2.2. UTOPIA E MODERNIDADE
2.2.1. MODERNIDADE UTÓPICA
O início da modernidade decretava a ruptura definitiva com os padrões e
postulava não só a renovação permanente de ideais, mas também a
multiplicidade de perspectivas a serem consideradas e analisadas. Marshall
Berman, por exemplo, entende a modernidade como um “turbilhão” de
perspectivas e perigos que envolvem os indivíduos num processo constante de
reavaliação e, conseqüentemente, a renovação de conceitos tidos até então
como imunes à contestação e à crítica. Afirma ele que “existe um tipo de
experiência vital – experiência de tempo e espaço, de si mesmo e dos outros,
das possibilidades e perigos da vida – que é compartilhada por homens e
mulheres em todo o mundo, hoje. Designarei esse conjunto de experiências
como modernidade” (BERMAN, 1986, p. 15).
Essa reestruturação, que se estabelece, entre outros fatores, pela
expansão das fronteiras científicas e do autoconhecimento humano, cria uma
nova realidade, na qual se dissolvem as amarras do pensamento social e
político tradicional, articulando um novo horizonte de experiências possíveis e
desejáveis.
Os marcos históricos para a deflagração desse fluxo contínuo de
transformações podem ser localizados nas revoluções libertárias do século
XVIII, inspiradas pelo humanismo iluminista e por uma nova sensibilidade que
buscava um afastamento do racionalismo ilustrado. Além disso, o processo de
industrialização inaugurado na Inglaterra alargava o horizonte de possibilidades
econômicas e progressistas, desenhando novos rumos para o desenvolvimento
das sociedades. Como afirma Elias Thomé Saliba, “a Revolução Francesa,
com todos os seus desdobramentos, e a Revolução Industrial, a tomar impulso,
ainda que regionalizada, foram vistas como desencadeadoras de forças
incontroláveis que impulsionavam a sociedade na direção de um
desenlace imprevisto, mas quase inevitável” (SALIBA, 2003, p.15). Nesse
contexto, é importante salientar também a Revolução dos Estados Unidos
como um evento emblemático dos novos ideais progressistas que viriam a
consolidar definitivamente o sistema capitalista.
Obviamente, os acontecimentos citados não foram realizados
subitamente, mas antecedidos por um movimento de idéias e ideais que
remonta aos cem anos anteriores à queda da Bastilha. O fundo ideológico das
iniciativas revolucionárias encontra já em 1689 um dos seus importantes
contribuintes. Neste ano, Locke publica um tratado sobre o governo civil no
qual afirma que um contrato entre o soberano e seus súditos deveria mediar as
ações do governo. O autor defende também a separação dos poderes que
compõem o Estado constituído. Pouco mais de meio século depois,
Montesquieu analisa os fundamentos do exercício do poder e as
particularidades na construção das estruturas sociais humanas em seu Espírito
das leis. Voltaire, por sua vez, exalta o povo humilde, ao condenar o clero e a
aristocracia, tendo como base a teoria do direito natural.
Entretanto, um dos nomes mais importantes a serem citados para a
análise que desenvolveremos é o de Jean-Jacques Rousseau. O filósofo suíço
recupera o exemplo ateniense da Antiguidade para postular as bases teóricas
de um regime republicano representativo em pleno acordo com o direito
inalienável de todo indivíduo. Esse método argumentativo baseado na
idealização de um modelo social anterior já constitui em si uma aproximação ao
pensamento utópico, especificamente daquele que Jerzy Szachi denomina
“utopismo heróico-político de ordem temporal”.
A Antiguidade grega e romana também foi concebida como um “século de
ouro”, uma utopia temporal. O culto da Antiguidade começou no Renascimento
no contexto da luta contra a herança medieval. Começou o conhecimento dos
gregos e romanos – começou também a sua idealização. Mas a Antiguidade foi
transfigurada em utopia, sobretudo na época do Iluminismo e da Revolução
Francesa, quando se descobriram nela modelos, contrários à organização
social do presente. (SZACHI, 1972, p. 54)
Assim, percebemos que a influência de Rousseau se projeta muito além
de um simples exemplo classificatório, possibilitando o alargamento de suas
próprias concepções e moldando outras diversas produções utópicas. Como
salienta Jean Starobinski,
Alternadamente, ele [Jean-Jacques Rousseau] se entregará ao devaneio
“arcádico” de um retorno à floresta primitiva; ou então fará a defesa de uma
estabilização conservadora, em que a alma e a sociedade salvaguardariam o
que lhes resta de puro e de original; ou ainda traçará “a idéia da felicidade
futura do gênero humano”, ou, enfim, construirá fora do tempo uma Cidade
virtuosa. (STAROBINSKI, 1991, p. 24)
É interessante notar que, sincronicamente à produção do pensador
suíço, já surgia um novo modelo de produção utópica, influenciado pelas novas
idéias políticas e caracterizado pela prospecção. O ano de 2440, publicado por
Mercier em 1761, descreve a sociedade francesa em um futuro próspero,
substancialmente distinto da realidade vivida pelo autor.
A paz reina entre as nações. A desigualdade de riqueza ainda existe, é
verdade, mas desapareceram o luxo e a inimizade das classes sociais. A
Bastilha é a residência da misericórdia. A religião foi libertada do fanatismo e o
papa difunde o catequismo da razão humana. A literatura foi despojada de
frivolidades; ela preenche a importante função de educadora moral. (SZACHI,
1972, p. 46)
A subordinação do poder do Estado à vontade dos cidadãos defendida
por Rousseau ampliou o desejo por reformas sociais profundas e impulsionou
os progressivos ataques ao Antigo Regime, os quais resultariam na onda
revolucionária que atingiria a América e a Europa. Como afirma Nachman
Falbel em seu artigo “Os fundamentos históricos do Romantismo”,
Os escritos de Rousseau – o Discurso sobre as artes e ciências (1755), o
Discurso sobre a desigualdade (1755) e o Contrato social (1762) – constituem
a literatura política de onde todas as tendências modernas encontrarão uma
filosofia para a organização do Estado e da sociedade. Foi a Enciclopédia,
publicada a partir de 1751 e traduzida em muitas línguas, que reuniu em seus
verbetes a grande elaboração intelectual do Iluminismo. (FALBEL in
GUINSBURG, 2005, p. 32)
Dessa forma, é possível notar que um tempo de grandes
transformações corresponde também a um tempo de grandes idealizações e
grandes utopias. Esse parece ser o signo do Iluminismo e de grande parte dos
chamados tempos modernos. Contudo, a filosofia política de Hobbes a
Rousseau foi também condicionada por múltiplos aspectos que a moldaram e a
transformaram ao longo da modernidade, caracterizando seu aparente
potencial utópico. Constituiria um objeto de estudo demasiadamente amplo
para o presente trabalho rastrear todos eles. Por isso, manteremos nossa
proposta inicial, segundo a qual discutiremos alguns pontos da íntima relação
entre a história e a formação de novos sistemas de pensamento.
Primeiramente, é preciso considerar que o próprio conceito de história
sofre grandes mudanças desde o término da Idade Média. Apesar das
constantes críticas racionalistas durante o Renascimento, a consciência
histórica formal que ainda se mantinha era caracteristicamente medieval e
dogmática. Como afirma Guinsburg,
Trata-se de uma visão teocêntrica e teológica judio-cristã, que concebia a
História como um ciclo de revelação do poder divino de Seus atos de vontade,
cuja primeira manifestação seria o Gênese, ponto de partida de uma
sucessão de intervenções providenciais e miraculosas ao nível do humano e
terreno, cujo termo seria o Juízo Final e a instalação do reino beatífico dos
justos e dos santos. (GUINSBURG, 2005, p. 14)
Contudo, os pensadores do século XVIII criticaram duramente a
perspectiva teológica, inserindo em suas análises histórico-sociais elementos
intrínsecos ao convívio humano e trazendo para o âmbito das
responsabilidades individuais e coletivas o poder anteriormente outorgado
apenas à divindade.
Com Montesquieu e Rousseau as instituições, costumes e normas
sócio-jurídicas passam a ser entendidas como produto das condições, do comércio, e
contrato dos seres humanos, a certa altura de suas relações coletivas, isto é,
em certo momento da história da sociedade, mas de uma sociedade de
indivíduos dotados de direito natural. (GUINSBURG, 2005, p. 14)
Tal processo de humanização no entendimento da história representou
também uma modificação paulatina no caráter das produções utópicas. Em
utopias de ordem eterna, concebidas ainda antes do processo de
secularização, as desigualdades sociais eram desconsideradas diante da
igualdade de todos os homens aos olhos de Deus e os anseios por justiça e
harmonia eram projetados para a realização do reino divino na terra. Com o
crescente enfraquecimento do misticismo religioso nos círculos intelectuais, a
ação humana passou a ser vista como a matéria-prima básica para a
construção de uma sociedade melhor.
Como afirmamos anteriormente, a crítica ao tempo presente é uma das
características básicas do utopismo. Assim, as utopias, destituídas do
parâmetro de espelhamento com o paraíso judaico-cristão, buscaram outros
modelos ideológicos ou ficcionais para suas idealizações. Prospecção,
retrospecção, projetos sincrônicos de reorganização social se tornaram
caminhos viáveis para o utopista. Outro fenômeno, porém, merece destaque
nesse contexto, uma vez que sua relevância atravessa o Romantismo e
alcança a literatura de Aldous Huxley: a valorização das sociedades
consideradas primitivas e do chamado bom selvagem.
É notável uma ligação muito íntima entre a utopia espacial clássica e a
literatura de viagem, o que se evidencia na concepção de obras como A utopia
de Thomas More e Viagens de Gulliver de Jonathan Swift. Como afirma Maria
Cecília de Moraes Pinto,
A descoberta do Novo Mundo foi precedida e orientada, no que diz respeito ao
conhecimento do outro, por representações recorrentes na Idade Média. Assim,
os europeus vieram às Américas conhecer o que já conheciam nas lendas e no
desejo: as origens configuradas em imagens do Paraíso perdido e do homem
natural. Tais imagens mesclavam relatos pagãos às tradições cristãs, a Idade
de Ouro à concepção de um espaço-raiz a ser recuperado [...[ Tais contrastes,
traduzidos, desde logo, pelas narrativas de viagem, favoreceram a
auto-reflexão em uma civilização ainda imatura, a do Ocidente em inícios do século
XVI. (PINTO in IZARRA, 2001, p. 201)
Contudo, a valorização da natureza como parte da Filosofia das Luzes e
sua rearticulação metafísica durante o Romantismo são aspectos de maior
complexidade. Em Rousseau, a natureza é um elemento essencial de análise
que se pluraliza nas dimensões religiosa, antropológica e social. O retorno do
filósofo ao que poderíamos chamar de essência humana básica exerce grande
influência sobre a capacitação do sujeito como articulador de seu próprio meio
e de seu próprio destino.
Em primeiro lugar, ao aproximarmos as esferas teológica e
antropológica, é importante salientar que o autor de O contrato social se
posiciona de maneira firme em relação à secular questão do dualismo moral.
Entre a depravação inerente do homem segundo a doutrina agostiniana e a
plena autodeterminação pelagianista, Rousseau defende abertamente a virtude
original de todo indivíduo, inocentando não apenas ao ser humano, mas
também a Deus.
Não é necessário supor o homem mau por sua natureza, quando se pode
assinalar a origem e o progresso de sua maldade. Estas reflexões me
conduziram a novas investigações sobre o espírito humano considerado no
estado civil, e julguei então que o desenvolvimento das luzes e dos vícios se
fazia sempre na mesma proporção, não nos indivíduos, mas nos povos;
distinção que sempre fiz cuidadosamente, e que nenhum daqueles que me
atacaram jamais pôde conceber. (ROUSSEAU apud STAROBINSKI, 1991, p.
31)
Ainda que o autor reconheça haver considerável distância entre aquilo
que o indivíduo aparenta ser e aquilo que ele realmente é
19, a virtude original
permaneceria latente, podendo ser alcançada por meio do autoconhecimento.
Para Rousseau, retornar a esse estado natural corresponderia a um reencontro
com a bondade inata de cada ser humano, sendo a consciência um elemento
fundamental nesse processo.
Nesse sentido, o filósofo despe a religião de seus postulados
dogmáticos e seus embaraços institucionais, exaltando a função educadora
dos conceitos cristãos e das metáforas bíblicas. “A religião só serve de
máscara ao interesse, e o culto sagrado, de salvaguarda para a hipocrisia”
(ROUSSEAU apud STAROBINSKI, 1991, p. 83). O deísmo rousseauniano
enfatiza a religiosidade como mecanismo de acesso consciente do indivíduo à
sua própria natureza virtuosa e, conseqüentemente, sua aproximação a Deus.
De fato, o Fragmento alegórico nos mostra Cristo como uma consciência que
encontra em si mesma (mas talvez vinda e além dela mesma) a fonte da
verdade. Cada um de nós pode fazer como ele. Recolher-se em si mesmo, aí
encontrar a fonte, reconhecer a “voz da consciência”. Cada um de nós poderia
tornar-se então – a exemplo de Cristo – o educador do gênero humano, que
exalta os corações e neles desperta uma bondade paralisada [...] O desejo de
Rousseau é de ver Deus imediatamente. Quanto menos houver intermediários,
melhor apreenderemos a presença divina. Nada de padres, nada de dogmas
interpostos. (STAROBINSKI, 1991, p. 80)
Entretanto, a idealização da essência bondosa do ser humano ao ser
transportada para a esfera social redunda em um inevitável questionamento:
como explicar os vícios e as iniqüidades presentes nas mais diferentes
camadas da sociedade?
Neste ponto reside um dos elementos mais importantes da perspectiva
sociológica que orientou pensadores românticos, utópicos e distópicos: a
descontinuidade entre as características do indivíduo e as do meio. Para
Rousseau parece ocorrer uma dissonância entre a natureza original do sujeito
e o seu comportamento em sociedade. E, ainda que a virtude se mantenha
inalterada em cada indivíduo, a coletividade humana produz malefícios e
19
“Assim que fui capaz de observar os homens, olhava-os agir e escutava-os falar; depois, vendo que suas ações não se pareciam de modo algum com seus discursos, procurei a razão dessa dessemelhança, e descobri que sendo ser e parecer, para eles, duas coisas tão diferentes quanto agir e pensar, essa segunda diferença era a causa da outra” (ROUSSEAU apud STAROBINSKI, 1991, p. 17).
sofrimentos aparentes sob o ponto de vista histórico. Como afirma Jean
Starobisnki ao discorrer sobre a obra do filósofo suíço,
O mal se produz pela história e pela sociedade, sem alterar a essência do
indivíduo. A culpa da sociedade não é a culpa do homem essencial, mas a do
homem em relação. Ora, com a condição de dissociar o homem essencial e o
homem em relação, com a condição de separar sociabilidade e natureza
humana, pode-se atribuir ao mal e à alteração histórica uma situação periférica
em relação à permanência central da natureza original. (STAROBINSKI,
1991, p. 31)
Assim, nos vemos novamente diante da dicotomia do ser e parecer, que
se mostra fortalecida por inúmeros elementos intrínsecos à vida em sociedade.
Os modelos de conduta, as normas, os interditos, as padronizações ideológicas
e mesmo emocionais são apenas alguns exemplos de mecanismos sociais que
aprofundam o abismo formado entre a natureza da existência e a artificialidade
da semelhança.
Porque o homem é perfectível, não cessou de acrescentar suas invenções aos
dons da natureza. E desde então a história universal, embaraçada pelo peso
continuamente crescente de nossos artifícios e de nosso orgulho, adquire o
andamento de uma queda acelerada na corrupção: abrimos os olhos com
horror para um mundo de máscaras e de ilusões mortais, e nada assegura ao
observador (ou ao acusador) de que ele próprio seja poupado pela doença
universal. (STAROBINSKI, 1991, p. 24-25)
É importante ressaltar que o pensamento de Rousseau vai muito além
de uma crítica social nostálgica ou de um levantamento aleatório de eventos
particulares. Seus postulados desafiam a própria concepção de história e a
visão sobre o desenvolvimento histórico das sociedades. Seu desejo parece
ser o de motivar o surgimento e fortalecimento de uma consciência
histórico-social que permita aos indivíduos reencontrar a virtude original em meio às
brumas da coletividade.
Rousseau, contudo, não tem necessidade da história a não ser para lhe pedir a
explicação do mal. É a idéia do mal que dá ao sistema sua dimensão histórica.
O devir é o movimento pelo qual a humanidade se torna culpada. O homem
não é naturalmente vicioso; tornou-se vicioso. O retorno ao bem coincide,
então, com a revolta contra a história, e, em particular, contra situação
histórica atual. (STAROBINSKI, 1991, p. 32)
Diante disso, é possível compreender a aparente idealização
rousseauniana das sociedades consideradas primitivas e da índole intocada do
chamado selvagem, indivíduo alheio aos malefícios da estrutura social
européia e, portanto, puro. Como afirma Marilena Chauí, “a concepção de
Rousseau (no século XVIII)”, é a de que “em Estado de Natureza, os indivíduos
vivem isolados pelas florestas, sobrevivendo com o que a Natureza lhes dá,
desconhecendo lutas e comunicando-se pelo gesto, o grito e o canto, numa
língua generosa e benevolente” (CHAUÌ, 2000, p. 399).
Essa perspectiva embasou diversas produções utópicas nos últimos três
séculos, sendo o Romantismo particularmente produtivo nessa linha de
pensamento. Tal influência é justificável pelo caráter crítico, idealista e
renovador das palavras do próprio Rousseau. Nessas passagens, a mística
natural - que subsistiria nas obras de autores como Wordsworth, Whitman e
Emerson - se mistura a uma preocupação social urgente e reformadora.
A nostalgia se volta para uma “vida anterior”. Mas se ela nos afasta do mundo
“contemporâneo”, não nos faz abandonar o mundo humano nem a paisagem
terrestre; no horizonte da felicidade anterior, há essa mesma natureza e essa
mesma vegetação que nos cercam hoje; há essa floresta que mutilamos, mas
da qual restam extensões intactas por onde posso enveredar. (STAROBINSKI,
1991, p. 23)
Assim, os utopistas contrapõem os aparentes desvios de suas
sociedades a um ideal de harmonia e igualdade materializado nas
comunidades primitivas. O processo estimula a reflexão crítica do leitor e
amplia o âmbito das discussões de ordem social. Como afirma Jerzy Szachi,
No século XVII, e sobretudo no XVIII, novas tendências aparecem na literatura
sobre países distantes. Passa-se a descobrir mais e mais características
“positivas” nos costumes dos selvagens. E maior é a disposição para
contrastá-los com os predominantes na Europa. Pode-se dizer que estas descrições
tornaram-se mais utópicas, isto é, apresentaram um mundo não só diferente,
como melhor do que o nosso [...] E os utopistas passaram a fixar-se em
regiões geograficamente mais bem definidas onde descobriram um certo ideal
– o ideal da vida concorde com a natureza, já conhecido aliás dos homens do
renascimento. (SZACHI, 1972, p. 33)
De certa forma, essa tendência demonstra vitalidade nas obras do
corpus, em que a liberdade individual nas comunidades consideradas primitivas
é contraposta à homogeinização organizacional de outras sociedades. A
descrição da pequena ilha de Pala em A ilha, assim como a caracterização de
utópico em Admirável mundo novo atendem a essa proposta de reflexão. Como
afirma Jerzy Szachi:
Este mesmo esquema aparece em muitos outros escritos. Em outros casos, é
o “bom selvagem” que vem à Europa, e a situação é invertida. Lá espantou-se
o europeu no país feliz, aqui é o cidadão do país feliz que se espanta diante da
Europa infeliz. O contraste entre estas duas culturas opostas salta aos olhos. O
contraste foi sempre uma arma preferida dos utopistas. (SZACHI, 1972, p. 34)
A diversidade das utopias modernas, entretanto, não se reduz à
idealização do primitivismo social e da pureza natural humana. Os utopistas
apreendem do dinamismo histórico que presenciam outras consciências e
outros ideais, delineando novas perspectivas, novas críticas e novos idílios
sociais.
Diante das revoluções do século XVIII, torna-se claro para muitos o
poder de renovação e transformação concentrado nas mãos dos membros do
grupo social. Como afirmado anteriormente, o racionalismo iluminista retira a
concepção de história da esfera do misticismo e a coloca sob a
responsabilidade dos indivíduos e de suas instituições.
Transparece, portanto, quão longamente, mesmo quando bastante perto, se
encontram ainda as Luzes, pelo menos em formulações mais específicas ou
positivas na ordem das atribuições causais sobre as origens e motores
históricos, de concepções ou idéias-força como nação, povo, massa, opinião
pública, classe e outros agentes históricos, políticos, sociológicos, econômicos,
culturais e ideológicos que são tidos como fonte dos processos, dos
dinamismos, dos movimentos, das consciências, dos espíritos e das vontades
coletivas que surgiram em praça pública com a Revolução Francesa.
(GUINSBURG, 2005, p. 15)
Primeiramente, os ideais do progresso e a conseqüente crença na
inevitabilidade da melhoria nas condições de vida passam a se inscrever no
pensamento sociopolítico, embasando a criação de novas projeções utópicas.
Como salienta Aldous Huxley,
Podemos dizer que a antiga noção cristã do futuro, que seria melhor e mais
feliz, era a noção do que vulgarmente se chama “boa vida no céu”. Isso mudou
profundamente durante os séculos XVIII e XIX, chegando a uma nova
concepção do que se poderia chamar “boa vida na terra” – a idéia de um
mundo que melhora através de indefinidos períodos de tempo. Essa idéia de
um progresso, que alguns pensadores consideraram absolutamente inevitável
e outros, condicional, mas que de qualquer modo segue adiante e
provavelmente atingirá um grau de perfeição num futuro distante. (HUXLEY,
1977, p. 87)
Percebemos que o autor atribui certa dose de mistificação ao termo
No documento
ADMIRÁVEL MUNDO NOVO E A ILHA: ENTRE O PESADELO E O IDÍLIO UTÓPICO
(páginas 47-71)