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dias 19 a 23.01.2007

2.1 Propriedades físicas e ativas do lugar

Qualquer local possui propriedades físicas e naturais como cobertura vegetal, solo, relevo, dentre outros, que antecedem as próprias ocupações humanas que possam ou não ter ocorrido nele. Tais aspectos, mesmo que sejam anteriores à ação do próprio homem, fazem parte da história de todos os locais estudados pela arqueologia, pois, de determinados modos, permitiram e/ou restringiram uma série de intervenções neles ao longo do tempo. Não fazem parte, entretanto, das suas histórias enquanto lugares, uma vez que, os últimos apresentam relação apenas com mundos vividos, experimentados por pessoas.

Assim sendo, a análise dessas pré-condições permitirá compreender melhor os diferentes usos que foram feitos deste espaço, tais como aterramento e construção de estruturas subterrâneas, trabalhos agrícolas e de retirada de árvores, atividades de intervenção arqueológica e planejamento da implantação de um museu a céu aberto, etc. Serão incluídos nesta análise aspectos geológicos, geomorfológicos, topográficos, pedológicos, climáticos e relacionados à cobertura vegetal do lugar.

O sítio arqueológico RS-PE-41 localiza-se próximo ao núcleo urbano do município de Pinhal da Serra, que por sua vez situa-se na porção nordeste do estado do Rio Grande do Sul e limita-se ao norte com o Estado de Santa Catarina (município de Anita Garibaldi), ao sul com o município de Lagoa Vermelha, ao leste com o município de Esmeralda e a oeste com o município de Barracão. Sua posição exata em coordenadas geográficas é 22J0483597 UTM 6919862 (figura 8).

Em termos topográficos, o conjunto das estruturas foi implantado em um capão de araucárias localizado em uma área de encosta de inclinação suave, não abrupta no terreno, se estendendo por cerca de 1900m². Observe nas imagens a seguir a concentração das estruturas, tanto das escavadas no solo quanto os montículos de terra, em tal local (figuras 9 e 10).

Figura 8: Localização do sítio Ari Duarte I (RS-PE-41) em corte de planta topográfica (Planta Pinhal da Serra FOLHA SG.22-Y-D-VI-4 MI-2904/4)

Figura 9: Planta topográfica do sítio Ari Duarte I (Fonte: Acervo do NuPArq/UFRGS)19

19 Os pontos destacados em azul na planta referem-se a locais em que foram realizadas sondagens para coleta

sistemática de sedimentos, a fim de, ao analisar sua granulometria, compreender melhor de que forma se deu o manejo do sedimento quando as estruturas foram construídas, assim como sua cronologia. Tal intervenção arqueológica foi realizada em junho de 2011, por membros da equipe do NuPArq, e está utilizado pelo estudante Marcelo Sanhudo para o desenvolvimento de um projeto de pesquisa, o qual mencionarei em mais detalhes ainda neste capítulo.

Figura 10: Foto de satélite tridimensional mostrando o capão de araucárias (no centro) em que o sítio Ari Duarte I se encontra. (Fonte: Google Earth)

Em termos geológicos, a área em que o sítio se encontra pertence à Formação Serra Geral, que se constitui de uma sucessão de corridas de lavas, de composição predominantemente básica, apresentando uma sequência superior identificada como um domínio relativo de efusivas ácidas. O vulcanismo que lhe deu origem estaria relacionado a fraturamentos distensionais causados por movimentos epirogênicos ocorridos de modo mais significativo durante o período Juracretáceo, estando intimamente relacionados aos processos geodinâmicos que culminaram com a abertura do Atlântico Sul e a consequente separação dos continentes da América do Sul e da África. Suas formas de relevo foram esculpidas em rochas efusivas ácidas, representadas principalmente pelo basalto, em todas suas variações de cor e textura. São comuns nessas rochas agregados intersticiais constituídos por quartzo, calcedônia, plagioclásio mais sódico, feldspato potássico e clorita (IBGE, 1986).

O município de Pinhal de Serra pertence à região geomorfológica do Planalto das Araucárias, que corresponde à porção mais oriental do Domínio Morfoestrutural das Bacias e Coberturas Sedimentares que abrange trechos do Estado do Rio Grande do Sul e a porção sul do Estado de Santa Catarina. Tal região combina relevos planálticos com rochas efusivas ácidas da Formação Serra Geral que ocorrem normalmente capeando as rochas efusivas básicas, correspondendo, em geral, aos relevos mais conservados dessa região geomorfológica. O rio Pelotas é um dos principais rios que a atravessam.

As características geomorfológicas da região do Planalto das Araucárias são muito variadas, apresentando unidades diferenciadas. O município em que o sítio estudado se encontra pertence à unidade geomorfológica Planalto dos Campos Gerais, que apresenta ampla área elevada, onde são registradas as maiores cotas altimétricas de todo o domínio (as cotas mais elevadas, a leste, estão entre 1100 e 1200m) (IBGE, 1986).

A cobertura vegetal é do tipo savana gramíneo-lenhosa. Este tipo de vegetação é caracterizado por um tapete herbáceo, com predomínio de gramíneas, onde se encontra distribuído número regular de plantas lenhosas, como campos e árvores, podendo ocorrer isolados ou sob a formação de capões, acompanhados ou não por florestas de galeria ao longo dos cursos de água. No Planalto das Araucárias esta formação se desenvolve em altitudes superiores a 800 m acima do mar. A vegetação arbórea é constituída por exemplares de araucária augustifolia (figuras 11 e 12), que se encontram isolados ou em agrupamentos, assim como por capões de variadas dimensões e florestas de galeria, os quais são compostos por espécies típicas da Floresta Ombrófila Mista (IBGE, 1986).

São comuns nestas áreas ações antrópicas relacionadas à atividade da pecuária, através do uso da vegetação graminosa nativa como pastagem para o gado. Para a sua realização o fogo é utilizado regularmente na eliminação da folhagem seca da vegetação herbácea. As queimadas juntamente com o pastoreio do gado constituem fatores da modificação da composição florística desse estrato herbáceo (IBGE, 1986).

Figura 12: Agrupamento de araucárias ao fundo, onde o sítio Ari Duarte I se localiza (Fonte: Acervo do NuPArq/UFRGS)

Em termos pedológicos, o solo é do tipo latossolo bruno câmbico álico, cujas características são uma textura argilosa, proveniente da sua constituição por basalto e por minérios como caulinita, óxidos de ferro e alumínio, uma acentuada acidez e uma baixa quantidade de nutrientes. Os latossolos são solos profundos, bem drenados, de coloração brunada. Nos Campos de Cima da Serra, em razão das limitações climáticas (geadas), são utilizados para cultivos frutíferos de clima temperado, pastagens e culturas de inverno (IBGE, 1986; Streek et al, 2008).

O clima é úmido moderado, e apresenta temperatura média anual entre 16° e 18°C, estando as temperaturas mínimas em julho entre 6° e 8° C , e máximas em janeiro variando de 27° e 33°C. No inverno ocorrem geadas e nevadas com alguma frequência e predominam os ventos Leste e Minuano. Em termos pluviométricos, na região do Planalto das Araucárias, devido a sua situação geográfica, ocorre uma concentração maciça de chuvas na borda da escarpa do planalto. A média de pluviosidade é de mais de 1700 mm anuais, sendo os meses mais chuvosos janeiro, agosto e setembro, e os menos chuvosos, abril, maio e julho (IBGE, 1986).