Inicialmente, esta dissertação abordaria apenas as seis esculturas acima analisadas. No entanto, durante as pesquisas na residência do ar- tista foram encontrados indícios de uma sétima obra pública: o Monu- mento à Iemanjá. As informações sobre este trabalho foram encontradas em uma pasta classificada Obras não realizadas, que reúne projetos, or- çamentos e desenhos de trabalhos não executados. A priori, não nos deti- vemos neste material, mas ao pesquisar em jornais sobre o Monumento à Mulher – Bárbara de Alencar se descobriu que ambos os trabalhos faziam parte do projeto Nova Fortaleza Monumental. Em algumas cartas enviadas ao jornalista Cláudio Pereira, Zenon mencionava a obra em ho- menagem à Rainha do Mar. Diante dessas novas evidências, este trabalho passou a ser também objeto de pesquisa desta dissertação.
A ideia de se construir um monumento à Rainha do Mar partiu do então prefeito de Fortaleza Evandro Ayres de Moura (1975-1978), que em seu último ano de mandato encomendou um projeto a Zenon. A inicia- tiva foi bem recebida pela imprensa local que destacou o pioneirismo da empreitada: “Não existe monumento a Iemanjá nem em Salvador, maior cidade umbandista do Brasil.”121 Contudo, a euforia era acompanhada
pelo receio da não execução da obra:
120 PAULA, Janaína de. Arcos do Passado. Jornal o Povo, Fortaleza, 11 jan. 1999. Caderno Vida & Arte, p. 01.
121 BRASILEIRO, Lúcio. Iemanjá: vem ou não vem? Jornal o Povo, Fortaleza, p. 06, 08 abr.1978.
Apesar de ter data marcada para a sua inauguração, 13 de maio, o monumento ainda não foi iniciado. A não edificação do monumento prometido deixará desapontados não apenas os milhares de umban- distas existentes em Fortaleza, mas a própria cidade que esperou, com justificável expectativa, a edificação do monumento.
Não se sabe o motivo da não realização do projeto nessa época, pois os demais documentos encontrados datam da década de 1990, quando o projeto é retomado.
No dia 15 de agosto comemora-se o dia de Nossa Senhora da As- sunção, padroeira da cidade de Fortaleza. Todos os anos, os católicos prestam homenagens à santa através de missas e procissões. Neste mesmo dia, os umbandistas festejam o Dia de Iemanjá, que, assim como a santa católica, é considerada a mãe de todos os santos. Nesta data, a Praia do Futuro (zona leste de Fortaleza) transforma-se em um grande terreiro e recebe grupos de umbanda de vários pontos do estado que vêm até a capi- tal cearense entregar oferendas à Rainha do Mar. No dia 15 de agosto de 1992, além das oferendas tradicionais (perfumes, flores e espelhos) que são jogadas ao mar, Iemanjá receberia um presente de caráter permanen- te na terra: um monumento em sua homenagem, na Praça 31 de Março, principal ponto de referência da Praia do Futuro.
No entanto, não foi possível conhecer o monumento, uma vez que o mesmo não se encontrava mais na referida praça e o seu paradeiro é desconhecido. Todas as informações que atestam a existência da obra são oriundas dos jornais da época, que informavam que “o monumento foi construído sobre um pilar de dois metros de altura, de forma retangular, com 80 por 60 centímetros. Juntos, imagem e pedestal, a obra mede mais de quatro metros, toda erguida com estrutura de ferro, coberta de tela e recoberta de concreto.”122 Dos quatro jornais existentes, três (O Povo,
Diário do Nordeste e O Estado) tanto noticiaram o fato no dia da inau- guração quanto divulgaram a cobertura no dia seguinte. O que chama a atenção na cobertura dos jornais é que nenhum dos três publicou uma
122 Descrição extraída dos jornais Diário do Nordeste e O Estado, na edição de 16 de agosto de 1992. A julgar pelo texto idêntico em ambos os jornais, conclui-se que os repórteres fize- ram uso do release (texto informativo) fornecido pela assessoria de imprensa da prefeitura sobre a inauguração do monumento.
imagem do monumento. A pesquisa nos periódicos contemplou também o dia 15 de agosto de edições posteriores com o objetivo de encontrar alguma referência ao monumento, fosse ilustrando a matéria fosse co- mentando sobre a obra, porém, nada foi encontrado.
A falta de um registro iconográfico do monumento resultou em contatos com algumas pessoas envolvidas na construção da obra. O jor- nalista Cláudio Pereira, que na época estava à frente do órgão municipal que encomendou a obra, não soube precisar se o monumento foi pro- duzido. A Funcet, órgão municipal da cultura, e a Secretaria Executiva Regional II, responsável pela manutenção e conservação de obras pú- blicas de Fortaleza, informaram desconhecer qualquer obra de arte em homenagem a Iemanjá. Além dos órgãos oficiais, foram ouvidos artistas e profissionais do meio artístico. O arquiteto José Capelo Filho, um dos mais importantes pesquisadores das obras públicas de Fortaleza, explicou que por ter morado fora do país no início da década de 1990 não sabia informar o paradeiro do monumento, mas não descartou a hipótese de sua existência. Não foi possível um contato com o pesquisador e artista plástico Estrigas, amigo de Zenon e profundo conhecedor do meio artís- tico local, devido ao estado delicado de sua saúde. Por último, entramos em contato com a União Espírita Cearense de Umbanda, que também afirmou desconhecer a suposta obra de Zenon.
Até o final desta pesquisa não foi possível descobrir o que aconte- ceu com a obra, se ela foi destruída pela falta de conservação ou vandalis- mo ou se foi transportada para outro lugar.