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4  A ARTICULAÇÃO DE ORAÇÕES NO DISCURSO RELATADO 70 

4.3  A oração complexa 86 

4.3.3   Modos de significar no discurso relatado 94

A oração complexa, como qualquer outra unidade gramatical (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 58), é um construto multifuncional em que unidades funcionam como elementos em um sistema semântico que cria significados potenciais relacionados às

funções que a linguagem tem desenvolvido para servir. Esse construto consiste de três aspectos multifuncionais de significado: o textual – a oração como uma mensagem; o interpessoal – a oração como uma troca; e o aspecto ideacional, que é o modo de construir a experiência, isto é, o modo de significar na organização da oração, isto é, o aspecto experiencial de organização.

Veja-se o exemplo de discurso relatado abaixo:

(74) Desse modo, Pereira (op. cit.) acredita que o uso do indicativo em contextos preferencialmente do subjuntivo se justifica pelo fato de, muitas vezes, a subordinação ser suficiente para marcar a modalidade. (395, DM, UNESP, 2005 - 50)

No segundo principal componente, o interpessoal, de acordo com Halliday (2002, p. 199), a linguagem é interação: ela está significando no modo ativo. O sistema semântico pode expressar a instrução do autor no evento de fala – o papel que ele está considerando para si mesmo no processo de comunicação e a escolha de papel que ele está atribuindo ao leitor. Esse componente é, portanto, representado por ambos, o autor e o leitor orientado – é interpessoal – e, segundo Halliday (2002), é o que Hymes denominou ‘sócio-expressivo’ e representa a instrução do próprio autor na situação de fala.

Interpessoalmente, pode-se dizer que o exemplo (74) apresenta a linguagem como ação (o autor como instrutor na realidade) e expressa suas instruções no evento linguístico: suas atitudes, avaliações e julgamentos e a conclusão de que muitas vezes, a subordinação ser suficiente para marcar a modalidade. Dessa maneira, organiza e instrui o evento de fala como uma dimensão positiva no processo comunicativo. A questão central do argumento – a conclusão – é realizada pelo sujeito da oração complexa que constitui o discurso relatado e a seleção do tempo verbal no modo finito fixa-a como ação no presente acredita, justifica em relação ao tempo da escrita. O significado textual é a organização interna do discurso relatado como uma mensagem com o foco sobre a ação que é concluída, juntamente com sua relação à parte precedente do texto que a compõe, o que pode ser observado pelos termos: Desse modo (...).

Examinando, agora, o exemplo (74), acima, sob o ponto de vista do componente ideacional, nos termos de Halliday (2002, p. 198-199), observa-se que a oração complexa que constitui este exemplo de discurso relatado constrói também uma quantidade de mudança como a configuração de um processo, os participantes envolvidos nele e as circunstâncias criadas. Nesse exemplo, pode-se considerar que a oração complexa permite um relacionamento de significação entre uma palavra e seu significado: acredita (representa,

expressa) que o uso do indicativo, se justifica pelo fato e ser suficiente para marcar a modalidade. Há três elementos neste relacionamento – acredita, justifica e ser e um desses elementos verbais representa o Processo – o processo cognitivo de acreditar. Esse processo é representado pelo verbo acredita como sendo localizado e desdobrando-se através do tempo: o processo pode ser realizado por esse verbo marcado pelo tempo presente (o presente histórico), contrastando como o passado e o futuro. Os outros dois elementos podem ser participantes envolvidos no relacionamento de significação. Os processos de significação, de acordo com Halliday e Matthiessen (2004, p. 169), constituem um pequeno número de diferentes tipos de processos na gramática experiencial da oração.

Observe-se, agora, o trecho dado em (75):

(75) Assim, Bernárdez (1990) faz referência à RST, dizendo que há similaridade entre o conceito de retórica dessa teoria e o de macroestruturação do texto. (291, DM, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2008 - 24)

A estrutura acima mostra o uso da forma verbal dizendo, com o verbo dizer, semanticamente, com sentido de significar, isto é, essa forma verbal constitui uma oração de processo verbal, construída com o verbo de dizer ou dicendi e que não é flexionado, pois é marcado pela forma de gerúndio, podendo sugerir evento interno de continuidade da ação. Esta forma verbal dizendo introduz um relato do que foi dito e projeta a oração: que há similaridade entre o conceito de retórica dessa teoria e o de macroestruturação do texto, estabelecendo-a como uma locução.

Pode-se observar que há domínios experienciais que podem ser encontrados em uma mesma oração complexa que oferecem modelos alternativos do que parece ser o mesmo domínio de experiência, construindo, por exemplo, o domínio na oração exemplificada em (76), seguinte, em que o processo se realiza em uma oração de processo mental por meio do verbo de cognição esclarece e em outra, no exemplo (77), que se efetua sob o processo mental do verbo de cognição recomenda com participantes em um processo mental que pode sugerir uma aproximação a outro processo, o comportamental (recomenda), pois expressa uma orientação.

Citam-se os exemplos de discurso relatado, abaixo:

(76) Bronckart (1999) esclarece, ainda, que uma possível classificação para os gêneros não poderia se basear em um critério facilmente objetável, como por exemplo, as unidades lingüísticas que neles são empiricamente observáveis, pois os textos, independente dos gêneros a que pertencem, são constituídos, segundo modalidades muito variáveis, por segmentos diferentes que entram em sua

composição (segmentos de exposição teórica, de relato, de diálogo, de descrição etc.). (326, DM, UFMG, 2003 - 27)

(77) Castilho (2003), numa posição bastante crítica aos trabalhos feitos sob a rubrica da GR, recomenda que se abandone de vez o princípio da unidirecionalidade em favor de uma multidirecionalidade, o que, no seu entender, captaria melhor as relações que se estabelecem entre léxico, discurso, semântica e gramática. (195, TD, UNICAMP, 2003 – 46)

Nesse exemplo (77), a oração que projeta é um processo mental: Castilho (2003), numa posição bastante crítica aos trabalhos feitos sob a rubrica da GR, recomenda, e a oração projetada é, assim, estabelecida como uma idéia: que se abandone de vez o princípio da unidirecionalidade em favor de uma multidirecionalidade, o que, no seu entender, captaria melhor as relações que se estabelecem entre léxico, discurso, semântica e gramática, pois, segundo Halliday (1994, p. 254), é possível relatar um dizer representando-o como um significado e a função idealizada é representar o sentido, o essencial.

Assim, a estrutura que representa os significados experienciais, segundo Halliday (2002, p. 203), é uma configuração ou uma constelação de elementos discretos, cada um realizando a sua própria contribuição ao todo.

Desse modo, pode-se dizer que a oração serve para a realização de significados ou opções semânticas, relacionados às funções da linguagem, expressas através da configuração de domínios funcionais, como os processos, que derivam dessas funções básicas.