• Nenhum resultado encontrado

Monstros e demônios de La Condition humaine

3.2 Monstros e demônios: a fascinação do horror

3.2.2 Monstros e demônios de La Condition humaine

Se a experiência do mal perpassa os romances de Malraux, em La Condition

humaine mais do que um diálogo entre o homem e a morte, o demoníaco insiste em

aparecer e reaparecer na maior parte de seus personagens255. Isso significa que os monstros e demônios do romance não estão restritos a personagens de má índole ou supostos vilões, se é possível encontrá-los na obra malruciana. Todos, de Kyo a Ferral, se debatem com o primeiro monstro, a preocupação com a morte. De uma forma ou de outra, ela está no fundo de suas reflexões e escolhas. “La pensée de la

252 “[...] de uma mulher des...[...]Despida. Nua, de repente”.

253 Além de conter o ataque dos Moïs contra outras tribos, o governo tinha interesse na construção de

linhas de ferro na região, o que exigia o domínio dessa tribo.

254 [a]rrebentar por arrebentar, mais vale aniquilar alguns.[...] Apesar de tudo, teria um prazer sagrado

de matar alguns!”.

255 Segundo Jean-Louis Jeannelle, não há dúvida de que Le Miroir des limbes representa o

mort est le démon familier et tyrannique de tous le personnages, détenus ou non256” (DONRELOT, 1970, p. 53).

Pensamento melindroso, basta atiçá-lo para que se reproduza, para que se propague a partir de tantas outras figuras. A angústia, subproduto da consciência da morte, parece dominar por inteiro Tchen e, por vezes, deixar Kyo paralisado, como se estendesse seus tentáculos, avançando cada vez mais, até conduzir o homem ao abismo, à tentação da loucura. Basta um deslizamento para que consciência e lucidez desapareçam nas trevas de um olhar ensandecido.

[...]Kyo sentait tressaillir en lui-même l’angoisse primordiale, celle qui jetait à la fois Tchen aux pieuvres du sommeil et à la mort. ‘Mon père pense, dit lentement Kyo, que le fond de l’homme est l’angoisse, la conscience de sa propre fatalité, d’où naissent toutes les peurs, même celle de la mort...257 (MALRAUX, OC1, p. 620).

Há, entretanto, um temor que subjaz as preocupações dos heróis, uma espécie de monstro sorrateiro e subterrâneo, o polvo que fascina Tchen e que faz Kyo vacilar. É sua parte saturnina, uma curiosidade complacente, uma atração pelo mal, que não deve ser vista como exterior ao homem, mas como um monstro íntimo contra a qual Kyo, por exemplo, passou toda a sua vida a se debater. Tchen, apesar de sua constante alucinação, tenta dominar, resistir aos seus monstros. Quando está em batalha, não suporta ver um homem uivando como um cão, mesmo sendo seu inimigo. No fundo, o que o incomoda é a impotência do ser diante da dor. O homem que teve uma perna arrancada não podia fugir, porque estava amarrado e a qualquer instante uma nova granada rebentaria. Apesar de não poder fazer muito, o terrorista arrisca a vida indo até o ferido para cortar a corda que o prendia. Ato fraternal que não anula, todavia, sua inclinação para os instintos, sua fascinação frente ao mal.

Kyo é um dos personagens mais solidários do romance, tendo encontrado o sentido de sua vida na luta pelo outro, procurando dar aos trabalhadores chineses, - que a miséria, dia após dia, fazia morrer -, a retomada de sua dignidade. Como seria possível preservar a dignidade de um homem que trabalha doze horas por dia, sem

256 “O pensamento da morte é o demônio familiar e tirânico de todos os personagens, presos ou não”. 257 “Kyo sentia estremecer em si a angústia primordial, aquela que atirava Tchen simultaneamente

aos polvos do sono e à morte. Meu pai pensa – disse lentamente Kyo- que o fundo do homem é angústia, a consciência da sua própria fatalidade, de onde nascem todos os medos, mesmo o da morte...”.

saber a razão, e que não recebe o suficiente para manter suas necessidades mais vitais? Procurando pensar na coletividade, lutando contra o individualismo, Kyo via na política a esperança de um mundo melhor, em que as diferenças sociais e injustiças se atenuariam. Contudo, mesmo ele, em toda sua empatia, não pode deixar de ser seduzido pelo prazer de ver e fazer sofrer.

Após ouvir a revelação da mulher, de que ela havia feito uso de sua liberdade, indo para cama com outro homem, Kyo não controla seu ciúme. Tenta não se importar, se esforçando para conter os pensamentos baixos, odientos e sua própria cólera. Decididamente não estava preparado para aceitar a liberdade do outro. “Reconnaître la liberte d’un autre, c’est lui donner raison contre sa propre souffrance258” (MALRAUX, OC1, p. 656). Por mais que May lhe explicasse que não havia arranjado um amante, apenas dormido com um homem qualquer, Kyo a olha de maneira espantosa, “[...] tous les sentiments s’y mêlaient. Et - le plus troublant de tous- sur son visage l’inquiétante expression d’une volupté ignorée de lui même” (idem, ibidem, p. 657). Uma volúpia nascida da angústia e do ciúme.

Nesse embate, Kyo sentia reavivar seu desejo por May, atraído por aquele rosto, dominado por um instinto de querer tocá-la, agarrá-la, todavia seu desejo perturbante, - como sua fragilidade diante da situação-, foi contido pelo pensamento mais doloroso que o de saber que ela mantivera relações com outro homem, o de imaginar, considerando a misoginia fundamental dos homens, que o outro estaria julgando-a mal, pensando que ela fosse uma vadia259. Em um segundo diálogo entre o casal, às vésperas da investida dos revolucionários ao exército de Chiang Kai- Shek, May demanda ao marido que a leve com ele, afinal, não haveria prova maior de amor que enfrentarem juntos a morte (MALRAUX, OC1, p. 657). Ainda sentindo fervilhar em si os demônios da traição e do ciúme, Kyo quer feri-la, justamente em seu amor. “Quelle vengeance en effet serait plus subtile et plus efficace, parce que plus appropriée à la personalité de May et à la nature de leur relation, que de ne pas l’admettre à partager son propre danger ?260 (GODARD, 1996, p. 32). Difícil reconciliação, May, sentindo que a decisão de Kyo tinha em consideração a

258 “Reconhecer a liberdade de outrem é dar-lhe razão contra o seu próprio sofrimento”.

259Esse ‘misoginia fundamental dos homens’ não seria o próprio machismo de Kyo que cogita o que o

outro pensa e julga com base em seu próprio pensamento?

260 “Que vingança, com efeito, seria mais sútil e mais eficaz, posto que mais apropriada à

personalidade de May e à natureza de sua relação, que a de não permiti-la a compartilhar do seu próprio perigo?”

revelação que fizera, que ele havia mergulhado em um mundo de hostilidade desconhecido, pergunta-lhe porque perder tempo fazendo um ao outro sofrer, mesmo sabendo que se amam.

O demônio da crueldade e da vontade de fazer sofrer atormenta Katow, outro homem solidário. Ao tentar consolar Hemmelrich da sua situação familiar que o impedia de combater, já que tinha o filho inválido à beira da morte e a mulher irritantemente servil, Katow narra uma relação sádica, em que a mulher, primeiro aceitava as alfinetadas com as palavras, em seguida, vai admitindo tudo, sacrificando-se e dedicando-se ao outro integralmente, permitindo que o abuso não cesse de ir mais longe. O marido era um tipo que

[..] a pris et joué l’argent que la sienne avait économisé pendant des années pour aller au sanatorium. Question de vie ou de mort. Il l’a perdu. (Dans ceux cas-là, on perd toujours) [...]. Il est revenu en morceaux, absolument écrasé [...]. Elle l’a regardé s’approcher de son lit. Elle a tout de suite compris , vois-tu. Et puis, quoi? Elle a essayé de le consoler...261 (MALRAUX,OC1, p. 663).

Hemmelrich, contudo, lhe demanda se a narrativa não se refere a ele próprio, o que o faz irritar-se, não sem deixar de se lembrar de sua mulher. Quando retornara da Sibéria, sem esperança que a Revolução acontecesse, Katow alimentou a ideia de terminar seus dias fazendo sofrer a operária com quem vivia. Era, segundo ele, espantoso como ela, amando-o, aceitava todos os desgostos aos quais ele a submetia, como era capaz de sofrer por um homem que a fazia sofrer (idem, ibidem, p. 664).

Embora desejasse se dedicar a causa revolucionária, Hemmelrich esteve impedido por ter uma família, sobretudo, ter um filho portador de uma doença grave que o fazia gritar de dor. ““Mastoïdite. Mon pauvre vieux, il faudra briser l’os...” Ce grosse, presque un bébé, n’avait encore de l’a vie que ce qu’il fallait pour souffir262 (MALRAUL, OC1, p. 641). Situação que o levava, por vezes, a desejar a morte da criança, por vezes, a lamentar ter tido tal desejo. No fundo, sempre sofrera, convivendo com a miséria, com o trabalho na fábrica, com a desesperança,

261 “[...] roubou e jogou o dinheiro que a sua [mulher] tinha economizado durante anos para ir para o

sanatório. Questão de vida ou de morte. Ele o perdeu. (Nestes casos, perde-se sempre). Voltou em pedaços, absolutamente esmagado [...]. Ela o viu se aproximar do seu leito. Compreendeu imediatamente, vês tu. E depois, o quê? Ela tentou consolá-lo”.

262 “”Mastoidite. Meu pobre amigo, é preciso partir o osso....” Aquela criança, quase um bebê, só tinha

entretanto, o sofrimento de uma criança era para ele injustificável, como o é também para o personagem central do romance camusiano La Peste263. Trata-se do médico Rieux, que nunca tendo se acostumado a ver morrer, diante do estado de sítio da cidade, tem que enfrentar uma situação ainda mais revoltante: a peste havia atingido e matado uma criança, um inocente. Indignado, o médico diz ao padre da cidade, Paneloux, que se recusa a aceitar tal sofrimento, mesmo que fosse justificado, mesmo que Deus tivesse um propósito secreto.

No momento em que Tchen lança a bomba contra Chiang Kai-Shek, o caos se instaura, muitos são fuzilados e os camaradas casados escapam para tentar providenciar a fuga da família, Hemmelrich vai à procura dos seus. Contudo percebe que ao longo da avenida das Duas Repúblicas não havia mais soldados, tudo havia sido destruído, “[...] la boutique avait été ‘nettoyée à la granade264” (MALRAUX, OC1, p. 697). Quando o personagem volta para casa, a narrativa desacelera, Malraux nos apresenta com detalhes a trágica cena: a morte da família de Hemmelrich.

Mal entra, vê a mulher encostada no balcão com um enorme buraco no peito e num canto qualquer da casa, está o braço do menino, isolado, havia sido arremessado na explosão. Hemmelrich deseja que ao menos esteja morto, já que não suportaria o horror da agonia do filho. Absorvido pela cena, correndo o risco de ser apanhado, permanecia ali, junto aos escombros sem tocar em nada, olhando a destruição com perplexidade, até que, enfim, encontra o corpo do filho. O sangue e a morte não o surpreendiam, nem o comoviam, na verdade, ele sentia que o destino havia cometido um erro, “jogado mal”: esse homem que esteve preso à família, ao filho grave e inocentemente doente havia perdido tudo, tinham-lhe arrancado tudo que possuía, entretanto haviam lhe dado o que não tinha antes, a liberdade. Não podia deixar de pensar com alegria, uma alegria monstruosa, na sua libertação.

Avec horreur et satisfaction, il la sentait gronder en lui comme um fleuve subterrain, s’approcher; les cadavres étaient là, ses pieds qui collaient au sol étaient collés par leur sang, rien ne pouvait être plus dérisoire que ces assassinats – surtout celui de l’enfant malade; celui-là lui semblait encore plus innocent que la morte ; mais maintenant, il n’était plus impuissant. Maintenant, il pouvait tué, lui aussi265 (MALRAUX, OCI, p. 698).

263 Romance publicado quatorze anos após La Condition humaine, em 1947. 264 “[...] a loja fora ‘varrida’ a granada”.

265 Com horror e satisfação, a sentia sacudir em si como um rio subterrâneo, se aproximar; os

Já Kyo, quando preso em Shangaï, tem que lhe dar com seus monstros, com sua parte maldita, para retomar a expressão batailliana. De início, vê os companheiros de luta sofrendo e sendo humilhados, aprisionados em gaiolas de madeira. O cheiro nauseante de excrementos, de sangue e de matadouro faz Kyo ver neles uma animalidade originária de crustáceos e insetos colossais (idem,

ibidem, p. 718). Não são mais homens, transformados por seus semelhantes em

animais, em bestas. Das gaiolas, o heroi só podia ver sombras e ouvir vozes de homens que, embora nunca fosse conhecer, partilhava a mesma angústia diante da morte.

Em meio a esses corpos deitados detrás das grades, um homem desafia o carcereiro, é quando a curiosidade sombria de Kyo cresce: tratar-se-ia de um homem valente ou de um louco a fazer gracinhas? Mal terminara de indagar seu vizinho de cárcere sobre o sujeito, ouviu um grito agudo de sofrimento que se propagou pelo escuro e se repetiu. Atento ao som do estalo da correia, o herói não pode tapar o ouvido, queria uma vez mais ouvir aquele som de horror, aquele grito desesperado. “Devant le spectacle de la souffrance physique infligée au détenu fou, Kyo n’a pas seulement dégoût ou horreur” 266 (GODARD, 1996, p. 33), mas também uma atração irresistível de assistir, de ver até onde pode chegar a súplica humana.

O preso da cela vizinha sussurra a Kyo que o louco já havia apanhado outras vezes e que ele sempre procurou olhar a cena no intuito de auxiliá-lo, demonstrando sua compaixão, ao menos, com os olhos. O filho de Gisors, no entanto, não estava certo de ter os mesmos motivos. Seria mesmo a compaixão que manifestava ao ver o suplicante ou havia um desejo cruel, um horror fascinante de fixar os olhos no abismo nietzschiano?

Ce qu’il y a de bas, et aussi de fascinable en chaque être était appelé là avec la plus sauvage véhémence, et Kyo se débattait de toute sa pensée contre l’ignominie humaine : il se souvint de l’effort qui lui avait toujours été nécessaire pour fuir le corps suppliciés vus par

ser mais irrisório do que aqueles assassinatos - sobretudo o de uma criança doente, essa lhe parecia mais inocente que a morta; mas agora, ele não era mais impotente. Agora ele também podia matar.

266 “Diante do espetáculo do sofrimento infringido ao preso louco, Kyo não sentia apenas desgosto ou

hasard : il lui fallait, littéralement, s’en arracher267 (MALRAUX, OC1, p. 719).

Quando o buscaram na cela, Kyo sabia que caminhava para morte, o que, na verdade, lhe rendeu uma satisfação violenta, pois saindo daquele lugar, deixava para trás seus demônios, sua parte imunda (MALRAUX, OC1, p. 721), seu fracasso diante da tentação de ver e se fascinar com as súplicas alheias. Ao menos, o horror frente seu lado sombrio se anularia quando estivesse diante da sua própria morte, um horror ainda maior.

Documentos relacionados