dias 19 a 23.01.2007
2.3 A comunidade remota e a terra
2.3.2 Montículos de terra
Inicialmente, muitos pesquisadores defendiam a hipótese de que os montículos de terra encontrados em torno de estruturas escavadas tinham uma função exclusivamente cerimonial, sendo utilizados como áreas de sepultamento dos mortos. Schmitz & Becker, a partir das escavações realizadas na localidade de Água Azul, no município de Caxias do Sul, entre os anos de 1967 e 1970, supunham que os montículos eram os túmulos dos antigos moradores do local. Chamados de pequenos aterros, essas elevações no terreno, que apareciam dispersas entre as estruturas escavadas, pareciam se tratar de sepulturas individuais, ainda que isso não tivesse sido provado empiricamente na ocasião (Schmitz & Becker, 1991).
Tempo depois, outras interpretações começaram a vir à tona, baseadas em dados produzidos em escavações tanto desses montículos quanto das estruturas escavadas. O próprio investigador Schmitz afirmou, a partir de estudos realizados na região de Vacaria, que a terra retirada com o rebaixamento dos pisos era claramente usada para vários fins, como nivelar bordas mais baixas, fazer montículos ou eventuais terraços no terreno. Não era simplesmente espalhada ao redor, em qualquer lugar. Ao comparar a terra retirada em uma estrutura escavada com a de um desses montículos, identificando consistência, cor e composição semelhantes, tal estudioso convenceu-se de que a terra, retirada da primeira estrutura, fora depositada na segunda (Schmitz et al, 2002).
Copé, de modo semelhante, com pesquisas desenvolvidas na região de Bom Jesus, descartou a função cerimonial e funerária relacionada aos montículos de terra dispersos ao redor das estruturas semisubterrâneas. Ao escavar uma trincheira no montículo encontrado no sítio RS-AN-03, em Bom Jesus, identificou uma estratigrafia exatamente inversa das encontradas nas estruturas escavadas no solo, comprovando que a terra que o compõe é resultado da escavação das estruturas pelos povos que as construíram e ocuparam (Copé & Saldanha, 2002).
No sítio Ari Duarte I existem, ao todo, seis elevações de terra, que se encontram agrupadas no lado nordeste do conjunto, que, como sabido, é composto ainda por dez estruturas escavadas no solo e por um grande aterramento ao seu redor. Veja na fotografia a seguir uma dessas elevações claramente visíveis no terreno.
Figura 64: Um dos montículos do sítio Ari Duarte I (em destaque) (Fonte: Acervo do NuPArq/UFRGS)
Teriam sido esses montículos formados pelo acúmulo da terra retirada da construção das estruturas semisubterrâneas? Ou teriam sido erguidos com o intuito de depositar os corpos dos habitantes que ali viviam? Infelizmente, apenas questionamentos como esses, retirados da literatura arqueológica, podem ser inferidos acerca da existência de tais vestígios no lugar Ari Duarte I, uma vez que a arqueologia, sem intervenções como a escavação, dificilmente produz descobertas, resumindo-se a meras hipóteses e possibilidades.
De todo modo, é certo dizer que os seis montículos em questão resultaram de um grande esforço coletivo vinculado à realização de ações não arbitrárias por parte de determinados indivíduos. Um empenho consciente e comum em dar àquele local uma espacialidade, uma configuração, e, consequentemente uma significação, através da movimentação da terra, uma das substâncias mais presentes nesse lugar.
2.3.3.1. Estrutura semisubterrânea 1
Os trabalhos de escavação da estrutura 1 revelaram a existência de 3 nítidas camadas arqueológicas, além da camada húmica, composta por restos orgânicos, que encontrava-se em sua superfície (figuras 60 e 61).
Primeira camada: Apresentava coloração marrom escura, era granulosa e friável. Nela foi encontrado material lítico, especialmente fragmentos pequenos como microlascas de quartzo, calcedônia e basalto. Alguns fragmentos de cerâmica também foram descobertos, embora em quantidade ínfima.
Segunda camada: Era composta por um sedimento mais claro, marrom-alaranjado, um pouco duro e argiloso. Tinha muitas interferências devido às raízes que penetram na terra e perturbam a estratigrafia. Igualmente apresentava material lítico, mas em menor quantidade.
Terceira camada: Ao contrário das outras, essa camada foi evidenciada apenas em algumas quadrículas, no centro da estrutura. Possuía um sedimento avermelhado e argiloso que se encontrava sobre as paredes de basalto decomposto. Nessa camada o material arqueológico encontrado, especialmente lítico, era mais abundante. Estimou-se que essa camada, por ser a mais profunda, era composta por uma mistura de vários sedimentos, da própria camada mais da desagregação das paredes e do fundo da estrutura (o piso de ocupação). Além disso, acredita-se que foram agregados à camada alguns sedimentos externos com húmus, logo após o abandono da estrutura. Com a proximidade da retirada final dessa camada os sedimentos foram ficando mais alaranjados, anunciando a chegada da camada estéril de basalto em decomposição na qual a estrutura foi escavada. Como não foram concluídas as escavações dessa camada não se alcançou o piso original da ocupação da mesma em tempo remoto. Durante a escavação dessa estrutura foram identificados sedimentos diferentes dos encontrados nas três camadas acima descritas, sem, contudo, formarem outras camadas estratigráficas. Foram definidos, pelos arqueólogos, como lentes, encontradas isoladas ou em conjunto, por apresentarem coloração mais escura do que o restante dos sedimentos e carecerem de forma e de unidade. Entre a primeira e a segunda foi encontrada uma lente muito escura, com carvões, e ao longo da terceira camada três conjuntos de lentes, denominadas de features.
Figura 65: Croqui esquemático da escavação da estrutura semisubterrânea 1 (Fonte: Acervo do NuPArq)
A seguir apresento os principais elementos e características identificados na estrutura semisubterrânea 1 e algumas interpretações elaboradas na ocasião das escavações.
Formato da estrutura: O formato da estrutura era aproximadamente circular (como pode ser observado na figura 60). Com as escavações foi-se evidenciando um afunilamento da forma da estrutura, em direção a um centro arredondado na sua parte mais interna e profunda – característica bastante comum entre a maioria das estruturas semisubterrâneas encontradas no Brasil.
Feature 1 (possível zona de refugo): Na parede da estrutura 1 foram encontradas lentes escuras com evidências de queima, com a presença de carvões e cinzas. Por não apresentar uma forma regular e não ter muita espessura, descartou-se a possibilidade de tratar- se de uma fogueira e acreditou-se ser uma zona de refugo da mesma, que provavelmente se encontraria em outro lugar no interior da estrutura.
Figura 67: Feature 1 – Uma possível área de refugo de uma fogueira (Fonte: Acervo do NuPArq)
Feature 2 (possível fogueira): No centro da estrutura apareceram pedras de basalto associadas a uma mancha escura. Apesar da relativa raridade dos carvões e da presença de raízes, os pesquisadores defenderam a hipótese de se tratar de uma fogueira em bacia funda.
Figura 68: Feature 2 – Uma possível fogueira (Fonte: Acervo do NuPArq)
Feature 3 (possível buraco de poste): Próximo do centro da estrutura foi encontrada uma mancha preta circular, que talvez fosse o negativo de um buraco de poste, que serviria para a sustentação da cobertura da estrutura.
Figura 69: Feature 3 - Um possível buraco de poste (note a mancha circular no centro da foto) (Fonte: Acervo do NuPArq)
Processos pós-deposicionais: Com a escavação da terceira camada da estrutura percebeu-se que os efeitos naturais do local agiram na conservação da estrutura após o seu abandono. Como suas paredes ficaram expostas à chuva, a argila do sedimento que as formavam foram dissolvidos, correram ao longo das paredes e se depositaram em seu fundo, misturando-se com a última camada - a de ocupação. Ao mesmo tempo em que ocorreu este fenômeno de erosão das paredes da estrutura, as águas da chuva trouxeram sedimentos de fora (às vezes até mesmo com materiais arqueológicos) que se depositaram tanto no fundo quando nas paredes da estrutura. Pouco a pouco se formou uma camada nova de sedimento, que acabou protegendo as paredes e que interrompeu, assim, a erosão. Assim, concluiu-se que o sedimento resultante da desagregação das paredes não representava a forma original delas, já que foi deslocado e depositado várias vezes. E nem o sedimento avermelhado, que foi inicialmente foi identificado como sendo a parede da estrutura, pôde ser considerado como a forma original dessa parede. Esse fenômeno explica porque o sedimento que preenchia o fundo dessa estrutura era mais avermelhado, sobretudo nas bordas, do que o encontrado nas demais estruturas.
2.3.3.2. Estruturas semisubterrâneas 2, 3 e 4
Ainda que as estruturas 2, 3 e 4 não tenham sido escavadas em sua totalidade, a retirada dos sedimentos em profundidade comprovou que elas possuem o mesmo processo de deposição encontrado na estrutura 1 e compartilham algumas semelhanças com a estrutura 5. As camadas estratigráficas são as mesmas (veja os croquis a seguir):
Primeira camada: Apresentava sedimento marrom escuro, granuloso e friável, com muito material arqueológico lítico.
Segunda camada: Formada por sedimento marrom-alaranjado, mais compacto e argiloso do que o do estrato superior.
Terceira camada: Diferenciada das outras por possuir um sedimento avermelhado e argiloso que se encontrava sobre as paredes de basalto decomposto ou misturado com elas descendo até o piso da ocupação das estruturas.
Além disso, identificou-se um sedimento escuro, orgânico, friável e areno-argiloso, entre as camadas 1 e 2, nas áreas centrais das três estruturas, denominado lente preta. Provavelmente se formou com a intervenção e decomposição de raízes e também pela intrusão da camada húmica (ocasionada possivelmente pela ação das próprias raízes). Assim, concluiu-se que a lente preta, por apresentar essas características e por não mostrar-se presente em todas as quadrículas das estruturas, referia-se a um acúmulo orgânico de deposição no processo de entulhamento das mesmas.
Figura 70: Croqui da escavação das estruturas 2, 3 e 4 com camadas 1 e 2 evidenciadas (Fonte: Acervo do NuPArq)
Figura 71: Croqui da escavação das estruturas 2, 3 e 4 com camadas 2 e 3 evidenciadas (Fonte: Acervo do NuPArq)
Figura 72: Perfil estratigráfico da parede leste da quadrícula 105/89 da estrutura 2 (Fonte: Acervo do NuPArq)
Mais uma vez, a retirada dos sedimentos depositados sobre as estruturas possibilitou a identificação e a análise dos principais elementos e características vinculadas a elas.
Formato das estruturas e sua relação com os processos pós-deposicionais: Com o processo gerado pelo abandono das estruturas ocorreram desabamentos e outras ações que alteraram tanto os seus formatos quanto os seus tamanhos. A partir dos aspectos materiais evidenciados, os pesquisadores envolvidos com as pesquisas nas estruturas em questão acreditam que a maior estrutura em diâmetro seria a 2, além de parecer estar mais preservada em relação aos desabamentos. Já a estrutura 3 parece ter sofrido muito mais com o processo de deposição, recebendo mais entulhos e apresentando uma forma irregular. Por fim, a estrutura 4, igualmente deformada por desabamentos e pelo crescimento da vegetação, deveria ser a menor e mais profunda delas, num formato semelhante a um funil. O fato das estruturas 3 e 4 terem sido mais atingidas com o desabamento e o entulhamento posterior de terra e demais materiais está relacionado com a sua localização no terreno, estando em uma área elevada e inclinada.
Ligação entre as estruturas: Como a terceira camada não foi retirada, que permitiria chegar nas paredes e nos pisos escavados no basalto, os pesquisadores não tiveram condições de definir a configuração completa das três estruturas e concluir que se tratam ou não de uma única estrutura, com a mesma parede de ligação. Mesmo assim, a configuração do sítio e das demais estruturas existentes nele, que se encontram muito próximas entre si, não apontam para a existência de uma estrutura geminada, e sim de três estruturas construídas independentemente que se encontram muito perto uma das outras.
2.3.3.3. Estrutura semisubterrânea 5
De modo muito semelhante à estrutura 1, foram identificadas três camadas arqueológicas com a escavação da estrutura semisubterrânea 5 (figura 73). São elas:
Primeira camada: Apresentava um sedimento marrom escuro, muito friável e seco, com a presença de artefatos líticos lascados.
Segunda camada: Possuía um sedimento de cor alaranjada e textura mais argilosa e mais compacta do que a do estrato superior. Também foram identificados nessa camada somente artefatos líticos.
Terceira camada: Tratava-se da camada de ocupação propriamente dita, da mesma forma que na estrutura 1. Igualmente apresentava uma coloração alaranjada, embora fosse muito mais compacta do que a que fora retirada anteriormente. Mais uma vez, foram recolhidos apenas artefatos líticos.
Outra semelhança identificada entre as estruturas 1 e 5 foi a presença de sedimentos distintos dos encontrados nos três estratos de terra acima expostos, que não configuravam a existência de uma nova camada. Na estrutura 5, haviam zonas perturbadas por raízes, de coloração escura, que foram denominadas de camada preta ou de camada 1a. Nessas áreas nitidamente havia uma mistura dos sedimentos das camadas 1 e 2, além de restos de raízes de árvores (veja a seguir).
Figura 73: Área perturbada no centro da estrutura (camada preta ou camada 1a) (Fonte: Acervo do NuPArq)
Figura 74: Croqui esquemático da escavação da estrutura semisubterrânea 5 (Fonte: Acervo do NuPArq)
Em seguida destaco algumas características identificadas na estrutura semisubterrânea 5 e possíveis interpretações a seu respeito.
Formatos da estrutura: Novamente percebe-se forma arredondada. Ficou clara, com a retirada dos sedimentos da camada 3, a existência de uma zona central relativamente plana e de bancadas nos arredores. Veja a fotografia a seguir:
Figura 75: Escavação da zona central e plana da estrutura 5 (Fonte: Acervo do NuPArq)
Área de refugo de fogueira: Durante a escavação da camada mais profunda de todas encontrou-se uma zona mais escurecida e com carvão que possivelmente poderia ser de restos de limpeza de uma fogueira. O sedimento nestas zonas apresentava-se mesclado com bolas de argila mais laranja, que podem ser restos de argila queimada junto a parede, possivelmente repetindo o padrão do que foi encontrado na estrutura 1.
Possível negativo de poste: Verificou-se um possível negativo de poste em uma das quadrículas, o qual, no final da escavação, percebeu-se não se tratar disso por não chegar a penetrar nas áreas das paredes das bancadas da estrutura.
Processos pós-deposicionais: A presença de raízes no interior da estrutura, uma vez misturadas com os sedimentos de diferentes camadas, formaram a zona perturbada anteriormente caracterizada, responsável por causar grandes interferências em seu estado após o seu abandono. Muitas raízes, vivas ou mortas, de tamanho relativamente grande, alteraram o contorno das paredes e bancadas encontradas em algumas quadrículas, como pode ser observado no croqui abaixo:
Figura 76: Croqui da escavação em parte da estrutura 5 (Fonte: Acervo do NuPArq)
2.3.4 Áreas superficiais
Segundo Reis, a maior parte das pesquisas realizadas sobre as estruturas cavadas no solo focaram-se apenas em análises restrita delas, excluindo os seus entornos, em locais superficiais, nos quais é muito comum a ocorrência de artefatos líticos e cerâmicos (Reis, 1997). Esse quadro começou a se alterar com o desenvolvimento de escavações nos arredores de tais estruturas, na busca de compreender melhor o modo de vida das sociedades que as construíram e ocuparam.
A escavação da área superficial denominada estrada no sítio Ari Duarte I revelou uma quantidade de artefatos maior do que a encontrada no interior das estruturas semisubterrâneas (figura 73). Apenas uma camada foi identificada, a qual apresentava um sedimento marrom muito compactado (croqui a seguir). Nenhuma outra estrutura foi identificada.
Figura 77: Croqui da escavação da área externa (estrada) com camada arqueológica evidenciada (Fonte: Acervo NuPArq/UFRGS)
Figura 78: Artefatos arqueológicos evidenciados em área superficial do sítio (Fonte: Acervo NuPArq/UFRGS)
A descoberta de uma área de atividades cotidianas externa às estruturas semisubterrâneas mostra que entrar e sair das estruturas era uma prática habitual das pessoas que viviam no lugar. Subir e descer, desse modo, deveriam ser ações comuns, mas não as únicas, conforme pôde ser visto até agora.
No esforço de conceber o lugar, detalhadamente descrito acima, enquanto parte de um mundo vivido, não há como deixar de lado o envolvimento corporal e sensitivo das pessoas que remotamente o ocuparam, experimentando sua terra. Neste sentido, faço uma tentativa interpretativa e, por que não dizer imaginativa, de listar possíveis e prováveis ações, movimentos e sentidos que devem ter feito parte do cotidiano das pessoas em tal local.
Feche os olhos por alguns instantes e deixe-se levar pelas interpretações aqui elaboradas e por sua imaginação. Você poderá ver nesse lugar:
Adultos e jovens, talvez homens e mulheres, retirando terra de uns locais e depositando em outros, sentindo sua textura, sua temperatura, seu cheiro...
Crianças brincando, correndo de um lado para o outro, de pés descalços, entrando e saindo das estruturas rebaixadas, subindo e descendo, se sujando com terra...
Homens e mulheres realizando atividades cotidianas, dentro e fora das estruturas,
ouvindo o barulho do vento, da chuva caindo na terra, dos animais, das crianças a cantar...
Pais ensinando jovens garotos a lascar pedras, sentindo o quanto são lisas ou rugosas...
Mães ensinando jovens garotas a moldar potes, deixando o barro escorrer entre suas mãos...
Todos se reunindo para fazer uma refeição, sentindo seu aroma e sabor... Sentindo calor, perto da fogueira, ou frio, longe dela...
Alguns levando objetos, alimentos e outras coisas de dentro para fora, e de fora para dentro...
Enquanto alguns estão no lugar, entre as árvores, outros saem para buscar água, frutos, matérias-primas...
De pé, sentados, ajoelhados, deitados, acocados...
Sentindo, ouvindo, vendo tudo o que acontece ao seu redor, dia após dia. Você foi capaz de ver?