1 CAPÍTULO I – “VANTAGEM” OU “DESVANTAGEM” DO BILÍNGUE NO COMPLEXO JOGO
1.5 Money makes the world go around
A teoria de que o bilinguismo pode acarretar “vantagens sociais” ao bilíngue, não pode excluir
uma questão fundamental das variáveis desse complexo sistema social: as possíveis vantagens
econômicas do mercado, seja ele da economia de um país bilíngue como um todo, seja do
mercado educacional, ou do de trabalho. Essas “vantagens” do biletramento teriam caído no
senso-comum dos empresários donos de escolas, que decidiriam por investir seu dinheiro em
uma instituição de ensino com estrutura diferenciada e profissionais especializados, bilíngues
ou multilíngues? Dos alunos ali matriculados, os quais acreditariam haver uma vantagem em
estudar ali? Dos pais de alunos mais novos que não podem ainda optar por seus estudos
sozinhos? Dos próprios professores que investem em sua formação em mais de um idioma? E,
finalmente, dos profissionais do mercado de trabalho que posteriormente contratarão os
78 “With regard to language, expert and lay opinions are frequently poles apart, but what is often not perceived or fully appreciated is that the so-called lay opinion of today is nothing but the expert opinion of yesteryears.”. Tradução nossa.
bilíngues caso acreditem que isso acarreta em algum tipo de vantagem? Essas ideias de o
ensino feito em pelo menos dois idiomas acarretar em vantagens de ordem socioeconômicas
aos bilíngues estão em nosso questionário de pesquisa (vide Capítulo 4 onde estão as
justificativas das perguntas, ou ANEXO 1 para as questões em todos os idiomas). Perguntamos
aos entrevistados se eles acreditam que o ‘Ensino Bilíngue’ seja mais caro do que o regular, se
isso é justificado para eles e se os entrevistados acreditam que os bilíngues recebem
necessariamente melhores salários dos que os monolíngues.
Mais uma vez deparamo-nos com a ideia de haver uma “vantagem bilíngue” e desta ter caído
no senso-comum dos cidadãos, dessa vez, porém, o que nos interessa é o viés econômico o
que nos fez procurar publicações dessa ordem na mídia. Quando retomamos a publicação de
Danielsson (2017) Os benefícios de se falar mais de uma língua, devemos nos recordar que ela
foi feita para o Fórum Econômico Mundial. A autora, como vimos, percorre todo o caminho
esmiuçado nessa tese: pesquisa sobre as supostas “desvantagens/vantagens” bilíngues até
chegar aos trabalhos mais recentes que apontam para vantagens de ordem social como vimos
nas seções anteriores desse capítulo.
O que nos chamou a atenção, porém, foi a subdivisão em seu texto intitulada O caso de
negócios para o bilinguismo
80. Cabe aqui explicar que “um caso de negócio” (business case) é
proveniente da Área de Administração e pode ser definido como uma “Justificativa para um
gasto significativo. O caso de negócio inclui informação sobre custos, benefícios, opções,
imprevistos, riscos e possíveis problemas
81”. Somente pelo subtítulo do artigo – O caso de
negócios para o bilinguismo – e pela definição de “caso de negócios”, podemos inferir que
somente pela existência de um caso de negócio ligado ao bilinguismo já é relativamente aceito
na área econômica que ele seja considerado um negócio, com seus riscos, custos, benefícios,
revezes, planos de investimento, tempo de retorno do investimento, porcentagens de lucro etc.
Isso torna-se ainda mais evidente em uma breve pesquisa feita via Google. Se colocamos para
procura “bilingualism cases” aparecem “aproximadamente 894.000 resultados (0,40
segundos)
82. Em português, quando colocamos “caso de negócio bilinguismo” são encontrados
80 “The business case for bilingualism”. Tradução nossa.
81 CASO DE NEGÓCIO. Disponível em: < http://www.pmgacademy.com/pt/glossario-itil/68-caso-de-negocio>. Acesso em 25 de mar 2018.
82 BILINGUALISM CASES. Buscador Google. Disponível em: < https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl>. Acesso em 25 de mar 2018.
195.000 resultados (0,42 segundo). Obviamente que no caso do Google sabemos que a
pesquisa procura por artigos, reportagens, propagandas entre outros, que contenham as
palavras “bilingualism” ou “cases” em inglês; e “caso”, “negócios” e “bilinguismo” em português
respectivamente, sendo de nosso conhecimento que esses resultados não estão
necessariamente somente ligados à área econômica.
Embora esta tese não esteja inserida na Área de Economia, acreditamos ser contribuinte para
uma visão holística da condição bilíngue uma opinião que venha dessa área do conhecimento.
Dessa maneira, usaremos principalmente a já referida publicação de Danielsson, que cita
pesquisas relevantes na área, para ilustrar essa questão de vantagem/desvantagem econômica
ligada ao bilinguismo, uma vez que esse texto foi utilizado no Fórum Econômico Mundial de
2017. Vemos no texto um levantamento de estudos realizados em países pelo menos bilíngues
oficialmente como a Suíça (que tem as línguas oficiais alemão, francês e italiano), o Canadá
(inglês e francês), a Índia (hindi, inglês e mais 20 línguas reconhecidas) e a Grã-Bretanha (o
inglês, o escocês, o galês, o irlandês e o cornês).
Quando se levam em consideração estudos como o Índice de Proficiência em Inglês EF (EF
EPI) “se realçam as recompensas financeiras associadas ao bilinguismo ou multilinguismo em
todos os níveis
83”, segundo a autora e os estudos apresentados, altos índices de proficiência
em inglês são apontados como financeiramente recompensadores em bilíngues ou multilíngues
e as recompensas financeiras dão-se em todos os níveis. Já um estudo suíço “constatou que o
multilinguismo é estimado em contribuir em 10 por cento do PIB, provando que as habilidades
linguísticas dos trabalhadores abrem mais mercados para os negócios suíços, favorecendo
consideravelmente a economia como um todo
84” (DANIELSSON, 2017: s/p).
As desvantagens econômicas naqueles países menos abertos às pessoas bilíngues ou
multilíngues são igualmente sentidas na economia. Na Grã-Bretanha o custo da chamada
stubborn attachment
85,em uma tradução livre, uma “fixação teimosa” à língua inglesa, que pode
83 “The benefits of bilingualism don’t end there, however. Studies in Switzerland, Britain, Canada and India, as well as our very own EF English Proficiency Index (EF EPI), highlight the financial rewards associated with bilingualism or multilingualism at all levels.” Tradução nossa.
84 “A Swiss study, for example, noted that multilingualism is estimated to contribute 10 percent of Switzerland’s Gross Domestic Product (GDP), proving that the language skills of workers open up more markets to Swiss businesses, greatly benefiting the economy as a whole.”. Tradução nossa.
85 Stubborn attachment - “A noção que melhor ilustra a necessidade de uma ‘falsa’ (‘unilateral’, ‘abstrata’) escolha em curso de um processo dialético é o de “fixação teimosa”; esta noção ambígua mais aprodundada é operante ao
ser expressa como uma falta de vontade de se investir de maneira significativa no aprendizado
de outras línguas, foi estimada em perdas de impressionantes 48 bilhões de libras ao ano, ou
3.5 por cento do PIB
86. (DANIELSSON, 2017: s/p).
Outros números interessantes estão ligados ao bilinguismo e às habilidades linguísticas de
trabalhadores para os negócios, sendo que foram consideradas as habilidades tanto em uma
língua falada em um novo mercado em expansão, quanto no próprio inglês – uma das línguas
francas globais da atualidade, uma considerada tão importante quanto a outra. Em uma unidade
de estudo de Inteligência Econômica de 2014 (Economist Intelligence Unit study), quase 90%
dos gerentes disseram que na opinião deles o fato de se ter melhor comunicação internacional
geraria um melhor resultado (bottom line) no negócio. Outro estudo da unidade reportou que
79% das empresas que haviam investido em habilidades de seus trabalhadores em inglês
tiveram aumento em suas vendas. Um último dado destas pesquisas levantadas por Danielsson
é sobre os gerentes bilíngues, os recrutadores e os líderes da indústria, como vemos no
excerto: "Gerentes bilíngues ou multilíngues também são valorizados e procurados em um
crescente. Os recrutadores e líderes da indústria consideram que eles estão melhor equipados
para gerenciar negócios globais, relacionamentos e times”
87(DANIELSSON, 2017: s/p). Vale a
ressalva que Danielsson levantou mais algumas vantagens de ordem social nesse dado por ela
trazido: gerenciamento dos negócios, gerenciamento de habilidades de relacionamento e dos
times de trabalho; todos ligados às supostas vantagens sociais que o bi-multilinguismo teriam.
Finalmente, o levantamento de Danielsson (2017: s/p) menciona os benefícios econômicos do
bilinguismo no nível individual. Segundo a autora, esses são mais difíceis de quantificar
principalmente porque dependem da indústria, do local e da taxa de emprego. Ela cita um
estudo canadense de 2010 que mostrou que os trabalhadores bilíngues recebiam de 3 a 7% a
largo de toda a Fenomenologia de Hegel. Por outro lado, ela representa uma ligação patológica a algum conteúdo em particular (interesse, objeto, prazer...) menosprezada pelo julgamento moral da consciência.”. (ZIZEK, 2000: 103). Tradução nossa.
86 “In Britain, on the other hand, the cost of the country’s stubborn attachment to the English language and unwillingness to significantly invest in learning other languages, has been estimated to be as high as £48bn a year, or a staggering 3.5 percent of GDP.” Tradução nossa.
87 “For businesses, the language skills of their workers – be it a language spoken in a new market they’re expanding to, or English, the global lingua franca – are just as important. In an Economist Intelligence Unit study, quoted in the 2014 EF EPI, nearly 90 percent of managers said that better cross-border communication would improve the bottom line, while another study noted that 79 percent of companies that had invested in the English skills of their workers, had seen an increase in sales. Bilingual or multilingual managers are also increasingly valued and sought after. Recruiters and industry leaders consider them to be better equipped to manage both global business relationships and teams.”. Tradução nossa.
mais do que seus colegas monolíngues, mesmo que eles não precisassem utilizar a outra
língua nacional em seus trabalhos. Já nos EUA, os estudos apontam para um aumento de
ordem de 1,5 - 3,8%, sendo que aqueles que falam alemão são mais valorizados, tanto pela
escassez desses profissionais, quanto devido à importância global alemã nos negócios
mundiais. Por fim, na Índia, essa diferença salarial é mais notada e bonificada, com aqueles que
falam inglês recebendo em média até 34% mais por hora trabalhada
88.
Na reportagem há o seguinte gráfico
89da revista The Economist que projeta as gratificações
ligadas às línguas acumuladas entre os anos de 2014 e 2054 em euros. Essas gratificações
chegarão a mais de 125.000 euros quando relacionadas ao alemão; 75.000 ao francês; e
aproximadamente 50.000 ao espanhol.
88 “At the individual level, the benefits of bilingualism are a little harder to quantify, mainly because they depend on industry, location and level of employment. A 2010 study in Canada, for example, showed that bilingual workers earned between 3-7 percent more than their monolingual peers. Speaking both of the country’s official languages – English and French – helped people earn more, even if they weren’t required to speak that second language on the job. In the US, studies have shown that speaking a foreign language can increase your salary by (at least) 1,5-3.8 percent, with German skills having the highest value due to their relative scarcity and Germany’s importance to global trade. In India, this premium was even more notable, with those who spoke English earning, on average, 34 percent more per hour.”. Tradução nossa.
89 Figura 2 – ACCUMALATED LANGUAGE BONUSES. The Economist. Disponível em:
<https://www.weforum.org/agenda/2017/04/the-benefits-of-speaking-more-than-one-language/>. World Economic Forum. 10 abr 2017. Acesso 15 mar 2018.
Figura 2 – Previsão de bônus acumulado por língua em euros.
Sendo as línguas parte da faculdade humana da linguagem e intrinsecamente sociais, partes
integrantes e representativas das culturas das quais emergiram, a ideia de um ganho social
econômico do bilíngue vai ao encontro das nossas expectativas de que o bilinguismo pode ser
considerado senão uma vantagem cognitiva, por ser essa vantagem ainda algo controverso,
uma vantagem de conhecimento que reflete-se em ganho financeiro. Em outras palavras, a
vantagem seria algo que pode ser aprendido pela vasta maioria dos humanos e, em última
instância, uma vantagem do mundo da cultura, não algo inato, biológico, ou em concordância
com uma visão essencialista. Encontramos em nossa pesquisa essa tendência, por parte de
alguns cientistas, que aponta para a possibilidade de que se instaure um novo paradigma, ou
seja, um paradigma em que a possível vantagem bilíngue pode (também) estar atrelada a
ganhos sociais
.Como exemplificado aqui, já são encontradas nos meios de comunicação tais
visões, por meio de reportagens e matérias jornalísticas. Tais evidências e reflexões fazem com
que possamos, assim, começar a pensar em “vantagens sociais do bilinguismo”, sendo essa
uma de nossas perguntas de pesquisa (vide ANEXO 1 ou Capítulo 4): indagamos se nossos
entrevistados acreditam que haja vantagens de ordem sociais (além das já mencionadas
vantagens econômicas) ao se falar mais de um idioma.
No próximo capítulo faremos uma reflexão sobre a língua como fundadora do contexto social
humano, sendo parte essencial da identidade (cultural) dos indivíduos e dos povos, e como
subjacente às questões econômicas em que nos inserimos, por um viés amplo em que as
Ciências se entrecruzam.
CAPÍTULO II – COMO A LÍNGUA FUNDA O CONTEXTO SOCIAL: QUESTÕES DE
IDENTIDADE (CULTURAL) E QUESTÕES ECONÔMICAS
About multilingualism:
Many Americans have long been of the opinion that bilingualism is ‘a good thing’ if it was acquired via travel (preferably to Paris) or via formal education (preferably at Harvard) but that it is a ‘bad
thing’ if it was acquired from one’s immigrant parents or grandparents. 90
(FISHMAN)
As Ciências Humanas, as Biológicas e as Exatas foram separadas recentemente conforme já
discutido na Introdução desta tese, entre outras razões, para que os estudos dessas áreas
fossem facilitados e aprofundados. Essas Ciências, porém, inevitavelmente mantêm interseções
e cruzamentos, seja por meio de seus autores, ou por meio de algum tema específico inter ou
transdisciplinar. Mas é a língua, fator comunicacional social comum entre todas elas, que
proporciona tais confluências. Por meio da língua é que conseguimos entender o que um
estudioso de uma área distinta da nossa área de atuação, ou de interesse, diz. O que propomos
nesse Capítulo 2 é manifestar, nem que seja de maneira breve, que as Ciências, principalmente
as biológicas, e o discurso que a ela subjaz, não estão reduzidas às questões e às ideias
defendidas nos paradigmas científicos. Por isso traremos aqui reflexões acerca de língua e
linguagem, cultura e identidade que entrelaçam as áreas biológicas e humanas por meio de
alguns autores que transitam entre essas Ciências.
Como já vimos brevemente nas partes anteriores dessa tese, um mesmo fenômeno quando
estudado pelo prisma de uma área, científico ou ordinário, pode ter explicações diferentes de
quando o mesmo fenômeno é abordado por outra área do conhecimento. Isso ocorre,
fundamentalmente, porque dá-se o alinhamento ao pensamento dessa área específica, fazendo
com que ele fique submetido aos paradigmas e ao discurso vigente daquele segmento do
conhecimento. O único elemento capaz de nos fazer compreender o que não é de nosso
domínio, por conter especificidades desconhecidas, é o artefato comum da língua. Por essa
razão, faremos uma reflexão sobre a língua e a linguagem que unifique algumas meditações
sobre o tema interligando principalmente as áreas biológicas e as humanas porque acreditamos
que as subdivisões do conhecimento, embora necessárias, sejam posteriores ao conhecimento
90 Sobre o multilinguismo: Muitos norte-americanos há muito tempo têm a opinião de que o bilinguismo é uma
‘coisa boa’ se foi adquirido em uma viagem (preferencialmente à Paris) ou por meio da educação formal (preferencialmente em Harvard), mas que é uma ‘coisa ruim’ se foi adquirido dos pais ou avós de um imigrante. (FISHMAN). Tradução nossa.