SISTEMAS COMPLEXOS E DESIGN ADAPTATIVO
CAMPO ESTRUTURAS OPERADORES MEDIDA DE PERFORMANCE
1.3.3 REGRAS DE DESIGN E O PODER DA MODULARIDADE
1.3.3.2 Modularidade e Modularização do Design
Baldwin (2015) defi ne modularidade como uma propriedade dos sistemas complexos que, em ter- mos gerais, indica o grau no qual um dado sistema pode ser dividido em subunidades - os módulos - que podem ser montados e combinados de diferentes maneiras. Além dessa aproximação geral, nenhuma medida ou defi nição precisa é universalmente aceita, portanto, é necessário precisar o conceito em seu determinado contexto.
No livro Design Rules, modularidade é entendida como um padrão específi co de dependências entre componentes (uma arquitetura) de um dado sistema - uma estrutura hierárquica de inter- -relações composta por blocos aninhados (BALDWIN; CLARK, 2000)21. Já a modularização é
o procedimento de tornar um design modular - que usa conhecimentos de interdependência de estrutura e parâmetros de design para criar design rules (“regras de design”).
Com essas defi nições, temos que modularidade é um padrão que pode surgir em diferentes contex- tos e tipos de sistemas. Considerando as três formas que seres humanos se relacionam com seus artefatos, todas podem apresentar um padrão estrutural de blocos aninhados hierarquicamente. Assim que, podemos considerar e distinguir os padrões modulares que se manifestam nos três âm- bitos: no design dos artefatos, na produção deles, e no seu uso. A tese do livro Design Rules, como o próprio nome indica, está voltada para a primeira categoria - do design como processo, dividido em tarefas, e como descrição, dividida em parâmetros.
Não desconsiderando completamente os outros âmbitos, os autores ressaltam que, como princípio de produção, a modularidade tem uma longa história - a exemplo da produção industrial de carros.
21 No original: “Here we define modularity as a particular pattern of relationships between elements in a set of parameters, tasks, or people. Specifically, modularity is a nested hierarchical structure of interrelationships among the primary elements of the set.” (BALDWIN; CLARK, 2000, p. 11)
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Aqui reconhecemos a característica da pré-fabricação, um aspecto usual em mais diversas indústrias (e que, no campo da arquitetura, já estamos familiarizados). É também interessante pensar na asso- ciação com a parábola dos dois relojoeiros, onde mesmo uma produção completamente artesanal é benefi ciada pela efi ciência de uma estrutura modular.
Em relação a modularidade no uso, no livro ela é especifi cada como uma propriedade que viabiliza a combinação de elementos (módulos) para montar um produto fi nal de acordo com os interesses e necessidades do consumidor (usuário). Como um exemplo eles apresentam os elementos para compor uma cama - estrutura, colchão, lençóis, etc. Embora pouco profundo e provavelmente não o melhor exemplo, aqui nota-se um ponto interessante em relação a padronização de mercado de certos elementos que pode possibilitar a criação de sistemas modulares mais interessantes e elabo- rados. Os próprios autores sugerem que a modularidade no uso pode levar à inovação. De qualquer forma, modularidade no uso pode ser encarada com maior profundidade e complexidade, e a própria teoria de Baldwin e Clark é capaz de fornecer uma base útil para outras explorações nessa área - que pode inclusive desafi ar a separação rígida entre design. produção e uso.
Ecoando a teoria da quase decomponibilidade de Herbert Simon, duas ideias estão incluídas nesse conceito geral de modularidade (BALDWIN; CLARK, 2000). A primeira é a noção de módulos com independência externa e interdependência interna. Um módulo é uma unidade na qual seus elementos estruturais estão muito conectados - funcionando internamente como um sistema holístico completo - e relacionados de maneira relativamente fraca com os elementos que estru- turam outras unidades. Ou seja, módulos são unidades em um sistema maior, estruturalmente independentes umas das outras, mas que funcionam em conjunto. O que possibilita tanto a inde- pendência estrutural como a integração do funcionamento é o enquadramento lógico do sistema maior - que é chamado de arquitetura do sistema.
A segunda ideia que está incorporada nesta noção de modularidade, é resumida pelos autores (BALDWIN; CLARK, 2000) pela combinação de três termos: abstração [abstraction], ocultamen-
to de informação [information hiding]22, e interface. O que eles apontam é que um sistema com-
plexo pode ser gerenciado dividindo-o em pedaços menores que podem ser vistos separadamente. Quando a complexidade de um desses elementos ultrapassa um certo nível, ela pode ser isolada pela defi nição de uma abstração que possui uma interface simples. Enquanto a abstração oculta a complexidade do elemento, a interface indica como o elemento interage com o sistema maior. Partindo da ideia de que um sistema complexo possa ser dividido dessa maneira, a pergunta que surge é como é possível realizar essas divisões sem destruí-lo? Como encontrar os lugares de “di- visão natural”, os pontos de articulação23? Esse é o papel da modularização: defi nir onde, em um
22 Este princípio deriva de um trabalho do engenheiro de software canadense David. L. Parnas na década de 1970
Figura 1.3 Representação de uma hierarquia de design com quatro módulos ocultos e três níveis de visibilidade
Imagem: (BALDWIN; CLARK, 2000, p. 76)
mar de interdependências, se estabelecem blocos com diferentes graus e intensidades de relação internas e externas. Um sistema modularizado permitirá que subsistemas possam ser considerados separadamente e, ainda sim, funcionar como um todo.
O próprio processo de tornar um sistema modular é uma atividade complexa e que se não for bem realizada pode levar a um sistema problemático ou inefi ciente. Com conhecimento das inter-rela- ções internas de um dado sistema é possível estabelecer uma estrutura modular através do particio- namento de informações entre parâmetros (de design) ocultos [hidden design parameters ou hidden
information] e regras (de design) visíveis [visible design rules ou visible information].