CAPÍTULO 1 .......... LEGITIMIDADE DO LEGISLATIVO – DEVIDO PROCESSO
3.3 A moralidade aplicada ao legislador
Apesar de não ser o escopo específico deste trabalho, não poderíamos deixar de tratar, dada a importância e do momento de crise de confiança274 que passamos na política nacional, da moralidade quando é aplicada ao legislador. O valor de ser analisado este ponto tangencia a necessária demonstração de que a moralidade é extremamente relevante em vários momentos do processo de elaboração das normas, começando com a escolha dos representantes, passando pela própria elaboração das normas – processo legislativo em si – e termina com o exame de constitucionalidade. Tudo com base no princípio da moralidade.
Em outras palavras, a moralidade é exigida em três situações subsequentes, sendo que nas duas primeiras acima antecipadas (escolha dos representantes e processo legislativo), inexiste dúvidas quanto à necessidade de aferição da moralidade. Tanto é assim que a própria Constituição exige a moralidade para o exercício de mandato eletivo (art. 14, §9º275). Aliás, isso também ocorre quando é necessária a presença de idoneidade moral para ser considerado brasileiro nato (art. 12, II, a276) e idoneidade moral para nomeação como ministro do TCU (art. 73, II277), ministro do TSE (art. 119, II278) e desembargador dos TREs (art. 120, §1º, III279).
274 Expusemos a crise de desconfiança que há atualmente, tendo sido, inclusive, citado trabalho que
analisou a desconfiança política. Relembre-se que o termo confiança, neste campo, “se refere às
expectativas que as pessoas alimentam a respeito do comportamento dos outros com quem convivem e interagem; e diz respeito à ação desses outros quanto aos seus interesses, aspirações ou preferências”.
MOISÉS, J. Á., & MENGUELLO, R. A Desconfiança Política e os seus Impactos na Qualidade da Democracia. São Paulo: Edusp, 2013. p. 13-14.
275 “Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:
(...)
§ 9º Lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato considerada vida pregressa do candidato, e a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta. (Redação dada pela Emenda Constitucional de Revisão nº 4, de 1994)” (BRASIL, Constituição
Federal, de 5 de outubro de 1988. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 04 de setembro de 2018).
276 “Art. 12. São brasileiros: (...)
Mais uma vez, a moralidade é um requisito essencial para que diversos cargos públicos sejam ocupados, tanto que o legislador derivado, incentivado veementemente pela pressão popular, editou a Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar nº 135/2010), sendo que merece ser citada excerto do voto do Ministro Carlos Ayres Britto no sentido de que a norma busca, em um dos seus pontos, “desestimular essa canhestra renúncia para o fim de bloqueio processual, que rompe o pacto de confiança firmado com o eleitor, o cargo e o partido”280.
A doutrina bem explica o que estamos afirmando agora, até porque “[é] preciso, portanto, reconstruir o conteúdo e a imagem dos partidos e do Congresso, assim como exaltar a dignidade da política”281. Isto porque há uma clara – e já falamos disto alhures – crise de confiança, mas sabemos e confiamos que “a vida civilizada e a ética procuram potencializar o bem e reprimir o mal”282, ainda que as pessoas tenham, dentro de si, o bem e o mal. Isto tudo só reforça o tanto quanto já argumentamos em relação ao que se espera do legislador, o qual “deve cuidar
II - naturalizados:
a) os que, na forma da lei, adquiram a nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral;” (Ibidem).
277 “Art. 73. O Tribunal de Contas da União, integrado por nove Ministros, tem sede no Distrito
Federal, quadro próprio de pessoal e jurisdição em todo o território nacional, exercendo, no que couber, as atribuições previstas no art. 96.
§ 1º Os Ministros do Tribunal de Contas da União serão nomeados dentre brasileiros que satisfaçam os seguintes requisitos:
(...)
II - idoneidade moral e reputação ilibada;” (Ibidem).
278 “Art. 119. O Tribunal Superior Eleitoral compor-se-á, no mínimo, de sete membros, escolhidos:
(...)
II - por nomeação do Presidente da República, dois juízes dentre seis advogados de notável saber jurídico e idoneidade moral, indicados pelo Supremo Tribunal Federal.” (Ibidem).
279 “Art. 120. Haverá um Tribunal Regional Eleitoral na Capital de cada Estado e no Distrito Federal.
§ 1º - Os Tribunais Regionais Eleitorais compor-se-ão: (...)
III - por nomeação, pelo Presidente da República, de dois juízes dentre seis advogados de notável saber jurídico e idoneidade moral, indicados pelo Tribunal de Justiça.” (Ibidem).
280 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário. RE 630.147. recorrente: Joaquim
Domingos Roriz e outros. Recorrido: Antônio Carlos de Andrade e outros. Relator: Carlos Britto. Redator para acórdão: Marco Aurélio. Brasília, 20, de setembro de 2010. p. 29. Disponível em: < http://www.stf.jus.br/portal/inteiroTeor/obterInteiroTeor.asp?id=629925>. Acesso em: 04 setembro 2018.
281 BARROSO, Luís Roberto. Reforma Política no Brasil: os Consensos Possíveis e o Caminho do
Meio. In: Sistema Político e Direito Eleitoral Brasileiros: Estudos em homenagem ao Ministro Dias
Toffoli. Coordenação João Otávio de Noronha e Richard Pae Kim. São Paulo: Atlas, 2016. p. 497.
principalmente de formar pessoas honestas, procurar saber por quais exercícios tornará honestos os cidadãos e sobretudo conhecer bem qual é o ponto capital da vida feliz”283.
Não temos mais o que falar sobre a necessária moralidade no exercício do mandato. Também não podemos mais aceitar – e, principalmente, a população não coaduna –, com ações tais como a do mensalão, que foi um, nas palavras do então Ministro Carlos Ayres Britto:
Golpe portanto, nesse conteúdo da democracia, talvez o conteúdo mais eminente da democracia que é a República. É o republicanismo que postula, nós sabemos todos, possibilidade de renovação dos quadros dirigentes do Estado e equiparação, na medida do possível, das armas com que se disputam a preferência do voto popular. Digo da correlação de forças na competição eleitoral e paridade de armas284.
Qualquer que seja o nome, idoneidade moral, ou reputação ilibada, ou simplesmente moralidade, fato é que estamos diante de um valor esperado, exigido, em diversos momentos no processo de escolha dos representantes e de controle dos atos. Por que não seria, agora, exigido, igualmente e com extrema veemência, na confecção da lei sob o aspecto do seu mérito normativo? Acreditamos que inexistem argumentos contrários, pois, por tudo quanto temos dito, a moralidade só se torna cada vez mais necessária e cogente de aplicação.
283 ARISTÓTELES. A Política. Trad. de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 1991. p. 55.
284 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Penal. AP 470. Autor: Ministério Público Federal. Réus:
José Dirceu de Oliveira e Silva e Outros. Relator: Ministro Joaquim Barbosa. Brasília, 13 de março de 2014. p. 5216. Disponível em: <ftp://ftp.stf.jus.br/ap470/InteiroTeor_AP470.pdf>. Acesso em: 04 setembro 2018.