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1 CAPÍTULO I – “VANTAGEM” OU “DESVANTAGEM” DO BILÍNGUE NO COMPLEXO JOGO

1.1 Quando ser bilíngue era considerado uma “desvantagem”

Quando se começou a estudar, investigar e observar os falantes bilíngues, os cientistas

iniciaram suas teorias pelas crianças. Na primeira metade do século XX, os pesquisadores

sobre o assunto tendiam a acreditar que o bilinguismo, tanto em concomitância quanto em

sequência, poderia trazer alguma espécie de “desvantagem” para as crianças em relação

àquelas que aprendiam apenas uma língua, devido basicamente ao momento biológico inicial,

de formação cerebral em que ela se encontrava no momento da aprendizagem. Esse

paradigma ficou conhecido como a “desvantagem do bilíngue” e perdurou até o século XXI, ou

seja, ainda hoje encontramos pessoas que acreditam que um falante pode ter malefícios por ser

exposto a duas línguas.

Encontramos em estudos recentes de pesquisadores brasileiros como Limberger e Buchweitz,

ambos da PUCRS, que o paradigma recorrente era aquele em que o bilinguismo era tido como

causador de uma “desvantagem”: “As pesquisas mais antigas sugeriam uma “confusão mental”

nos bilíngues, tratando-os com inferioridade”; eles dizem que a pesquisa de Saer de 1923

falava em “confusão mental” e a de Goodenough de 1926 mencionava o “retardo” como

possíveis desvantagens do bilinguismo (LIMBERGER & BUCHWEITZ, 2012: 68). A ideia

recorrente ligada à “desvantagem bilíngue” é a de que, principalmente os imigrantes - ao

manterem a língua mãe em casa - teriam algum tipo de impedimento para a integração escolar,

o que, provavelmente, levaria à confusão, retardo ou até regressão acadêmica.

A conhecida pesquisadora canadense Ellen Byalistok (2013) publicou centenas de artigos

científicos e dezenas de livros para o público em geral, como veremos ao longo dessa tese. Em

um de seus artigos Bilinguismo: consequências para a mente e para o cérebro

22

encontramos,

na conclusão do artigo, um trecho de Goodenough para justificar como o paradigma ainda

persiste no pensamento de algumas pessoas. Nele há a recomendação de se evitar a língua

materna nos seguintes termos:

Deve ser considerada como evidência que o uso de uma língua estrangeira em casa é um dos fatores principais da produção de retardo mental como medido por testes de inteligência. Uma explicação mais provável é a de que aqueles grupos de nacionalidade cuja habilidade intelectual média é inferior não

aprendam uma nova língua tão rapidamente 23. (GOODENOUGH, 1926: 393

apud BYALISTOK 2013: s/p).

Outros dois autores que ajudaram na consolidação do paradigma, Jespersen (1926) e Firth

(1930), demonstram como era o pensamento sobre o bilinguismo há pouco menos de um

século atrás. Suas reflexões, juntamente com as de Goodenough (1926), estão disponíveis em

uma página da University of Columbia

24

. Suas visões apontam para uma avaliação de

“desvantagem do bilinguismo”, mesmo que, a princípio, elogiem o bilinguismo. Jerspersen

afirma:

É, obviamente, uma vantagem para uma criança ser familiar a duas línguas: mas sem dúvida a vantagem pode ser, e geralmente é prezada em demasia. Primeiramente a criança em questão mal aprende qualquer uma das duas línguas tão perfeitamente como teria feito se tivesse limitando-se a uma... Segundo, o esforço cerebral necessário para dominar as duas línguas ao invés

de uma certamente diminui o poder da criança de aprender outras coisas25

(JESPERSEN, 1922: s/p).

Firth também emite uma opinião que corrobora a opinião vigente de o bilinguismo acarretar em

uma desvantagem, como vemos pelo excerto:

O falante bilíngue médio, é verdade, tem duas cordas em seu arco – uma um pouco mais frouxa do que a outra... Todo homem culto necessita de uma

segunda língua e talvez uma terceira língua estrangeira – mas ele não

necessita ser bilíngue. O monolíngue tem a vantagem, e quão maior for a

22 “Bilinguism: consequences for mind and brain” Tradução nossa.

23 "This might be considered evidence that the use of a foreign language in the home is one of the chief factors in producing mental retardation as measured by intelligence tests. A more probable explanation is that those nationality groups whose average intellectual ability is inferior do not readily learn a new language." Tradução nossa.

24 CLASS 20. Firth, Jerspersen & Goodenough. University of Columbia. Disponível em: <http://www.columbia.edu/~lks16/bilingual.html>. Acesso em 08 maio 2018.

25"It is, of course, an advantage for the child to be familiar with two languages: but without doubt the advantage may be, and generally is, purchased too dear. First of all the child in question hardly learns either of the two languages as perfectly as he would have done if he had limited himself to one… Secondly, the brain effort required to master the two languages instead of one certainly diminishes the child’s power of learning other things."(Jespersen, 1922).

comunidade cultural naquela língua, maior será a vantagem. Como primeiro

princípio coloque sua fé na língua mãe26. (FIRTH, 1930: s/p).

As citações desses quatro autores refletem a maneira de ver o bilinguismo no início do século

XX. Saer (1923) fala em “confusão mental”; Jespersen (1922) afirma que a “vantagem em ser

familiar a duas línguas é prezada em demasia”, e ainda que o “esforço cerebral para dominar

duas línguas diminui o poder de aprender outras coisas”; Goodenough (1926) acredita que o

“uso de uma língua estrangeira em casa é um dos fatores principais da produção de retardo

mental como medido por testes de inteligência

”;

e, finalmente, Firth (1930) crê que “o

monolíngue tem a vantagem” acrescentando que “quão maior for a comunidade cultural naquela

língua, maior será a vantagem”. Nos ditos de Saer, Jerspersen e Goodenough as desvantagens

bilíngues apontam para problemas de funcionamento cerebral e de ordem cognitiva que seriam,

na visão deles e no senso-comum da época, causados pelo bilinguismo. Já a visão de Firth

aborda uma questão cultural e, portanto, uma desvantagem de ordem social.

O paradigma de haver uma “desvantagem bilíngue” não ficou isolado àquela época. Essa ideia

chegou até nós como vemos, muito mais recentemente, em um relatório da UNESCO –

Relatório do Desenvolvimento Humano 2004” – assinado pela psicolinguista da Universidade

de Paris, Ranka Bijeljac-Babi ‘C. A publicação da matéria na Revista Planeta, “Crianças

Bilíngues, o trunfo que alguns países ricos rejeitam” (2010) criticou esse paradigma vigente no

século XX. Por não ser de grande circulação como muitos dos demais meios midiáticos por nós

aqui trazidos, acreditamos ser relevante, primeiramente contextualizar a Revista Planeta. É uma

publicação brasileira que tem a palavra transformação como uma de suas palavras-chave. A

sustentabilidade, a tecnologia, questões ambientais e de responsabilidade social também são

temáticas recorrentes nas plataformas impressas e da web. Mensalmente há a publicação de

pesquisas da UNESCO sobre Patrimônios da Humanidade, Educação e Ciência que servem

como base tanto para pesquisadores das diversas áreas como para os leitores comuns que se

interessem pelas temáticas, sendo o bilinguismo uma delas.

26 "The average bilingual speaker, it is true, has two strings on his bow — one rather slacker than the other… Every cultured man needs a second and perhaps a third foreign language — but he need not be bilingual. The unilingual has the advantage, and the bigger the cultural community in that language the bigger the advantage. As first principle, pin your faith to the mother tongue." (Firth, 1930). Tradução nossa.

Essa antiga ideia de evitar-se o bilinguismo por acarretar “desvantagens” levou a orientações de

ordem educacional por parte de governos no século XXI que incentivavam que a língua

estrangeira fosse evitada no convívio doméstico. A autora Bijeljac-Babi ‘C discute esse aspecto

em sua reportagem à Revista Planeta afirmando que ao privar os filhos de imigrantes de

falarem suas línguas maternas em casa, cria-se um modelo de conflito entre o que é vivido na

família e na sociedade, havendo um problema de identidade nesses imigrantes. Bijeljac-Babi ‘C

chama o desprezo pelas línguas maternas de “rejeição ao bilinguismo”. Outro aspecto ali

discutido em relação a suposta “desvantagem” que o bilinguismo traria é a ressalva de que há

nas sociedades valorização ou desvalorização social de status linguístico das línguas, quer

dizer, há línguas que são valorizadas e têm seus status aumentados e outras que são

diminuídas, o que faz com que nem todo bilinguismo seja bem visto em todas as sociedades,

como fica claro no excerto:

Isso também implica que o bilinguismo não é visto como um bem, mas uma desvantagem, um obstáculo ao êxito da educação e da integração, sobretudo quando as línguas consideradas, como o árabe, o chinês ou o russo, são ridiculamente chamadas de “raras”. Se as línguas consideradas são “socialmente valorizadas”, como o inglês ou o alemão, o bilinguismo torna-se um símbolo da elite! (BIJELJAC-BABI ’C, 2010: s/p).

Como veremos no subitem 1.4 deste capítulo, a mudança mais atual do paradigma parece

pender para algum tipo de vantagem de ordem social para os bilíngues, tal qual aponta o trecho

aqui mencionado. Antes de nos aprofundarmos nessa mudança de perspectiva do paradigma

em questão voltemos à suposta desvantagem que o bilinguismo acarretaria a seus falantes.

Vimos até aqui que essa tendência de apreciação negativa do bilinguismo presente entre os

pesquisadores e estudiosos do século passado pode ter ultrapassado as fronteiras da Ciência e

influenciado a sabedoria transmitida pelas pessoas comuns fazendo com que a ideia de que o

bilinguismo colocava uma criança/pessoa em “desvantagem” se propagasse. Os cientistas e a

mídia da época, tal qual ainda ocorre hoje, publicavam estudos que apontavam para atrasos de

ordem cognitiva e mental, para danos ao desenvolvimento geral dos falantes, para problemas

de ordem de integração e adaptação cultural, entre outros problemas ligados ao bilinguismo.

Aqueles que tinham uma língua materna diferente da falada no país em que viviam, por muitas

décadas, comumente deparavam-se, tanto na mídia quanto na Ciência, com a propagação da

ideia de que línguas estrangeiras deveriam ser evitadas tanto em casa quanto na sociedade

para evitar os citados transtornos e problemas.

Se observarmos mais atentamente, até mesmo hoje, e nas décadas mais recentes, o

bilinguismo ainda é capaz de causar desaprovação e preconceitos diversos, pois as ideias mais

acreditadas por quase um século são as de que só haveria espaço para uma língua no cérebro

e que o bilinguismo traria problemas para a expansão do Q.I. e para o desenvolvimento verbal e

a convivência social, principalmente em crianças. Isso significa dizer que o bilinguismo até o

século XX era visto tanto pelos educadores como pelos implementadores de políticas

educacionais como um fator que dificultava ou prejudicava o desenvolvimento acadêmico e

intelectual de uma criança e um fator de limitação - social, cognitiva, ou outra - entre os adultos.

O jornalista Tobias Jones (2018: s/p), do tradicional jornal diário britânico The Guardian,

também faz uso da mesma publicação do influente pesquisador da área educacional,

Goodenough, de 1926, sendo o trecho já mencionado um dos mais citados tanto pela mídia

quanto pelas pesquisas de cunho científico. O jornalista em seu artigo jornalístico afirma o

seguinte sobre a sabedoria estabelecida e a crença nas desvantagens do bilinguismo no século

XX:

Até décadas recentes, o bilinguismo era fortemente reprovado e considerado deletério para o desenvolvimento. A sabedoria estabelecida transmitida por muito tempo durante o século XX era a de que havia espaço somente para uma língua no cérebro de uma criança. Acreditava-se que se, por exemplo, os imigrantes mantivessem sua língua materna em casa, isso impediria a integração na escola e que provavelmente os levaria à regressão acadêmica e

confusão27 (JONES, 2018: s/p).

E para ilustrar como a língua materna era vista como algo negativo, há um outro trecho em que

Jones fala que ela era desaconselhada não somente na esfera educativa, por professores e

políticas públicas, mas na esfera social como um todo, sendo evitada no meio público por ser

considerada uma fonte de vergonha, ou um sinal de pobreza ou ainda motivo de bullying:

A saída de evitar-se a língua materna não era simplesmente educacional, mas também social: a língua de casa era invariavelmente considerada uma fonte de vergonha, um sinal de pobreza ou diferença que na maioria das vezes levaria a

ser apontado ou a sofrer bullying. Para os imigrantes, a integração costumava

implicar em esquivar-se deliberadamente da língua de seus pais, pelo menos

em qualquer ambiente público28 (JONES, 2018: s/p).

27 “Until recent decades, bilingualism was deeply frowned upon and considered deleterious to development. The received wisdom for much of the 20th century was that there was really only space for one language in a child’s brain. It was thought that if, for example, immigrants maintained a mother tongue at home, it would impede integration at school and probably lead to academic regression and confusion.”. Tradução nossa.

28The choice to avoid the mother tongue wasn’t simply an educational, but also a social, one; the home language was invariably considered a source of shame, a sign of poverty or difference that would almost certainly lead to being singled out and bullied. For immigrants, integration used to imply the deliberate avoidance of your parents’ language, at least in any public setting.”. Tradução nossa.

Acreditamos ser relevante destacar que até mesmo quando era apontada como uma

desvantagem, as considerações de ordem social acarretadas pelas línguas são consideradas

proeminentes como vimos pelo trecho de Jones.

Podemos perceber que demorou muito tempo para que a ideia de o bilinguismo ser uma

“desvantagem” aos falantes começasse a ser discutida e até refutada. Tanto cientificamente por

meio de argumentação de possíveis danos cerebrais, quanto educacionalmente e socialmente a

língua materna, ou segunda língua, quer dizer, praticar um idioma diferente do idioma em uso

em um país era, e em muitas culturas ainda é considerado, aceito e difundido como uma fonte

de vergonha, um sinal de pobreza – social, linguística, intelectual, econômica, etc. – ou uma

fonte de algo que causa a diferença entre os falantes.

Isso provavelmente leva a alguma forma de discriminação, e talvez por isso ainda haja políticas

públicas, incentivos, ou discursos de ódio que propagam que se deve eliminar o uso de outra

língua. As ideias de supremacia e superioridade racial/cultural e quiçá até linguística ou social

também eram comuns e perduraram por séculos ou milênios. Tais aspectos serão abordados

no Capítulo II, que abarca questões sociais e de identidade. Vale ressaltar que essas ideias de

haver uma suposta desvantagem não eram assustadoras a quase ninguém no passado

recente, afinal elas eram consequência de uma maneira de viver em que as comunidades

linguísticas e culturais eram bem mais isoladas do que atualmente, antes do advento da Internet

e da facilidade em viajar-se pelo mundo. O início da mudança nessa forma de agir e pensar é

muito recente na História da Humanidade e ainda gera debates e conflitos conforme veremos

nos próximos subitens desse capítulo.

1.2 Início da mudança do paradigma: quando o bilinguismo passou a ser visto como uma