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3 PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

4.5 Outros estudos linguísticos

4.5.2 Moisés (1995)

Orientado por uma abordagem funcionalista, este trabalho trata do uso do artigo no português culto falado em Belo Horizonte tentando investigar algumas condições de ocorrência; além de estabelecer diferenças entre as funções do artigo-zero, do artigo definido e do artigo indefinido no discurso; tem por base o trabalho anteriormente citado de Du Bois (1980). Trata também de casos prescritos pela gramática tradicional como facultativos ou com princípios pouco claros ou imprecisos como a relação dos antropônimos com a idéia de intimidade ou familiaridade.

Parte-se da hipótese de que o uso do artigo, dentre outros fatores, é governado pelo conhecimento que tem o falante a respeito das informações de que dispõe o ouvinte; assim, a eficácia da comunicação depende do falante conseguir marcar, sem equívocos, cada um dos itens de sua fala.

O artigo é visto com relação ao que postulam as gramáticas tradicionais, destaca-se o caráter meramente descritivo delas que somente indicam a pertinência ou não do uso do artigo sem descrever as reais condições de seu funcionamento; o artigo é visto apenas como responsável pela determinação ou indeterminação do substantivo. De acordo com a autora, “para a compreensão do uso do artigo também são imprescindíveis, além de dados discursivos, informações ligadas ao tipo de nome ao qual o artigo se liga.” (MOISÉS, 1995, p.25). Esse tipo de tratamento também é dado ao emprego do artigo diante dos nomes próprios; nesse caso, as gramáticas postulam que o seu uso funciona como um índice de intimidade de tratamento com a pessoa referida, o que é insuficiente, uma vez que um mesmo

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“They left to pick pears yesterday, but the pears were green and they weren't sold.” (DU BOIS, 1980, p.221) tradução nossa

falante referindo-se a uma mesma pessoa para um mesmo ouvinte pode usar ora artigo, ora não. Em seguida, o artigo é analisado pelo prisma do discurso; essa análise parte do estudo de Du Bois (1980) que demonstra que a garantia da continuidade da identidade dos referentes é assegurada pelo emprego de recursos específicos, tendo destaque especial os artigos.

O corpus compõe-se de dois conjuntos de textos orais de naturezas distintas: o primeiro formado por 10 narrativas orais referentes a um filme de curta-metragem produzido para esse fim (num total de 50 minutos de gravação) e, o segundo, por 30 minutos de gravação de conversa espontânea envolvendo 6 falantes; todos os informantes têm formação universitária, idade entre 21 e 39 anos e são residentes em Belo Horizonte há, pelo menos, 8 anos. Foi verificado o ambiente sintático-oracional de figuração do artigo, catalogando todas as ocorrências que, em seguida, foram separadas e quantificadas para depois serem analisadas. A autora deixa claro que pretendeu verificar a pertinência, para o português, da seguinte afirmativa de Du Bois:

O uso do artigo indefinido, numa 1ª menção, maracá a não-identificabilidade do referente e estabelece um arquivo na “consciousness” do ouvinte. A abertura de um arquivo tende a levantar a expectativa de que o arquivo continuará a ser usado. Isso, porém, pode não acontecer. Parece, então, ser importante sinalizar casos em que o arquivo terá pouca ou nenhuma utilização. Assim, parece haver uma certa tendência a se utilizar o pronome indefinido (alguém, alguns) mais do que o artigo indefinido para marcar a introdução de um participante não-importante, sobre o qual não se falará muito (DU BOIS, 1980, p. 221 apud MOISÉS, 1995, p. 87)

Os dados analisados levaram a autora a constatar que: (i) itens novos recusam o artigo definido numa primeira menção, a não ser que as informações necessárias à sua identificação sejam fornecidas, logo em seguida, através de oração relativa ou locução adjetiva; (ii) itens dados ou absolutamente inferíveis ou pressupostos não se usam com o artigo definido; (iii) itens ligados a frames ativados pelo falante podem receber, numa primeira menção, tanto marcas definidas quando indefinidas.

Apenas o segundo corpus registrou ocorrências significativas de nomes próprios com ou sem artigos, sendo apenas desse corpus os dados contendo antropônimos analisados abaixo. Encontram-se nos dados 76% de ocorrências de artigo definido antes de nomes próprios contra 24% de artigo-zero; constata-se que o artigo definido com nome próprio de pessoa não é regulado pelo princípio da intimidade/familiaridade como os gramáticos normatizam; uma vez que um mesmo falante pode, num dado contexto discursivo, usar um mesmo nome próprio ora articulado, ora não articulado. Percebe-se uma tendência ao emprego do artigo definido junto ao antropônimo, mais nitidamente flagrada quando esse ocorre à esquerda do verbo: “o SN1 com N próprio de pessoa, com a função de sujeito ou de

tópico de sentença, recebe mais facilmente a marca do Art Def.” (MOISÉS, 1995, p. 144- 145).

Quanto ao SN-tópico, todos os casos registrados com nomes comuns incluem-se em casos de SNs dados, o que, como já expresso para o nome comum determina o uso de artigo definido. Por outro lado, foram significativos os números referentes ao SN-tópico com nome de pessoa, todos eles articulados. Percebe-se que quando à esquerda do verbo, o antropônimo tende a ocorrer articulado, havendo uma tendência atual do português de Belo Horizonte ao uso do artigo definido junto ao nome próprio de pessoa.

4.5.3 Callou e Silva (1997) e Callou (2000)

Em Callou e Silva (1997), o uso do artigo é analisado em dois contextos: possessivos e nomes próprios, tentando traçar, entre eles, um paralelo; toma-se por base corpora de língua escrita, textos de Portugal e Brasil e corpora de língua oral, falantes com curso universitário completo das cidades de Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife, relacionados com o Projeto NURC/Br.

O fenômeno é visto como não estigmatizado nem valorizado socialmente, prendendo- se “não só a aspectos teóricos sobre definitude, mas também à questão da mudança linguística, razão pela qual se observa a sua evolução através dos tempos” (CALLOU e SILVA, 1997, p.12). A hipótese inicial era de que “o uso variável do artigo nesses contextos estaria relacionado a princípios comuns, reduzindo-se os dois fenômenos, a um só, (....)”.(CALLOU e SILVA, 1997, p.13) o que pode ser explicado por fatores de natureza semântica e pragmática.

Ao se observar o contínuo diacrônico, as autoras perceberam que o uso do artigo diante de nomes próprios cresce gradativamente do século XIV até os nossos dias e que é nos últimos três séculos que se processa um aumento significativo, apresentando maior frequência tanto no Brasil quanto em Portugal, sendo o uso do Brasil maior do que o de Portugal.

Em análise mais recente do corpus oral, ampliando as entrevistas do projeto NURC nas cinco capitais brasileiras já citadas, segundo a metodologia da sociolinguística variacionista quantitativa laboviana e utilizando o programa computacional VARBRUL, foram estabelecidos como grupos de fatores que favoreceram o uso do artigo: a) a presença de preposição; b) função sintática; c) grau de familiaridade; d) região de origem; e e) prosódia.