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Monocultivos florestais e conflitos sócio-ambientais

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (páginas 189-193)

Segundo as fontes utilizadas em nosso trabalho os conflitos em torno dos monocultivos de espécies florestais de rápido crescimento, já estavam presentes no início desses empreendimentos. Os embates de Navarro e os agrônomos silvicultores que defendiam o código florestal podem ser vistos como o início desses conflitos.

Os empresários do setor florestal (madeireiro) nunca aceitaram regras de controle do Estado em sua expansão, muito embora sempre contassem com os incentivos e o apoio do Estado. Os conflitos sócio-ambientais já estão presentes na segunda fase da silvicultura nacional iniciada em 1910 por Navarro, em São Paulo, onde os monocultivos de árvores, principalmente de eucalipto – que foram caracterizados aqui em nosso trabalho como ponta moderna da agricultura –, não aceitavam acordos que também favorecessem os pequenos agricultores nas regiões em que atuavam. Os problemas socio-ambientais se aprofundaram ao longo do processo de expansão dos monocultivos florestais e da extração ilegal de madeiras, mas podemos observar que já estavam presentes na origem destes empreendimentos no Brasil. Não podemos esquecer que o setor florestal brasileiro vivia basicamente da extração de madeiras em matas nativas e com ausência de políticas de proteção, e mesmo com a promulgação do Código Florestal de 1934 sua implementação não surtiu o efeito esperado pelos seus defensores.

O processo de construção e consolidação do setor florestal no país, como vimos, levou a um drástico aumento da concentração fundiária, da violência no campo, do êxodo rural e da pressão sobre os recursos naturais. Estes são dados comprovados tanto por relatórios de organismos governamentais – INCRA, IBGE, IBAMA, dentre outros – quanto não governamentais – como FASE, FETAGRI, MST, STRs, dentre outros –. Segundo esses relatórios, existem mais de 250

companhias de polpa e papel em todo o país. Em 2006, 61% das terras com monocultivos para uso industrial de papel e celulose estavam concentradas, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Celulose e Papel (BRASELPA),312 nos seguintes estados: Bahia, com 340 mil hectares; São Paulo, com 384 mil hectares; Minas Gerais, com 176 mil hectares; e Espírito Santo, com 130 mil hectares. Nestas áreas estão concentradas as indústrias nacionais à base de madeira, sendo que as de papel se concentram basicamente em São Paulo, e as de celulose, nos outros estados 313.

Podemos perceber nestes dados a desconcentração das plantações, que na década de 1970 se concentrava em Minas Gerais e Espírito Santo, com produção de madeira basicamente para celulose. Acreditamos que esta desconcentração esteja relacionada às estratégias de expansão do capital, tentando ocupar cada vez mais terras agricultáveis em outras regiões, mas acreditamos que há outra forte razão para essa desconcentração, que são os movimentos sociais que lutam contra os monocultivos florestais, e que nos últimos anos vêm se fortalecendo, crescendo em suas reivindicações e questionamentos, atuando principalmente nesses dois estados, pressionando as empresas florestais que aí se instalaram, denunciando os prejuízos causados aos ecossistemas e às populações rurais, na expansão dos monocultivos de eucalipto sobre matas e terras agricultáveis.

O relatório publicado pela FASE, em 2003, utilizando informações de órgãos governamentais e do movimento social, traça um quadro bastante sombrio sobre a situação das populações rurais no Estado do Espírito Santo. A Aracruz Celulose, maior produtora de polpa branqueada de eucalipto do mundo, instalou-se no Estado

312 Alertamos que devemos levar em conta que os dados divulgados pelas empresas são muito menores que os números veiculados nos movimentos sociais e organismos governamentais idôneos. Como exemplo, citamos o estado da Bahia que segundo o Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia (Cepedes), possui 600 mil hectares de eucaliptos plantados e não 340 mil, segundo o BNDS.

313 VITAL, Marcos. H.F. Impactos Ambiental de Florestas de Eucalipto. In: Revista do BNDS, Rio de Janeiro, vol. 14, nº. 28, Dez. 2007. p. 239.

em fins da década de 1960, dando início a um processo de expansão de monocultivos de eucaliptos em várias regiões do Estado. A empresa inicia suas atividades no Município de Aracruz, obtendo terras indígenas e terras do Estado em área de Mata Atlântica. Os 79.075 hectares de eucaliptos, que correspondem a 62%

da área total da empresa no Estado, concentram-se nos municípios de Aracruz, São Mateus e Conceição da Barra, que fazem parte da região litoral norte do Estado. A concentração fundiária nesses municípios é inegável. Só no de Aracruz, a empresa é proprietária de uma área que corresponde a cerca de 41% das terras totais do município. Para consegui-la a empresa anexou 244 propriedades. Em Conceição da Barra, 68% do território são ocupados pelos plantios de eucaliptos314.

Em 1987, a empresa detinha sob sua propriedade mais de 100.000 ha de terras agricultáveis, expulsando a população rural para os espaços urbanos. Esta extensão de terras, quando considerados os plantios de eucaliptos nas terras de terceiros, através do Programa de Fomento Florestal I e II, é muito maior. Segundo dados da própria empresa315, tal programa compreende 22.968 hectares e 2.015 produtores envolvidos, com obrigação contratual de vender sua produção à empresa.

Este programa, segundo o relatório, tem gerado descontentamento, pela subordinação desses agricultores aos preços e normas da Aracruz.

A maior parte das terras da Aracruz Celulose, ou seja, 64,8%, são usadas para o plantio de eucalipto, porém chama à atenção a porcentagem significativa de reservas nativas que a empresa diz manter. Segundo o Relatório da Fase, esses dados são questionáveis. No Município de Aracruz, a empresa diz possuir 16.816 hectares de reservas nativas e 37.296 hectares de eucaliptos. Já o Relatório de Impacto Ambiental da terceira Fábrica afirma que o mesmo município, a partir de dados da Emater, tem somente 7.715 hectares de matas nativas, ou seja, menos da metade da

314 FASE. 2003. Op. Cit.

315 Relatório da Aracruz Celulose, 2000.

área declarada pela empresa como reservas naturais mantidas316. Pode-se constatar em várias fontes de informação que existe uma estratégia da empresa no sentido de ocultar dados referentes às áreas ocupadas pelos monocultivos de eucaliptos, bem como os danos causados ao ambiente e às pessoas.

Além da perda da biodiversidade, da crescente pressão sobre as matas nativas e da expulsão de populações tradicionais (quilombolas e indígenas Tupinikin e Guarani) a disputa pela água também tem gerado conflitos sociais intensos. Nestes episódios o Governo Estadual, como poder público, não aparece, e as soluções são sempre favoráveis à empresa. A água é um dos principais insumos para produzir celulose, e segundo a própria empresa, em 2000, seu consumo de água foi, em média, 44m3 por tonelada de celulose. Segundo o Relatório da Fase o consumo diário da empresa é de 248.000 m3 de água, ou seja, volume suficiente para abastecer uma cidade de dois milhões e meio de habitantes. Ainda segundo o mesmo relatório, para conseguir este volume de água a Aracruz lançou mão de práticas ilícitas, segundo os movimentos sociais, ao represar rios e desviar cursos d’água comuns, sem apresentar relatórios de impacto ambiental e com fortes indícios de favorecimentos do poder público. Tais práticas têm prejudicado muitas populações que se utilizam desses recursos para sobreviver.317

Podemos observar pelos dados agropecuários a decadência da agricultura familiar e uma inversão da população rural e urbana no Espírito Santo. O relatório apresentado pela FASE afirma que, nos anos 60, a população rural no Espírito Santo, que representava 74,31% do total, hoje representa 27,09%. O esvaziamento do campo foi mais acelerado na década de 1980, período no qual a Aracruz Celulose consolidou sua instalação, utilizando em grande parte métodos ilícitos, já expostos neste trabalho. Segundo o mesmo relatório o aumento do êxodo do rural no estado

316 FASE. 2003. Op. Cit.

317 FASE. 2003. Op. Cit.

está relacionado à entrada dos monocultivos em lugares onde existia pequena produção agrícola tradicional. A mesma caracterização é feita por Múcio Tosta Gonçalves318 para o Estado de Minas Gerais, como demonstra em seu trabalho sobre os trabalhadores assalariados das plantações florestais em minas Gerais (monocultivos). Claro que reconhecemos que existe um processo de êxodo rural em todo o campo brasileiro, mas nos estados onde os monocultivos se estabeleceram este processo é muito maior.319

O Grupo Aracruz tem um projeto de expansão das plantações de eucalipto a partir do território do Estado do Rio de Janeiro, ligando o noroeste deste estado à região norte do Espírito Santo, onde a empresa tem sua base industrial. Esse novo projeto prevê a utilização de uma área de 42 mil hectares no noroeste fluminense, com investimentos de R$ 86 milhões, com plantios diretos em áreas próprias e a utilização do Programa Produtor Florestal320. O objetivo da empresa é formar estoque de madeira para viabilizar a instalação de um polo moveleiro na região, e já está arregimentando os agricultores empobrecidos a se integrarem ao Programa Produtor Florestal. Esta estratégia já esta em curso no noroeste do estado.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (páginas 189-193)