 58.

Coerente com os princípios de seu criticismo, que afirma a existência do mundo fenomênico e do mundo noumênico, ou seja, físico e espiritual, Kant compreende a existência

58 Apesar de as questões pedagógicas serem eventualmente tratadas em outras obras, como na Crítica da Razão

Prática e na Metafísica dos Costumes, por exemplo (GALEFFI, 1986,263), segundo estudiosos, a obra Sobre a Pedagogia é a que melhor esboça as reflexões de Kant sobre a educação, mesmo contendo algumas imprecisões

conceituais relativas ao pensamento kantiano. Segundo Galeffi, as duas principais finalidades da educação em Kant são: “ajudar o homem a destacar-se sempre mais da sua materialidade animal para realizar a sua ‘humanidade’, superando, assim, as suas inclinações sensíveis e afirmando-se como ‘homem moral’; [...] fazer progredir o gênero humano de geração em geração até o alcance de sua perfeição” (GALEFFI, 1986, 264). E ainda: “o fim da educação coincide com o mesmo fim da evolução histórica: a moralidade. E quando se trata da moralidade, nós sabemos que para Kant não há lugar para uma concepção utilitarista ou eudemonística da vida, senão no sentido de que a educação ajuda a espécie humana a passar progressivamente de um plano sensível, no qual se tende à imediata satisfação das próprias inclinações naturais o mais das vezes egoístas, para um plano ético no qual a perfeição, mais do que uma conquista efetuada, é constantemente considerada como uma perene meta a ser alcançada e que se desloca sempre mais para o alto à medida que subimos para ela” (GALEFFI, 1986,264). Para Kant, a educação é uma arte necessária para a boa condução racional das nossas ações, que devem fugir do imediatismo empiricista. Na educação kantiana “é necessário deixar-nos guiar pela Razão, organizando os nossos procedimentos segundo critérios científicos” (GALLEFFI, 1986, 265). Com a ênfase no comportamento racional, as finalidades da educação são, no entender do autor, tornar o homem disciplinado, culto, prudente e moral. Disciplinar é frear a natureza selvagem. A cultura remete a instrução em geral, a uma aquisição de habilidades que vai do ler e escrever à música. O ser prudente é aquele que sabe adaptar-se às exigências da vida social, e com isso promover uma convivência amável. A moralidade indica e conduz a vocação para os bons objetivos, ou seja, que sirvam para todos e cada um.

de uma educação física, relativa à sensibilidade e ao intelecto, e de uma educação prática, relativa ao homem supra-sensível, ou seja, ser moral.

Diversamente do animal, o homem é a única criatura que deve ser educada. É preciso a educação para que a humanidade, considerada do ponto de vista da dignidade da natureza humana, efetive a realização do homem mediante as características superiores que o distinguem do animal: a razão e a liberdade. O homem, constituído pela dualidade de matéria e espírito, sensibilidade e dever, não se tornará um homem bom e verdadeiro sem que a razão prevaleça sobre os sentidos. Contudo, para Kant, a educação da sua época era insuficiente para a realização desse ideal humano, pois tinha como parâmetro o presente, ao passo que o referencial deveria ser o futuro e a idéia de uma humanidade culta e predestinada a um patamar moral superior, a serem realizados pelo trabalho sucessivo e progressivo das gerações.

A educação se divide em física e prática, sendo que a educação física cuida da sensibilidade e do intelecto e a educação prática cuida da moral. “O homem é a única criatura que precisa ser educada” (KANT, 2002, p.11). A educação física é aquela que o homem tem em comum com os animais, os cuidados com o corpo. Essa educação tem por preocupação normas de higiene que garantam um crescimento normal da criança e se refere à educação sensível e intelectual (imaginação, memória, atenção, inteligência, juízo e reflexão), incluindo aí a formação do caráter como disciplina (não ainda ligado diretamente à moral que compete à educação prática). As preocupações presentes em Kant relativamente à educação física da criança abrangem: aleitamento materno, abstenção de excitantes como o vinho e a pimenta, banhos, choros, preguiça, castigo, liberdade de expressão, ensino da teoria aliada à prática, pertinência dos ensinamentos à idade, ensino das línguas, matemática, geografia (ao invés dos romances). O ensino deve se pautar na visão científica buscando superar as meras opiniões.

A educação prática, para Kant, relaciona-se à formação moral, à formação do caráter e representa o fim último da educação. Nesse sentido, a educação prática busca cultivar na criança o dever da dignidade humana, seja em cumprimento do dever sem esperar recompensas, seja não procurando comparação em atos alheios e sim num ideal humano ético. Para alcançar os propósitos dessa educação prática era importante tomar a moral como uma religião. A lei moral está em nós e devemos segui-la por possibilitar um aperfeiçoamento que nos afasta dos vícios e que está de acordo com o Ser Supremo. Depois dessa breve introdução, passamos à explicitação do texto de Kant.

A educação implica em cuidados e formação, que por sua vez tem em vista a disciplina e instrução. Os cuidados com as crianças se dirigem à sua conservação e a seus tratos, ou seja, constituem as “precauções que os pais tomam para impedir que as crianças façam uso nocivo de suas forças” (KANT, 2002, p.11). Já a formação abrange a disciplina como algo negativo, que constrange mecanicamente, e “impede os defeitos” (Abid., p.29) e algo positivo, a instrução, onde “o educando deve mostrar sujeição e obediência passivamente” (Abid., p.30). É a disciplina que “transforma a animalidade em humanidade” (Abid., p.12).

O homem tem necessidade de sua própria razão para se tornar autônomo, entretanto, nasce totalmente indefeso e, por isso, precisa de outros para conduzi-lo. Daí a importância da educação deste o início: “a espécie humana é obrigada a extrair de si mesma pouco a pouco, com suas próprias forças, todas as qualidades naturais, que pertencem à

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