CAPÍTULO 1 .......... LEGITIMIDADE DO LEGISLATIVO – DEVIDO PROCESSO
2.4 Moralidade em suas facetas
2.4.2 Moralidade pública
Conforme arguido no tópico antecedente, escolhemos um conceito de moralidade que leva à caracterização do ato como moral quando as razões forem as corretas, ainda que movida pela compaixão ou pela empatia. Agora, até que ponto isto se aplica à moralidade pública, aquela que se espera não apenas dos agentes públicos, mas de toda a sociedade em todos os seus campos de relação.
Sob a perspectiva constitucional da moralidade – e como interpretação – DWORKIN trata a leitura da Constituição Americana pela moralidade como algo que
permita, em suma e correndo o risco de limitar demais, garantir direitos individuais. É, de certa forma, uma leitura liberal e o próprio pensador não tenta disfarçar este ponto232.
É um bom começo para a nossa análise, até porque, como já verificamos, a liberdade é intrinsecamente ligada à própria ideia de democracia. Esta, por seu turno, liga-se à moralidade. É mais um ciclo virtuoso.
Agora, tratando especificamente da moralidade descrita no artigo 37 da Constituição – lembremos que este não é o único dispositivo que traz a ideia de moralidade no texto constitucional –, SILVA assevera que ali “não é a moralidade comum, mas moralidade jurídica”. Com isso, continua, mas citando Hauriou, significa que “a moralidade administrativa consiste no conjunto de ‘regras de conduta tiradas da disciplina interior da Administração’”233. Esta análise nos parece muito bem estruturada, pois traz para o princípio da moralidade um aspecto subjetivo não limitado à formalidade. Ou seja, e SILVA nos traz esse exemplo, quando se age dentro do que a lei, em sentido estrito, rege “com o intuito de prejudicar alguém deliberadamente, ou com o intuito de favorecer alguém, por certo que se está produzindo um ato formalmente legal, mas materialmente comprometido com a moralidade administrativa”234.
Essa consideração de SILVA vai ao encontro de tudo que falamos até agora, seja em relação ao princípio da moralidade como estado ideal quanto à sua forma, que busca a finalidade; seja em relação ao seu conteúdo, que é extremamente
fundamentais e a construção do novo modelo. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 456.
232 “This book does indeed offer a liberal view of the American Constitution. It provides argumentos of
liberal principle and claims that these provide the best interpretations opf the constitutional tradition we have inherited ando whose trustes we now are. I believe, and try to show, that liberal opinion best fits our constitucional structure, which was, after all, first constructed in the bright morning of liberal thought. My arguments can certainly be resisted. But I hope they will be resisted in the right way: by pointing out ther fallacies or by deploying different principles – mora conservative or more radical ones – and showing why these different principles are better because they are grounded in a superior morality, or are more praticable, or are in some other way wiser or fairer”.
DOWRKIN, Ronald. Freedom 's Law: The Moral Reading of the American Constitution. Harvard
University Press. Massachusetts, 1996. p. 37-38.
233 SILVA, José Afonso. Curso de Direito Constitucional Positivo. 37ª ed. São Paulo: Malheiros
cogente e completo na unicidade da Constituição; seja em relação ao conceito de moralidade, que deve levar em consideração os motivos determinantes (trataremos disso mais adiante).
E a moralidade pública é diferente da privada, e mais complicada e densa na aplicação, justamente pela grande complexidade que há na sua própria definição e averiguação. Ocorre que, tal como acontece com o próprio princípio da moralidade, o fato de a aplicação ser mais difícil traz, a bem da verdade, uma maior importância para a própria análise da moralidade pública. Em outras palavras, justamente por ser de difícil emprego que se mostra importante.
Na já citada ADC 12, no qual o Supremo reputou inconstitucional a prática de nepotismo, o Ministro Celso de Mello explicitou que “os postulados da impessoalidade e da moralidade que representam valores essenciais na conformação das atividades do poder”235 e, continua, chegando a afirmar que “rege a atuação do Poder Público, confere substância e dá expressão a uma pauta de valores éticos, nos quais se funda a própria ordem positiva do Estado”236.
Essa leitura da moralidade é interessantíssima, pois traz a necessária diferenciação que deve existir sempre que estivemos lidando com o público. Com aquilo que é de todos ou que afete a todos. Não por outro motivo que o Ministro Celso de Mello indica:
Tenho para mim, analisada a questão sob essa perspectiva, que se impõe fazer essencial distinção entre o espaço público, de um lado, e o espaço privado, de outro, em ordem a obstar que os indivíduos, mediante ilegítima apropriação, culminem
234 Ibidem, p. 678.
235 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direita de Constitucionalidade. ADC 12. Autor:
Associação Dos Magistrados Brasileiros - AMB. Interessado: Conselho Nacional de Justiça. Relator:
Carlos Britto. Brasília, 20, de agosto de 2008. p. 28. Disponível em: <
http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=606840>. Acesso em: 04
por incorporar, ao âmbito de seus interesses particulares, a esfera de domínio institucional do Estado, marginalizando, como consequência desse gesto de indevida patrimonialização, o concurso dos demais cidadãos na edificação da "res publica". Daí a reflexão doutrinária, impregnada de acentuado componente filosófico, que examina o pensamento democrático à luz das grandes dicotomias, como, por exemplo, aquela pertinente à dualidade público/privado, subjacente à idéia mesma de que o respeito, pelos indivíduos, aos limites que definem o domínio público de atuação do Estado, separando-o, de modo nítido, do espaço meramente privado, qualifica-se como pressuposto necessário ao exercício da cidadania e do pluralismo político, que representam, enquanto categorias essenciais que são (pois dão ênfase à prática da igualdade, do diálogo, da tolerância e da liberdade), alguns dos fundamentos em que se estrutura, em nosso sistema institucional, o Estado republicano e democrático (CF, art. lº, incisos II e V)237.
Inexiste dúvida, portanto, que a moralidade pública não deve estar adstrita ao que um indivíduo entende como moral. A análise, na verdade, deve permear sempre uma verificação que leve em consideração todo o aspecto coletivo, buscando sim garantir direitos individuais, mas sem que isso acarrete em prejuízo de outras pessoas, sempre pelos motivos corretos. Podemos dizer, assim, que a moralidade pública é a moralidade privada qualificada pela liberdade.
236 Ibidem, p. 29.